A falácia do rearmamento da Europa

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 09/11/2024)


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Falar hoje, finais de 2024, de criar e desenvolver uma “indústria de defesa europeia” para se opor aos malvados russos de Putin é uma dupla falácia de quem não tem qualquer pudor em mentir.

Paulo Portas, no seu sermão dominical, falou na necessidade de a Europa investir em defesa para se opor a que Putin “venha por aí abaixo”. O homem que enquanto ministro da Defesa foi o vidente que viu as provas de que Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa, tal como o outro vidente da altura, o recompensado Durão Barroso, que por ter visto o milagre recebeu o prémio de chefe dos comissários europeus.

“Putin vem por aí abaixo!” Repete o coro de comentadores avençados, em sintonia com alguns militares que deviam saber dos “temas” de tática dos cursos de comando e estado-maior, os “garranos”, que a vinda dos russos por aí abaixo apenas terminava com um regimento de infantaria da URSS junto ao rio Lizandro, defendido por um batalhão português saído do Convento de Mafra, assim impedindo o bravo coronel russo que atravessara o Reno e o Danúbio, os Alpes e os Pirenéus e acabava vencido, sem poder tomar banho na Ericeira. É esta a primeira falácia, uma narrativa delirante e até ridícula. Os russos não veem por aí abaixo, Os mesmos que o garantem são os mesmos que sublinham as dificuldades de progressão para atingirem o rio Dniepro, as cidades de Zaporija e de Kharkiv. Ou bem que vêm por aí abaixo, e há que detê-los, ou bem que não vêm e não há necessidade de gastar dinheiro a defendermo-nos de um tigre de papel que não consegue atravessar a Ucrânia.

A segunda falácia diz respeito à necessidade de construir uma indústria de defesa europeia. Uma necessária observação: nenhum estado europeu desde a idade moderna aos nossos tempos se defendeu, a não ser a Rússia, por duas vezes, uma contra Napoleão e outra contra Hitler. A Polónia, nas várias versões territoriais e de soberania nunca se defendeu, mas a teocracia que a governa e constitui o estado mais vassalo dos Estados Unidos realizou o número mediático de instalar uns obstáculos de cimento — ursos — para impedir os tanques russos de avançar, nem o império austro-húngaro, nem a Itália, nem a França, nem a Espanha, nem Portugal, em qualquer época se defenderam, todas os estados atacaram os outros, segundo os seus interesses e os “aparelhos militares” foram sempre de defesa apenas do grupo dominante dentro do Estado, foram sempre, no dizer do rei Luiz XIV de França, a última “razão do rei” contra os seus súbitos. Continuando hoje a ser esse o papel das instituições militares, aquelas que Max Weber considerou serem as únicas legitimadas para o uso da força nos Estados. Do que se trata, então, quando alguém fala em defesa é a defesa de um poder instalado, de um regime, de um grupo no poder ou de dispor de meios para conquistar objetivos noutros espaços.

A questão da “defesa” da Europa é muito clara: O único aparelho militar credível do Ocidente Global é o dos Estados Unidos. Após o final da Segunda Guerra, aproveitando a imposição da desmilitarização da Alemanha nazi e a destruição das indústrias europeias, os Estados Unidos iniciaram a passagem de forças com meios convencionais de controlo das suas armas para os sistemas digitais Nos anos 60 introduziram a internet e a computação na sua panóplia de armas, e partiram para a conquista do espaço não apenas com as operações de demonstração de capacidade tecnológica com a ida à Lua, mas com a criação de uma verdadeira malha de satélites para fins militares de observação e espionagem, de transmissão de dados — que deram origem a duas famílias de instrumentos da guerra espacial e da sua articulação com a guerra no ar, em terra e no mar, os GNSS (Global Navigation Satelite System) de que o GPS é filho, e os GEOSS (Global Earth Observation Satelite System).

