O "SÓCRAS" E O SALGARI

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(Amadeu Homem, in Facebook, e Página do MR5O, 28/05/2015)

Amadeu Homem

     Amadeu Homem

Vamos reconstituir. Os “Diários da República” do “caso Sócras” – que se esparramam pelo “Sol”, pelo “i” e pelo “da Manha” – noticiaram que o tal Santos Silva, amigo do Sócras, havia sido contemplado com uma pulseirinha e mandado para casa. Mas o Sócras não teve a mesma benesse. Dizem os tais “Diários da República” que os Doutos Magistrados quiseram punir, por esta via, as “incontinências verbais” do preso 44, materializadas em depoimentos e entrevistas. Ou seja, o competente Rosário, o impoluto Alexandre e sabe-se lá mais quem estão actuar, neste caso, como os antigos professores da instrução primária (não desfazendo) : ou seja, para que os meninos não levem palmatoadas, terão de se “portar bem”. Como o tal Silva não abriu a boca para nenhum jornal – sendo sabido que não foi por ele que a “imprensa da magistratura” narrou e continua a narrar pormenorizadamente os diversos lances processuais – como ele “fechou a matraca”, teve o bónus de ser mandado para penates. O Sócras, não ! Porque é rebelde; porque é linguarudo ; porque diz mal deste e daquele ; porque devia ter estado calado e não esteve. Ora toma, oh Sócras ! Tens a mania que és um “animal feroz” , mas há quem pretenda a todo o custo domar-te. Qualquer dia, fazem-te o que fizeram ao Carlos Cruz. Para ires para casa terás de verbalizar a tua culpa. Não verbalizas? Então, não vais.

Claro que para um não iniciado como eu nestas altas cavalarias da Justiça (?), há pormenores que me parecem delirantes. Eu julgava que o papel dos magistrados e inquiridores era o de juntarem provas evidentes de culpabilidade, daquelas esmagadoras, sem escapatória possível. E que era em função da existência dessas provas que os arguidos ( ou putativos culpados ou lá o que são ) continuavam ou não presos. Sou um ignorante. Não é nada assim.

Se um gajo abre o bico, mesmo que seja para se defender, cai na impopularidade e no “verdete” junto dos Doutíssimos Magistrados. E continua preso, até ao máximo limite possível.
A gaita é se o Sócras não morre em tempo oportuno. A gaita toda é essa. É que será de calcular que o preso 44, com o seu mau génio, continue a dar entrevistas e a dizer mal dos guardas, dos meirinhos, dos desembargadores, do Citius, da Doutíssima Chefe Vidal e “tutti quanti”. Partindo do princípio de que, culpado ou inocente, o Sócras irá falar, o que eu prevejo é que o Rosário, o Alexandre e os Doutíssimos demais lhe levantem processos sucessivos. Para o manter calado. Isso será óptimo para os que quiserem ganhar o resto da sua vida a escreverem novelas em episódios, do género dos romances do Emílio Salgari : “O Corsário Negro” ; ” A Noiva do Corsário Negro” ; “O Filho do Corsário Negro”; “O Inimigo do Corsário Negro” … e assim por diante.
Mas o que eu não entendo MESMO é o seguinte: o tal Silva criou contas bancárias, supostamente fictícias, para a recolha dos milhões do Sócras. Sendo culpado disto, foi benevolamente recambiado para casa. E o Sócras declarou que essas contas eram todas do Silva. E que o dinheiro também era do Silva. Falou muito. E mal. Devia ter confessado, para facilitar a vida a todos os Doutíssimos. Como não confessou, continua preso.
Isto que eu digo é baseado no que eu li nos “Diários das Repúblicas” para-oficiais, ou seja, no “Sol”, no “i”, no “da Manha” , etc. Se errei, tenho de ser perdoado. Limitei-me a crer no que me foi contado. Não sei bem por quem, por que fontes. Mas isso daria um Salgari completamente consagrado a narrar a vida da Justiça em Portugal até à undécima geração. Pelo menos.

