A sombra dos nossos pesadelos

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 20/11/2015)

Baptista Bastos

Baptista Bastos

Cavaco Silva é um homem extremamente inseguro, atingido por uma soberba que o levava a alterações de carácter quando era professor e se algum aluno o contestava.


As delongas que o dr. Cavaco tem feito à indigitação do dr. António Costa para primeiro-ministro é um dos episódios mais repulsivos da Segunda República. O dr. Cavaco é homem de verdetes e de pequenas vinganças, já se sabia; mas este ressabiamento ultrapassa todas as paciências. Os ódios velhos não cansam, mas as coisas, com ele, têm atingido os mais deploráveis limites. Não permitiu que a pensão de sangue fosse atribuída à viúva de Salgueiro Maia, mas acedeu a que antigos agentes da PIDE fossem distinguidos com rendas, “por serviços distintos prestados à pátria”. Escusou-se, com evasivas canhestras, a presidir a uma homenagem a Melo Antunes, e tem colocado penduricalhos a uma legião de medíocres. Não condecorou José Sócrates, como é hábito a primeiros-ministros, em final de funções, notoriamente porque o detestava e detesta, além de o mimosear com dois discursos abjectos. Mário Soares, que o tratava por “O Gajo”, é outros dos seus inimigos. Não pode com Pedro Santana Lopes porque este é divertido, ama a vida e é inteligente. Apadrinhou Pedro Passos Coelho devido à reverência mesureira com que este o distingue. Aliás, apressou-se a indigitá-lo primeiro-ministro, logo após as eleições de 4 de Outubro, num atropelo às regras mais elementares da democracia. Nem precisou, como o fez agora, com inaudito despudor, de ouvir a opinião de “notáveis”. Sobre ser uma pessoa inculta e medíocre. O dr. Cavaco é o pior Presidente da República desde o 25 de Abril.

 Os níveis de popularidade do senhor descem de forma preocupante porque atingem, inevitavelmente, a própria instituição. Não ouve ninguém, não atenta nos conselhos que lhe dão, timidamente e com muita cautela porque ele encoleriza-se com frequência e não tem amigos, apenas breves instantes de reverência assustada. É um homem extremamente inseguro, atingido por uma soberba que o levava a alterações de carácter quando era professor e se algum aluno o contestava. Por duas vezes, pelo menos que víssemos, em duas cerimónias públicas, teve delíquios sem que, até hoje, essas súbitas quebras nos fossem esclarecidas.

 A demora em nomear António Costa faz parte da sua estrutura política e moral. Mas a atitude, por absurdamente deseducada, atinge toda a nação. Sabemos que o dr. Cavaco nunca foi o “Presidente de todos os portugueses”, e que a sua presença nos cargos que desempenhou caracterizaram-se por um total e absoluto desdém pelos outros. O que está a provocar, com este adiamento, é uma cisão desnecessária entre todos nós. A ferida que rasgou nos portugueses dificilmente sarará. Há anos, com uma impudícia que rondou o insulto, disse, publicamente, esta frase maldita: “Temos de ajudar o dr. Mário Soares a sair com dignidade da Presidência.”

 Todos sabemos que Mário Soares não costuma levar insolências para casa, e que, quando o assolam, não é flor que se cheire. Pode ser acusado de todos os defeitos, menos o de delito contra a liberdade. Talvez o mesmo não se possa dizer do dr. Cavaco, com as tropelias e os atropelos à democracia que tem praticado, e, até com o vilipêndio comprovado pela República e pelo 5 de Outubro.

 Com um suspiro de alívio aguardamos o dia próximo em que este senhor irá para casa e deixará de ser a sombra dos nossos pesadelos.

Os dados estão lançados

(Pacheco Pereira, in Sábado, 13/11/2015)

Pacheco Pereira

            Pacheco Pereira

1. À data em que escrevo, os dados parecem estar lançados: o Governo Passos Coelho vai cair e um novo Governo do PS com o apoio do PCP e do BE vai ser apresentado ao Presidente da República. O que ele fará a seguir ainda é hipotético, podendo manter o Governo em gestão, que parece ter sido o seu primeiro desejo; ou dar posse ao novo Governo, como parece resultar da falta de vontade de Passos Coelho e do PSD e CDS em tal solução, o que, mesmo sendo táctico, mostra razoabilidade.

2. Há uma terceira alternativa, que é manter as coisas como estão durante mais algum tempo e exigir condições à maioria PS-BE-PCP que ele sabe, e nós sabemos, serem impossíveis de obter. É o caso de exigir compromissos explícitos aos partidos que suportam o Governo PS sobre matérias que eles os não podem azer. Por exemplo, sobre o Tratado Orçamental, ou a NATO, esse coelho tirado da cartola para embaraçar o PCP e que nos últimos anos nenhum papel teve na vida política nacional. Compromissos, insisto, que eles não podem fazer, não precisam de fazer e não devem, nestas circunstâncias, fazer. E que não farão.

3. Depois deste intermezzo, que o Presidente pode fazer durar o tempo que quiser, o dilema volta à fórmula inicial: ou mantém o Governo em gestão, até que haja um novo Presidente e poder de dissolução, ou dá posse com todas as objecções a um Governo de esquerda. Gastar-se-á muito tempo, agora sem qualquer justificação institucional (que existia para convidar Passos para primeiro -ministro e que, contrariamente ao que disseram PS, BE e PCP, tinha mesmo de ser “gasto”), mas com uma mera intencionalidade política: ou para mostrar aos portugueses que não pode haver um Governo de esquerda, porque o Presidente acha que os “mercados” não o aceitam, ou para revelar o que ele entende serem as fragilidades do acordo.