Desde os anos 70 do século passado, que as grandes potências, a URSS e a China se aperceberam da importância dos sistemas globais de navegação por satélite. Os americanos desenvolveram o GPS inicialmente apenas para fins militares — o sistema é gerido pelo Departamento de Defesa através da Força Aérea dos Estados Unidos, a União Soviética desenvolveu o seu sistema GLONASS também para fins militares, a China o seu BDS. A União Europeia, finalmente, criou um programa civil que designou por Galileo em 1990, quando os Estados Unidos e a Rússia tinham os seus sistemas operacionais em 1995! Com a operacionalidade dos sistemas GPS e GLONASS, na segunda metade da década de 90, a União Europeia (UE) percebeu a importância estratégica, económica, social e tecnológica da navegação por satélite! Excelente a previsão dos dirigentes europeus. Os mesmos, ou os clones, dos que agora apelam: às armas, europeus!

Também foi já década de 90 que os dirigentes da União Europeia perceberam a importância de programas cooperativos de desenvolvimento de sistemas de armas. Foram então criados programas para desenvolvimento de um caça europeu — o Eurofigther Thiphoon, um fracasso que desapareceu da cena — o programa de um helicóptero naval e de forças terrestres, o Nato Helicóptero, que não revelou ser um sucesso, um programa para uma NATO Fregate que nunca viu a luz do dia. Não foi uma partida brilhante, mas proporcionou ensinamentos, apagados da memória, porque os americanos apresentavam soluções chave na mão. Recebendo o devido pagamento e ainda eliminavam futura concorrência.

Hoje, todos os sistemas de armas europeus estão dependentes dos sistemas de informação, navegação e comunicação americanos. E vão estar pelo menos durante os próximos trinta anos, que é o ciclo de vida mínimo previsto para os sistemas de armas. Todos os aviónicos e sistemas de informação dos cockpits dos aviões, das pontes de comando dos navios, das torres dos carros de combate, das salas de operações das unidades terrestres, das cabeças dos misseis táticos ou estratégicos são e serão americanos. A título de exemplo, a Alemanha adquiriu 50 aviões caça bombardeiros americanos F 35, a Bélgica 30, em detrimento do Raphale francês. Durante os próximos 30 anos, todas as armas europeias terão a “inteligência” americana e apenas poderão ser usadas com o acordo dos Estados Unidos.

Falar em investir na indústria de armamento europeia é uma falácia. A Europa perdeu a oportunidade de ter autonomia estratégica nos anos 90 e essa perda não é remediável! Investir na indústria de armento na Europa significa tão simplesmente substituir a falência da indústria produtiva europeia — as fábricas de automóveis alemãs e francesas, por exemplo, também a Michelin, a Bosch — por inúteis fábricas de peças de artilharia, de carros de combate, que apenas se orientarão nos campos de batalha com os olhos do GPS americano!

A título de exemplo, quando a Agência Espacial Europeia (ESA) comunicou aos Estados Unidos a intenção de desenvolver o Galileo e que o desejava compatível com o GPS, os Estados Unidos avisaram que destruiriam os satélites europeus se estes interferissem com a operação o seu GPS! O governo norte-americano não autoriza outras nações a participarem da manutenção e desenvolvimento do GPS, dado os seus fins militares. Apenas em 2005 foi lançado o primeiro satélite do sistema Galileo o segundo em 2008, dois satélites em 2011 e outros dois em 2012. A primeira determinação de posição utilizando a constelação Galileo foi realizada em março de 2013 e em dezembro de 2016 havia um total de 26 satélites Galileo.

De 1990 a 2024, trinta e quatro anos, a Europa, a U E viveu no doce ripanço, a ver o mundo passar, sem receios de inimigos, entregue aos braços do amigo americano, que dispunha de bases na Alemanha, no Reino Unido, em Itália, armas nucleares nestes três países, além da Bélgica e de Israel. O governo dos Estados Unidos, uma autodenominada democracia liberal, estabelecia parcerias publico privadas com as grandes companhias das novas tecnologias, caso da Microsoft, a grande software house mundial, do Google, da Amazon, do Twiter, hoje X, do Facebook, hoje Meta, da Apple, da Starlink e da Space X de Elon Musk. Não deixa de ser curioso que os dois mais recentes satélites dos sistema Galileo tenham sido lançados por foguetões da Space X, de Elon Musk!

