Apurar toda a verdade

(In Blog O Jumento, 03/03/2017)

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Antes de vir a público tomar uma posição sobre as transferências para as offshores, Passos Coelho, como um bom político que antes de tomar banho na praia sabe onde deixa a roupa, falou com o seu secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, um governante que apesar de depender de Vítor Gaspar e depois de Maria Luís Albuquerque,  respondia perante Paulo Portas, o seu verdadeiro chefe. O pobre homem teve um momento de amnésia e, de acordo com a imprensa, garantiu ao líder do PSD, que estava tudo bem.

Afinal, o desgraçado foi vítima das suas crises de amnésia transitória, esqueceu-se que enquanto governante se tinha esquecido do processo numa gaveta , tudo isso porque no início do seu mandato teve uma dúvida existencial – a divulgação dos dados não iria favorecer os infractores? – dúvida para a qual acabou por não encontra resposta, apesar dos lembretes do director-geral da AT a sua memória iria atraiçoá-lo sistematicamente e por várias vezes se esqueceu de a esclarecer. Aliás, esta pobre alma anda mesmo lelé da cuca, em quatro dias veio com quatro versões, cada vez que falou em público já se tinha esquecido do que tinha dito no dia anterior.

Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, parece ter também graves problemas de memória. Por várias vezes foi alertado para o que estava sucedendo no BES e nada fez, esqueceu-se sempre das suas obrigações e de proteger os interesses do país, do sistema financeiro e dos portugueses. O próprio Passos Coelho também parece ter problemas do género, esqueceu as responsabilidades de Carlos Costa no que sucedeu ao país e reconduziu-o no cargo.

O próprio Cavaco Silva já teve melhores dias; no seu livro das quintas-feiras evidenciou uma crise de amnésia selectiva, o pobre senhor só se recordou do que lhe interessava e por aquilo que escreveu sobre as escutas a Belém ficamos muito preocupados com que poderá estar acontecendo aos seus neurónios, baralhar factos na sua idade não augura nada de bom. E por falar de problemas de memórias com idosos, idade em que as falhas de memória nos fazem recear o pior, veio a Teodora Cardoso falar de milagres, um sinal de que se esqueceu das inúmeras verdades científicas que andou dizendo ao longo do ano.

Entre problemas de amnésia e crises de senilidade começa a ser evidente que vivemos num país em que é cada vez mais complexo distinguir a verdade da mentira. Já se sabia que no mundo da bola o que é verdade hoje será a mentira de amanhã. Parece que no mundo da política nem dá para considerar que com o tempo as verdades azedam como o vinho, o povo só tem direito a mentiras, porque as verdades são sistematicamente esquecidas.

Até o inquestionável Carlos Alexandre disse ao Expresso que não tinha amigos na magistratura, dizia ele que “devem ser levados em conta como avisos de que eu, realmente, não tendo fortuna pessoal, não tendo amigos na magistratura (não quer dizer que se os tivesse as coisas fossem de forma diferente), estando um pouco isolado como estou — tenho consciência disso —, sou mais vulnerável a qualquer tipo de incidência negativa que me venha a ser dirigida.” Pois, o que era verdade na entrevista do Expresso devido a um problema de amnésia revela-se uma mentira, ainda hoje o Público noticia que Orlando Figueira, o procurador acusado de corrupção, lhe chegou a emprestar dinheiro. Enfim, nem o sóbrio super juiz se consegue escapar a esta epidemia de amnésia.

É uma pena que gente como Passos Coelho considere que só eles têm direito a conhecer toa a verdade e apenas quando esperam que a verdade corresponda às suas conveniências.


Fonte aqui

O Regresso do Garganta Funda do regime

(In Blog O Jumento, 03/01/2016)

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Durante muito tempo Marques Mendes fez de informador do regime, era o “garganta Funda” oficioso do governo de Passos Coelho, que se servia dele para ir testando a opinião pública com fugas de informação convenientes. Com a queda de Passos o tempo de antena de Marques Mendes  na SIC perdeu qualidade e interesse.

Mas eis que ainda há uma ilha do PSD com informação confidencial, à falta de Passos Coelho parece que Marques Mendes passou a ser o Garganta Funda do Sr. Costa, do BdP. O problema é que as inconfidência do banco em relação ao Novo Banco podem custar muitos milhões ao país. Só mesmo neste país cheio de bandalhos é que um qualquer Marques Mendes vem para a televisão divulgar o que o governador do bano central vai fazer.

Uma vergonha para o país, para o BdP e para o seu governador.

Novo Banco: o brutal falhanço do Banco de Portugal

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 16/12/2016)

nicolau

A venda do Novo Banco vai ser de novo adiada, agora para janeiro. É bom lembrar que o banco deveria ter sido vendido em 2015. Depois no primeiro semestre de 2016. Em seguida na segunda metade deste ano. E agora vamos para 2017. O responsável pela estratégia de venda é o Banco de Portugal. A única conclusão é que o Banco de Portugal está a falhar clamorosamente.