4. Há vários problemas nestes raciocínios: um deles, e não o mais pequeno, é que nada obriga o próximo Presidente a convocar eleições antecipadas e a não aceitar um Governo de esquerda com maioria parlamentar. Manda Passos embora, agradece-lhe a gestão e, consultados os partidos, indigita António Costa. Mesmo que seja Marcelo o Presidente e o seu núcleo duro eleitoral lhe exija a antecipação das eleições, ele olhará para as sondagens e, se verificar que as probabilidades de se repetir um cenário idêntico ao actual com uma maioria de esquerda, bem pode deixar órfãos de pai e mãe, os coligados PSD-CDS.

5. O outro problema é que, após vários meses de gestão de um Governo que a Assembleia não aceita, com o descalabro económico e a conflitualidade social tendo como “autoria” e responsabilidade a decisão presidencial, e não um Governo de esquerda, a radicalização dos dias de hoje será uma brincadeira de crianças comparado com o que existirá então. É por isso que a solução pior para o País, que é manter um Governo de gestão PSD-CDS, é também a pior para a direita e a melhor para a esquerda, se considerarmos apenas as vantagens eleitorais. Convém mandar esta mensagem a uns exaltados comentadores de direita que percebem mal o que se passa, apenas com a aversão profunda em verem Costa no lugar de Passos.

6. Eu sou atlantista, sempre apoiei a NATO como instituição, discordei de um certo curso recente nas intervenções inconsideradas depois da Bósnia, tive funções políticas na NATO, e não tenho a menor preocupação com o papel do apoio do PCP e do BE ao Governo PS pelas suas posições sobre a NATO. Aliás, vejo com certa ironia a preocupação presidencial, do PSD-CDS e de Passos Coelho, mais o coro da direita, com uma NATO a que nunca deram importância nenhuma. Aliás, ver Passos Coelho a falar da NATO há dias era patético, porque se percebia que ele não conseguia sequer descrever a instituição.

7. Mas tenho preocupações com a defesa e a segurança de Portugal? Isso tenho, e muitas, quando vejo áreas estratégicas para a nossa defesa e segurança como a rede eléctrica da REN ser vendida a companhias estatais chinesas, venda feita deliberadamente antes de haver uma lei que a proibisse, aprovada depois do facto consumado e apesar das objecções dos nossos parceiros europeus e dos EUA, os nossos aliados na NATO.

O XX entregou-se a Deus

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 06/11/2015)

João Quadros

João Quadros

Cavaco Silva atribuía a Nossa Senhora os sucessos nas avaliações da troika, Cristas pedia aos agricultores para rezarem por chuva, Passos andava de crucifixo em campanha.


Cavaco Silva atribuía a Nossa Senhora os sucessos nas avaliações da troika, Cristas pedia aos agricultores para rezarem por chuva, Passos andava de crucifixo em campanha e, agora, o novo ministro da Administração Interna culpa o diabo pelas cheias em Albufeira. Portugal é uma reunião da IURD com um dízimo ao cubo. Não é por acaso que o principal candidato a Presidente da República fazia homilias ao domingo e que até os comunistas apostam no padre para PR.

A partir do momento em que um ministro da Administração Interna vem atribuir a culpa dos estragos de umas cheias ao demónio, tudo é possível, incluindo o exorcismo da Constituição. O ministro da Administração Interna vai propor presentes a Deus para dominar o temporal. Calvão acha que um presente de 14 milhões de euros é natural e que uma cheia é obra do demónio. Calvão da Silva, decididamente, não acha que o diabo está nos detalhes. Quando o recém-responsável pela Administração Interna diz que “o que aconteceu em Albufeira foi uma força demoníaca”, é uma acusação grave. É verdade que Albufeira é um bocado sinistra, mas parece-me exagerado apontar o dedo ao diabo pelas falhas na construção, ordenamento, etc. Seja como for, não deixa de ser o ministro das Polícias a acusar o Demónio. Já ouvi falar muitas vezes no advogado do Diabo, se eu fosse o Mefistófles, ligava-lhe.

Claro que, do ponto de vista teológico, estas cheias também podem ser atribuídas a Deus. Não era a primeira vez que Ele usava água em excesso; e a destruição foi em Albufeira e o Criador é conhecido como o grande arquitecto. Provavelmente, há uma corrente que, ao contrário da força demoníaca do Calvão, defende que foi um acto divino de arquitectura paisagística.

O que já me parece mais estranho é que o ministro da Administração Interna encomende a Deus as vítimas das cheias. É verdade que este Governo misturou o Ministério da Cultura com a Igualdade e a Cidadania, mas não acredito que este seja um Ministério da Administração Interna das Almas. Ver um ministro encomendar o paraíso para alguém é um passo em frente para este ministério que, com o antecessor, apenas metia cunhas para vistos Gold de residência.

Quando o ministro Calvão da Silva afirma que o senhor de “oitentaianos”, que morreu em Boliqueime, “entregou-se a Deus, com certeza que lhe reserva um lugar adequado”, no fundo está a dizer que o senhor fez o que fez a malta que aceitou o convite de Passos para este Governo de quinze dias. De certa forma, é impossível não ter a certeza que Deus nos reserva um lugar adequado, quando o Sérgio Monteiro vai liderar a venda do Novo Banco. Aleluia!