Chalupas, ignorantes ou cegos ideológicos

(Ana Kandsmar in Facebook, 08/01/2026)


E, entretanto, aqueles que andam a comparar a Ucrânia com a Venezuela, acham que eu tenho distúrbios mentais por me recusar a fazer o mesmo. Ora, eu não tenho distúrbios rigorosamente nenhuns, exceto aqueles que me provocam os vossos comentários.

Bem sei que a Mãe Natureza não foi favorável a todos e se a uns deu neurónios funcionais, a outros entregou ervilhas completamente inúteis. Para o comprovar vamos aos factos que mandam às malvas as vossas ridículas comparações.

1 – A Venezuela está a mais de 4 mil km dos EUA, a Ucrânia faz fronteira com a Rússia.

2 – A Ucrânia tem uma longa história de parte integrante da Rússia, a Venezuela nunca foi parte dos EUA.

3 – A Ucrânia e a Rússia partilham a história, língua, religião e um povo que é, efetivamente irmão, a Venezuela não tem nada que a ligue aos EUA a não ser o chão no mesmo continente.

4 – A Ucrânia tornou-se, efetivamente, uma ameaça para a integridade territorial da Rússia, a Venezuela nunca foi ameaça para os EUA.

5 – A NATO procurou implementar-se na Ucrânia para atacar a Rússia, nenhuma força militar inimiga dos EUA pretendeu alguma vez implementar-se na Venezuela para atacar os EUA.

6 – A Ucrânia perseguiu, durante décadas, a população pró russa residente em território ucraniano, a Venezuela não tem sequer uma população pró americana e ainda que a tivesse, não consta que a tivesse perseguido.

7 – A Venezuela é, de facto, uma ditadura, mas a Ucrânia anda muito longe de ser um país democrático e, aliás, tendo em conta todas as medidas de Zelensky para se manter no poder, se há um pingo de democracia na Ucrânia, então, também há na Coreia do Norte.

8 – Por último, mas não menos importante,ontem mesmo caiu por terra a principal acusação de Trump a Maduro sobre este ser líder de um cartel que, na realidade, nem sequer existe. Aliás, todas as acusações de Trump para legitimar o rapto e detenção de Maduro em solo americano, não têm qualquer fundamento à luz do Direito Internacional, já a ação de Putin contra a Ucrânia tem, observado o direito à defesa do território russo.

Em suma, comparar a Ucrânia com a Venezuela só é possível para 3 tipos de pessoas:

1 – Chalupas.

2 – Ignorantes, que não têm a mínima ideia do quão ignorantes são.

3 – Cegos ideológicos e/ou intelectualmente desonestos.

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Os Idiotas úteis de estúdio e a subserviência em prime time

(Luis Rocha, in Facebook, 08/01/2026)


Se há coisa verdadeiramente notável neste episódio do rapto de Maduro não é a ilegalidade da operação norte-americana, essa é evidente para qualquer pessoa, mesmo que não tenha passado os olhos por um manual básico de direito internacional, mas sim o espectáculo deprimente protagonizado pelos comentadores portugueses do costume, essa fauna residente de estúdio que surge sempre que Washington estala os dedos.

São os mesmos de sempre. As mesmas caras. As mesmas opiniões. Mudam os cenários, trocam os grafismos, mas o discurso é rigorosamente idêntico ao do século passado, com o mesmo brilho servil no olhar. Quando os Estados Unidos invadem, raptam ou bombardeiam, não é agressão, é “liderança”. Não é ilegalidade, é “determinação”. Não é crime, é “ordem internacional baseada em regras”, desde que as regras sejam escritas em inglês e aplicadas selectivamente.

Enquanto o Departamento de Justiça dos EUA recua discretamente na acusação de que Maduro liderava um cartel de droga estruturado, desmontando o pretexto central da operação, cá por casa os comentadores continuam firmes, como se nada tivesse acontecido. Ignoram o detalhe inconveniente. Passam por cima como quem pisa um tapete. Para eles, a realidade não corrige a narrativa, a narrativa corrige a realidade.

É quase enternecedor vê-los explicar, com ar professoral, que isto é “inevitável”, “necessário” ou “infelizmente indispensável”. Infelizmente para quem? Para o direito internacional, certamente. Para a soberania dos Estados, sem dúvida. Mas não para estes especialistas do saloismo ideológico, cuja função principal é normalizar o inaceitável e embrulhar a brutalidade em linguagem tecnocrática.

E depois temos ainda o tom moralista. Esse nunca falha. De repente, figuras que nunca se indignaram com Guantánamo, Abu Ghraib ou as dezenas de invasões baseadas em mentiras descobrem uma súbita paixão pelos “direitos humanos”. Claro que não explicam como é que esses direitos são promovidos através de raptos, prisões arbitrárias e violações flagrantes da Carta das Nações Unidas. Detalhes. Pormenores. Coisas menores que atrapalham a opinião formatada.

O mais patético é que muitos destes comentadores se apresentam como “realistas”. Realistas de microfone aberto, claro. Porque o verdadeiro realismo dir-lhes-ia que este filme já foi visto demasiadas vezes. Noriega, Saddam, Kadafi, sempre o mesmo guião, sempre a mesma propaganda, sempre os mesmos aplausos. E sempre, invariavelmente, o mesmo desfecho caótico que depois fingem não ter apoiado.