Voltando atrás, ao fim de semana de 2 e 3 de Agosto de 2014, quando o governador do Banco de Portugal anunciou a resolução do Banco Espírito Santo, perante a estupefação da generalidade dos portugueses, já que a instituição era dirigida por uma administração liderada por Vítor Bento, da total confiança de Carlos Costa, e de onde já tinha sido varrida toda a influência de Ricardo Salgado e da família Espírito Santo.

Nesse fim de semana, Carlos Costa insistiu com Vítor Bento para ser o presidente do Novo Banco, que iria nascer na segunda-feira. Bento hesitou mas acabou por aceitar, sob pena da instituição não poder abrir as portas nesse dia. Acertou, contudo, uma estratégia com o governador: precisava de três a cinco anos para estabilizar o Novo Banco, credibilizá-lo no mercado, antes de o vender. Mas em setembro a ordem do Governo PSD/CDS foi para que a instituição fosse vendida o mais rapidamente possível, num prazo máximo de seis meses – e o governador fez sua essa orientação. Resultado: a 13 de setembro de 2014 é conhecida a demissão de Vítor Bento da presidência do Novo Banco.

O governador vai então buscar ao Lloyds, do Reino Unido, Eduardo Stock da Cunha, um dos “wonder boys” da equipa liderada pelo “golden boy” António Horta Osório, presidente do banco britânico. Com Stock da Cunha, que entrou a 14 de setembro de 2014, eram favas contadas: em três penadas o banco seria vendido, e recuperados os 3.900 milhões de euros com que o Fundo de Resolução capitalizou o banco.

Pois bem: quase dois anos depois, a 6 de julho de 2016, Eduardo Stock da Cunha anuncia a sua renúncia ao cargo de presidente do Novo Banco, regressando a Londres sem ter concretizado a venda da instituição. Para trás ficaram até essa altura mais de 27 milhões de euros em serviços de consultoria, assessoria financeira e jurídica e serviços de apoio jurídico, contratados por ajuste direto pelo Banco de Portugal, a maior arte dos quais relacionados com a resolução e a venda do Novo Banco.

Por exemplo, o BNP Paribas foi contratado como assessor financeiro dias antes de ser anunciada a resolução do BES, a 3 de agosto de 2014. O valor do contrato era de 15 milhões de euros para assessorar o Banco de Portugal na primeira tentativa de venda do Novo Banco, que acabou por ser suspensa.

Como a venda não se concretizava, o Banco de Portugal decidiu contratar mais uma pessoa: Sérgio Monteiro, ex-secretário de Estado dos Transportes do Governo PSD/CDS. O contrato, publicado no portal da contratação pública, para a prestação de “serviços de consultoria”, foi assinado em 18 de dezembro de 2015, mas com efeitos a partir de 1 de novembro de 2015, por um período de 12 meses e a contrapartida financeira de 304.800 euros.

O contrato já foi entretanto renovado por sucessivos períodos de três meses – e o Novo Banco continua por vender.

E assim falharam até agora todas as tentativas de venda do Novo banco, apesar de na primeira (em setembro de 2015) se ter dito que havia 17 (!) interessados. No final ficaram três, mas as negociações conduziram a um beco sem saída. Agora, o novo processo de venda tem vindo de novo a arrastar-se e vai cair para 2017, espera o banco central que em janeiro. E, como é óbvio, o maior problema é que até agora todas as propostas foram, do ponto de vista da oferta em dinheiro, totalmente descoroçoantes, para não dizer irrisórias. O que quer dizer igualmente que muito pouco do que foi colocado pelo Fundo de Resolução no Novo Banco (3.900 milhões de euros) será recuperado.

Perante isto, só se pode concluir, dois anos e meio depois, que estamos perante um falhanço rotundo e clamoroso da estratégia seguida pelo Banco de Portugal para vender o Novo Banco, não obstante os inúmeros consultores (a quem o banco central já pagou cerca de 30 milhões) e os três presidentes (Vítor Bento, Stock da Cunha e agora António Ramalho) em dois anos e meio.

Pode ainda concluir-se que o Banco de Portugal não sabe vender bancos. E que Carlos Costa é o pior governador que passou pelo banco central – apesar de continuar a atirar as culpas para cima de outros. Os seus atos atingiram pesadamente a imagem da República (quando decidiu passar cinco emissões obrigacionistas subscritas por grandes investidores internacionais do Novo Banco para o BES mau) e estão a custar muito (e vão continuar a custar) aos contribuintes (resolução do BES e do Banif). E o problema é que ainda faltam quatro anos para se ir embora.