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Os espanhóis são imunes a vacinas?

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 26/05/2015)

         Daniel Oliveira

                         Daniel Oliveira

Ada Colau tornou-se numa figura conhecida em toda a Espanha como rosto contra os despejos feitos pelos bancos. Será, eleita pela candidatura Barcelona en Comú, alcaide da capital catalã. Em lágrimas, anunciou: “Somos uma revolução democrática imparável.” Sou cuidadoso com estes entusiasmos. Os últimos anos estão repletos de anúncios de revoluções cívicas. E a única revolução que segue firme é a que está a destruir o Estado Social que os europeus construíram na segunda metade do século XX.

Ainda assim, só um cego não percebe que alguma coisa de muito profundo está a acontecer nos sistemas político-partidários europeus e, em especial, nos que estão a sentir maior pressão das políticas austeritárias. Não sei se e como isso acontecerá em Portugal. Mas vejo demasiadas pessoas a continuarem a passar ao lado de um facto: a inacreditável quantidade de eleitores que, nos estudos de opinião, contrariando a opinião publicada, vê como bons olhos o surgimento de novas escolhas políticas e põe a possibilidade de mudar o seu voto para o que seja novidade.

COMO SE VÊ PELOS RESULTADOS ELEITORAIS DOS MOVIMENTOS APOIADOS PELO PODEMOS, A EXPERIÊNCIA GREGA NÃO ESTÁ A ASSUSTAR OS ESPANHÓIS

Mas é natural que muitas coisas passem ao lado de quem faz análise. O material com que trabalham não tem sido de grande qualidade. A comunicação social tem apresentado a situação política grega de forma totalmente enviesada, fazendo sucessivos anúncios de quedas de popularidade do Syriza. No entanto, este continua, nas sondagens, a ter o apoio da grande maioria dos gregos (não sei se isso alguma vez aconteceu com a Nova Democracia) e surge, em intenções de voto, com a mesma ou mais força que teve nas urnas. Na generalidade das sondagens, o Syriza está mais forte, e não menos, do que no dia em que ganhou as eleições. O seu principal concorrente, pelo contrário, não para de se afundar, estando agora próximo dos 22% dos votos e aumentando cada vez mais a distância que o separa do Syriza. A vacina grega, pensada pelos poderes europeus, ainda não resultou na Grécia.

Mas não foi apenas na Grécia que ela não resultou. Um dos principais objetivos dos governos espanhóis e portugueses, no apoio às principais potências europeias durante o processo negocial com a Grécia (onde conseguiram ser ainda mais implacáveis), era impedir que acontecesse qualquer processo de alteração do “satus quo” político-partidário em Espanha que depois se espalhasse pela Europa. Cercar a Grécia passava também por impedir mudanças políticas noutros países europeus. Como se viu ontem, isso não está a resultar.

É que não foi apenas em Barcelona que uma candidatura apoiada pelo Podemos fez tremer o poder. Foi por pouco que Ahora Madrid não conseguiu na capital do país o mesmo que a Barcelona en Comú. O PP perdeu a maioria e vai ter de dividir os cacos com alguém. A perda de maiorias absolutas repetiu-se por todo o país. PSOE e PP perderam mais de três milhões de votos. E o Ciudadanos, um movimento cívico de centro-direita, também brilhou.

Como se vê pelos resultados eleitorais dos movimentos apoiados pelo Podemos, a experiência grega não está a assustar os espanhóis. Na realidade, suspeito que, ao contrário do que esperavam os que querem fazer da Grécia um exemplo, não está a assustar ninguém. Talvez o eleitorado esteja a começar a ficar imune a vacinas deste tipo.

