A idade do gelo bancária

(Sandro Mendonça, in Expresso Diário, 23/03/2017)

BANCA

A era da austeridade chegou à banca. O caso dos cortes de pessoal e balcões na CGD mostra isso mesmo. Fará isso sentido do ponto de vista da própria instituição? E do ponto de vista do seu perfil específico?

Vamos por partes. A banca vai mal mas a finança vai bem, muito obrigado. Sim, tanto a alta-finança e como a baixa-finança vão bem. Como alta-finança entenda-se a banca de investimento: esta é a realidade muito dinâmica da Goldman Sachs e da disputa pelos restos da City de Londres, corrida em que Frankfurt vai à frente. Como baixa-finança entendam-se aquelas entidades especializadas de crédito ao consumo à distância: que em Portugal anunciam na televisão como se fossem bancos normais e que fazem parcerias com instituições que antes se davam ao respeito mas que entraram na gincana creditícia.

O cenário perante a Caixa é um downsizing (perdão, permita-me o estimado leitor este anglicismo: é que soa mais sério, sabe? Se disséssemos “desmantelamento organizacional”, “despedimento colectivo” ou “demolição de balcões” isso parecia muito menos limpinho ou profissional … é que o pessoal da economia gosta de palavras em tons de azul metalizado, nada de coisas em tons de vermelho pois isso lembra que a economia também é corpo, é nervos, é gente, é produção, é trabalho).

Na CGD um corte de 180 balcões é, de acordo com os dados comparáveis consolidados disponíveis, nada menos que uma redução de 24,7%. Sim, nada menos que um quarto da visibilidade real e presença efectiva no terreno do banco é para extinguir.

Vamos comentar isto? Sim, vamos lá.

Ponto 1. Portugal tem mais balcões de bancos por km2, isso é verdade, mas como é óbvio nem todos os países podem estar na média em tudo. E como Portugal tem um nível de analfabetismo ainda maior que a média Europeia esta solução tem sido eficiente, sobretudo nas zonas rurais.

Ponto 2. Mais, se o maior operador dá um tiro para o ar a dizer que vai fazer isto então isto é o sinal que os outros bancos precisam para acelerarem estas medidas de cortes cegos em tarefas intensivas em trabalho sem terem medo de perderem quota de mercado.

Ponto 3. Portanto, a qualidade do serviço bancário em Portugal está em queda livre! Não só os clientes com menos literacia ficam descalços, são também aqueles com maior literacia (e cujos rendimentos justificariam gestores de conta pessoais mas que agora não têm emprego). Tudo está a ser empurrado para soluções electrónicas, com menos custos para os operadores e com mais esforço para cima dos próprios clientes (pois essa é a lógica do auto-serviço).

Ponto 4. No caso da CGD não consta que tenham sido os balcões e os funcionários a causa das contas desequilibradas. Ao fechar balcões e diminuir pessoal a CGD perde a oportunidade de se diferenciar, já que toda a banca comercial está a ir por aí. E como a nova Administração quer incrementar as comissões, o que dá a ideia é que se quer mesmo afugentar a clientela (o que é excelente para os outros bancos, privados).

Ponto 5. Ainda por cima a CGD não pode dizer que é um banco com os outros, com a única excepção sendo a sua possa pública. Quem por esse país fora já foi à CGD nos dias em que cai o dinheiro das pensões sabe que não é assim. Muitas pessoas, incluindo a massa dos funcionários públicos, sempre tiveram este como o banco de base. E muitas outras sempre receberam as reformas por este banco, que sempre foi de confiança. É por isso que a Caixa é “Geral”. Portanto, hoje esta instituição tem um papel muito grande junto de camadas extremamente sensíveis da população.

Ponto 6. Quando o presidente do Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas dá uma entrevista ao Jornal de Negócios dizendo que “A Caixa é um banco público. Não é um banco de serviço público” então estamos mesmo mal. São sindicalistas destes, que por dentro falharam também na monitorização dos bancos, que chegámos aqui (obviamente o mau sindicalismo é uma das causas das broncas bancárias que temos visto). Saber dizer este tipo de coisas é a prova de que quem devia saber fazer as distinções relevantes perdeu essa capacidade. A mercadorização da actividade económica é muitas vezes a maneira mais fácil para perder dinheiro. Foi precisamente por se querer gerir como banquinho muito moderno e igual aos outros que as contas desta instituição ímpar (e com mais responsabilidades que as outras) ficaram no vermelho.