Mas o idiota útil português tem uma particularidade no seu ADN. A subserviência com pedigree histórico. Há ali qualquer coisa de herança mental do Estado Novo, aquela ideia entranhada de que Portugal é pequeno demais para pensar por si próprio e que o melhor é alinhar, obedecer e agradecer. Ontem era Londres, hoje é Washington. Muda o dono, mantém-se a trela.

Quando Trump manda, eles acenam. Quando os EUA recuam na acusação, fingem que não ouviram. Quando o direito internacional é atropelado, fazem de conta que é um passeio pela natureza. Tudo para não desafinar do coro atlântico, tudo para não perder o convite para o próximo painel televisivo.

E assim se constrói o consenso artificial. Não com debate sério, mas com repetição exaustiva. Não com pensamento crítico, mas com frases feitas. Não com jornalismo, mas com catequese geopolítica.

No fim, estes comentadores não informam, domesticam. Não analisam, legitimam. Não esclarecem, adestram a audiência para aceitar que há países soberanos e há territórios disponíveis, há líderes julgáveis e há líderes intocáveis, há crimes condenáveis e há crimes estratégicos.

O rapto de Maduro não é apenas um atentado ao direito internacional. É também um reflexo desconfortável da mediocridade intelectual instalada em grande parte do comentário político português. Um comentário que não questiona o poder, mas que o serve. Que não incomoda, mas tranquiliza. Que não pensa, mas repete.

E enquanto os idiotas úteis de estúdio aplaudem mais um acto de força como se fosse virtude, o mundo desliza, passo a passo, para um estado em que a lei é opcional e a soberania é negociável. Depois, quando a barbárie bater à porta errada, perguntarão, com ar genuinamente espantado, como foi possível chegar aqui.

A resposta, claro, estava todos os dias na televisão.

Beijinhos e até à próxima…

Referências consultadas:

https://www.reuters.com/world/americas

https://www.bbc.com/news/world

https://www.icrc.org/…/what-international-humanitarian-law

https://www.un.org/en/about-us/un-charter

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Quase tanta lata como imóveis

(Tiago Franco, in Facebook, 26/12/2025, Revisão da Estátua)


O discurso de Natal do primeiro-ministro é, por norma, um daqueles momentos em que baixamos o som da televisão e continuamos as conversas em família. É suposto ser uma conversa rápida, cheia de generalidades por parte de quem não passa pelas privações da maioria, floreada com umas palavras de incentivo e finalizada com desejos de boas festas. Ou seja, algo que se esqueça cinco minutos depois e não aborreça vivalma. Lembram-se daquele famoso discurso de natal do Soares em 84? Ou do outro do Cavaco em 90? Então e aquele do Sócrates em 2009? Não se lembram, certo? Pois, é isso mesmo. Cumpriram todos eles o efeito de nota de rodapé entre uma azevia e um prato de arroz doce.

Mas não o do Luís. Não senhor. O nosso Montenegro quis aproveitar aqueles seis minutos para sair um bocado da bolha, encher-se de ar puro, dar algum alento e motivação à plebe, antes de voltar para o prédio de seis andares que deu entrada na câmara de Espinho como remodelação de uma casa rasteira. Disse-nos que vivemos uma altura histórica para dar o salto desejado e manter este crescimento económico pujante. Mas para isso é preciso trabalhar mais, exigir de cada um nós a excelência e a mentalidade de um Ronaldo, que tanto eleva o nome de Portugal.

Nesta parte meti aquilo em pausa e refleti. A que parte da excelência do Ronaldo se estaria ele a referir? Ao atleta de elite, com um profissionalismo nunca antes visto, que tornou Portugal relevante no mundo da bola? Ou ao pai que manda vir filhos pela Amazon, ao milionário que paga para que se arquivem acusações de violação e ao influencer que aceita ser boneco de uma ditadura a troco de uma fortuna incalculável? Tens que escolher, Luís. Visão seletiva só se aplica ao Ministério Público quando investiga a Spinumviva e não funciona para o público em geral, aquela malta que fica de pé no espetáculo.

A meio da conversa sobre crescimento económico ainda dei por mim a pensar que só faltava ele falar na Economist. E não é que, aquele saloio, foi lá mesmo? Um ranking feito com indicadores que só interessam a quem já tem dinheiro e procura um país barato para viver é, de repente, transformado num caso de sucesso para uma população que está cada vez mais pobre, mesmo trabalhando. A nossa classe média é aquilo a que a Europa civilizada chama de pobres.

Ainda assim, como tínhamos que levar com aquela merda (de texto) na noite de Natal, o gajo que o escreveu ainda pensou que não tinha encaixado propaganda suficiente e lá deixou escorregar o “nada cai do céu“.

Depois entrou no elevador da casa do Luís, foi lá ao sexto andar e, enquanto o Luís bebericava uma reserva junto à lareira, leu a obra a plenos pulmões. No fim, já com a voz embargada e a bandeira no cenário da epopeia, fechou o papel e acolheu as palmas de Montenegro, que correu a ensaiar a cara de Estado para o discurso.

E dessa maneira, um senhor que recebia avenças numa empresa familiar a troco dos seus contactos, que é dono de 55 imóveis e a quem o Ministério Público fez o favor de fechar os olhos à Spinumviva, apareceu na vossa televisão a pedir-vos que trabalhem mais, que sejam Ronaldos e que percebam, de uma vez por todas, que nada cai do céu nesta vida. E não cai mesmo. Há que ter, pelo menos, um cartão do PSD.

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