Dollar & oil – a Venezuela e a agonia do petrodólar

(Rui Pereira, in Facebook, 04/01/2026)

Desde que o governo de Nicolás Maduro Móros encetou a integração venezuelana nos sistemas financeiros de desdolarização do mundo e abriu caminho à maior taxa de crescimento de todas as economias da região, Caracas entrou no “olho do furacão”.

As suas transações petrolíferas em yuan chinês, em euros ou rublos, como salientam diferentes especialistas em economia internacional, por um lado. E, por outro lado, a adesão progressiva do país a dispositivos de transações fora do sistema Swift, nomeadamente a adoção do sistema mBridge que faculta aos bancos centrais a realização de transações em moeda local (ver uma explicação sumária em português aqui) colocaram o país detentor das maiores reservas petrolíferas do mundo na mira direta do império.

Não é inédito. Kadafi na Líbia, em 2011 ou Saddam Hussein no Iraque -bombardeado na véspera da sua adesão ao euro como moeda de transação petrolífera em 2003-, pagaram ambos as suas intenções com um preço idêntico, embora ainda mais selvático do que aquele que foi agora estabelecido para Nicolás Maduro. O saneamento do petrodólar, que permite aos EUA imprimir moeda virtualmente sem fim e sem que isso faça disparar correspondentemente a inflação, porque todos os países precisam de dólares para as suas transações, desde logo petrolíferas, é a maior ameaça para o império.

Politicamente, nunca os EUA (ou a própria União Europeia, assinale-se) estiveram preocupados com liberdade ou democracia, nem mesmo no plano geo-nacionalista interno, quanto mais no exterior! O que os preocupa, além da guerra em curso por recursos e das questões do comércio e finança internacionais é, noutra ordem de razões, a possibilidade de países que encetam processos de transformação revolucionária serem bem-sucedidos.

O longo ódio contra Cuba -empobrecida pela guerra económica e por isso acusada, agredida militarmente e ainda ontem de novo ameaçada por Trump- é um exemplo. Mas, que a Venezuela, a potência com maiores recursos petrolíferos do mundo (e outros recursos naturais vitais) possa desenvolver uma revolução bem-sucedida em qualquer variante de ideologia socialista, isso é inadmissível. O bem-estar do povo venezuelano em revolução, funcionando como exemplo para outros povos, é um luxuoso perigo a que o império não pode dar-se.

Por fim, está em curso por todo o Ocidente, para não irmos mais longe, o que um comentário semianalfabeto a uma publicação minha de ontem chamava “o EXTERMÍNIO da esquerdalha”.

O que, em língua de gente, significa uma profunda e agónica guerra contra o progressismo que nos trouxe das Luzes oitocentistas – nomeadamente latino-americanas -, até ao momento presente. A contrarrevolução reacionária que teve a protagoniza-la no início do século XX, nomes e regimes como os de Hitler ou Mussolini, tem, cem anos mais tarde, outros nomes, que vão da macro dimensão mundial dos chamados “neoliberais” em fusão com os chamados “populistas de direita” de que sucessivas administrações norte-americanas são exemplos, culminando com Trump, até à escala micro de dirigentes-vassalo como Macron, van der Leyen, Costa, Kallas ou nos nacionais Montenegro, Cotrim ou Ventura.

O que se passa na Academia, nos sistemas de ensino, nos media é paradigmático. Ainda ontem, enquanto se emitiam em círculo e em circo até à exaustão nas nossas televisões imagens de umas dezenas de venezuelanos a festejar em Miami a agressão militar contra o país onde nasceram, omitiam-se imagens de manifestações contra essa acção um pouco por todo o mundo, a começar por Times Square, o coração de Nova-Iorque, que, noutros dias, tantos devotos tem entre o provinciano e servil jornalismo oficial e no seu adjacente nacional-comentariado (ver aqui).

