Von der Leyen apresenta-nos o “dolwar”

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture Foundation, 19/11/2024)

Neste tempo em que as “democracias” defendem a guerra e o fim dos programas sociais, e as “autocracias” preferem a paz e os programas de desenvolvimento, a escolha de von der Leyen e António Costa representa, sobretudo, a escolha pela autodestruição da EU.


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E das trevas se fez luz! Se quem não queria ver poderia argumentar que a informação circulante era esmagadoramente unidireccional e muito pouco esclarecedora sobre as reais intenções, por detrás das manobras belicistas. A cada dia que passa, mais elementos surgem quanto ao papel que o conflito gerado entre a NATO e a Federação Russa assumiu no negócio ligado ao armamento, inteligência e políticas de segurança, em geral. Como demonstra o comunicado de imprensa que a própria NATO lançou em 2003, de 2014 para a frente, nunca mais houve um ano em que a evolução nos orçamentos nacionais de defesa fosse negativa.

De 2021 para 2023, os EUA quase dobraram o valor contratado em armas vendidas para os países da NATO, assumindo-se neste relatório que os países se “assustaram” com a “invasão em larga escala” da Rússia à Ucrânia. Como se constata, a propósito das visões fantasmagóricas da presença de soldados Norte-Coreanos em Kursk, apenas “comprovadas” por fontes ligadas ao regime de Kiev”, regime especialista em “cripto-acontecimentos”, usados como justificação para conflitos bem reais, o negócio das armas passou a ser constituído por um processo do tipo “chave na mão”, que incorpora: a produção do motivo; a justificação da solução; a entrega do equipamento; e, dependendo do preço, o seu uso. Portanto, o negócio do “dolwar” assenta em pressupostos ainda menos substanciais do que o bem real “petróleo” que justifica a existência do seu “irmão”, o “petro”.

O negócio atingiu tal magnitude e razão de ser que, em função do “medo” de uma “invasão” de toda a europa e arredores, o Congresso, constituído por ávidos junkies de “dolwar”, acabou mesmo a rever o processo legal de venda de armas, e ao abrigo do “AECA” (Lei para o Controlo de Exportação de Armas”, a notificação do presidente ao congresso para venda de armas a países da NATO e demais vassalos, bastam 15 dias de aviso prévio, ao invés dos regularmente exigidos 30 dias.

Nada disto é segredo, tudo é assumido de forma clara: o negócio das armas é tido como um acelerador do crescimento económico dos EUA e o conflito Ucraniano é assumido como o combustível que deu energia ao veículo colocado em marcha, ou seja, os programas europeus de compra e fabrico de armamento.

Para garantir que tudo funciona suavemente e sem entraves, colocou-se à frente da Comissão Europeia a melhor “Gestora de Vendas” que o dinheiro pode comprar, Úrsula von der Leyen. Não apenas garante o negócio das armas, mas, refira-se em sua justiça, também é especialista em vacinas, desde que da Pfizer, e de LNG, desde que do Henry Hub. Von der Leyen funciona como uma broker de primeira água. Garantindo, de uma assentada, o cometimento de toda a União Europeia com o “interesse Nacional” dos EUA.

Não existe argumento que não utilize, podendo dizer-se que não tem qualquer problema em usar dos maiores artifícios, para atrair o comprador ao produto do seu fornecedor favorito. Tal como fez, mais recentemente, na Hungria, ao propor a troca do LNG Russo pelo LNG norte-americano porque, este último, é “mais barato” e “baixa a nossa factura energética”. Sobre o porquê de se comprar “LNG” ao invés de gás por pipeline e de se comprar LNG russo on the spot (na hora) ao invés de através de contratos de longa duração, como antes, nem uma palavra. A sales broker von der Leyen garante, desta forma e desde já, a submissão de toda a EU à ameaça de tarifas por Trump. Tudo isto decidindo sem consultar quem quer que seja, mentindo e manipulando sem qualquer vestígio de escrúpulo. Como numa verdadeira “democracia” liberal!

O mais grave disto tudo é que, esta situação, para além de denunciar uma transposição do papel da NATO para o da União Europeia, demonstra a utilidade do conflito Ucraniano e a importância da sua continuidade, não para satisfazer qualquer ansiedade de soberania, mas para que se produza a maior quantidade de “dolwares” possível. O tipo de dólar que só a guerra pode produzir.

Com todo o circuito instalado e os seus brokers e sales managers bem acomodados, von der Leyen e António Costa, com certeza missionariamente acometidos em levar, ainda mais longe, a produção europeia de “dolwar”, acabaram a garantir tudo e o seu contrário: 1. Garantem a lotaria final ao complexo militar industrial dos EUA, ao determinarem que, de ora em diante, o os fundos ligados à política de coesão da UE passam ser utilizados para a compra de armas; 2. Iniciam o processo de destruição e colapso da União Europeia, pois a Política de Coesão constitui um dos principais alimentos do “sonho europeu” que junta todos estes cacos a que chamamos de “estados membros da EU”. Na sua ânsia por fornecer “dolwares” aos seus mestres, acabam os dois como potenciais coveiros da EU. A partir de agora, é só esperar. Vai acontecer, só não sabemos quando e de que forma.

Este é, aliás, o epílogo de uma história com fim previsível. Historicamente, os representantes da política hegemónica dos EUA sempre mostraram ressentimento pelo facto de, nos países da EU, os orçamentos da “defesa” (Why Europe’s defense industry can’t keep up – POLITICO) serem demasiado “baixos” e criarem uma grande “dependência” em relação aos EUA e uma grande vulnerabilidade em relação… À Rússia, claro!

As acusações eram conhecidas e foram verbalizadas com toda a frontalidade. Para os falcões da Casa Branca e da Câmara de Representantes, nunca fez sentido os povos da EU não viverem constantemente na pobreza ou em risco de lá chegar, como uma grande parte dos Norte-Americanos (de acordo com os dados do Census Bureau 58,5% dos americanos experimentam pelo menos um ano de abaixo do limiar da pobreza durante a sua vida adulta dos 20 aos 75 anos, e 76% experimentam pelo menos uma situação próxima da pobreza, ao invés de se investir na defesa.