Indiferentes a estas evidências, os manipuladores da opinião impingem a mensagem: é necessário desenvolver uma indústria de material de guerra (eufemisticamente designada por indústrias de defesa europeia). Os e as warmongers fazem o seu trabalho, tocam cornetas e rufam tambores para receberem as suas comissões e prémios à custa dos europeus. A Declaração de Budapeste, da conferência de líderes europeus, que terminou a neste 8 de Novembro, defende “investimentos significativos públicos e privados no setor da Defesa”. O primeiro-ministro português declarou à saída que a indústria portuguesa também pode entra nesta farsa, em especial a indústria têxtil — camuflados para a tropa, atoalhados para as messes… botas e estandartes, presume-se que seja a nossa contribuição depois do envio de ferro velho representado por helicópteros Kamov, uns velhos M113, uns inúteis Leopard.

O inútil rearmamento da Europa significa uma nova era, os recursos que estão dedicados ao investimento produtivo serão desviados para produtos que são mera despesa. Esta transferência traduz-se em pobreza geral e fim do estado de bem-estar, será feita à custa do estado social. Mesmo os sistemas de duplo uso militar e civil num caso geram riqueza, noutra despesa. Colocar um motor num trator ou num carro de combate não é igual. A transferência de recursos para as indústrias militares provocará uma mudança de paradigma civilizacional da Europa, aumentará as desigualdades, a injustiça, a repressão. É o futuro que nos está a preparar esta nova seita de pregadores.

A proposta dos armamentistas lançadores de fogo pela boca, é a de enfiarmos a cabeça num laço e esperar que assim nos salvaremos!

Neoliberalismo: a antecâmara do fascismo!

(Hugo Dionísio in Strategic Culture Foundation, 07/09/2024)

Neoliberalismo: a antecâmara do fascismo! Eis o que se esconde por detrás das eleições alemãs.


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As eleições ocorridas na Turíngia e Saxónia, vistas como um referendo à governação Scholz/Baerbock e uma amostra do que aí virá em 2025, confirmaram a erosão do governo alemão, demonstrando que a “maldição de Zelensky” está bem viva. Quanto maior a proximidade com o ex-Presidente da Ucrânia e momentâneo ditador delegado, maior a probabilidade de queda de um governo. Trata-se de uma tendência quase inexorável.

Contudo, quase 80 anos depois do fim do terror nazi, vem o centro neoliberal pregar o medo do fascismo, como sua bandeira preferida. Enquanto amedrontam os seus povos com as AFD’s desta vida, apoiam o Banderismo na Ucrânia, o Milei na Argentina e golpistas de extrema direita na Venezuela. E com isto os apanhamos: a luta do centro neoliberal contra a extrema-direita não passa de um torpor oportunista, em que uma casta privilegiada que se considera civilizada, não quer ser substituída por outra casta mais trauliteira.

E enquanto acenam com os perigos da “extrema direita”, eliminando quem lhe poderia dar realmente combate, não impedem, contudo, a sua própria autodestruição, como sucede com o executivo de Sholz/Baerbock. Esta é também a história de muitos outros governos conotados com o centro neoliberal. Mas esta susceptibilidade autodestrutiva, constitui apenas a face visível – na Alemanha – de uma dinâmica social ainda mais profunda e que se identifica por toda a União Europeia, vivida ao longo de todo o século XXI, e que se impôs, a meu ver, através de 4 processos aceleradores críticos, criados/utilizados para produzir o efeito político que hoje observamos. Essa dinâmica, a não ser travada, conduzirá, propositada e inexoravelmente, a uma nova farsa fascista, neofascista, como lhe queiram chamar.

O primeiro processo crítico acelerador do projecto neoliberal, na europa, coincidiu com a “Guerra ao Terror” de Bush, em que embarcou toda a NATO, na sequência de atentados em Espanha, Inglaterra ou França, traduzida na invasão de Afeganistão e Iraque, construção da Primavera Árabe e destruição da Líbia e Síria. É nesta sequência que se impõe um processo de sobrevigilância e centralização da informação e inteligência a partir de Washington, atribuindo aos EUA o poder de analisar, monitorizar e coordenar esforços ao nível da segurança e criando, nas populações, as condições subjectivas para a aceitação do que viria em seguida: a vigilância em massa de todos os seus passos, a propósito da manutenção da sua segurança.

