Neoliberalismo: a antecâmara do fascismo!

(Hugo Dionísio in Strategic Culture Foundation, 07/09/2024)

Neoliberalismo: a antecâmara do fascismo! Eis o que se esconde por detrás das eleições alemãs.


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As eleições ocorridas na Turíngia e Saxónia, vistas como um referendo à governação Scholz/Baerbock e uma amostra do que aí virá em 2025, confirmaram a erosão do governo alemão, demonstrando que a “maldição de Zelensky” está bem viva. Quanto maior a proximidade com o ex-Presidente da Ucrânia e momentâneo ditador delegado, maior a probabilidade de queda de um governo. Trata-se de uma tendência quase inexorável.

Contudo, quase 80 anos depois do fim do terror nazi, vem o centro neoliberal pregar o medo do fascismo, como sua bandeira preferida. Enquanto amedrontam os seus povos com as AFD’s desta vida, apoiam o Banderismo na Ucrânia, o Milei na Argentina e golpistas de extrema direita na Venezuela. E com isto os apanhamos: a luta do centro neoliberal contra a extrema-direita não passa de um torpor oportunista, em que uma casta privilegiada que se considera civilizada, não quer ser substituída por outra casta mais trauliteira.

E enquanto acenam com os perigos da “extrema direita”, eliminando quem lhe poderia dar realmente combate, não impedem, contudo, a sua própria autodestruição, como sucede com o executivo de Sholz/Baerbock. Esta é também a história de muitos outros governos conotados com o centro neoliberal. Mas esta susceptibilidade autodestrutiva, constitui apenas a face visível – na Alemanha – de uma dinâmica social ainda mais profunda e que se identifica por toda a União Europeia, vivida ao longo de todo o século XXI, e que se impôs, a meu ver, através de 4 processos aceleradores críticos, criados/utilizados para produzir o efeito político que hoje observamos. Essa dinâmica, a não ser travada, conduzirá, propositada e inexoravelmente, a uma nova farsa fascista, neofascista, como lhe queiram chamar.

O primeiro processo crítico acelerador do projecto neoliberal, na europa, coincidiu com a “Guerra ao Terror” de Bush, em que embarcou toda a NATO, na sequência de atentados em Espanha, Inglaterra ou França, traduzida na invasão de Afeganistão e Iraque, construção da Primavera Árabe e destruição da Líbia e Síria. É nesta sequência que se impõe um processo de sobrevigilância e centralização da informação e inteligência a partir de Washington, atribuindo aos EUA o poder de analisar, monitorizar e coordenar esforços ao nível da segurança e criando, nas populações, as condições subjectivas para a aceitação do que viria em seguida: a vigilância em massa de todos os seus passos, a propósito da manutenção da sua segurança.

Outro momento crítico foi a crise financeira de 2008, que impôs o “Estado de Austeridade Permanente”, preparando as populações para a ideia de que o amanhã, afinal, não será melhor do que o ontem – apenas para alguns -, acelerando o processo de destruição do estado social e operando a maior transição de valor, entre classes, de que há memória na história recente e que se havia operado nos EUA e Reino Unido, logo após o inominável “Consenso de Washington”. É com a crise de 2008 que o Consenso de Washington se torna, finalmente, política oficial da União Europeia. Ao longo deste tempo, “investidores” americanos ocuparam posições dominantes em importantes sectores, por toda a Europa.

O terceiro momento crítico foi o Covid-19, com a introdução do “Grande Reset” de Davos e toda a ideologia do “novo normal”. Individualismo exacerbado, narcisismo, migração interna, das regiões mais pobres para as mais ricas e imigração de fora, para dentro do bloco ocidental, desenraizamento as populações da sua terra natal, cultura e língua, desaparecimento da malha social que confere coesão às sociedades. A “uberização” destruiu as restantes fronteiras económicas que resistiam. Uma empresa na Califórnia, opera no Ocidente, a partir dos EUA, sem intermediários, sem gastar um tostão em logística local. Passando por cima de leis e de toda a soberania nacional, recolhe dados, vende-os, classifica-os e recolhe ganhos. Por outro lado, o Covid-19, acompanhado de toda a lógica de submissão a recolhimentos forçados, contenção dos movimentos e vacinação obrigatória, criou as condições subjectivas para a submissão acrítica a um modelo de governação.

Como se não fosse já suficiente, com a operação Ucrânia, varre-se dos países centrais da “Ordem Baseada em Regras” a última réstia de soberania: as forças armadas. Voltou a “interoperacionalidade” e, com ela, a uniformização do padrão NATO, o que equivale a dizer, padrão EUA, comprado nos EUA, feito sob licença dos EUA. Estratégia e táctica militar, passam a ser desenvolvidas em Washington, em que os estados europeus não passam de postos avançados da “Ordem Baseada em Regras”.

