Os dados estão lançados

(Pacheco Pereira, in Sábado, 13/11/2015)

Pacheco Pereira

            Pacheco Pereira

1. À data em que escrevo, os dados parecem estar lançados: o Governo Passos Coelho vai cair e um novo Governo do PS com o apoio do PCP e do BE vai ser apresentado ao Presidente da República. O que ele fará a seguir ainda é hipotético, podendo manter o Governo em gestão, que parece ter sido o seu primeiro desejo; ou dar posse ao novo Governo, como parece resultar da falta de vontade de Passos Coelho e do PSD e CDS em tal solução, o que, mesmo sendo táctico, mostra razoabilidade.

2. Há uma terceira alternativa, que é manter as coisas como estão durante mais algum tempo e exigir condições à maioria PS-BE-PCP que ele sabe, e nós sabemos, serem impossíveis de obter. É o caso de exigir compromissos explícitos aos partidos que suportam o Governo PS sobre matérias que eles os não podem azer. Por exemplo, sobre o Tratado Orçamental, ou a NATO, esse coelho tirado da cartola para embaraçar o PCP e que nos últimos anos nenhum papel teve na vida política nacional. Compromissos, insisto, que eles não podem fazer, não precisam de fazer e não devem, nestas circunstâncias, fazer. E que não farão.

3. Depois deste intermezzo, que o Presidente pode fazer durar o tempo que quiser, o dilema volta à fórmula inicial: ou mantém o Governo em gestão, até que haja um novo Presidente e poder de dissolução, ou dá posse com todas as objecções a um Governo de esquerda. Gastar-se-á muito tempo, agora sem qualquer justificação institucional (que existia para convidar Passos para primeiro -ministro e que, contrariamente ao que disseram PS, BE e PCP, tinha mesmo de ser “gasto”), mas com uma mera intencionalidade política: ou para mostrar aos portugueses que não pode haver um Governo de esquerda, porque o Presidente acha que os “mercados” não o aceitam, ou para revelar o que ele entende serem as fragilidades do acordo.

4. Há vários problemas nestes raciocínios: um deles, e não o mais pequeno, é que nada obriga o próximo Presidente a convocar eleições antecipadas e a não aceitar um Governo de esquerda com maioria parlamentar. Manda Passos embora, agradece-lhe a gestão e, consultados os partidos, indigita António Costa. Mesmo que seja Marcelo o Presidente e o seu núcleo duro eleitoral lhe exija a antecipação das eleições, ele olhará para as sondagens e, se verificar que as probabilidades de se repetir um cenário idêntico ao actual com uma maioria de esquerda, bem pode deixar órfãos de pai e mãe, os coligados PSD-CDS.

5. O outro problema é que, após vários meses de gestão de um Governo que a Assembleia não aceita, com o descalabro económico e a conflitualidade social tendo como “autoria” e responsabilidade a decisão presidencial, e não um Governo de esquerda, a radicalização dos dias de hoje será uma brincadeira de crianças comparado com o que existirá então. É por isso que a solução pior para o País, que é manter um Governo de gestão PSD-CDS, é também a pior para a direita e a melhor para a esquerda, se considerarmos apenas as vantagens eleitorais. Convém mandar esta mensagem a uns exaltados comentadores de direita que percebem mal o que se passa, apenas com a aversão profunda em verem Costa no lugar de Passos.

6. Eu sou atlantista, sempre apoiei a NATO como instituição, discordei de um certo curso recente nas intervenções inconsideradas depois da Bósnia, tive funções políticas na NATO, e não tenho a menor preocupação com o papel do apoio do PCP e do BE ao Governo PS pelas suas posições sobre a NATO. Aliás, vejo com certa ironia a preocupação presidencial, do PSD-CDS e de Passos Coelho, mais o coro da direita, com uma NATO a que nunca deram importância nenhuma. Aliás, ver Passos Coelho a falar da NATO há dias era patético, porque se percebia que ele não conseguia sequer descrever a instituição.

7. Mas tenho preocupações com a defesa e a segurança de Portugal? Isso tenho, e muitas, quando vejo áreas estratégicas para a nossa defesa e segurança como a rede eléctrica da REN ser vendida a companhias estatais chinesas, venda feita deliberadamente antes de haver uma lei que a proibisse, aprovada depois do facto consumado e apesar das objecções dos nossos parceiros europeus e dos EUA, os nossos aliados na NATO.

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