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Rússia e Índia – dois parceiros fortes

(João Gomes, in Facebook, 05/12/2025)

Governo indiano assegura a Putin: a índia “não é neutra” na guerra

Foi um daqueles encontros que fazem tremer o tabuleiro geopolítico – embora, oficialmente, ninguém no Ocidente admita ter sequer levantado uma sobrancelha. Mas é impossível não sorrir (ou suspirar) diante da cena: Putin e Modi, sentados confortavelmente, traçando planos até 2030 com a naturalidade de quem combina um café para a semana seguinte. A meta? Levar o comércio bilateral aos 100 mil milhões de dólares, reforçar energia, defesa, indústria e um punhado de outros setores onde ambos parecem ter muito a ganhar e nada a perder. É uma espécie de casamento por conveniência, mas daqueles que funcionam surpreendentemente bem.

A Rússia, sancionada até ao tutano pela Europa que se queria moralmente redentora, encontra na Índia um parceiro que diz “bom dia” sem pedir desculpas por não alinhar com a política de contenção. E a Índia, sempre fiel à sua autonomia estratégica – a expressão educada para “faço como quero” -, recebe petróleo mais barato, tecnologias militares e uma boa dose de influência internacional. Nada mau para quem insiste em não escolher lado na Guerra Fria versão 2.0.

Claro que, no meio deste abraço pragmático, há quem revire os olhos. Em Bruxelas, por exemplo, onde alguns tecnocratas ainda acreditam que o mundo funciona à base de resoluções, planos verdes e frases inspiradoras sobre unidade europeia. Ver a Índia – supostamente parceira preferencial – a negociar alegremente com Moscovo enquanto a UE tenta isolar a Rússia provoca um ligeiro azedume. Afinal, quem diria que sanções europeias não seriam suficientes para convencer 1,4 mil milhões de indianos a alterar a sua política energética?

Do lado dos Estados Unidos, a inquietação é mais discreta, mas não menos evidente. Washington, que apostou na Índia como pilar essencial para equilibrar a China, tem agora de engolir o facto de que Nova Deli não só ignora pressões como ainda dá asas económicas a Moscovo. Um aliado que fala de democracia ao jantar, mas prefere negociar petróleo barato ao pequeno-almoço, é sempre um desafio. Mas os EUA, pacientes como um professor indulgente, repetem mentalmente: “é só a autonomia estratégica a fazer das suas.”

No fundo, a aproximação Rússia–Índia tem um efeito quase cómico: recorda ao Ocidente que o resto do mundo não gira à volta de Washington ou de Bruxelas. E que enquanto uns discutem metas de emissões e revezes eleitorais, outros fazem negócios. Bons negócios. Pragmatismo puro, sem “moralidades”, sem discursos inflamados, sem ilusões.

Assim, enquanto a Índia reforça a sua independência e a Rússia encontra escape para o cerco europeu, o Ocidente faz aquilo que melhor sabe: publicar comunicados de “profunda preocupação”. De preferência em inglês burocrático, aquela língua oficial da diplomacia alarmada.

E a verdade é que, entre acordos energéticos, cooperação militar e promessas mútuas até 2030, Rússia e Índia saem do encontro com um sorriso discreto de quem sabe exatamente o que está a fazer. Já o Mundo ocidental, que assiste à distância, parece cada vez mais o convidado que não recebeu convite para a festa – e que, mesmo assim, insiste em comentar a música e a lista de bebidas.

No fim do dia, tudo se resume a isto: há países que se queixam das mudanças no mundo – e há países que as moldam. Rússia e Índia, cada uma ao seu modo, decidiram ficar no segundo grupo. E isso, por si só, é suficiente para deixar meio planeta a fazer contas à vida.

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Nem a Rússia, nem a América Latina se dobram

(Paulo Cannabrava Filho, in Diálogos do Sul, 27/10/2025)


A resistência do Sul Global diante da escalada bélica, das sanções e da arrogância imperial.


A Rússia não vai se dobrar. A América Latina também não. O que está em jogo é a soberania das nações diante de um projeto imperial de dominação que insiste em sobreviver mesmo diante do fracasso.