Mais investimento na esfera social e no desenvolvimento significava menos “dolwares” para Wallstreet, o que sempre foi visto e vendido em Hollywood como um mau hábito europeu, responsável pela falta de “dureza” e “capacidade empreendedora” dos respectivos povos. De um orçamento de mais de um milhão de milhões de euros, retirar apenas uma escassa centena de milhares de milhões para o Fundo Europeu de Defesa, ainda por cima, não podendo ser usado para a compra de armas, era algo de inaceitável. Tal como era inaceitável que, com excepção de EUA, Grécia e Reino Unido, todos os outros estados membros se situassem bastante abaixo dos 2% do PIB em investimento na defesa, como propõe a meta da NATO. Tratava-se de uma quantidade de “Dolwar” que escapavam às garras do complexo militar-industrial dos EUA. Havia que fazer alguma coisa e foi aqui que entrou a Ucrânia, da Revolução Laranja em diante.

Assim, e sem ter em conta as acusações de “velha e nova” europa de Bush e companhia, já no início do século XXI, em Março de 2014, o “Nobel” da Paz, de seu nome, Barack Obama, o presidente dos EUA, mostrou-se preocupado com os cortes nas despesas de defesa nos países europeus (em 2014 o investimento dos países NATO havia descido), dizendo aos membros da NATO, em Bruxelas, que “todos têm de contribuir” para defender as fronteiras, a soberania e a integridade territorial do continente (Obama urges NATO to increase defence spending | News | Al Jazeera). De forma sistemática e cumprindo o guião, em maio de 2017, O Presidente dos EUA, Donald Trump, voltou a criticar os estados membros da NATO, incluindo a UE, por não gastarem o suficiente em defesa e instou-os a aumentar as suas contribuições (Trump scolds NATO allies over defense spending | CNN Politics).

Como se constata, esta pressão é comum às duas facções do “uniparty” e, desde muito cedo, partilhadas por Ursula von der Leyen, alemã de nascimento, Estado-Unidense de coração e alma. O facto é que a pressão, ao longo dos anos, foi sendo brutal (eis uma cronologia do assédio dos EUA à Ucrânia, desde 1991, Ucrânia que, pela sua posição geográfica, constituiu, desde sempre, uma das pedras de toque da estratégia de acomodação da EU às necessidades de Washington e Wallstreet.

Esta pressão para o militarismo, catalisada por uma vertigem anacrónica do que foram os resultados, irrepetíveis, retirados pelos EUA, a partir da segunda guerra mundial, teve como efeito (e intenção) conduzir a europa para um conflito, indirecto, entre NATO e Federação Russa, que se agravou ao ponto de que é perseguido quem reivindica negociações de paz, um simples cessar fogo ou o fim da guerra. Ao invés de se perseguir quem quer a guerra, persegue-se quem quer a paz.

Para se perceber bem o significado desta questão para o lóbi armamentista dos EUA, ainda estava quente a vitória de Trump e já Blinken embarcava num avião para Bruxelas, visando garantir que, até ao último dia da presidência Biden, seja garantido o “apoio a Kiev” (Blinken in Brussels as Trump win raises alarm over Ukraine – The Frontier Post). O objectivo é muito claro e consiste em garantir que, desta feita, e ao invés do que sucedeu no mandato Biden, a União Europeia se torne “independente” e aumente o seu apoio à guerra. A desejada “independência” europeia, neste caso, significa que a EU e os seus estados membros devem preparar-se para assumir sozinhos o “apoio à Ucrânia” e, sobretudo, a continuidade, em qualidade e quantidade, do fluxo de “dólwares” a caminho de Wallstreet.

Num país com 10 milhões de deslocados e tantos outros emigrados, cujo putativo presidente (isento de actas e eleições “transparentes e justas”) já andará à procura de refúgio (Ground News – U.S. Analyst Claims Zelensky May Seek Refuge in Florida After War) na Flórida, e que iniciou recentemente o processo de redução da idade de conscrição e mobilização para os 18 anos (Ground News – Ukraine will lower the conscription age for mobilization to 18 years), o apoio prometido pelos “aliados” ocidentais passa por sujeitar à morte, não apenas as gerações adultas, as quais ou emigraram ou morreram, mas as gerações mais jovens. Tudo em nome da intenção de manter o conflito em velocidade lenta, à espera que, na lentidão, seja a Rússia a cair primeiro. Notícias como a subida da Taxa de Juro para 19% pelo Banco Central da Federação Russa podem servir de justificação para a continuidade do empreendimento e o renovar das esperanças de sucesso (Russia Hikes Interest Rate to 19% as War Spending Fuels Inflation – The Rio Times).

A verdade é que, como se esperava, as informações sobre o crescimento dos investimentos europeus em “defesa” vão-se multiplicando, em especial a pressão colocada sobre a Alemanha, à medida que se multiplicam os receios de recessão económica generalizada. Afinal, sem Alemanha não existe “investimento” na EU e, muito menos, “investimento” na defesa.

Os Think-Thank norte americanos fazem a sua parte neste sentido e, após o New York acusar a Alemanha de não fazer repercutir no seu orçamento de estado a promessa de maior investimento (Germany Promised to Step Up Militarily. Its Budget Says Differently. – The New York Times), logo veio o Atlantic Council avisar que, “o orçamento tem de reflectir” o compromisso feito por Sholz, Baerbock e companhia (Germany has committed to improving its defense. Its budget needs to reflect this. – Atlantic Council). Mas não se ficou por aqui o aviso à Alemanha e à EU, o Stimson Center veio, através de uma das suas caixas de ressonância, avisar que “desta vez tem de ser diferente” (EU Defense: This Time Might Be Different • Stimson Center).

