Meu bom Pan

(José Pacheco Pereira, in Revista Sábado, 26/06/2015)

Pacheco Pereira

                 Pacheco Pereira

Isto não tem conserto.

Os costumes continuam os mesmos. Também não se esperava que mudassem tão depressa. Mas também não se esperava que piorassem tanto. É da crise. Ataca as cabeças com violência, destrói massa cinzenta, deixa-nos zombies. Está tudo zombie. Menos eu, mas vou a caminho. No dia em que perceberes isso, devolve-me as cartas.

Olha lá, esses curandeiros aborígenes não têm uma mezinha qualquer para a gente deitar pelo ar como se fosse um antrax benigno, para ver se espevita a alma a estes meus concidadãos? Ou uma reza? Ou um quebranto? Ou fazem descer uma santa qualquer, ou um deus do Olimpo para aparecer aos incréus e dizer-lhes que acordem do sono da razão, o tal que engendra monstros?

Os nossos monstros, como aquelas aves sinistras de Goya, estão no Governo a “bombar”, como diz o homem dos sete chapéus. O problema é que, por cá, é o desgraçado que dorme é que é apontado como o monstro e não as aves de sorriso tenebroso que andam em cima dele. Lá está ele, o homem comum, o homem qualquer, cansado, a dormir em cima de uma mesa: dorminhoco, improdutivo, piegas, preguiçoso, funcionário público, esbanjador, consumista, que vive a crédito, grego! Convinha que acordasses, senão eles comem-te a cabeça, visto que o corpo já está de banda sobre a mesa. Precisamos de um remédio forte, de um grito valente ou de uma multidão a cantar o Acordai do Lopes Graça. Mete lá uma cunha aos feiticeiros da nação aborígene, mas não expliques muita coisa em pormenor, senão eles não acreditam e o pó não serve. E pó que não serve já cá temos muito.

Pois está o dormente encostado à mesa, o dorminhoco, o improdutivo, o piegas, o preguiçoso, o funcionário público, o esbanjador, o consumista, o que vive a crédito, o grego, e as nossas gazetas, que o deviam manter acordado, fazem vénias aos monstros que dançam à volta deles. Os monstros atiram -lhes umas distracções e lá vão eles de rojo.

Ao que é a sério ninguém liga. “Não é novidade.” Claro que não é, já não é “novidade” há muito que não é “novidade”, mas deixou de existir? Existe, mas não é “novidade”. “Novidade” são estas brilhantes notícias de subidas de 0,1% numa estatística qualquer.

E então o fact checking é um espanto. O meu país tornou-se uma das maravilhas do mundo. É um exemplo universal, a caminho de concorrer com Singapura na perfeição económica e social. Os chineses, que são um exemplo de sólida democracia e boas práticas, que o digam.

Não te rias. Bom, acaba lá de te rir. Já acabaste? Pois é, tudo está bem, e o que não está bem, não está. Em cima da mesa só os números fantásticos para impregnarem por osmose o pobre homem, dormindo o sono da razão. Num artigo, alguém escreveu, chamando “palermas” aos que engolem estas coisas, que algumas das estatísticas que as agências de comunicação divulgam por conta do governo são do tipo “porque os noruegueses comeram menos peixe, os indianos jogam mais na lotaria”. Ora aí está uma boa correlação.

E depois, o “bombar” do Governo entra dentro das cabeças com toda a facilidade. Ainda hoje ouvi um jornalista a dizer, a propósito de um encontro entre o meu primeiro-ministro e o espanhol, ambos irmãos na cor da mesma reacção, que “pretendiam continuar com as reformas a favor dos seus países”. Não, não eram eles a dizer, era o texto da redacção. Que bonito! Que dedicado! Só que eu entendi o que eles disseram: ambos têm eleições e querem continuar a governar. Mas é muito mais bonito dizer “que querem continuar a fazer reformas a favor dos seus países”, que é o que eles são, grandes reformistas…

O mais espantoso é que estas mentiras do tamanho do teu continente de adopção provocam, quando muito, um encolher de ombros, e passa tudo adiante. Já estamos envenenados e, se calhar, alguém, muito antes de mim, já foi aos teus curandeiros e feiticeiros buscar uma mezinha, uma erva das bruxas para manter a razão a dormir e saírem os monstros todos. Vê lá tu se algum feiticeiro de Queensland anda com um Galo de Barcelos do ICEP ou com uma comenda qualquer…

Por correio separado, mandei-te uma garrafa de schnapps, daqueles que tu gostas e que nós fazemos bem. Já que me serves de Muro das Lamentações é justo que animes a tua solidão com aquele beber calmo e duradouro, que se prolonga pela noite fora e que te dá um sono em que nenhum monstro habita. Eu sei que estás a pensar que o mesmo português schnapps tem sido um remédio popular contra a nossa miséria. Mas, apesar de tudo, eu gosto mais desta gente nossa do que dos monstros que se pavoneiam à sua custa. Agora, que estes tempos são maus, isso estão.

Um abraço do teu amigo.

2 pensamentos sobre “Meu bom Pan

  1. Estas mentiras do tamanho do mundo até arranjam explicaçoes “cientilogicas” para onde houve maior aumento na compra de carros novos ter sido a falida gre..perdão Portugal.
    Há quem as venda como analises politicas.

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    • Você continua sem discutir os textos. Diz que é mentira e ponto final. Não pega em nenhuma das asserções do texto. Cristo era falível. Mas você é melhor mudar de nome, você é o Papa. E você é infalível. Por dogma. Análise política é o que você não faz. Análise faz zero. Política só se for ao nível do grau zero. Ou seja: propaganda. É um job como outro qualquer mas ficava-lhe bem fazer uma declaração de interesses. Era mais honesto.

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