Um e o outro

(Baptista Bastos, in Correio da Manhã, 09/03/2016)

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Baptista Bastos

O que sai é a tristeza balofa, o rancor cabisbaixo. O que entra é o sorriso alegre.

O que vai embora não deixa saudades; pelo contrário: é um alívio. O que entra é naturalmente melhor pela qualidade do estilo, pela cultura e pela familiaridade sorridente com que se nos dirige. Pior ou mesmo igual ao que sai é impossível. O Marques Mendes bem tentou repintar a imagem do homem de quem se não gosta, mas os factos aí estão para provar a desfeita de uma História repleta de iniquidades e de soberba, protagonizada por quem se construiu na soberba e na iniquidade. Basta lembrar a última sessão de condecorações, a omissão ao mundo do trabalho e a definição que ele fez de “heróis” para o qualificar e às suas escolhas.

O que entra não desconhece que “Os Lusíadas” contêm dez cantos; e não confunde Tomas Mann com Tomas More. As diferenças entre os dois são abissais: de cultura, de curiosidade activa, de comportamento, de princípios e de carácter.

Já escrevi demasiado sobre o que sai. O que entra não é o meu votado, mas é a minha veemente expectativa. Sempre mantive com ele relações de cordialidade, embora nunca deixasse de lhe dar com o sarrafo. Um dia escrevi que as nossas aproximações adivinham de comuns interesses culturais. O que entra foi um dos oradores (os outros eram Mário Soares, José Manuel Mendes e José Barata-Moura) da sessão, na FIL, para apresentar o romance “Ensaio sobre a Lucidez”, de José Saramago. O seu texto revelava uma profunda atenção aos significados ocultos do livro e uma acendrada admiração intelectual pelo autor. Os calorosos aplausos de uma assistência maioritariamente de Esquerda (quase duas mil pessoas) foram a demonstração de uma dupla grandeza, a dele e a da plateia.

O que sai é a tristeza balofa, o rancor cabisbaixo, a carência de afectos. O que entra é o sorriso alegre e a compostura de quem recusa a cerimónia pomposa, a reverência hipócrita e o colarinho gomado.

Desta coluna saúdo o Marcelo Rebelo de Sousa.

O homem de quem se não gosta

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 19/02/2016)

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Baptista Bastos

Serviu quem muito bem entendeu, e nunca foi o Presidente de todos os portugueses. Pelo contrário: fraccionou a sociedade portuguesa.


Entrevistados pelas televisões, dois representantes de associações militares disseram, alto e bom som, que não reconheciam o dr. Cavaco como supremo comandante das Forças Armadas. E aduziram um aluvião de razões para justificar a abominação. Não deixa saudades, acrescentaram. O desprezo pelo homem que vai embora, não tarda, é transversal à sociedade portuguesa. Nas artes, nos ofícios, nos serviços, nunca um Presidente da República foi tão condenado. E a culpa é dele próprio: tolamente arrogante, autoritário, ignorante e inculto, desajeitado e impositivo, ele representa o que de pior o português em si encerra. Acresce que nos longos anos que esteve no poder, como primeiro-ministro e, depois, Presidente, cometeu tolices, injúrias e disparates, fruto dessa soberba e dessa ignorância que deram azo a histórias e anedotas devastadoras. Quando falava, nada dizia para um povo já informado, atento e sarcástico.

A separação a que procedeu, entre os portugueses, foi-lhe fatal, desde o princípio. Ficou famosa a frase “Deixem-nos trabalhar!”, e a foto dele e dos seus colaboradores, em mangas de camisa, muito atarefados e zelosos. Era primeiro-ministro e logo nos apercebemos de que, do país e de quem cá vive, ele pouco entendia. No entanto, possuía uma imagem de gravidade até às orelhas, um penteado à Cary Grant e umas camisas muito brunidas; tudo isso contava, numa terra onde o respeitinho é muito bonito.

Agradou logo àqueles que, moldados pelo salazarismo, constituíam a zona mais cinzenta e reaccionária de entre nós. Portugal ainda vivia nas sombras de um passado nefasto e entre os medos uma revolução interrompida. A Igreja e os senhores da finança desempenharam, aqui, um papel crucial. A satisfação dessa parte da sociedade rejubilou, quando ele, numa atitude sórdida, premiou, com reformas opíparas, antigos agentes da PIDE, e recusou uma pensão de sangue à viúva de Salgueiro Maia, um dos impolutos capitães de Abril.