A Alemanha, país que foi responsável por duas guerras mundiais, ganha assim uma nova oportunidade de fazer uma terceira, tendo, como na segunda, novamente o mesmo contendor, a Rússia. Com toda esta máquina ao serviço da guerra não admira que o Koerber-Stiftung Institute tenha conseguido realizar uma sondagem em que 50% dos respondentes apoiaram a proposta do Ministro da Defesa Pistorius em aumentar o orçamento alemão para a defesa, dos actuais 2%, para 3 a 3,5% do PIB (German poll shows approval for more defense spending as NATO steels itself for Trump 2.0 | Stars and Stripes). Contudo, mesmo atingindo os 50%, a verdade é que 57% disseram que não querem fazê-lo à custa do investimento nas questões sociais.

Se, em artigos anteriores, eu já havia referido o desfasamento entre as bandeiras de Kamala Harris e as necessidades concretas da classe trabalhadora, que constitui a maioria da população, o mesmo se passa na EU. Se, com Kamala, a grande bandeira era a “democracia”, com von der Leyen e a maioria dos governos da EU, esmagadoramente apoiantes deste centrão alargado, em que o neoliberal é “de esquerda” e o “neoconservador” é “de direita”, ambos se unindo pela umbilical relação com Washington e por não deixar espaço a correntes ideológicas não dominantes, apostam nos célebres “valores” europeus, que ninguém sabe bem o que são, mas que cada vez mais sentem que tais enigmáticos “valores” têm colocado a Europa na trajectória da recessão económica, do aumento da pobreza (apesar das manipulações aritméticas e estatísticas) e da degradação da participação democrática.

Assim, para quem investe em armas, sabendo que o povo prefere o investimento na resolução dos seus problemas sociais, não admira que venha a Comissão Europeia de von der Leyen determinar que os fundos da política de coesão passam a pode ser usados para “reforçar a defesa” (UE muda as regras: Estados-membros passam a utilizar fundos europeus para reforçar a defesa e segurança – CNN Portugal). Podemos dizer que finalmente a estratégia iniciada em Bush, quando falava de “uma nova e uma velha europa”, deu finalmente frutos.

Vejamos bem, mantém-se a “proibição de usar o dinheiro para comprar munições e armamento”, mas pode usar-se esse dinheiro para “aumentar a capacidade de produzir munições e armamento”. Eis como funciona hoje a política no ocidente: diz-se que não e que sim ao mesmo tempo, para que, no final, a casta política possa fazer o que muito bem entende. É o próprio artigo que diz “Bruxelas decidiu modificar as políticas de despesa para redirecionar milhares de milhões de euros do orçamento europeu para a defesa e segurança, redirecionando os fundos de coesão.”

O que se pretende é que 1/3 do fundo em causa (mais de 130 mil milhões de euros) seja gasto em armamento ao invés de ser gasto na política de coesão, destinada a reduzir a desigualdade económica entre os estados membros. Ora, se a promessa do “sonho europeu” significava que os países cediam na soberania em troca de receberem apoios ao seu desenvolvimento, convergindo com os mais ricos, o que significa esta inversão no papel dos fundos estruturais da EU é que, após a mesma, os estados membros ficam sem a soberania e sem o apoio ao desenvolvimento.

Esta confirmação de uma tendência, sucedida já com o “socialista” António Costa ao comando do Conselho europeu, acontece na sequência dos avistamentos fantasmagóricos de soldados Norte Coreanos na Rússia. Sem qualquer prova da sua presença, EUA e EU prometem responder a tal pressuposto e incomprovado facto.

É assim que funciona a democracia ocidental, promovem-se as narrativas, para que se possam justificar as inversões políticas e com elas, a degeneração e subversão da própria democracia, que se diz defender. Como podem tais políticos, como António Costa, conhecedores da importância dos Fundos para a Coesão, para o respectivo país, embarcar numa coisa destas, sem que exijam, ao menos, fornecimento provas inequívocas: 1. Da presença de tais forças; 2. Da importância de trais forças para o esforço de guerra Russo; 3. Da importância da presença de tais forças para segurança europeia. Já se esqueceram das “armas de destruição em massa, de Saddam”? Do suposto “massacre” de Bucha?

Já num artigo anterior eu próprio tinha exposto a utilização do Fundo europeu de Defesa para financiar projectos belicistas desenvolvidos pelas maiores corporações europeias. Vejam agora que delicioso bolo as espera. No mesmo artigo, expus também porque razão tal inversão interessa tanto aos EUA: afinal, não existe empreendimento militar europeu sem uma qualquer participação, directa ou indirecta, de capitais e valências norte-americanas.

O investimento europeu na defesa constitui uma fonte interminável de “dolwar” de serviço à reserva federal e aos gananciosos de Wallstreet. Por cada euro investido em armas pela EU, há sempre um premium a pagar a Wall street. Sem a Ucrânia nada disto existiria, sem o papão russo, nada disto se justificaria, sem o fantasma norte coreano, tudo isto acabaria depressão. A presença do fantasma norte coreano é mais uma dose de combustível num fogo que se pretende aceso.

Esta importância e inversão das políticas da EU, em matéria de financiamento militar, trará consigo duas consequências devastadoras: 1. Trump, mesmo querendo, dificilmente conseguirá acabar com a guerra, pois os EUA têm direito a um almoço grátis no investimento em causa; 2. O fim da política de coesão, trará consigo o fim da própria União europeia. Depois disto, muito pouco unirá o ocidente ao leste europeu, por mais que acenem com o papão Russo, pois a cola que une os dois lados, é o dinheiro alemão.

Os próprios EUA, que hoje têm, como nunca, amordaçados os órgãos políticos europeus, podem vir, uma vez mais e à custa das contradições por si criadas, a confrontar-se com uma europa muito mais difícil de dominar. Esta pressão constante para a criação de “dolwares”, como referi, comportará o fim da política de coesão, que tinha esse nome, por alguma razão. Se, na segunda guerra mundial, o lend lease pode muito bem ter sido um dos elementos constitutivos da “nova europa”, tornando os EUA o grande credor mundial (os EUA facturaram o equivalente a 647 mil milhões de dólares com o envio de suprimentos para os “aliados” https://pt.wikipedia.org/wiki/Lend-Lease) com o poder exclusivo de “ajudar” a europa. Com a Ucrânia os EUA já lucraram 84.72 mil milhões de Euros, sendo que, também “comem” uma parte no “apoio” Europeu, uma vez que as participações que têm no complexo militar industrial europeu o garantem. A guerra da Ucrânia é, assim, para o partido da guerra nos EUA, o que a segunda guerra mundial foi para o de então.