Vladimir Putin respondeu com firmeza ao novo pacote de sanções e ameaças militares, reforçando o alerta de quase um ano atrás: se os Estados Unidos e a Europa enviarem armas de longo alcance capazes de atingir o território russo, a resposta será proporcional. A mensagem foi clara: Moscou não aceitará provocações impunemente.

Enquanto isso, Donald Trump — presidente dos Estados Unidos, mesmo acusado de conspiração golpista — tem intensificado sua retórica autoritária e medidas de coerção internacional. Recentemente, aplicou sanções pessoais à família do presidente colombiano Gustavo Petro, incluindo-os em listas de supostos narco-terroristas, numa tentativa evidente de intimidar e punir governos que não se alinham à agenda de Washington. Seu foco, ainda assim, será o conflito interno nos EUA, que inclui repressão a imigrantes, cortes de programas sociais e retaliação contra opositores.

A Europa, por sua vez, vive uma armadilha que ela mesma construiu. Ao seguir a estratégia belicista dos EUA, comprometeu sua estabilidade econômica. A inflação voltou a subir. O desabastecimento e os altos custos da energia atingem os mais pobres. A indústria sofre com a perda de competitividade diante da dependência do gás russo e das tensões comerciais com a China.

Agora, numa manobra que viola o direito internacional, a União Europeia decidiu se apropriar de 300 bilhões de dólares em ativos russos congelados — uma atitude que escancara o uso da guerra como pretexto para saques financeiros. A América Latina, inclusive, também vem sendo alvo de sanções e retaliações por não se curvar ao poder imperial.

Da Venezuela, o presidente Nicolás Maduro já denunciou tais políticas de chantagem e sanções unilaterais: “Nos querem submissos, mas somos herdeiros de Bolívar. Estamos de pé, com dignidade, e vamos seguir defendendo nossa soberania”. Por sua vez, em 2025 e em anos anteriores, o presidente Lula também não tem silenciado sobre essas questões. Reafirmou que o mundo precisa de paz, não de mais armas, e que a América Latina tem um papel histórico a cumprir na construção de uma ordem multipolar, baseada na cooperação e na autodeterminação dos povos. Lula tem insistido que o Brasil não aceitará ser empurrado para blocos militares, nem será cúmplice de guerras de interesse. Seu apelo é por diálogo, desenvolvimento e justiça social.

A escalada militar avança perigosamente. O maior porta-aviões do mundo, o USS Gerald R. Ford, deixou a costa da Croácia e ruma agora para o Atlântico Sul. O deslocamento dessa máquina de guerra representa um gesto intimidatório contra os países do Sul Global que ousam afirmar sua autonomia. A presença de uma embarcação desse porte, equipada com armas de última geração, reforça o clima de tensão e ameaça que paira sobre as tentativas de construção de uma nova ordem mundial mais justa e multipolar.

Em paralelo, as chamadas “operações especiais” executadas em nome da segurança ocidental já deixaram um rastro de sangue: ao menos 43 pessoas foram assassinadas em 10 operações recentes, sem direito à defesa, sem julgamento, sem chance de reagir. Execuções sumárias, disfarçadas de ações preventivas, tornaram-se política de Estado. Esse é o retrato de um mundo em que a força se sobrepõe ao direito e a violência se legitima com discursos de proteção à democracia.

Neste momento, enquanto o mundo assiste à escalada dos conflitos, os países da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) estão reunidos em cúpula, com forte presença das nações Brics, lideradas por China e Rússia. O encontro representa uma afirmação de soberania e cooperação entre o Sul Global, apontando caminhos para uma ordem internacional multipolar, voltada ao desenvolvimento sustentável, à justiça econômica e à paz. O protagonismo do Oriente e da América Latina ganha corpo diante da falência moral do Ocidente belicista.

(*) Texto em português do Brasil, de acordo com a fonte aqui.

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