Isto não é com a Grécia. É com todos os democratas

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 29/06/2015)

         Daniel Oliveira

                         Daniel Oliveira

Aquilo a que assistimos nos últimos meses foi um simulacro de negociação. E isso só se tornou realmente evidente quando tudo falhou, mesmo depois da Grécia ceder em quase tudo e aceitar um acordo que continuava a austeridade. Aceitava continuar com as mesmas políticas que reduziram os salários em 37%, as pensões em 48%, os funcionários públicos em 30% e o PIB em 27%, fazendo o desemprego crescer para cima dos 25% e a dívida pública para os 177% do PIB.

Este acordo aceitava violar todos os compromissos eleitorais do Syriza. Aceitava cumprir metas que todos os gregos e todos os europeus sabem ser impossíveis até para os países que estão em muito melhor situação na Europa. O Governo grego pedia duas coisas em troca: poupar os mais pobres à sangria, tentando que fossem, desta vez, outros a pagar a fatura; e incluir na negociação a questão da dívida. Sem isto, tratava-se de continuar a destruição da Grécia, emprestando dinheiro para pagarem as dívidas e em dezembro os gregos lá estarem outra vez de mão estendida, ainda mais pobres do que antes. Isto, claro, depois da inevitável queda do Governo.

A súbita mudança de posição da Europa, de segunda para terça-feira, mostra que as instituições europeias queriam apenas obrigar o Governo grego a escolher entre a aceitação de um programa de austeridade em tudo semelhante ao que tem destruído a Grécia em troca de dinheiro para pagar dívidas e sobreviver uns meses ou a rutura e consequente saída do euro.

O QUE ACONTECER ESTA SEMANA COM A GRÉCIA DETERMINARÁ A VITÓRIA DEFINITIVA DE UM NOVO PROJETO EUROPEU. ELE INSINUA-SE DESDE MAASTRICHT. TORNOU-SE MAIS REAL COM O EURO. GANHOU FORÇA INSTITUCIONAL COM O TRATADO DE LISBOA. MAS É AGORA, NA FRIEZA DA PRÁTICA POLÍTICA, QUE SE TORNA CLARA A SUA NATUREZA

Em meses de negociações, a Europa não reconheceu o fracasso da troika na Grécia. Desde que o Syriza chegou ao Governo, o objetivo é obrigar a Grécia a fazer cair o Governo ou a sair do euro. Para quem tivesse dúvidas, o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, deixou tudo muito claro, logo no sábado: “o Parlamento grego continua a ter a possibilidade de tomar uma decisão sábia, que esperemos que leve a uma situação política diferente”. Há o plano A e o plano B: o plano A é fazer o governo do Syriza cair; o plano B é sair do euro. Tsipras recusou o plano A, deixando aos gregos a possibilidade de escolherem o plano B, que desejam. Sobre isto escreverei amanhã.

O recado da troika renascida é este: quem promete aos seus povos uma alternativa à austeridade, por mais evidente que tenha sido o seu falhanço, escolhe sair do euro. Não há debate, não há partilha de decisões, não há negociações. E todas as tentativas de aproximação que tentam mais do que uma humilhante rendição serão boicotadas. Como explica Paul Krugman, “neste momento são os credores, muito mais que o Syriza, que estão a mudar as balizas de sítio.”

O que acontecer esta semana com a Grécia determinará a vitória definitiva de um novo projeto europeu. Ele insinua-se desde Maastricht. Tornou-se mais real com o euro. Ganhou força institucional com o Tratado de Lisboa. Mas é agora, na frieza da prática política, que se torna clara a sua natureza. Ela não não se limita a pôr em perigo as democracias nacionais sem oferecer uma democracia europeia em troca. Ela neutraliza qualquer ideia de democracia, retirando ao povo o direito de decidir o seu futuro. Sem precisar de um soldado que seja. Basta manter um país como eterno devedor das instituições europeias, recusar qualquer solução que o possa retirar dessa situação de dependência e fazê-lo viver sob chantagem eterna e sem qualquer possibilidade de fazer qualquer escolha política. Nem sequer a possibilidade de escolher quem os governa. Isto não é um ataque à Grécia. Isto é o fim de uma União de Estados democráticos. Isto é um ataque a todos os europeus que acreditam na democracia.

Meu bom Pan

(José Pacheco Pereira, in Revista Sábado, 26/06/2015)

Pacheco Pereira

                 Pacheco Pereira

Isto não tem conserto.

Os costumes continuam os mesmos. Também não se esperava que mudassem tão depressa. Mas também não se esperava que piorassem tanto. É da crise. Ataca as cabeças com violência, destrói massa cinzenta, deixa-nos zombies. Está tudo zombie. Menos eu, mas vou a caminho. No dia em que perceberes isso, devolve-me as cartas.