Vamos pagar para privatizar a TAP

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 25/05/2015)

Nicolau Santos

       Nicolau Santos

Na sua fúria privatizadora, que já mais que duplicou os 5000 milhões que estavam contemplados no memorando de entendimento com a troika, o Governo entrou agora num sprint alucinante para despachar para o setor privado tudo o que seja da esfera pública. Ora como se sabe, depressa e bem há pouco quem. No caso da TAP avolumam-se os indícios de que vai acabar mal.

Felizmente, não apareceu só uma proposta, como aquando da anterior tentativa de venda da transportadora aérea, mas três. Uma já caiu, a que era liderada por Miguel Pais do Amaral, a única que tinha algum toque nacional. As outras duas, a da Azul e da Avianca, falam brasileiro – e o mínimo que se pode dizer é que nas duas experiências anteriores em que estiveram envolvidos investidores brasileiros, Cimpor e PT, as coisas não correram nada bem.

Mas demos de barato que uma vez não são vezes e que agora a TAP ficará em boas mãos, qualquer que seja a escolha. De parecido as propostas falam num rápido reforço da frota e na reserva de uma percentagem de capital para os trabalhadores, para além, claro, de algum dinheiro que tem de ser investido rapidamente na companhia, dada a situação dramática porque passa a tesouraria da empresa. Será que basta?

Olhemos para a entrevista que o candidato já afastado deste processo, Miguel Pais do Amaral, deu ao Jornal de Negócios. Diz ele, entre outras coisas: «Aquilo que aconselha a experiência de privatizar uma empresa com estas características é que se deve sentar à mesa o vendedor, os credores, os trabalhadores e o comprador. O comprador não está disposto a passar um cheque sem garantir estabilidade laboral nem sem ter a garantia de que os credores estão de acordo com o plano e que eventualmente o vendedor assume alguma da dívida».

O COMPRADOR DA TAP VAI QUERER QUE O ESTADO ASSUMA PARTE DA DÍVIDA; QUE GARANTA QUE AS ATUAIS CONDIÇÕES DE FINANCIAMENTO NÃO SEJAM ONERADAS; E QUE OS CREDORES NÃO EXIJAM DE IMEDIATO AQUILO QUE TÊM A HAVER

E mais à frente: «É extraordinariamente difícil (cumprir o caderno de encargos). Não está previsto que o Estado assuma dívida, mas não sei se algum dos proponentes está disponível para ficar com a TAP sem que o Estado Assuma ou garanta uma parte. Este processo pode não chegar ao fim, atendendo a uma enorme pressão de tempo, à instabilidade laboral, à situação da empresa e à situação dos credores».

Pais do Amaral insiste várias vezes na mesma tecla: «Considero altamente provável (que o Estado tenha de assumir parte da dívida) para que a empresa seja privatizada»; «não há alternativa» (a que o Governo faça cedências)». E até estima o valor em causa: de 200 a 400 milhões – o que até parece pouco para os mil milhões que constam do passivo da empresa.

É claro que podemos desvalorizar tudo o que diz Pais do Amaral e levar as suas palavras à conta de dor de cotovelo. Mas um mínimo de experiência e de bom senso leva-nos a acreditar nisso mesmo: que o comprador vai querer que o Estado assuma parte da dívida; que garanta que a mudança de dono não leve a que os bancos que financiam a empresa onerem as condições de financiamento; e que os credores não exijam de imediato aquilo que têm a haver.

Por outras palavras, para vender a TAP antes das eleições legislativas, como pretende, o Governo vai ter que acabar por ceder nalgum ou nalguns destes pontos, sob pena de não conseguir cumprir a sua promessa. E ao fazê-lo é não só provável que o processo seja menos bem sucedido do que poderia ser se fosse executado com mais tempo, como que sobre alguma fatura para os do costume: os contribuintes. Entre 200 ou 400 milhões, como estima Pais do Amaral. Coisa pouca para quem está a pagar quase 5 mil milhões pelo BPN e irá pagar alguma coisa pelo BES.