Outro momento crítico foi a crise financeira de 2008, que impôs o “Estado de Austeridade Permanente”, preparando as populações para a ideia de que o amanhã, afinal, não será melhor do que o ontem – apenas para alguns -, acelerando o processo de destruição do estado social e operando a maior transição de valor, entre classes, de que há memória na história recente e que se havia operado nos EUA e Reino Unido, logo após o inominável “Consenso de Washington”. É com a crise de 2008 que o Consenso de Washington se torna, finalmente, política oficial da União Europeia. Ao longo deste tempo, “investidores” americanos ocuparam posições dominantes em importantes sectores, por toda a Europa.

O terceiro momento crítico foi o Covid-19, com a introdução do “Grande Reset” de Davos e toda a ideologia do “novo normal”. Individualismo exacerbado, narcisismo, migração interna, das regiões mais pobres para as mais ricas e imigração de fora, para dentro do bloco ocidental, desenraizamento as populações da sua terra natal, cultura e língua, desaparecimento da malha social que confere coesão às sociedades. A “uberização” destruiu as restantes fronteiras económicas que resistiam. Uma empresa na Califórnia, opera no Ocidente, a partir dos EUA, sem intermediários, sem gastar um tostão em logística local. Passando por cima de leis e de toda a soberania nacional, recolhe dados, vende-os, classifica-os e recolhe ganhos. Por outro lado, o Covid-19, acompanhado de toda a lógica de submissão a recolhimentos forçados, contenção dos movimentos e vacinação obrigatória, criou as condições subjectivas para a submissão acrítica a um modelo de governação.

Como se não fosse já suficiente, com a operação Ucrânia, varre-se dos países centrais da “Ordem Baseada em Regras” a última réstia de soberania: as forças armadas. Voltou a “interoperacionalidade” e, com ela, a uniformização do padrão NATO, o que equivale a dizer, padrão EUA, comprado nos EUA, feito sob licença dos EUA. Estratégia e táctica militar, passam a ser desenvolvidas em Washington, em que os estados europeus não passam de postos avançados da “Ordem Baseada em Regras”.

Informação e inteligência; economia e finanças; organização social e política; defesa e segurança; eis as dimensões que foram sendo centralizadas e consolidadas em cada um dos momentos críticos. Cada um destes 4 momentos representou um salto evolutivo na força com que os EUA dominam a “Ordem Baseada em regras”. Para dominar o novo século, o espaço vital tem de estar consolidado, coordenado a partir de um centro reconhecido, criando um bloco, em que as relações desse sejam definidas para um todo orgânico. Tudo para preparar o confronto entre blocos. Os resultados económicos e sociais deste processo de aprimoramento, dirigido à Europa e feito para a secundarizar, determinaram uma perda relativa de poder, sentida pelas populações e estas, não a sabendo explicar, canalizam essa frustração para quem a verbaliza como ninguém: a extrema-direita. Perante a impotência, promessas adiadas e contradição entre discurso e prática, provenientes do centro neoliberal, a solução está em quem se mostra resoluto e eficaz, mesmo que brutal.

Façamos uma comparação histórica pertinente, para sabermos do que estamos a falar. O período em que nasce o fascismo no Ocidente (sim, nos EUA havia apartheid para os negros e fascismo, mesmo com supostas eleições), a riqueza estava distribuída da seguinte forma: entre os anos 20 e 40 do século XX, após o “Primeiro Terror Vermelho nos EUA”, os 10% mais ricos ficavam com uma parcela situada entre 43% e 49% do rendimento em cada ano, os 1% mais ricos, ficavam com 19% a 22%, já os 50% mais pobres ficavam com uma parcela que ia de 14% a 15%. O World Inequality Report não possui dados agregados para a Europa, mas na França, os resultados também não eram muito diferentes dos que vemos para os EUA. No fundo, os EUA representavam a tendência das economias mais avançadas.