Olha lá, esses curandeiros aborígenes não têm uma mezinha qualquer para a gente deitar pelo ar como se fosse um antrax benigno, para ver se espevita a alma a estes meus concidadãos? Ou uma reza? Ou um quebranto? Ou fazem descer uma santa qualquer, ou um deus do Olimpo para aparecer aos incréus e dizer-lhes que acordem do sono da razão, o tal que engendra monstros?

Os nossos monstros, como aquelas aves sinistras de Goya, estão no Governo a “bombar”, como diz o homem dos sete chapéus. O problema é que, por cá, é o desgraçado que dorme é que é apontado como o monstro e não as aves de sorriso tenebroso que andam em cima dele. Lá está ele, o homem comum, o homem qualquer, cansado, a dormir em cima de uma mesa: dorminhoco, improdutivo, piegas, preguiçoso, funcionário público, esbanjador, consumista, que vive a crédito, grego! Convinha que acordasses, senão eles comem-te a cabeça, visto que o corpo já está de banda sobre a mesa. Precisamos de um remédio forte, de um grito valente ou de uma multidão a cantar o Acordai do Lopes Graça. Mete lá uma cunha aos feiticeiros da nação aborígene, mas não expliques muita coisa em pormenor, senão eles não acreditam e o pó não serve. E pó que não serve já cá temos muito.

Pois está o dormente encostado à mesa, o dorminhoco, o improdutivo, o piegas, o preguiçoso, o funcionário público, o esbanjador, o consumista, o que vive a crédito, o grego, e as nossas gazetas, que o deviam manter acordado, fazem vénias aos monstros que dançam à volta deles. Os monstros atiram -lhes umas distracções e lá vão eles de rojo.

Ao que é a sério ninguém liga. “Não é novidade.” Claro que não é, já não é “novidade” há muito que não é “novidade”, mas deixou de existir? Existe, mas não é “novidade”. “Novidade” são estas brilhantes notícias de subidas de 0,1% numa estatística qualquer.

E então o fact checking é um espanto. O meu país tornou-se uma das maravilhas do mundo. É um exemplo universal, a caminho de concorrer com Singapura na perfeição económica e social. Os chineses, que são um exemplo de sólida democracia e boas práticas, que o digam.

Não te rias. Bom, acaba lá de te rir. Já acabaste? Pois é, tudo está bem, e o que não está bem, não está. Em cima da mesa só os números fantásticos para impregnarem por osmose o pobre homem, dormindo o sono da razão. Num artigo, alguém escreveu, chamando “palermas” aos que engolem estas coisas, que algumas das estatísticas que as agências de comunicação divulgam por conta do governo são do tipo “porque os noruegueses comeram menos peixe, os indianos jogam mais na lotaria”. Ora aí está uma boa correlação.

E depois, o “bombar” do Governo entra dentro das cabeças com toda a facilidade. Ainda hoje ouvi um jornalista a dizer, a propósito de um encontro entre o meu primeiro-ministro e o espanhol, ambos irmãos na cor da mesma reacção, que “pretendiam continuar com as reformas a favor dos seus países”. Não, não eram eles a dizer, era o texto da redacção. Que bonito! Que dedicado! Só que eu entendi o que eles disseram: ambos têm eleições e querem continuar a governar. Mas é muito mais bonito dizer “que querem continuar a fazer reformas a favor dos seus países”, que é o que eles são, grandes reformistas…

O mais espantoso é que estas mentiras do tamanho do teu continente de adopção provocam, quando muito, um encolher de ombros, e passa tudo adiante. Já estamos envenenados e, se calhar, alguém, muito antes de mim, já foi aos teus curandeiros e feiticeiros buscar uma mezinha, uma erva das bruxas para manter a razão a dormir e saírem os monstros todos. Vê lá tu se algum feiticeiro de Queensland anda com um Galo de Barcelos do ICEP ou com uma comenda qualquer…

Por correio separado, mandei-te uma garrafa de schnapps, daqueles que tu gostas e que nós fazemos bem. Já que me serves de Muro das Lamentações é justo que animes a tua solidão com aquele beber calmo e duradouro, que se prolonga pela noite fora e que te dá um sono em que nenhum monstro habita. Eu sei que estás a pensar que o mesmo português schnapps tem sido um remédio popular contra a nossa miséria. Mas, apesar de tudo, eu gosto mais desta gente nossa do que dos monstros que se pavoneiam à sua custa. Agora, que estes tempos são maus, isso estão.

Um abraço do teu amigo.