O rearmamento da Alemanha, para além dos “dolwares” que implica, pode também constituir um entrave preventivo da aproximação entre Federação Russa e Alemanha, pois uma Alemanha rearmada tenderá, em grande medida, a querer apropriar-se das matérias primas russas, não por via do diálogo, mas por via da força. Uma sociedade militarista e militarizada, para onde caminhamos, nunca será uma sociedade de paz e diálogo. O exemplo acabado disso mesmo são os próprios EUA, que utilizam os conflitos para justificar os investimentos.

Aquele princípio de que “se queres paz, preparas-te para a guerra”, é apenas o princípio da justificação da escalada. É um pouco como a NATO a qual, no final da guerra fria, ou se extinguia ou encontrava novos inimigos. Afinal, as organizações existem enquanto forem úteis e, estado a utilidade da NATO na promoção da corrida armamentista, há que alimentar o monstro com conflitos, quentes ou frios.

Neste tempo em que as “democracias” defendem a guerra e o fim dos programas sociais, e as “autocracias” preferem a paz e os programas de desenvolvimento, a escolha de von der Leyen e António Costa representa, sobretudo, a escolha pela autodestruição da EU.

O que está longe de ser um drama, refira-se! Por este caminho, pode muito bem ser a nossa salvação!

Fonte aqui.


A falácia do rearmamento da Europa

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 09/11/2024)


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Falar hoje, finais de 2024, de criar e desenvolver uma “indústria de defesa europeia” para se opor aos malvados russos de Putin é uma dupla falácia de quem não tem qualquer pudor em mentir.

Paulo Portas, no seu sermão dominical, falou na necessidade de a Europa investir em defesa para se opor a que Putin “venha por aí abaixo”. O homem que enquanto ministro da Defesa foi o vidente que viu as provas de que Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa, tal como o outro vidente da altura, o recompensado Durão Barroso, que por ter visto o milagre recebeu o prémio de chefe dos comissários europeus.

“Putin vem por aí abaixo!” Repete o coro de comentadores avençados, em sintonia com alguns militares que deviam saber dos “temas” de tática dos cursos de comando e estado-maior, os “garranos”, que a vinda dos russos por aí abaixo apenas terminava com um regimento de infantaria da URSS junto ao rio Lizandro, defendido por um batalhão português saído do Convento de Mafra, assim impedindo o bravo coronel russo que atravessara o Reno e o Danúbio, os Alpes e os Pirenéus e acabava vencido, sem poder tomar banho na Ericeira. É esta a primeira falácia, uma narrativa delirante e até ridícula. Os russos não veem por aí abaixo, Os mesmos que o garantem são os mesmos que sublinham as dificuldades de progressão para atingirem o rio Dniepro, as cidades de Zaporija e de Kharkiv. Ou bem que vêm por aí abaixo, e há que detê-los, ou bem que não vêm e não há necessidade de gastar dinheiro a defendermo-nos de um tigre de papel que não consegue atravessar a Ucrânia.

A segunda falácia diz respeito à necessidade de construir uma indústria de defesa europeia. Uma necessária observação: nenhum estado europeu desde a idade moderna aos nossos tempos se defendeu, a não ser a Rússia, por duas vezes, uma contra Napoleão e outra contra Hitler. A Polónia, nas várias versões territoriais e de soberania nunca se defendeu, mas a teocracia que a governa e constitui o estado mais vassalo dos Estados Unidos realizou o número mediático de instalar uns obstáculos de cimento — ursos — para impedir os tanques russos de avançar, nem o império austro-húngaro, nem a Itália, nem a França, nem a Espanha, nem Portugal, em qualquer época se defenderam, todas os estados atacaram os outros, segundo os seus interesses e os “aparelhos militares” foram sempre de defesa apenas do grupo dominante dentro do Estado, foram sempre, no dizer do rei Luiz XIV de França, a última “razão do rei” contra os seus súbitos. Continuando hoje a ser esse o papel das instituições militares, aquelas que Max Weber considerou serem as únicas legitimadas para o uso da força nos Estados. Do que se trata, então, quando alguém fala em defesa é a defesa de um poder instalado, de um regime, de um grupo no poder ou de dispor de meios para conquistar objetivos noutros espaços.

A questão da “defesa” da Europa é muito clara: O único aparelho militar credível do Ocidente Global é o dos Estados Unidos. Após o final da Segunda Guerra, aproveitando a imposição da desmilitarização da Alemanha nazi e a destruição das indústrias europeias, os Estados Unidos iniciaram a passagem de forças com meios convencionais de controlo das suas armas para os sistemas digitais Nos anos 60 introduziram a internet e a computação na sua panóplia de armas, e partiram para a conquista do espaço não apenas com as operações de demonstração de capacidade tecnológica com a ida à Lua, mas com a criação de uma verdadeira malha de satélites para fins militares de observação e espionagem, de transmissão de dados — que deram origem a duas famílias de instrumentos da guerra espacial e da sua articulação com a guerra no ar, em terra e no mar, os GNSS (Global Navigation Satelite System) de que o GPS é filho, e os GEOSS (Global Earth Observation Satelite System).

