(Pacheco Pereira, in Sábado, 01/07/2016)

Pacheco Pereira
1.O Reino Unido não é propriamente um país e uma democracia em que se repetem referendos tantas vezes quantas as necessárias até dar o resultado “certo”. Quem anda para aí, lá e cá, a sugerir isso está a brincar com o fogo.
2.A chave para que o Brexit seja pouco traumático, para todos, insisto para todos, é negociar com o Reino Unido sem ter a tentação de punir os eleitores britânicos pelo modo como votaram. A história da União Europeia nesta matéria é péssima e tem um nome: Grécia. E esta será a pedra de toque para saber se se aprendeu alguma coisa ou não.
3.É verdade que é mais fácil fazer concessões, mesmo com má vontade, ao Reino Unido pelo peso que tem em todos os aspectos da vida europeia. Mas, então aí surgirá um segundo critério, concessões e eventualmente revisão das famigeradas “regras europeias”, algumas das quais não estão em nenhum tratado, que tem que valer para países cujo futuro económico e de bem-estar social depende de um maior grau de “liberdade” para as suas decisões políticas legitimadas pelo voto nacional: Portugal, Espanha, Itália e Grécia. Continuar a amarrar estes países à estagnação europeia, é idêntico à longa sucessão de actos de menosprezo pelo Reino Unido que ajudou a criar o caldo do Brexit.
4.A existência ou não de sanções contra Portugal e Espanha vai ser tão importante para o futuro da União como o Brexit. Se elas forem impostas, a fractura entre o Norte o Sul da Europa encher-se-á de hostilidade à União, de ressentimento e de injustiça, com consequências ainda difíceis de prever. Não é sequer o custo das sanções, embora também seja, é o papel de uma União intransigente e punitiva contra os seus elos mais fracos.

5.É a verificação de que as nações da União não são iguais entre si, coisa que nós sabemos, mas que é muito mais agressiva se se materializar num acto que todos percebemos ser imposto aos fracos e nunca teria sido, como não foi no passado, imposto aos fortes. Isto não é aplicar procedimentos legais, é pura injustiça.
6.Outra curiosidade seria saber se as políticas da União Europeias fossem, mesmo que vagamente, keynesianas, se todos estes convertidos federalistas e estrénuos defensores das imposições europeias não estariam em guerra contra esse Leviatã que os obrigaria a investir e a fazer políticas sociais? Duvido muito.
7.Até porque é interessante ver como aqueles que em tudo são contra o Estado não compreendem que o mais parecido com um Estado, ainda por cima um Superestado, é a própria União Europeia.
8.Eu leio com atenção os propagandistas menores do “pafismo”, que ocupam a parte mais baixa da cadeia alimentar da opinião publicada, porque eles fazem e dizem aquilo que está na alma dos outros mais acima, mas que esses, por razões de carreira, de prudência e para passarem entre os pingos da chuva, não podem dizer mas desejariam dizer. E não me espanta que vários deles defendam as sanções para Portugal, como medida pedagógica e salutar contra os “excessos” da actual “geringonça”. Nem sequer lhes passa pela cabeça que as sanções são para o último ano eleitoral do PSD-CDS, ou seja foi o seu querido governo que criou a situação de “défice excessivo” que pode ser sancionada. Não lhes importa os pormenores, porque quem vai passar dificuldades é o governo actual – e… os portugueses.
9.Não me surpreende o resultado espanhol. Basta olhar para a distribuição dos votos para perceber duas coisas: uma é que toda a direita votou no PP, que foi capaz de bipolarizar, encolhendo os Ciudadanos; a esquerda está profundamente dividida e o seu ponto frágil é o PSOE. Este é um dos aspectos da crise eleitoral induzida pela crise global pós -2008: o bipartidarismo rompeu do lado dos socialistas e a unidade reforçou-se à direita, embora globalmente os grandes partidos “de governo” percam votos. Os partidos novos que surgiram, como o Podemos, não estão suficientemente estabilizados para ultrapassarem os socialistas.
10.Se olharmos os resultados espanhóis do lado português, a grande diferença é a liderança de Costa no PS, mais até do que o PS, mas os partidos que apoiam o governo devem olhar com atenção para o que se está a passar. Se houver eleições em Portugal devido a uma crise governativa, a direita vai unida às urnas. Não se distraiam com o CDS, porque no momento decisivo irá atrás do PSD. E como concentra todos os votos numa bipolarização imperfeita tem sempre condições para ganhar, mesmo que não tenha para governar. Até ao momento em que os eleitores se cansem da instabilidade política e prefiram seja quem for, mesmo um partido tão corrupto como o PP de Rajoy.
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