A primeira conclusão a retirar daqui é óbvia: o período de crescimento do fascismo no mundo ocidental coincide com um período de agravamento das desigualdades, na concentração de rendimento, de enorme concentração de riqueza e consequente agravamento das condições de vida e de trabalho. A resposta do sistema para esta crise e para o aumento do poder reivindicativo dos trabalhadores que se organizavam em poderosos sindicatos, coincidiu com a criação do fascismo, corporativismo (que defendia a paz social por oposição à luta dialética) e a repressão. Referimos o termo “crise” quando assistimos a um agravamento das contradições resultantes da disparidade na distribuição de rendimento entre os mais ricos e os mais pobres.

A derrota do nazi fascismo mudou tudo! Nos EUA, logo em 1945, os 50% mais pobres passam a agregar mais rendimento do que os 1% mais ricos (15,8% para 14,2%), enquanto os 10% mais ricos, desceram para 35,3%. É nesta diferença, de quase 15% perdidos pelos 10% mais ricos, que se explica o fortalecimento da classe média americana e a construção do chamado sonho americano. Sem esta transferência, os EUA dificilmente se teriam tornado na superpotência que foram, nem teriam derrotado a URSS. Isto explica também a entrada em cena do Macarthismo (o “segundo Terror Vermelho” de 1950 a 57), deriva fascizante que “limpou” sindicatos e organizações de classe nos EUA.

Até aos anos 70 do século XX, a situação dos trabalhadores americanos continuou a melhorar e os dados atestam-no. Em 1970 a riqueza controlada pelos 50% mais pobres atinge o seu ponto alto (21,1%) e a dos 10% mais ricos (e 1% mais ricos também) atingem o seu ponto mais baixo (34% e 10,1% respectivamente). Os dados não poderiam ser mais claros: o período de ouro dos EUA coincide com o período em que a distribuição da riqueza produzida foi mais justa; foi também o período com mais liberdade, democracia, militância política e melhores condições de vida.

Na França não foi diferente, uma vez derrotado o nazi fascismo e, logo a partir de 1945, os 10% mais ricos atingem o seu ponto mais baixo (31,4%), o 1% mais rico 8,5% e os 50% mais pobres passam de 14,6% em 1934 para 20,5% em 1945. É pena não termos dados da Alemanha, mas se estes não falam por si…

Esta relação, nos EUA, mal ou bem, continuou até ao final da URSS e, em 1995, tudo se volta a inverter de volta ao período anterior à Segunda Guerra Mundial. O “Consenso de Washington” ocorrido em 1989, que decretou a mundialização do neoliberalismo segundo a “escola de Chicago”, coincide com o ano em que os 1% mais ricos voltam a concentrar mais de 14% do rendimento anual, o que já não sucedia desde os anos 50. A partir de 1989 foi sempre a concentrar, até aos dias actuais, em que: em 2022, os 10% mais ricos atingiram 48,3% do rendimento anual, os 1% mais ricos 20,9% e os 50% mais pobres, apenas 10,4%. Refira-se, a este propósito, que desde que existe registo, nunca os 50% mais pobres haviam ficado com tão pouco rendimento anual. O mínimo que haviam obtido, nos EUA, havia sido 11% por volta de 1850!

Voltando às eleições alemãs. Estamos precisamente a viver o período da história ocidental moderna, em que a redistribuição da riqueza produzida (se falarmos da riqueza existente é pior ainda) está num dos níveis mais baixos de sempre. Na Europa, a situação ainda não é tão grave como nos EUA, mas estes 4 aceleradores críticos que identifiquei (Guerra ao Terror, Crise Soberana; Covid-19; Guerra Fria 2.0), produzirão, necessariamente, o mesmo efeito de concentração da riqueza que está já a degradar e destruir o estado social europeu, construído à custa de uma redistribuição que, mal ou bem, ainda mantém alguns padrões de justiça.

Embora não se tenham produzido grandes alterações na quantidade de riqueza auferida pelos 50% mais pobres, nos principais países europeus com registo no World Inequality Report, é da chamada “classe média” que se ouvem muitas das queixas. Em países como a Suécia, Espanha, Portugal, França, Alemanha, Países Baixos e outros, a tendência é, embora de forma mais ténue do que nos EUA, em finais do século passado, para os 50% mais pobres perderem terreno para os 10% mais ricos. Ou seja, paulatinamente, vão-se desenvolvendo as relações económicas que produzirão uma realidade material típica do período em que se formou o fascismo.