Desde os anos 70 do século passado, que as grandes potências, a URSS e a China se aperceberam da importância dos sistemas globais de navegação por satélite. Os americanos desenvolveram o GPS inicialmente apenas para fins militares — o sistema é gerido pelo Departamento de Defesa através da Força Aérea dos Estados Unidos, a União Soviética desenvolveu o seu sistema GLONASS também para fins militares, a China o seu BDS. A União Europeia, finalmente, criou um programa civil que designou por Galileo em 1990, quando os Estados Unidos e a Rússia tinham os seus sistemas operacionais em 1995! Com a operacionalidade dos sistemas GPS e GLONASS, na segunda metade da década de 90, a União Europeia (UE) percebeu a importância estratégica, económica, social e tecnológica da navegação por satélite! Excelente a previsão dos dirigentes europeus. Os mesmos, ou os clones, dos que agora apelam: às armas, europeus!

Também foi já década de 90 que os dirigentes da União Europeia perceberam a importância de programas cooperativos de desenvolvimento de sistemas de armas. Foram então criados programas para desenvolvimento de um caça europeu — o Eurofigther Thiphoon, um fracasso que desapareceu da cena — o programa de um helicóptero naval e de forças terrestres, o Nato Helicóptero, que não revelou ser um sucesso, um programa para uma NATO Fregate que nunca viu a luz do dia. Não foi uma partida brilhante, mas proporcionou ensinamentos, apagados da memória, porque os americanos apresentavam soluções chave na mão. Recebendo o devido pagamento e ainda eliminavam futura concorrência.

Hoje, todos os sistemas de armas europeus estão dependentes dos sistemas de informação, navegação e comunicação americanos. E vão estar pelo menos durante os próximos trinta anos, que é o ciclo de vida mínimo previsto para os sistemas de armas. Todos os aviónicos e sistemas de informação dos cockpits dos aviões, das pontes de comando dos navios, das torres dos carros de combate, das salas de operações das unidades terrestres, das cabeças dos misseis táticos ou estratégicos são e serão americanos. A título de exemplo, a Alemanha adquiriu 50 aviões caça bombardeiros americanos F 35, a Bélgica 30, em detrimento do Raphale francês. Durante os próximos 30 anos, todas as armas europeias terão a “inteligência” americana e apenas poderão ser usadas com o acordo dos Estados Unidos.

Falar em investir na indústria de armamento europeia é uma falácia. A Europa perdeu a oportunidade de ter autonomia estratégica nos anos 90 e essa perda não é remediável! Investir na indústria de armento na Europa significa tão simplesmente substituir a falência da indústria produtiva europeia — as fábricas de automóveis alemãs e francesas, por exemplo, também a Michelin, a Bosch — por inúteis fábricas de peças de artilharia, de carros de combate, que apenas se orientarão nos campos de batalha com os olhos do GPS americano!

A título de exemplo, quando a Agência Espacial Europeia (ESA) comunicou aos Estados Unidos a intenção de desenvolver o Galileo e que o desejava compatível com o GPS, os Estados Unidos avisaram que destruiriam os satélites europeus se estes interferissem com a operação o seu GPS! O governo norte-americano não autoriza outras nações a participarem da manutenção e desenvolvimento do GPS, dado os seus fins militares. Apenas em 2005 foi lançado o primeiro satélite do sistema Galileo o segundo em 2008, dois satélites em 2011 e outros dois em 2012. A primeira determinação de posição utilizando a constelação Galileo foi realizada em março de 2013 e em dezembro de 2016 havia um total de 26 satélites Galileo.

De 1990 a 2024, trinta e quatro anos, a Europa, a U E viveu no doce ripanço, a ver o mundo passar, sem receios de inimigos, entregue aos braços do amigo americano, que dispunha de bases na Alemanha, no Reino Unido, em Itália, armas nucleares nestes três países, além da Bélgica e de Israel. O governo dos Estados Unidos, uma autodenominada democracia liberal, estabelecia parcerias publico privadas com as grandes companhias das novas tecnologias, caso da Microsoft, a grande software house mundial, do Google, da Amazon, do Twiter, hoje X, do Facebook, hoje Meta, da Apple, da Starlink e da Space X de Elon Musk. Não deixa de ser curioso que os dois mais recentes satélites dos sistema Galileo tenham sido lançados por foguetões da Space X, de Elon Musk!

Indiferentes a estas evidências, os manipuladores da opinião impingem a mensagem: é necessário desenvolver uma indústria de material de guerra (eufemisticamente designada por indústrias de defesa europeia). Os e as warmongers fazem o seu trabalho, tocam cornetas e rufam tambores para receberem as suas comissões e prémios à custa dos europeus. A Declaração de Budapeste, da conferência de líderes europeus, que terminou a neste 8 de Novembro, defende “investimentos significativos públicos e privados no setor da Defesa”. O primeiro-ministro português declarou à saída que a indústria portuguesa também pode entra nesta farsa, em especial a indústria têxtil — camuflados para a tropa, atoalhados para as messes… botas e estandartes, presume-se que seja a nossa contribuição depois do envio de ferro velho representado por helicópteros Kamov, uns velhos M113, uns inúteis Leopard.

O inútil rearmamento da Europa significa uma nova era, os recursos que estão dedicados ao investimento produtivo serão desviados para produtos que são mera despesa. Esta transferência traduz-se em pobreza geral e fim do estado de bem-estar, será feita à custa do estado social. Mesmo os sistemas de duplo uso militar e civil num caso geram riqueza, noutra despesa. Colocar um motor num trator ou num carro de combate não é igual. A transferência de recursos para as indústrias militares provocará uma mudança de paradigma civilizacional da Europa, aumentará as desigualdades, a injustiça, a repressão. É o futuro que nos está a preparar esta nova seita de pregadores.

A proposta dos armamentistas lançadores de fogo pela boca, é a de enfiarmos a cabeça num laço e esperar que assim nos salvaremos!

Neoliberalismo: a antecâmara do fascismo!

(Hugo Dionísio in Strategic Culture Foundation, 07/09/2024)

Neoliberalismo: a antecâmara do fascismo! Eis o que se esconde por detrás das eleições alemãs.