Ponto 7. É preciso ver que a CGD é mais que um banco: é uma infraestrutura e um instrumento de política económico-financeira em Portugal. É por gerar externalidades significativas e por ter um papel social e territorial substantivo que a transição da CGD para um modelo sustentável deve ser re-calibrado.

Ponto 8. Se for assim como vem sendo anunciada então esta estratégia é mesmo a melhor …. para a concorrência (sobretudo a Espanhola, claro) e para a substituição deste segmento financeiro por outro ainda menos transparente (o da banca sombra electrónica de crédito a martelo).

Preços da gasolina: expliquem-nos como se fôssemos muito burros

Pedro Santos Guerreiro, in Expresso Diário, 26/08/2015

Pedro Santos Guerreiro

              Pedro Santos Guerreiro

A cotação do petróleo cai 50% num ano. O preço das gasolinas cai 4%. Como? A resposta mais ou menos mal disposta das gasolineiras é de que nós não percebemos porque somos muitos burros. Eu acho que percebo que há quem seja muito esperto.

Não tem a ver com populismo, tem a ver com contas. Os preços de venda ao público das gasolinas não variam diretamente em função da cotação do brent, o índice internacional mais importante do petróleo. Variam sim em função da evolução dos produtos refinados (e já agora, dos impostos), que por sua vez são vendidos pelas refinarias em função das cotações internacionais da gasolina e do gasóleo. Depois, já sabemos, há custos logísticos (armazenagem e transporte do combustível) e de comercialização (custos nos postos de venda). OK, está certo, compreendemos. Mesmo assim, continuamos a fazer contas.

E sim, OK, há dois factores muito relevantes no preço das gasolinas que atenuam muito a comparação possível entre preço da matéria prima e preço do produto final: os impostos cavalares e a evolução do câmbio dólar/euro.

Começando pelo câmbio. O petróleo é transacionado em dólares, as gasolinas em Portugal são vendidas em euros. Ora, nos últimos 12 meses, o euro valorizou-se mais de 13% face ao dólar. E isto significa que, se o barril de petróleo se desvalorizou 50% em dólares, só desvalorizou 42% em euros. Pronto, a queda da matéria prima não foi afinal assim tão grande para uma empresa portuguesa.

Mesmo que todos os impostos fossem valores fixos (o que não se aplica ao IVA), isso significa que, descontados os efeitos cambial e tributário, o gasóleo deveria ter caído 20% e o das gasolinas 17%. Caíram, em média, 4%.

Agora os impostos. Suportamos uma das cargas fiscais sobre os combustíveis mais elevadas da União Europeia. Como se viu na execução orçamental que ainda esta terça feira foi apresentada, a ganância estatal dá frutos. E como parte dos impostos que recaem sobre os combustíveis é fixa, a desvalorização do petróleo nada afeta essa parcela. Ora, no preço de um litro de gasóleo, 53% do preço são impostos; e no de gasolina, o peso fiscal sobe para 60%. Mesmo que todos os impostos fossem valores fixos (o que não se aplica ao IVA), isso significa que, descontados os efeitos cambial e tributário, o gasóleo deveria ter caído 20% e desceu 11%; e o das gasolinas deveria ter caído 17% mas desceu 4%.

A diferença entre estas proporções, que é maior na gasolina que no gasóleo, terá com certeza excelentes razões, incluindo os custos de armazenagem, transporte e comercialização – e ainda uma contribuição obrigatória para os biocombustíveis. Mas custa a crer que uma dessas razões não seja o aumento das margens com que os combustíveis estão a ser vendidos. O preço é livre, cada um vende ao preço que quer, a concorrência existe para resolver o jogo entre oferta e procura. E como a Autoridade da Concorrência está tranquila, é porque concorrência não falta. Falta talvez pelo menos explicar por que é que os preços do gasóleo e da gasolina não descem quando o petróleo embaratece à velocidade com que sobem quando o petróleo encarece. O aumento de margens é perfeitamente lícito, mas deve ser pelo menos revelado, para que não tomem por parvos aqueles que, no princípio e no fim, passam por burros.