Mitos e falácias sobre a Grécia

(João Cari, in Facebook, 25/06/2015)

zeus

O momento que a Europa atravessa e as negociações que ainda decorrem com o novo governo grego deviam permitir um debate sério e sereno sobre – precisamente – a Europa que queremos. Mas não: salvo uma ou outra exceção, o debate está inquinado por um conjunto de falácias, por algumas meias verdades e por algumas verdades factuais que são utilizadas de forma intelectualmente desonesta para sustentar pontos de vista doutrinários ou, muitas vezes, apenas opiniões desgarradas que mais não são do que a face visível de um posicionamento de tipo clubístico nesta questão: como se a Europa “vs” Grécia fosse um Futebol Clube do Porto – Benfica ou um Benfica – Sporting.

Comecemos primeiro pelas falácias. Os gregos têm um salário mínimo e pensões claramente superiores às nossas e aos de vários países bálticos que recentemente aderiram ao projeto europeu. Pois têm. Mas ficar por aqui, como os economistas adoram fazer (os de “e” pequeno porque também os há de “E” grande) é ignorar a geometria social do problema, bem mais complexa do que aritmética “nominal” que decorre do facto que 750 euros por mês de salário mínimo representarem 50% mais do que 500 euros. O economistas adoram esta aritmética nominal e os políticos – então – idolatram-na: se nós ajustámos, se os gregos ainda têm pensões e salários mínimos (e médios) superiores aos nossos, porque razão não podem os gregos ver baixados esses mesmos salários e pensões? Parece legítimo pensar assim. Mas o problema é bem mais profundo do que parece: mesmo dando como bom que 750 euros na Grécia compram o mesmo que 500 euros em Portugal, os 250 euros a mais de rendimento que um trabalhador que aufere um salário mínimo na Grécia têm de servir para financiar uma série de bens e serviços que cá –melhor ou pior -ainda são assegurados pelo Estado. O que não parece caber na racionalidade das folhas de excel nem nas cabeças bem pensantes de muitos dos nossos políticos e fazedores de opinião é a importância crucial que esse maior rendimento disponível nominal, providenciado por salários mínimos e pensões mais elevados, possui na manutenção da alguma (mas cada vez menor) coesão social, intergeracional, num país em que a taxa de desemprego entre os jovens é de 50% e a taxa de referente a toda a população ativa ultrapassa os 30%. Comparar a realidade grega com a nossa, a este nível, é assim, errado: nós não somos a Grécia mas esta frase, tantas vezes proferida por muitos, não pode servir apenas para sustentar os argumentos que lhe são convenientes. Tem, portanto, de servir para sustentar todos os argumentos, incluindo aqueles que, como o meu, pretende realçar a importância de se possuir um maior rendimento disponível num pais em que a capacidade de o Estado fornecer serviços a um preço comportável praticamente desapareceu: a esmagadora maioria dos medicamentos já não são comparticipados- quando os há – e quando não os há várias pessoas acabam por sucumbir a doenças crónicas, já para não falar da degradação dos restantes serviços públicos. Claro que não vale a pena, sequer, incluir na folha de excel os custos sociais desta realidade trágica: designemo-los por termos de perturbação em regressões estatísticas ou meros danos colaterais, que poderiam não existir caso os gregos fossem um povo decente, trabalhador e honrado.

As falácias continuam por aí fora, intoxicando o debate e adiando o inevitável: como vai a Europa sair do buraco que ela mesma cavou? Mas voltemos à Grécia, porque voltando à Grécia estamos a discutir a Europa. Como bons cristãos, todos achamos que um indivíduo deve honrar as suas dívidas. Pois deve. Eu honro as minhas e até “ajustei” para que o possa continuar a fazer. Então não se paga o que se deve? Claro que se deve pagar. No entanto, esta questão moral entronca numa outra, de caráter eminentemente prático – de confronto com a realidade (esse exercício de confronto com a realidade que o nosso presidente da república exulta os responsáveis políticos gregos a fazerem): como criar riqueza que permita ir pagando esse monstro que é a dívida grega? A falácia aqui é mais fácil de identificar: se não dás de comer à vaca, um dia a vaca deixa de dar leite. Esta metáfora é uma boa metáfora, mas esconde uma parte do problema. A Grécia, país que abraçou em definitivo (?) a democracia em 1974, como nós, foi governada nos últimos 40 anos por uma rapaziada composta pelos DDT lá do sítio, invariavelmente integrando o PASOK e a Nova Democracia, que punha e dispunha do país, designadamente tendo utilizado a máquina do Estado para dois efeitos: primeiro, para encher de “boys” essa mesma máquina criando empregos artificiais que apenas fizeram aumentar a despesa pública e, depois, para pouco ou nada fazer (leia-se, governar) no sentido que todos os gregos pagassem impostos porque, para eles, os DDT, todos os gregos não pagarem impostos era a melhor forma de assegurarem que eles próprios não pagavam impostos. Tão simples quanto isso. Claro que, mais recentemente, a culpa é do Syriza, que, à custa da estratégia negocial do Sr. Varoufakis, baseada em pura teoria dos jogos (alegam os mais entendidos) foi adiando as negociações, gastando 6 meses para nada, assim piorando o estado do país. Olha, finalmente um ministro das finanças utilizou uma área da ciência económica num processo negocial e uma parte da nossa opinião publica horroriza-se por isso mesmo. Curioso: deve ser a primeira vez que vejo alguém condenar o uso da ciência na defesa dos seus legítimos interesses. Atrasou o processo 6 meses, quando os seus antecessores atrasaram a Grécia durante 40 anos. Mas a culpa é dele, note-se.

