A TSU e a (des)concertação

(Manuel Carvalho da Silva, in Jornal de Notícias, 22/01/2017)

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Ainda não consegui descortinar razões profundas que tenham justificado o imbróglio criado por Governo, confederações patronais e UGT, ao assumirem a descida da TSU como “moeda de troca” para a atualização do salário mínimo nacional (SMN) no valor que o Governo já havia determinado, no pleno exercício das suas responsabilidades e no cumprimento de compromissos estabelecidos com a base parlamentar que o apoia.

O Governo sabe que: i) essa redução tem implicações diretas no Orçamento da Segurança Social; ii) choca, no plano concetual e simbólico, com fundamentos do nosso sistema de Segurança Social; iii) é indutora de práticas patronais que favorecem políticas de baixos salários. Talvez por tais razões essa medida não constava no programa do Governo.

Da parte das confederações patronais, a aposta nesta opção é muito questionável. Para a esmagadora maioria das empresas portuguesas, que são pequenas e médias, há muitas outras matérias de maior impacto que deviam e devem ser consideradas, nomeadamente as taxas e as formas de execução do IVA, o pagamento especial por conta, a agilização de “custos de contexto” específicos e a possibilidade de mais fácil recurso a créditos.

Um acordo sobre o SMN é importante e há pressões sobre o Governo vindas da UE, do FMI e da OCDE. Contudo, essa cedência tem dois graves problemas: significa, em primeiro lugar, subjugação a poderes externos que teimam em atacar o primado da Constituição da República e o exercício pleno do poder por parte dos órgãos de soberania; em segundo, é uma opção contra um modelo de desenvolvimento que não se sustente em baixos salários, que dê combate às desigualdades e não acentue pressões negativas sobre a Segurança Social.

Ao constatar-se que a descida da TSU será recusada por maioria parlamentar, levantou-se um coro de “analistas políticos” a clamar contra a Assembleia da República por estar “a pôr em causa um importante compromisso da Concertação Social”. António Vitorino, advogado e conhecido “fazedor” de leis, homem com grande experiência política, teve o desplante de interrogar: “Que confiança podem ter os parceiros sociais, se constatam que o Parlamento os pode desautorizar pela formação de uma maioria contrária?”. Então, o que é a Concertação Social? E o Parlamento é ou não o órgão de soberania cujos membros são eleitos pelo povo e a quem está atribuída, até à última instância, a função legislativa?

Muitos destes fazedores de opinião sabem bem (outros não), quer do ponto de vista político-jurídico, quer das práticas, o que é o corporativismo e o neocorporativismo, as suas virtudes e defeitos no quadro das democracias liberais em que vivemos. Conhecem os processos, por vezes questionáveis, de legitimação dos parceiros sociais, bem como a difícil separação entre concertação económica e concertação social e, ainda, os efetivos riscos de conflito entre o neocorporativismo e os princípios do Estado democrático que no caso português são agravados, como o provam múltiplos autores de várias e áreas do conhecimento (1).

Já em 1998 (2), Vital Moreira identificava várias entorses a gerar conflito, designadamente a não aferição de representatividades efetivas, o facto de um “acordo de concertação social, mesmo que sem consenso de todas as partes, poder impor-se a todas” e a entrada de “programas de ação legislativa, mesmo em áreas de reserva de competência legislativa parlamentar”. Além disso, a Concertação Social está estruturada e funciona na lógica do velho “arco da governação” e os governos, atualmente, fazem muitas vezes transposição quase direta das propostas de políticas neoliberais europeias para dentro da CPCS.

Entretanto, o mais desconcertante nesta polémica sobre a Concertação Social é o surgimento em cena, não só de abutres da Direita, mas também de passarocos de mau agoiro como Francisco Assis, que esconjuram caminhos alternativos e veem em pequenas feridas a morte dos compromissos que suportam um Governo e uma maioria parlamentar portadores de oxigénio e esperança para a vida dos portugueses. Não se precipitem!


* INVESTIGADOR E PROFESSOR UNIVERSITÁRIO

Passos Coelho endoiodou e boicota a concertação social

(In Blog O Jumento, 14/01/2017)

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Nota Prévia. Não acho que a Concertação Social tenha qualquer importância em Portugal nem que o Governo tenha necessidade de obter um consenso qualquer para subir o salário mínimo. E também não concordo com o facto de tal aumento ser patrocinado pelos cofres públicos. Para haver concertação a sério teríamos que ter patrões que soubessem fazer contas e infelizmente, os que temos, na maioria dos casos, ainda são do tempo do lápis atrás da orelha como os merceeiros do antigamente, sendo menos qualificados que muitos dos trabalhadores que empregam. A concertação, uma ideia da direita para travar as reivindicações dos trabalhadores é assim liquidada pela própria direita. Outros valores mais altos se levantam. O objetivo é claro: pretende-se liquidar a Geringonça, criando atritos e dificuldades ao Governo. Depois logo se vê. Se Passos fosse primeiro-ministro não era preciso concertação social para nada a não ser para “assinar de cruz” todas as suas tropelias contra os trabalhadores. (Estátua de Sal, 14/01/2017)


Sempre que Cavaco e Passos sentiam necessidade de pressionar os partidos da oposição utilizaram a concertação social e os parceiros sociais, uma forma simpática de designar patrões, que foram usados como tropa de choque contra o PS. Na hora de designar António Costa para primeiro-ministro um Cavaco Silva em desespero jogou a sua última cartada das seis condições, uma delas era a de que o governo respeitaria o “papel do Conselho Permanente de Concertação Social, dada a relevância do seu contributo para a coesão social e o desenvolvimento do país”.

