Os espanhóis são imunes a vacinas?

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 26/05/2015)

         Daniel Oliveira

                         Daniel Oliveira

Ada Colau tornou-se numa figura conhecida em toda a Espanha como rosto contra os despejos feitos pelos bancos. Será, eleita pela candidatura Barcelona en Comú, alcaide da capital catalã. Em lágrimas, anunciou: “Somos uma revolução democrática imparável.” Sou cuidadoso com estes entusiasmos. Os últimos anos estão repletos de anúncios de revoluções cívicas. E a única revolução que segue firme é a que está a destruir o Estado Social que os europeus construíram na segunda metade do século XX.

Ainda assim, só um cego não percebe que alguma coisa de muito profundo está a acontecer nos sistemas político-partidários europeus e, em especial, nos que estão a sentir maior pressão das políticas austeritárias. Não sei se e como isso acontecerá em Portugal. Mas vejo demasiadas pessoas a continuarem a passar ao lado de um facto: a inacreditável quantidade de eleitores que, nos estudos de opinião, contrariando a opinião publicada, vê como bons olhos o surgimento de novas escolhas políticas e põe a possibilidade de mudar o seu voto para o que seja novidade.

COMO SE VÊ PELOS RESULTADOS ELEITORAIS DOS MOVIMENTOS APOIADOS PELO PODEMOS, A EXPERIÊNCIA GREGA NÃO ESTÁ A ASSUSTAR OS ESPANHÓIS

Mas é natural que muitas coisas passem ao lado de quem faz análise. O material com que trabalham não tem sido de grande qualidade. A comunicação social tem apresentado a situação política grega de forma totalmente enviesada, fazendo sucessivos anúncios de quedas de popularidade do Syriza. No entanto, este continua, nas sondagens, a ter o apoio da grande maioria dos gregos (não sei se isso alguma vez aconteceu com a Nova Democracia) e surge, em intenções de voto, com a mesma ou mais força que teve nas urnas. Na generalidade das sondagens, o Syriza está mais forte, e não menos, do que no dia em que ganhou as eleições. O seu principal concorrente, pelo contrário, não para de se afundar, estando agora próximo dos 22% dos votos e aumentando cada vez mais a distância que o separa do Syriza. A vacina grega, pensada pelos poderes europeus, ainda não resultou na Grécia.

Mas não foi apenas na Grécia que ela não resultou. Um dos principais objetivos dos governos espanhóis e portugueses, no apoio às principais potências europeias durante o processo negocial com a Grécia (onde conseguiram ser ainda mais implacáveis), era impedir que acontecesse qualquer processo de alteração do “satus quo” político-partidário em Espanha que depois se espalhasse pela Europa. Cercar a Grécia passava também por impedir mudanças políticas noutros países europeus. Como se viu ontem, isso não está a resultar.

É que não foi apenas em Barcelona que uma candidatura apoiada pelo Podemos fez tremer o poder. Foi por pouco que Ahora Madrid não conseguiu na capital do país o mesmo que a Barcelona en Comú. O PP perdeu a maioria e vai ter de dividir os cacos com alguém. A perda de maiorias absolutas repetiu-se por todo o país. PSOE e PP perderam mais de três milhões de votos. E o Ciudadanos, um movimento cívico de centro-direita, também brilhou.

Como se vê pelos resultados eleitorais dos movimentos apoiados pelo Podemos, a experiência grega não está a assustar os espanhóis. Na realidade, suspeito que, ao contrário do que esperavam os que querem fazer da Grécia um exemplo, não está a assustar ninguém. Talvez o eleitorado esteja a começar a ficar imune a vacinas deste tipo.

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