É preciso relembrar que este homem, tacanho por natureza e educação, nunca tomou a mais leve atitude contra o fascismo, é o produto típico de um prazo e de uma época ainda não dissolvidos por completo, e que demonstra extrema dificuldade em adaptar-se aos tempos outros. Pessoalmente, chego a ter compaixão por esta desgraça ambulante, que nunca sabe onde meter as mãos, que nunca está à vontade em nenhuma parte, e que parece não entender coisa alguma.

Mas não pode ficar isento de culpas. A natureza profunda das suas acções a comportamentos não se associa às características da democracia. A guerrilha estabelecida contra José Sócrates é um dos episódios mais desacreditantes do seu mandato; e a utilização do verbo “indicar”, em vez do “indigitar”, quando aludiu a António Costa, para primeiro-ministro, fornecem o retrato moral do indivíduo e a dificuldade ostentada para aceitar o inevitável.

O rol das indigências do dr. Cavaco é enorme e nada nele serve de exemplo positivo. Serviu quem muito bem entendeu, e nunca foi o Presidente de todos os portugueses. Pelo contrário: fraccionou a sociedade portuguesa, e não teve uma palavra de desagrado quando assistiu à debandada de jovens portugueses para o estrangeiro, resultado de uma política velhaca que ele apoia com desfaçatez.

Não deixa saudades, de facto. Adeus.

Desgoverno de iniciativa presidencial

(Alexandre Abreu, in Expresso, 21/11/2015)

Autor

    Alexandre Abreu

Cavaco Silva está a dar tudo por tudo para que a golpada que prepara não pareça uma golpada.


A ideia segundo a qual Cavaco Silva é um “institucionalista” que se encontra acima da política partidária nunca teve sustentação real, mas nos últimos tempos caiu completamente por terra. Cavaco Silva, esse mérito lhe seja reconhecido, não faz e nunca fez outra coisa que não política pura e dura. E o contexto atual, pouco dado a neutralidades, pregou-lhe a partida de obrigá-lo a deixar cair a máscara de estadista suprapartidário com que gostaria de terminar a carreira.

As incoerências em que o Presidente tem incorrido roçam já o absurdo. No início de outubro, a urgência da sua deliberação era tal que exigia que faltasse às comemorações da República a que preside; agora, essa mesma urgência é tão pouca que permite que Cavaco Silva se dedique à cagarra e à banana enquanto o país aguarda uma clarificação da situação política. Há um mês, Cavaco Silva afirmava taxativamente que a última palavra cabia aos deputados da Assembleia da República; agora, faz o que pode para manter ligada às máquinas alguma solução de governo proveniente do seu quadrante político, em confronto aberto com a vontade do Parlamento.

Cavaco Silva está a dar tudo por tudo para que a golpada que quer promover — a manutenção em gestão do governo demitido ou a nomeação de um governo de iniciativa presidencial, ao arrepio do Parlamento e dos resultados das eleições — não pareça uma golpada.

Para tal, procura mobilizar argumentos, como os apoios das elites que tem chamado a Belém, e procura ganhar tempo, na esperança (para já infrutífera) de algum movimento dos “mercados” que possa aduzir em seu apoio. Mas é pouco — e ele sabe que é pouco. É seguramente pouco para poupá-lo ao opróbrio de uma saída de cena marcada pela política de fação, em confronto com as instituições democráticas.

Mas mais grave do que isso é que será o país a pagar o preço destas jogadas. Manter em funções um governo sem apoio parlamentar — seja o atual, já demitido, ou um governo supostamente “técnico” que o Presidente venha a nomear e o Parlamento a demitir — condenará o país a nove meses com um governo estritamente limitado nas suas competências, sem autoridade, em confronto permanente com a Assembleia e a gerir um orçamento por duodécimos. É, além de uma subversão da Constituição, uma solução de terra queimada, equivalente a quebrar o leme do navio para evitar que um capitão de quem não se gosta assuma o comando.

Se acontecer, os responsáveis serão a direita e o seu Presidente. Será um desgoverno de iniciativa presidencial.