Quando o PS apresentou o OE para 2017 Passos Coelho começou por dizer que o ia ignorar, como tinha feito em relação ao OE de 2016, mas acabou por mudar de posição, tirando uma carta da manga, ia ouvir os parceiros sociais e apresentaria as suas propostas como propostas orçamentais do PSD. Acabou por reunir as cortes em Albergaria-a-Velha, onde apresentou uma espécie de OE do seu governo no exílio.

Passos afirmava-se como o paladino dos parceiros sociais e da concertação social, opondo a legitimação daqueles à da maioria dos deputados.Para os teóricos da direita a concertação social é a alternativa e negação da luta de classes, daí que para personalidades da direita como Cavaco o respeito pela concertação social, colocando-a cima do parlamento é um alicerce ideológico.

Todas as organizações que assinaram o acordo de concertação têm o envolvimento político-partidário do PSD, os sindicatos são os da UGT e quanto às associações patronais todos sabemos o que a casa gasta. A concertação é a trave mestra do PSD e Passos Coelho decidiu derrubá-la.

O PSD parece ter muitas saudades de umas boas greves, os mais altos dirigentes do PSD não escondem essa sua perversão ideológica e não se cansam de desafiar a CGTP e o Mário Nogueira para uma lutazinha das antigas.

Passos Coelho é um político imaturo que nunca deixou de o ser e que nunca conseguiu ver a diferença entre uma associação de estudantes do preparatório e um país, daí a sua decisão de boicotar o país, não hesitando para isso em destruir a concertação social.

Passos perdeu a lucidez política, conselheiros como o Relvas parece terem-no abandonado, está cada vez mais dependente intelectualmente de um grupo de extremistas que o têm acompanhado. Mas desta vez pode ter ido longe demais na sua imaturidade e arrisca-se a pagar bem cara uma asneira que o vai conduzir ao fim político. Passos acabou de perder toda e qualquer credibilidade política.


Fonte: O JUMENTO: Passos Coelho endoiodou e boicota a concertação social

PATRÕES COMEÇAM ANO COM NOVO SUBSÍDIO

(Por Soares Novais, in Blog A Viagem dos Argonautas)

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A partir de hoje um milhão de portugueses passa a auferir 557 euros a cada 30 dias de trabalho. Uma fortuna, já se vê, que o presidente dos afectos, beijinhos e selfies, promulgou e o ministro Vieira da Silva “negociou” na Concertação Social. Trata-se de um salário rasca. Tão rasca como a frase do seu colega Augusto.

É preciso não esquecer que os trabalhadores pagam imposto sobre tão grande Salário Mínimo e que água, luz, telefone e  transportes vão ter aumentos significativos. Mais uma vez quem ficou a ganhar foram os patrões. O Governo deu-lhes uma soberba prenda natalícia: a baixa da Taxa Social Única (TSU).

O patronato pressionou e o Governo cedeu em toda a linha. Baixou a TSU e vai revêr as leis de financiamento das empresas que recorrem ao trabalho parcial e à precaridade.

Acresce: o número de trabalhadores pagos com o Salário Mínimo Nacional (SMN) não pára de aumentar, pois não contempla apenas os trabalhadores indiferenciados e de baixo indíce escolar.

Há licenciados pagos com o SMN. Como os jovens arquitectos, por exemplo.  Ou aqueles que, indepentemente da sua licenciatura, se sujeitam a trabalhar em “call-centers” – as novas “fábricas” que impõem regras muito próximas daquelas que vigoravam no início do século XX.

A redução de 1.25.pp da TSU para as empresas com trabalhadores com o SMN foi uma forma do Governo corresponder à totalidade das reclamações das confederações patronais.

E deu força para que o senhor Saraiva, da CIP, e todos os outros “patrões dos patrões”, logrem aquilo que desejam: que a medida  deixe de ser provisória e passe a ser definitiva.

Isto é: o aumento do SMN implica, na prática, que sejamos todos nós, trabalhadores no activo e reformados, a pagar o aumento do SMN. Fazemo-lo através do desvio dos nossos impostos  para financiar os encargos que deveriam ser assumidos na totalidade pelas empresas para actualizar o SMN.

Mas as cedências governamentais não se ficam por aqui. As empresas que pagam o SMN e cujos trabalhadores no conjunto da remuneração base, valor do trabalho extraordinário e do subsídio nocturno não excedam os 700€ mensais, passam a ter acesso à redução da TSU. Também as empresas com trabalhadores a tempo parcial, passam a ser contempladas, proporcionalmente.

Um verdadeiro “cabaz natalício” para os patrões, pois. Sobretudo para os grandes patrões. Como o engº Belmiro ou o sr. Santos do “Pingo Doce”. Eles, sim, uns verdadeiros subsídio-dependentes.


Fonte: SINAIS DE FOGO – PATRÕES COMEÇAM ANO COM NOVO SUBSÍDIO – por Soares Novais | A Viagem dos Argonautas