Nove garantias e um bacalhau

(Nicolau Santos, in Expresso, 06/06/2015)

Nicolau Santos

    Nicolau Santos

Paulo Portas apresentou as nove garantias com que a maioria se vai apresentar às eleições de outubro. Dissequemo-las.

1 “Garantimos que Portugal não voltará a depender de intervenções externas e não terá défices excessivos.” Ora, isto é válido para quanto tempo? Funciona sempre? Só por quatro anos? Só com esta maioria? Como a resposta deve ser positiva, o que se deseja é longa vida e muita saúde aos drs. Pedro Passos Coelho e Paulo Portas. E que ganhem muitas eleições.

2 “Garantimos uma legislatura de crescimento económico, 2% a 3% nos próximos quatro anos.” Mas isto, claro, “se não existirem crises internacionais com efeitos sistémicos”. Não é grande garantia, mas reconhece que os acontecimentos externos têm algum impacto na nossa economia.

3 “Garantimos uma legislatura em que a redução continuada do desemprego seja a prioridade máxima.” Ainda bem, porque nos últimos quatro anos as políticas prosseguidas só podiam redundar numa explosão do desemprego, a que se tem seguido uma redução gradual. Mas resolver o desemprego com emigração, cursos temporários de formação profissional, pessoas que desistem de procurar emprego e são eliminadas das estatísticas e a criação de empregos precários e pouco qualificados pagos em média a €800 não resolve os problemas de competitividade do país.

4 “Garantimos a eliminação progressiva da sobretaxa de IRS e a recuperação gradual do rendimento dos funcionários públicos.” No fundo, a austeridade com esta maioria acaba em 2019, desmentindo várias declarações de Passos Coelho anunciando o fim de austeridade e que as medidas seriam pontuais. É caso para abrir as garrafas de champanhe. A austeridade vai durar somente nove anos!

Vamos colocar na Constituição a regra de ouro da dívida pública que vai ser violada até 2035? E ficámos a saber que com esta maioria a austeridade acaba em 2019

5 “Garantimos que as reformas na Segurança Social serão feitas por consenso e respeitarão a jurisprudência do Tribunal Constitucional.” E os €600 milhões que a ministra das Finanças disse ser necessário cortar nas pensões? Já não são necessários? Ou só são cortados se o PS concordar?

6 “Garantimos um Estado social viável e com qualidade.” Ainda bem, porque o que se fez durante estes quatro anos foi enfraquecer a função social do Estado, cortando o subsídio de desemprego, o rendimento social de inserção, o abono de família em todas as prestações sociais.

7 “Garantimos pugnar por inscrever na Constituição um limite à dívida pública.” Ora, com a dívida pública nos 130% do PIB, a redução para os 60% deverá demorar 20 anos, desde que existam excedentes primários anuais de 1,5% a 2%. Vamos colocar na Constituição uma regra que vai ser violada até 2035?

8 “Garantimos particular importância às questões da demografia, da qualificação das pessoas e da coesão do território.” Na atual legislatura a demografia levou uma forte machadada com a emigração de mais de 300 mil pessoas em idade ativa. Na qualificação das pessoas, o Governo liquidou as Novas Oportunidades e não criou nada em contrapartida.

9 “Garantimos um Estado mais justo e eficiente.” Seguramente que todos os portugueses subscrevem este ponto. Tem toda a razão o dr. Portas, estas garantias são o contrário dos “programas feitos com base num leilão de promessas, como se se tratasse de vender bacalhau a pataco”.


A luta de Salvador Guedes

Salvador Guedes preparou-se pessoal e profissionalmente para ser o sucessor do pai, Fernando Guedes, à frente dos destinos da Sogrape. Com os irmãos, Manuel e Fernando, tem conduzido a fase que caracteriza como de exportação do processo produtivo, depois de o pai ter consolidado a profissionalização e a evolução técnica da companhia e de o avô ter sido responsável pela criação do vinho mais conhecido a nível internacional da Sogrape, o Mateus Rosé. Infelizmente, não será ele a liderar o final desse processo. No Natal de 2011, teve os primeiros sintomas, em julho de 2012 soube que tinha esclerose lateral amiotrófica. Hoje é o rosto do projeto “Todos contra ELA”, que visa apoiar a APELA (Associação Portuguesa de Esclerose Lateral Amiotrófica). Na corajosa entrevista que deu a Ana Sofia Fonseca (Revista E da semana passada), Salvador Guedes não se mostra amargurado nem revoltado, antes luta contra o avanço da doença e procura ajudar outros que sofrem do mesmo mal. Há pessoas que não merecem o mal que a vida lhes reserva. Salvador Guedes é seguramente uma delas. Que vença a luta que trava é tudo o que se deseja.