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As eleições ocorridas na Turíngia e Saxónia, vistas como um referendo à governação Scholz/Baerbock e uma amostra do que aí virá em 2025, confirmaram a erosão do governo alemão, demonstrando que a “maldição de Zelensky” está bem viva. Quanto maior a proximidade com o ex-Presidente da Ucrânia e momentâneo ditador delegado, maior a probabilidade de queda de um governo. Trata-se de uma tendência quase inexorável.

Contudo, quase 80 anos depois do fim do terror nazi, vem o centro neoliberal pregar o medo do fascismo, como sua bandeira preferida. Enquanto amedrontam os seus povos com as AFD’s desta vida, apoiam o Banderismo na Ucrânia, o Milei na Argentina e golpistas de extrema direita na Venezuela. E com isto os apanhamos: a luta do centro neoliberal contra a extrema-direita não passa de um torpor oportunista, em que uma casta privilegiada que se considera civilizada, não quer ser substituída por outra casta mais trauliteira.

E enquanto acenam com os perigos da “extrema direita”, eliminando quem lhe poderia dar realmente combate, não impedem, contudo, a sua própria autodestruição, como sucede com o executivo de Sholz/Baerbock. Esta é também a história de muitos outros governos conotados com o centro neoliberal. Mas esta susceptibilidade autodestrutiva, constitui apenas a face visível – na Alemanha – de uma dinâmica social ainda mais profunda e que se identifica por toda a União Europeia, vivida ao longo de todo o século XXI, e que se impôs, a meu ver, através de 4 processos aceleradores críticos, criados/utilizados para produzir o efeito político que hoje observamos. Essa dinâmica, a não ser travada, conduzirá, propositada e inexoravelmente, a uma nova farsa fascista, neofascista, como lhe queiram chamar.

O primeiro processo crítico acelerador do projecto neoliberal, na europa, coincidiu com a “Guerra ao Terror” de Bush, em que embarcou toda a NATO, na sequência de atentados em Espanha, Inglaterra ou França, traduzida na invasão de Afeganistão e Iraque, construção da Primavera Árabe e destruição da Líbia e Síria. É nesta sequência que se impõe um processo de sobrevigilância e centralização da informação e inteligência a partir de Washington, atribuindo aos EUA o poder de analisar, monitorizar e coordenar esforços ao nível da segurança e criando, nas populações, as condições subjectivas para a aceitação do que viria em seguida: a vigilância em massa de todos os seus passos, a propósito da manutenção da sua segurança.

Outro momento crítico foi a crise financeira de 2008, que impôs o “Estado de Austeridade Permanente”, preparando as populações para a ideia de que o amanhã, afinal, não será melhor do que o ontem – apenas para alguns -, acelerando o processo de destruição do estado social e operando a maior transição de valor, entre classes, de que há memória na história recente e que se havia operado nos EUA e Reino Unido, logo após o inominável “Consenso de Washington”. É com a crise de 2008 que o Consenso de Washington se torna, finalmente, política oficial da União Europeia. Ao longo deste tempo, “investidores” americanos ocuparam posições dominantes em importantes sectores, por toda a Europa.

O terceiro momento crítico foi o Covid-19, com a introdução do “Grande Reset” de Davos e toda a ideologia do “novo normal”. Individualismo exacerbado, narcisismo, migração interna, das regiões mais pobres para as mais ricas e imigração de fora, para dentro do bloco ocidental, desenraizamento as populações da sua terra natal, cultura e língua, desaparecimento da malha social que confere coesão às sociedades. A “uberização” destruiu as restantes fronteiras económicas que resistiam. Uma empresa na Califórnia, opera no Ocidente, a partir dos EUA, sem intermediários, sem gastar um tostão em logística local. Passando por cima de leis e de toda a soberania nacional, recolhe dados, vende-os, classifica-os e recolhe ganhos. Por outro lado, o Covid-19, acompanhado de toda a lógica de submissão a recolhimentos forçados, contenção dos movimentos e vacinação obrigatória, criou as condições subjectivas para a submissão acrítica a um modelo de governação.

Como se não fosse já suficiente, com a operação Ucrânia, varre-se dos países centrais da “Ordem Baseada em Regras” a última réstia de soberania: as forças armadas. Voltou a “interoperacionalidade” e, com ela, a uniformização do padrão NATO, o que equivale a dizer, padrão EUA, comprado nos EUA, feito sob licença dos EUA. Estratégia e táctica militar, passam a ser desenvolvidas em Washington, em que os estados europeus não passam de postos avançados da “Ordem Baseada em Regras”.

Informação e inteligência; economia e finanças; organização social e política; defesa e segurança; eis as dimensões que foram sendo centralizadas e consolidadas em cada um dos momentos críticos. Cada um destes 4 momentos representou um salto evolutivo na força com que os EUA dominam a “Ordem Baseada em regras”. Para dominar o novo século, o espaço vital tem de estar consolidado, coordenado a partir de um centro reconhecido, criando um bloco, em que as relações desse sejam definidas para um todo orgânico. Tudo para preparar o confronto entre blocos. Os resultados económicos e sociais deste processo de aprimoramento, dirigido à Europa e feito para a secundarizar, determinaram uma perda relativa de poder, sentida pelas populações e estas, não a sabendo explicar, canalizam essa frustração para quem a verbaliza como ninguém: a extrema-direita. Perante a impotência, promessas adiadas e contradição entre discurso e prática, provenientes do centro neoliberal, a solução está em quem se mostra resoluto e eficaz, mesmo que brutal.

Façamos uma comparação histórica pertinente, para sabermos do que estamos a falar. O período em que nasce o fascismo no Ocidente (sim, nos EUA havia apartheid para os negros e fascismo, mesmo com supostas eleições), a riqueza estava distribuída da seguinte forma: entre os anos 20 e 40 do século XX, após o “Primeiro Terror Vermelho nos EUA”, os 10% mais ricos ficavam com uma parcela situada entre 43% e 49% do rendimento em cada ano, os 1% mais ricos, ficavam com 19% a 22%, já os 50% mais pobres ficavam com uma parcela que ia de 14% a 15%. O World Inequality Report não possui dados agregados para a Europa, mas na França, os resultados também não eram muito diferentes dos que vemos para os EUA. No fundo, os EUA representavam a tendência das economias mais avançadas.