Daí que seja hora de desfazer um dos mais importantes mitos, ou dogmas, que a narrativa oficial propaga sobre o fascismo: a principal característica do fascismo não é a repressão, mas, ao invés, a aceleração da concentração da riqueza e a sua entrega a uma cada vez menor quantidade de pessoas.

Cada vez menos pessoas têm mais poder económico, com o qual compram poder político e fazem o sistema político, mesmo os que se apelidam de “democráticos”, funcionar segundo os seus termos. O lobbying, o financiamento de campanhas e Think Thanks ou até da própria academia, são alguns dos meios mais usados para interferir e moldar as soluções políticas preconizadas.

Ao invés do processo de concentração da riqueza, já a repressão pode acontecer em qualquer sistema, quando esteja em crise ou sentindo-se ameaçado. A não ser nos casos psicopatológicos, a repressão é uma resposta orgânica justificada com um ataque externo ou interno. Só alguém mesmo muito alheado ou alienado da realidade acredita que não existe repressão nos EUA e, mais recentemente, intensificada na União Europeia. Todos os sistemas estatais têm um aparelho repressivo ao seu dispor e a sua utilização – dos meios coercivos – depende do nível da ameaça. Num estado fascista, o poder repressivo está ao serviço das camadas mais ricas da população.

O mesmo se passa com as eleições. Não é a existência de eleições que determina a natureza fascizante ou democrática de um sistema. O que determina a sua natureza democrática é a abrangência das suas políticas. Se abrangem os interesses da maioria, ou não. Uma escolha entre iguais, como sucede nos EUA, não é democracia, é sufragismo. No final será o complexo militar industrial e wallstreet quem manda.

Outra característica da democracia consiste na susceptibilidade de alterar a política económica, quando esta não serve os interesses da maioria. Eleições estéreis, pouco participadas em que governam partidos minoritários, como sucede crescentemente na Europa, não se explicam através da democracia. Esses partidos minoritários governam porque a base económica que servem, lhes permite fazê-lo, mesmo em minoria. Em resumo, é possível haver fascismo com eleições. E nunca observarão um fascista assumir que o é.

Se o estado em que os EUA já se encontram explica o surgimento de um Trump, uma “resposta” impotente para acabar com os exércitos de sem abrigo, junkies e de gente a viver em carros, roulottes ou tendas; na União Europeia, esse processo não é distinto e, embora mais tardio, está agora a produzir-se. Também na Europa está a surgir a resposta do sistema à crise que resulta do aprofundamento da contradição na redistribuição da riqueza. Quanto maior a contradição, quanto mais injusta a redistribuição, mais o sistema produzirá os agentes demagógicos, reaccionários, que encantarão as massas mais pobres, com a culpabilização dos também mais pobres: emigrantes, refugiados e outros, para aqui trazidos, precisamente, pelos que mais riqueza acumulam.

Não é admissível, portanto, que alguém responsável e conhecedor das dinâmicas sociais e em posse de informação fidedigna, fique admirado com o enviesamento eleitoral para a “extrema direita”. Mais grave se torna quando os representantes políticos do centro neoliberal, que se situa, inclusive, entre o wokismo e o ultraliberalismo (partidos wokistas eurosocialistas e social-democratas acusam Maduro de cometer fraude, mas consideram Milei um jogador limpo!), uma vez mais, tal como nos anos 20 e 30 do século XX, surgem a criar as condições materiais, por sucumbirem às dinâmicas de concentração da riqueza, seja por corrupção, encantamento ou medo de serem destruídos (e que razão têm), proporcionando, por sua vez e uma vez mais, o surgimento da oportunidade fascista (seja o caso da AFD ou não). O momento em que os super-ricos usam a repressão estatal para proteger o processo de concentração da riqueza.