Há mais falácias (como a que decorre de que, se o programa de ajustamento funcionou em Portugal e na Irlanda, então só não funcionou na Grécia por culpas dos gregos ou, ainda, que o novo governo grego afirmou que não pagava a dívida) mas fico-me por aqui, hoje. Não sem antes lembrar que os desequilíbrios provocados pela adoção de uma moeda única no espaço europeu já tinha sido objeto de enumeração por parte de um Economista (com “E” grande), de seu nome Robert Mundell, prémio Nobel em 1961. 1961: 39 anos antes da adoção da moeda única por parte do nosso país. Um tremendo erro económico, que esta a sair muito caro aos gregos, que nos sairá ainda mais caro do que já nos está a sair e, possivelmente, à Espanha e até à Itália.

Enquanto todos andámos a puxar pela nossa equipa: “Ei, O Porto jogou melhor ou o Benfica é que jogou melhor ou, ainda, a culpa foi do árbitro”, perdemos tempo precioso que devia ser usado a discutir que Europa queremos: se uma Europa em que os ricos mandam nos pobres, numa espiral de concessão de empréstimos para pagar outros empréstimos, enquanto se força um povo a comer cada vez menos e a morrer cada vez mais cedo (como estará a esperança de vida grega, agora, quando comparada com a de há 4 anos, alguém sabe? E a mortalidade infantil?), tornando progressivamente esse povo uma réplica “light” do retratado por Victor Hugo nos “Miseráveis”. Povo esse que se verá forçado a vender “nada” no mercado da sua cidade, como tão bem satirizou Mel Brooks na “Mais Louca História do Mundo”. Esse mesmo povo que, no romance de Victor Hugo, luta contra a tirania absolutista de uma classe privilegiada e sem qualquer tipo de sentido humanista porque já nada tem a perder. Todos nos lembramos como termina este romance: Jean Valjean, o comissário de polícia que dedicou parte da sua vida a tentar prender um homem por ter escapado da cadeia, condenado por um crime que efetivamente tinha cometido, acaba por conseguir detê-lo. Mas, decide libertá-lo, ao constatar que o seu futuro seria sombrio face à revolução que tinha então explodido. O fim dos seus privilégios, somado ao facto de, no seu interior, nunca ter esquecido de que aquele criminoso condenado o poderia ter morto e decidiu poupar-lhe a vida, fê-lo tomar a decisão de se atirar ao Sena, morrendo afogado.

O que nós devíamos estar agora a fazer era debater, portanto, se a Europa é o Jean Valjean, a Grécia o criminoso condenado ou, se pelo contrário, a Europa pode ser um espaço de liberdade, igualdade e fraternidade. Ideais estes que, na cabeça do Sr. Shauble, parecem não ser tão importantes como a perda de rendibilidade para os acionistas da Deutche Telecom, que controla a maior operadora de telecomunicações grega, perda essa que resultaria da aplicação de uma taxa de imposto mais elevada para empresas com lucros anuais acima dos 500.000 euros, proposto pelo governo grego mas rejeitado pelo Eurogupo que, sub-repticiamente, o Sr. Shauble domina.

Talvez a Europa tenha percebido que a saída da Grécia do euro seja um suicídio. Restam-nos uma certeza e uma dúvida: a certeza de que o Sr. Shauble nunca terá o sentido de honra de Jean Valjean e a dúvida sobre se a tirania absolutista que o inefável ministro das finanças alemão (esse economista de “e” pequeno) impõe à Europa pobre não será um início de um processo, dificilmente reversível, em que a Europa será um continente mais perigoso e mais vulnerável às ameaças externas. E, por consequência, o mundo um lugar ainda menos recomendável.