A primeira conclusão a retirar daqui é óbvia: o período de crescimento do fascismo no mundo ocidental coincide com um período de agravamento das desigualdades, na concentração de rendimento, de enorme concentração de riqueza e consequente agravamento das condições de vida e de trabalho. A resposta do sistema para esta crise e para o aumento do poder reivindicativo dos trabalhadores que se organizavam em poderosos sindicatos, coincidiu com a criação do fascismo, corporativismo (que defendia a paz social por oposição à luta dialética) e a repressão. Referimos o termo “crise” quando assistimos a um agravamento das contradições resultantes da disparidade na distribuição de rendimento entre os mais ricos e os mais pobres.

A derrota do nazi fascismo mudou tudo! Nos EUA, logo em 1945, os 50% mais pobres passam a agregar mais rendimento do que os 1% mais ricos (15,8% para 14,2%), enquanto os 10% mais ricos, desceram para 35,3%. É nesta diferença, de quase 15% perdidos pelos 10% mais ricos, que se explica o fortalecimento da classe média americana e a construção do chamado sonho americano. Sem esta transferência, os EUA dificilmente se teriam tornado na superpotência que foram, nem teriam derrotado a URSS. Isto explica também a entrada em cena do Macarthismo (o “segundo Terror Vermelho” de 1950 a 57), deriva fascizante que “limpou” sindicatos e organizações de classe nos EUA.

Até aos anos 70 do século XX, a situação dos trabalhadores americanos continuou a melhorar e os dados atestam-no. Em 1970 a riqueza controlada pelos 50% mais pobres atinge o seu ponto alto (21,1%) e a dos 10% mais ricos (e 1% mais ricos também) atingem o seu ponto mais baixo (34% e 10,1% respectivamente). Os dados não poderiam ser mais claros: o período de ouro dos EUA coincide com o período em que a distribuição da riqueza produzida foi mais justa; foi também o período com mais liberdade, democracia, militância política e melhores condições de vida.

Na França não foi diferente, uma vez derrotado o nazi fascismo e, logo a partir de 1945, os 10% mais ricos atingem o seu ponto mais baixo (31,4%), o 1% mais rico 8,5% e os 50% mais pobres passam de 14,6% em 1934 para 20,5% em 1945. É pena não termos dados da Alemanha, mas se estes não falam por si…

Esta relação, nos EUA, mal ou bem, continuou até ao final da URSS e, em 1995, tudo se volta a inverter de volta ao período anterior à Segunda Guerra Mundial. O “Consenso de Washington” ocorrido em 1989, que decretou a mundialização do neoliberalismo segundo a “escola de Chicago”, coincide com o ano em que os 1% mais ricos voltam a concentrar mais de 14% do rendimento anual, o que já não sucedia desde os anos 50. A partir de 1989 foi sempre a concentrar, até aos dias actuais, em que: em 2022, os 10% mais ricos atingiram 48,3% do rendimento anual, os 1% mais ricos 20,9% e os 50% mais pobres, apenas 10,4%. Refira-se, a este propósito, que desde que existe registo, nunca os 50% mais pobres haviam ficado com tão pouco rendimento anual. O mínimo que haviam obtido, nos EUA, havia sido 11% por volta de 1850!

Voltando às eleições alemãs. Estamos precisamente a viver o período da história ocidental moderna, em que a redistribuição da riqueza produzida (se falarmos da riqueza existente é pior ainda) está num dos níveis mais baixos de sempre. Na Europa, a situação ainda não é tão grave como nos EUA, mas estes 4 aceleradores críticos que identifiquei (Guerra ao Terror, Crise Soberana; Covid-19; Guerra Fria 2.0), produzirão, necessariamente, o mesmo efeito de concentração da riqueza que está já a degradar e destruir o estado social europeu, construído à custa de uma redistribuição que, mal ou bem, ainda mantém alguns padrões de justiça.

Embora não se tenham produzido grandes alterações na quantidade de riqueza auferida pelos 50% mais pobres, nos principais países europeus com registo no World Inequality Report, é da chamada “classe média” que se ouvem muitas das queixas. Em países como a Suécia, Espanha, Portugal, França, Alemanha, Países Baixos e outros, a tendência é, embora de forma mais ténue do que nos EUA, em finais do século passado, para os 50% mais pobres perderem terreno para os 10% mais ricos. Ou seja, paulatinamente, vão-se desenvolvendo as relações económicas que produzirão uma realidade material típica do período em que se formou o fascismo.

Daí que seja hora de desfazer um dos mais importantes mitos, ou dogmas, que a narrativa oficial propaga sobre o fascismo: a principal característica do fascismo não é a repressão, mas, ao invés, a aceleração da concentração da riqueza e a sua entrega a uma cada vez menor quantidade de pessoas.

Cada vez menos pessoas têm mais poder económico, com o qual compram poder político e fazem o sistema político, mesmo os que se apelidam de “democráticos”, funcionar segundo os seus termos. O lobbying, o financiamento de campanhas e Think Thanks ou até da própria academia, são alguns dos meios mais usados para interferir e moldar as soluções políticas preconizadas.

Ao invés do processo de concentração da riqueza, já a repressão pode acontecer em qualquer sistema, quando esteja em crise ou sentindo-se ameaçado. A não ser nos casos psicopatológicos, a repressão é uma resposta orgânica justificada com um ataque externo ou interno. Só alguém mesmo muito alheado ou alienado da realidade acredita que não existe repressão nos EUA e, mais recentemente, intensificada na União Europeia. Todos os sistemas estatais têm um aparelho repressivo ao seu dispor e a sua utilização – dos meios coercivos – depende do nível da ameaça. Num estado fascista, o poder repressivo está ao serviço das camadas mais ricas da população.