Assim, ninguém se pode admirar que as massas trabalhadoras descontentes, empobrecidas, vítimas da rapina, muita dela exercida a partir de Washington, votem na “extrema direita”. Depois de ondas de revisionismo histórico a comparar o fascismo ao comunismo (e socialismo) e a URSS à Alemanha Nazi, foi o próprio centro neoliberal quem legitimou a extrema-direita. Se comparamos partidos aceites, que nunca promoveram o ódio e a discriminação (caso dos partidos comunistas), com partidos que fazem da doutrina do ódio e da discriminação as suas bandeiras, acabamos a normalizar estes últimos.

Acresce que, ao contrário do voto nos partidos progressistas (em sentido económico, marxista), que rejeitam e denunciam o wokismo enquanto característica desviante à direita, os partidos da “extrema-direita”, ao contrário, não comportam qualquer perigo para a base económica que sustenta o centro neoliberal. Nenhum regime fascista alterou o processo de concentração de riqueza, ao invés, reforçou-o. Também hoje, a “extrema-direita” defende apenas e tão só o aprofundamento do modelo económico existente e que, como demonstrei, proporcionou o seu próprio aparecimento.

E aqui chegados, se demonstra que o revisionismo histórico não é inocente. Ele visa criar um escape, uma alternativa ao centro neoliberal, sem que o poder real, o poder da riqueza acumulada, na economia, transite de mãos. Assim, os grandes concentradores ganham tempo, enganando as massas uma vez mais, prendendo-as na repressão fascista. Quando derrubado o golpe fascista, o desvio fascizante ou a deriva extremista neoliberal, as massas voltam a ser enganadas com o centro neoliberal, na medida em que não o identificam como pertencendo à mesma base económica que alimenta o estado fascista. E assim perpetuam a sua exploração, circulando entre formas mais ou menos agressivas de um mesmo remédio.

Para já, as eleições alemãs apenas confirmam este ciclo vicioso. E a prisão neste ciclo, uma vez mais, em processo de repetição histórica, esconde o maior dos conseguimentos do globalismo neoliberal, federalista, financeirizado: a formatação do conhecimento a um ponto em que os especialistas, competentíssimos na sua área, são incapazes de olhar para além daquilo que lhes ensinaram.

Neste sentido, o fascismo mais não é do que uma especialização, um aprofundamento em relação ao estágio actual do neoliberalismo globalista. O próprio belicismo, seja dos EUA (e que não termina com Trump), seja no centro neoliberal (para já), constitui também uma das consequências do processo de “fascização económica” da vida política. Resulta de uma cada vez mais agressiva tendência para a apropriação de riqueza, nem que seja pela via da guerra.

Quando ouço economistas, competentíssimos (não estou a ironizar), com canais concorridos, criticarem o Ocidente por estar a sucumbir, entre outras razões, por praticar salários elevados, percebo que a herança ideológica neoliberal é de facto pesadíssima. Nenhum destes competentíssimos economistas é capaz de olhar para além do esquema neoliberal que lhe ensinaram. Apenas reproduzem o que lhe ensinam, sendo meros instrumentos da lógica de acumulação e pilhagem ocidental.

A incapacidade de sonhar e almejar o que hoje se considera impossível, constitui a mais pesada herança dos últimos 100 anos, que os EUA tiveram para nos entregar. As eleições alemãs, na sua divisão entre sonhadores, situacionistas e aprofundadores, demonstram esta tensão latente. Demonstram que existe quem sonhe, mas as forças do medo, do ódio e da reacção, estão mais fortes que nunca. O neoliberalismo constitui o seu alimento preferido.

Neoliberalismo: a antecâmara do fascismo! Eis o que se esconde por detrás das eleições alemãs.

Fonte aqui.


Por dentro da insurreição de Orbán. O futuro da Europa está a ser escrito na Hungria

(Por Lily Lynch, in A Viagem dos Argonautas, 19/06/2024)

Orbán tem uma visão única para a Europa

Será que Viktor Orbán realmente marchará para Bruxelas e, como afirma, “ocupará” o coração da União Europeia? O enfant terrible da UE entrou em confronto com o bloco durante anos, mas ele não é Nigel Farage. Ele não quer abandonar o navio; ele quer comandar o navio maltratado e corrigir o seu rumo. “O nosso plano não é deixar Bruxelas, mas sim tomá-la”, disse Orbán à imprensa húngara em dezembro. E em breve terá a oportunidade de fazer exactamente isso.

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