Há fome em Portugal

O sucesso que o Banco Alimentar Contra a Fome tem vindo a conseguir em Portugal é preocupante. Com efeito, se hoje existem 21 bancos alimentares no continente, Açores e Madeira, isso só pode significar que as pessoas com carências alimentares (isto é, que não comem uma refeição decente por dia) estão a aumentar exponencialmente, apesar do maravilhoso sucesso do programa de ajustamento desenhado pela troika e entusiasticamente aplicado pelo Governo. Os bens alimentares recolhidos são entregues a 2650 instituições de solidariedade social para apoiar 425 mil pessoas, mais 100 mil que há três anos e mais do dobro de há dez anos. E há ainda as 800 cantinas sociais financiadas pelo Estado. Ou seja, pelo menos 5% da população portuguesa, meio milhão de pessoas, passa fome — que só é minorada por este notável esforço de solidariedade privada. Mas a quem é que interessa isto? São os danos colaterais do sucesso português.


Quem me quiser há-de saber as conchas

a cantiga dos búzios e do mar.

Quem me quiser há-de saber as ondas

e a verde tentação de naufragar.

Quem me quiser há-de saber as fontes,

a laranjeira em flor, a cor do feno,

a saudade lilás que há nos poentes,

o cheiro de maçãs que há no inverno.

Quem me quiser há-de saber a chuva

que põe colares de pérolas nos ombros

há-de saber os beijos e as uvas

há-de saber as asas e os pombos.

Quem me quiser há-de saber os medos

que passam nos abismos infinitos

a nudez clamorosa dos meus dedos

o salmo penitente dos meus gritos.

Quem me quiser há-de saber a espuma

em que sou turbilhão, subitamente

— Ou então não saber coisa nenhuma

e embalar-me ao peito, simplesmente.

 (Rosa Lobato de Faria, in ‘Quem me quiser há-de saber as conchas…’ in “A Noite Inteira Já Não Chega — Poesia 1983-2010”, Guimarães 2012, Babel)

A reinvenção de Passos

(Pedro Adão e Silva, in Expresso, 06/06/2015)

Pedro Adão e Silva

                  Pedro Adão e Silva

Passos, que se apresentou como homem de ruturas e no Governo se revelou socialmente insensível, pretende agora recandidatar-se como referencial de estabilidade

Quando surgiu como candidato a líder do PSD, Passos Coelho surpreendia pela combinação de voluntarismo ideológico com radicalismo pueril. A sua proposta política não passava por gerir as coisas tal como tinham sido geridas. O propósito era mesmo mudar, para citar o título do livro que então publicou. Mudar o Estado, a sociedade portuguesa e, supõe-se, também os portugueses. Tudo com a densidade de pensamento que tem acompanhado a sua carreira.

Depois, aproximou-se a campanha eleitoral e com ela um chorrilho de falsas promessas. O candidato a líder de partido impetuoso, armado de uma revisão constitucional refundadora, era substituído pelo futuro primeiro-ministro que garantia que se fosse Governo não seria “necessário despedir pessoas nem cortar mais salários”; até porque era chegada a altura de “cortar em gorduras e de poupar. O Estado vai ter de fazer austeridade, basta de aplicá-la só aos cidadãos”. Afinal, tinha de “se dizer basta: a austeridade não pode incidir sempre no aumento de impostos e no corte de rendimento”.

Alçado ao Governo, emergiu outro Passos Coelho — diferente do pós-jota candidato a líder do PSD e do futuro primeiro-ministro em campanha. O palco político passava a ser ocupado pelo homem austero, desprovido de compaixão, que dava asas ao experimentalismo nas políticas e via no desemprego “uma oportunidade”, aconselhava os portugueses a serem “menos piegas” e a deixarem a sua zona de conforto, emigrando. A imagem colou-se-lhe, e mesmo quando os portugueses lhe reconhecem a obstinação, não esquecem a falta de humanismo e a distância perante o sofrimento concreto das pessoas. Sintomaticamente, “Somos o Que Escolhemos Ser”, essa obra de fino recorte literário que percorre os episódios da vida de Pedro, não podia ser mais distante de “Mudar” e não tem outra preocupação que não seja humanizar, de forma irremediavelmente tosca, o Pedro frio e insensível que os portugueses hoje identificam.