O mesmo se passa com as eleições. Não é a existência de eleições que determina a natureza fascizante ou democrática de um sistema. O que determina a sua natureza democrática é a abrangência das suas políticas. Se abrangem os interesses da maioria, ou não. Uma escolha entre iguais, como sucede nos EUA, não é democracia, é sufragismo. No final será o complexo militar industrial e wallstreet quem manda.

Outra característica da democracia consiste na susceptibilidade de alterar a política económica, quando esta não serve os interesses da maioria. Eleições estéreis, pouco participadas em que governam partidos minoritários, como sucede crescentemente na Europa, não se explicam através da democracia. Esses partidos minoritários governam porque a base económica que servem, lhes permite fazê-lo, mesmo em minoria. Em resumo, é possível haver fascismo com eleições. E nunca observarão um fascista assumir que o é.

Se o estado em que os EUA já se encontram explica o surgimento de um Trump, uma “resposta” impotente para acabar com os exércitos de sem abrigo, junkies e de gente a viver em carros, roulottes ou tendas; na União Europeia, esse processo não é distinto e, embora mais tardio, está agora a produzir-se. Também na Europa está a surgir a resposta do sistema à crise que resulta do aprofundamento da contradição na redistribuição da riqueza. Quanto maior a contradição, quanto mais injusta a redistribuição, mais o sistema produzirá os agentes demagógicos, reaccionários, que encantarão as massas mais pobres, com a culpabilização dos também mais pobres: emigrantes, refugiados e outros, para aqui trazidos, precisamente, pelos que mais riqueza acumulam.

Não é admissível, portanto, que alguém responsável e conhecedor das dinâmicas sociais e em posse de informação fidedigna, fique admirado com o enviesamento eleitoral para a “extrema direita”. Mais grave se torna quando os representantes políticos do centro neoliberal, que se situa, inclusive, entre o wokismo e o ultraliberalismo (partidos wokistas eurosocialistas e social-democratas acusam Maduro de cometer fraude, mas consideram Milei um jogador limpo!), uma vez mais, tal como nos anos 20 e 30 do século XX, surgem a criar as condições materiais, por sucumbirem às dinâmicas de concentração da riqueza, seja por corrupção, encantamento ou medo de serem destruídos (e que razão têm), proporcionando, por sua vez e uma vez mais, o surgimento da oportunidade fascista (seja o caso da AFD ou não). O momento em que os super-ricos usam a repressão estatal para proteger o processo de concentração da riqueza.

Assim, ninguém se pode admirar que as massas trabalhadoras descontentes, empobrecidas, vítimas da rapina, muita dela exercida a partir de Washington, votem na “extrema direita”. Depois de ondas de revisionismo histórico a comparar o fascismo ao comunismo (e socialismo) e a URSS à Alemanha Nazi, foi o próprio centro neoliberal quem legitimou a extrema-direita. Se comparamos partidos aceites, que nunca promoveram o ódio e a discriminação (caso dos partidos comunistas), com partidos que fazem da doutrina do ódio e da discriminação as suas bandeiras, acabamos a normalizar estes últimos.

Acresce que, ao contrário do voto nos partidos progressistas (em sentido económico, marxista), que rejeitam e denunciam o wokismo enquanto característica desviante à direita, os partidos da “extrema-direita”, ao contrário, não comportam qualquer perigo para a base económica que sustenta o centro neoliberal. Nenhum regime fascista alterou o processo de concentração de riqueza, ao invés, reforçou-o. Também hoje, a “extrema-direita” defende apenas e tão só o aprofundamento do modelo económico existente e que, como demonstrei, proporcionou o seu próprio aparecimento.

E aqui chegados, se demonstra que o revisionismo histórico não é inocente. Ele visa criar um escape, uma alternativa ao centro neoliberal, sem que o poder real, o poder da riqueza acumulada, na economia, transite de mãos. Assim, os grandes concentradores ganham tempo, enganando as massas uma vez mais, prendendo-as na repressão fascista. Quando derrubado o golpe fascista, o desvio fascizante ou a deriva extremista neoliberal, as massas voltam a ser enganadas com o centro neoliberal, na medida em que não o identificam como pertencendo à mesma base económica que alimenta o estado fascista. E assim perpetuam a sua exploração, circulando entre formas mais ou menos agressivas de um mesmo remédio.

Para já, as eleições alemãs apenas confirmam este ciclo vicioso. E a prisão neste ciclo, uma vez mais, em processo de repetição histórica, esconde o maior dos conseguimentos do globalismo neoliberal, federalista, financeirizado: a formatação do conhecimento a um ponto em que os especialistas, competentíssimos na sua área, são incapazes de olhar para além daquilo que lhes ensinaram.

Neste sentido, o fascismo mais não é do que uma especialização, um aprofundamento em relação ao estágio actual do neoliberalismo globalista. O próprio belicismo, seja dos EUA (e que não termina com Trump), seja no centro neoliberal (para já), constitui também uma das consequências do processo de “fascização económica” da vida política. Resulta de uma cada vez mais agressiva tendência para a apropriação de riqueza, nem que seja pela via da guerra.

Quando ouço economistas, competentíssimos (não estou a ironizar), com canais concorridos, criticarem o Ocidente por estar a sucumbir, entre outras razões, por praticar salários elevados, percebo que a herança ideológica neoliberal é de facto pesadíssima. Nenhum destes competentíssimos economistas é capaz de olhar para além do esquema neoliberal que lhe ensinaram. Apenas reproduzem o que lhe ensinam, sendo meros instrumentos da lógica de acumulação e pilhagem ocidental.

A incapacidade de sonhar e almejar o que hoje se considera impossível, constitui a mais pesada herança dos últimos 100 anos, que os EUA tiveram para nos entregar. As eleições alemãs, na sua divisão entre sonhadores, situacionistas e aprofundadores, demonstram esta tensão latente. Demonstram que existe quem sonhe, mas as forças do medo, do ódio e da reacção, estão mais fortes que nunca. O neoliberalismo constitui o seu alimento preferido.

Neoliberalismo: a antecâmara do fascismo! Eis o que se esconde por detrás das eleições alemãs.

Fonte aqui.