(Paulo Cannabrava Filho, in Diálogos do Sul, 27/10/2025)

A resistência do Sul Global diante da escalada bélica, das sanções e da arrogância imperial.
A Rússia não vai se dobrar. A América Latina também não. O que está em jogo é a soberania das nações diante de um projeto imperial de dominação que insiste em sobreviver mesmo diante do fracasso.
Vladimir Putin respondeu com firmeza ao novo pacote de sanções e ameaças militares, reforçando o alerta de quase um ano atrás: se os Estados Unidos e a Europa enviarem armas de longo alcance capazes de atingir o território russo, a resposta será proporcional. A mensagem foi clara: Moscou não aceitará provocações impunemente.
Enquanto isso, Donald Trump — presidente dos Estados Unidos, mesmo acusado de conspiração golpista — tem intensificado sua retórica autoritária e medidas de coerção internacional. Recentemente, aplicou sanções pessoais à família do presidente colombiano Gustavo Petro, incluindo-os em listas de supostos narco-terroristas, numa tentativa evidente de intimidar e punir governos que não se alinham à agenda de Washington. Seu foco, ainda assim, será o conflito interno nos EUA, que inclui repressão a imigrantes, cortes de programas sociais e retaliação contra opositores.
A Europa, por sua vez, vive uma armadilha que ela mesma construiu. Ao seguir a estratégia belicista dos EUA, comprometeu sua estabilidade econômica. A inflação voltou a subir. O desabastecimento e os altos custos da energia atingem os mais pobres. A indústria sofre com a perda de competitividade diante da dependência do gás russo e das tensões comerciais com a China.
Agora, numa manobra que viola o direito internacional, a União Europeia decidiu se apropriar de 300 bilhões de dólares em ativos russos congelados — uma atitude que escancara o uso da guerra como pretexto para saques financeiros. A América Latina, inclusive, também vem sendo alvo de sanções e retaliações por não se curvar ao poder imperial.
Da Venezuela, o presidente Nicolás Maduro já denunciou tais políticas de chantagem e sanções unilaterais: “Nos querem submissos, mas somos herdeiros de Bolívar. Estamos de pé, com dignidade, e vamos seguir defendendo nossa soberania”. Por sua vez, em 2025 e em anos anteriores, o presidente Lula também não tem silenciado sobre essas questões. Reafirmou que o mundo precisa de paz, não de mais armas, e que a América Latina tem um papel histórico a cumprir na construção de uma ordem multipolar, baseada na cooperação e na autodeterminação dos povos. Lula tem insistido que o Brasil não aceitará ser empurrado para blocos militares, nem será cúmplice de guerras de interesse. Seu apelo é por diálogo, desenvolvimento e justiça social.
A escalada militar avança perigosamente. O maior porta-aviões do mundo, o USS Gerald R. Ford, deixou a costa da Croácia e ruma agora para o Atlântico Sul. O deslocamento dessa máquina de guerra representa um gesto intimidatório contra os países do Sul Global que ousam afirmar sua autonomia. A presença de uma embarcação desse porte, equipada com armas de última geração, reforça o clima de tensão e ameaça que paira sobre as tentativas de construção de uma nova ordem mundial mais justa e multipolar.
Em paralelo, as chamadas “operações especiais” executadas em nome da segurança ocidental já deixaram um rastro de sangue: ao menos 43 pessoas foram assassinadas em 10 operações recentes, sem direito à defesa, sem julgamento, sem chance de reagir. Execuções sumárias, disfarçadas de ações preventivas, tornaram-se política de Estado. Esse é o retrato de um mundo em que a força se sobrepõe ao direito e a violência se legitima com discursos de proteção à democracia.
Neste momento, enquanto o mundo assiste à escalada dos conflitos, os países da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) estão reunidos em cúpula, com forte presença das nações Brics, lideradas por China e Rússia. O encontro representa uma afirmação de soberania e cooperação entre o Sul Global, apontando caminhos para uma ordem internacional multipolar, voltada ao desenvolvimento sustentável, à justiça econômica e à paz. O protagonismo do Oriente e da América Latina ganha corpo diante da falência moral do Ocidente belicista.
(*) Texto em português do Brasil, de acordo com a fonte aqui.
Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Imagine-se o que seria se Portugal desobedecesse aos mandos e desmandos, aos caprichos dos Grande(s) Irmão(s) anglo-saxões, a que sempre se sujeitou, primeiro com a aliança com os ingleses na Idade Média, depois no século XX com a adesão à NATO liderada pela maior potência marítima e militar ocidental, os EUA…
Os “partidos do arco da governação”, expressão popularizada pelo irrevogável ministro Paulo Portas, e que inclui o moribundo CDS mas ainda não o Chega, que só apareceu mais recentemente, nunca o permitiriam, faz parte, como agora se usa muito, do seu ADN, numa lógica de clientelismo e servilismo, de submissão e ganhos pessoais em detrimento de emancipação nacional e verdadeira independência.
Não sendo uma colónia na verdadeira acepção da palavra, cada vez se assemelha mais a uma. E a população desses países anglo-saxões (e outros países como França, etc) cada vez mais procura Portugal como destino de vida e sítio para viver. Só que apenas os anglo-saxões são tratados como lordes pelos poderes de facto e as instituições políticas nacionais, os seus desejos são ordens e os seus ditames regras e leis.
No outro dia estava a ver um documentário sobre o Museu que existe em Sobral de Monte Agraço sobre as Linhas de Torres construídas para conter e repelir as invasões francesas na zona da antiga Estremadura, e no museu todas as placas identificativas estão escritas em duas línguas, português e inglês. Não houve lugar para o francês, que veja-se, será provavelmente quem mais interesse teria em visitar o museu e conhecer e compreender essa história. O francês que foi durante muito tempo, até talvez meados do século XX, a língua “franca” internacional, ou mundial, é hoje desprezado para que o inglês vingue e prolifere, e até as nossas faculdades, públicas e privadas, começam a ter a sua designação alterada para inglês, como se com isso se tornassem muito mais sofisticadas e prestigiadas.
É um fenómeno de pateguice tipicamente português, que por exemplo não tem paralelo em Espanha, por vezes levado ao extremo de dobrarem para castelhano todos os filmes falados em inglês, para assim não amplificarem a sua influência e difundirem uma língua estrangeira. Ora, o ideal seria nem tanto ao mar nem tanto à terra, mas chega a dar vergonha alheia quando ouço Nova Business School of Economics e coisas do género.
Pelo menos na América Latina, Brasil incluído, têm um pouco mais de amor próprio e respeito pelas línguas nacionais, além de outro espírito de soberania, independência e liberdade, não se submetendo a todos os ditames e à aculturação anglo-saxónica. Por cá reina a cultura de submissão ao estrangeiro, sobretudo aos países que mais cultivam uma pretensa superioridade sobre os demais. Fracos reis fazem fraca a forte gente.
E claro que podemos ter alianças e relações comerciais, mas não daquelas em que somos espoliados e a obrigados a pagar tributos, como os 221 milhões (fora o resto) em armas americanas para entregar à Ucrânia, ou os 50 milhões de euros em drones fabricados no Reino Unido com o mesmo destino, ou que temos de abater frotas de barcos de pesca, desmantelar a agricultura e acabar com a indústria para receber fundos europeus, para serem gastos em carros alemães e a pagar a “convergência europeia” que a cada dia nos deixa mais pobres e já nem no nosso país conseguimos viver bem, tendo de servir os estrangeiros “de bem” que para cá vêm.
http://cm-sobral.pt/cilt/