A reinvenção de Passos

(Pedro Adão e Silva, in Expresso, 06/06/2015)

Pedro Adão e Silva

                  Pedro Adão e Silva

Passos, que se apresentou como homem de ruturas e no Governo se revelou socialmente insensível, pretende agora recandidatar-se como referencial de estabilidade

Quando surgiu como candidato a líder do PSD, Passos Coelho surpreendia pela combinação de voluntarismo ideológico com radicalismo pueril. A sua proposta política não passava por gerir as coisas tal como tinham sido geridas. O propósito era mesmo mudar, para citar o título do livro que então publicou. Mudar o Estado, a sociedade portuguesa e, supõe-se, também os portugueses. Tudo com a densidade de pensamento que tem acompanhado a sua carreira.

Depois, aproximou-se a campanha eleitoral e com ela um chorrilho de falsas promessas. O candidato a líder de partido impetuoso, armado de uma revisão constitucional refundadora, era substituído pelo futuro primeiro-ministro que garantia que se fosse Governo não seria “necessário despedir pessoas nem cortar mais salários”; até porque era chegada a altura de “cortar em gorduras e de poupar. O Estado vai ter de fazer austeridade, basta de aplicá-la só aos cidadãos”. Afinal, tinha de “se dizer basta: a austeridade não pode incidir sempre no aumento de impostos e no corte de rendimento”.

Alçado ao Governo, emergiu outro Passos Coelho — diferente do pós-jota candidato a líder do PSD e do futuro primeiro-ministro em campanha. O palco político passava a ser ocupado pelo homem austero, desprovido de compaixão, que dava asas ao experimentalismo nas políticas e via no desemprego “uma oportunidade”, aconselhava os portugueses a serem “menos piegas” e a deixarem a sua zona de conforto, emigrando. A imagem colou-se-lhe, e mesmo quando os portugueses lhe reconhecem a obstinação, não esquecem a falta de humanismo e a distância perante o sofrimento concreto das pessoas. Sintomaticamente, “Somos o Que Escolhemos Ser”, essa obra de fino recorte literário que percorre os episódios da vida de Pedro, não podia ser mais distante de “Mudar” e não tem outra preocupação que não seja humanizar, de forma irremediavelmente tosca, o Pedro frio e insensível que os portugueses hoje identificam.

As eleições são sempre um momento de avaliação da legislatura que termina e de posicionamento perante o que se anuncia para os próximos anos. Daí que, esta semana, Passos Coelho não tenha hesitado em reinventar-se uma vez mais, procurando livrar-se do passado que se lhe colou. Na apresentação do “programa” eleitoral, deu garantias de que os próximos anos serão de “segurança, estabilidade, previsibilidade” e em tom confessional disse mesmo, “que bom para os portugueses não terem de viver em sobressalto à espera de novas medidas, de novos desenlaces, sem saber o que é que poderia acontecer”.

O mesmo Passos Coelho que se apresentou como um homem de ruturas, para logo se transformar num candidato de mentiras, e que no Governo se revelou socialmente insensível, pretende agora recandidatar-se como referencial de estabilidade. São demasiadas reinvenções em muito pouco tempo: à primeira, caem muitos; à quarta, já só cai mesmo quem quer.

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2 pensamentos sobre “A reinvenção de Passos

  1. Gostei do artigo e agradeço-o.
    Ainda há jornalistas sérios, que pensam e se preocupam com a verdade.
    Lamentavelmente há jornalistas, pais de família, que nem estão aí para defender o futuro dos seus filhos !!!

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  2. Uma das caracteristicas que aponta- a constancia no apoio aos seus ministros(mesmo quando metem mais agua do que Lisboa em dia de temporal) parece-me a melhor surpresa deste Coelho. O resultado tem sido o fracasso dos fazedores de factos politicos que acabaram todos a falar sozinhos ou para os apaniguados. Muito paleio mas pouco consolo.

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