As eleições são sempre um momento de avaliação da legislatura que termina e de posicionamento perante o que se anuncia para os próximos anos. Daí que, esta semana, Passos Coelho não tenha hesitado em reinventar-se uma vez mais, procurando livrar-se do passado que se lhe colou. Na apresentação do “programa” eleitoral, deu garantias de que os próximos anos serão de “segurança, estabilidade, previsibilidade” e em tom confessional disse mesmo, “que bom para os portugueses não terem de viver em sobressalto à espera de novas medidas, de novos desenlaces, sem saber o que é que poderia acontecer”.

O mesmo Passos Coelho que se apresentou como um homem de ruturas, para logo se transformar num candidato de mentiras, e que no Governo se revelou socialmente insensível, pretende agora recandidatar-se como referencial de estabilidade. São demasiadas reinvenções em muito pouco tempo: à primeira, caem muitos; à quarta, já só cai mesmo quem quer.

O futebol como ele é

(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso, 06/06/2015)

Pedro Santos Guerreiro

                Pedro Santos Guerreiro

A coisa podia ser assim tão simples: Bruno de Carvalho comeu as papas na cabeça de Luís Filipe Vieira, de Jorge Mendes e de Marco Silva e, sabe-se com que dívidas, pagou um balúrdio a Jorge Jesus, deixando a nação primeiro gelada no pasmo e depois fervendo numa história que, consoante a análise, vai do brilhantismo à velhacaria. Mas a coisa não é assim tão simples. Aliás, essencialmente, não estamos sequer a falar de futebol.

Corrupção durante mais de uma década da FIFA, com dirigentes indiciados por subornar e enriquecer. Suspeitas de viciamento nos 4-0 do Benfica-Penafiel, a favor de apostadores que ganharam uma pipa por acertarem no resultado. Esquemas palacianos financiados por empresários e regimes detestados para o Sporting tirar Jesus ao Benfica. Se isto é futebol, então o futebol ao mais alto nível não é de alto nível.

Isto não é um dérbi, é uma guerra. No Benfica, Jesus e Vieira quiseram tanto disputar o pedestal do mais amado que de lá tombaram ambos, o primeiro porque enganou, o segundo porque foi enganado. Na verdade, ambos se destrataram, mas Vieira nunca pensou ser toureado desta forma. Tudo está ferido, mas nada mais o está do que o orgulho. O Benfica entra na próxima época com menos dinheiro, com menos equipa e com um treinador que será, pelo menos ao princípio, menos que Jesus.

No Sporting, é ao contrário. Entra na próxima época com mais dinheiro, com mais equipa e com o melhor treinador em Portugal. Bruno de Carvalho porta-se muitas vezes como um rufia, mas orgulho foi precisamente o que a sua presidência devolveu aos adeptos, resgatando-o do lugar envergonhado para onde ia sendo remetido.

Isto não é um dérbi, é uma guerra. E o Sporting goleou o Benfica — arriscando não se sabe ainda o quê. Ou quanto.

Com este movimento, que é inteiramente seu, Bruno de Carvalho passa definitivamente a ser respeitado por aqueles que sempre o subvalorizaram — mas é um respeito mais por medo que por grandeza. Esta jogada é brilhante, embora seja velhaca no tratamento a Marco Silva, o frágil da história. E tem riscos. Falta contar o lado B da operação: que poder, controlo ou negócios teve Bruno de Carvalho de ceder em troca do suporte financeiro de gente sinistra do regime guineense e de Álvaro Sobrinho, o antigo presidente do BESA. Bruno de Carvalho, que sempre criticou (e bem) o esquema de fundos e de agentes que se serve dos clubes para extrair dinheiro parece ter dado um salto de fé que, se correr mal, pode criar servidão. Porque o dinheiro vem de algum lado e ou é dívida financeira ou deixa dívidas junto de alguém. É um tudo ou nada.

Um país que tem o escândalo do BES pode pensar que não deve armar-se em carapau de corrida com grandes moralismos sobre o futebol. Dizer que aquele mundo é assim, é cada vez mais assim, e o Sporting, depois de ver o FC Porto e o Benfica liderar esse mundo que é assim, deixou-se de peneiras e ganhou uma batalha, surpreendendo o adversário por usar as armas que este costuma controlar, razão pela qual o Benfica foi negligente e ultrapassado. A próxima época vai ser um festival de emoções. E o futebol é cada vez mais um mundo de jogadas do que de jogos. Nesta jogada, o Sporting goleou o Benfica. Arriscou tudo o que tem — e provavelmente também o que não tem. Neste campeonato pequeno, voltámos a ter três grandes. Esperemos que corra bem. Lá do alto da estátua, o Marquês de Pombal deve estar banzo.