Informação e inteligência; economia e finanças; organização social e política; defesa e segurança; eis as dimensões que foram sendo centralizadas e consolidadas em cada um dos momentos críticos. Cada um destes 4 momentos representou um salto evolutivo na força com que os EUA dominam a “Ordem Baseada em regras”. Para dominar o novo século, o espaço vital tem de estar consolidado, coordenado a partir de um centro reconhecido, criando um bloco, em que as relações desse sejam definidas para um todo orgânico. Tudo para preparar o confronto entre blocos. Os resultados económicos e sociais deste processo de aprimoramento, dirigido à Europa e feito para a secundarizar, determinaram uma perda relativa de poder, sentida pelas populações e estas, não a sabendo explicar, canalizam essa frustração para quem a verbaliza como ninguém: a extrema-direita. Perante a impotência, promessas adiadas e contradição entre discurso e prática, provenientes do centro neoliberal, a solução está em quem se mostra resoluto e eficaz, mesmo que brutal.

Façamos uma comparação histórica pertinente, para sabermos do que estamos a falar. O período em que nasce o fascismo no Ocidente (sim, nos EUA havia apartheid para os negros e fascismo, mesmo com supostas eleições), a riqueza estava distribuída da seguinte forma: entre os anos 20 e 40 do século XX, após o “Primeiro Terror Vermelho nos EUA”, os 10% mais ricos ficavam com uma parcela situada entre 43% e 49% do rendimento em cada ano, os 1% mais ricos, ficavam com 19% a 22%, já os 50% mais pobres ficavam com uma parcela que ia de 14% a 15%. O World Inequality Report não possui dados agregados para a Europa, mas na França, os resultados também não eram muito diferentes dos que vemos para os EUA. No fundo, os EUA representavam a tendência das economias mais avançadas.

A primeira conclusão a retirar daqui é óbvia: o período de crescimento do fascismo no mundo ocidental coincide com um período de agravamento das desigualdades, na concentração de rendimento, de enorme concentração de riqueza e consequente agravamento das condições de vida e de trabalho. A resposta do sistema para esta crise e para o aumento do poder reivindicativo dos trabalhadores que se organizavam em poderosos sindicatos, coincidiu com a criação do fascismo, corporativismo (que defendia a paz social por oposição à luta dialética) e a repressão. Referimos o termo “crise” quando assistimos a um agravamento das contradições resultantes da disparidade na distribuição de rendimento entre os mais ricos e os mais pobres.

A derrota do nazi fascismo mudou tudo! Nos EUA, logo em 1945, os 50% mais pobres passam a agregar mais rendimento do que os 1% mais ricos (15,8% para 14,2%), enquanto os 10% mais ricos, desceram para 35,3%. É nesta diferença, de quase 15% perdidos pelos 10% mais ricos, que se explica o fortalecimento da classe média americana e a construção do chamado sonho americano. Sem esta transferência, os EUA dificilmente se teriam tornado na superpotência que foram, nem teriam derrotado a URSS. Isto explica também a entrada em cena do Macarthismo (o “segundo Terror Vermelho” de 1950 a 57), deriva fascizante que “limpou” sindicatos e organizações de classe nos EUA.

Até aos anos 70 do século XX, a situação dos trabalhadores americanos continuou a melhorar e os dados atestam-no. Em 1970 a riqueza controlada pelos 50% mais pobres atinge o seu ponto alto (21,1%) e a dos 10% mais ricos (e 1% mais ricos também) atingem o seu ponto mais baixo (34% e 10,1% respectivamente). Os dados não poderiam ser mais claros: o período de ouro dos EUA coincide com o período em que a distribuição da riqueza produzida foi mais justa; foi também o período com mais liberdade, democracia, militância política e melhores condições de vida.

Na França não foi diferente, uma vez derrotado o nazi fascismo e, logo a partir de 1945, os 10% mais ricos atingem o seu ponto mais baixo (31,4%), o 1% mais rico 8,5% e os 50% mais pobres passam de 14,6% em 1934 para 20,5% em 1945. É pena não termos dados da Alemanha, mas se estes não falam por si…

Esta relação, nos EUA, mal ou bem, continuou até ao final da URSS e, em 1995, tudo se volta a inverter de volta ao período anterior à Segunda Guerra Mundial. O “Consenso de Washington” ocorrido em 1989, que decretou a mundialização do neoliberalismo segundo a “escola de Chicago”, coincide com o ano em que os 1% mais ricos voltam a concentrar mais de 14% do rendimento anual, o que já não sucedia desde os anos 50. A partir de 1989 foi sempre a concentrar, até aos dias actuais, em que: em 2022, os 10% mais ricos atingiram 48,3% do rendimento anual, os 1% mais ricos 20,9% e os 50% mais pobres, apenas 10,4%. Refira-se, a este propósito, que desde que existe registo, nunca os 50% mais pobres haviam ficado com tão pouco rendimento anual. O mínimo que haviam obtido, nos EUA, havia sido 11% por volta de 1850!

Voltando às eleições alemãs. Estamos precisamente a viver o período da história ocidental moderna, em que a redistribuição da riqueza produzida (se falarmos da riqueza existente é pior ainda) está num dos níveis mais baixos de sempre. Na Europa, a situação ainda não é tão grave como nos EUA, mas estes 4 aceleradores críticos que identifiquei (Guerra ao Terror, Crise Soberana; Covid-19; Guerra Fria 2.0), produzirão, necessariamente, o mesmo efeito de concentração da riqueza que está já a degradar e destruir o estado social europeu, construído à custa de uma redistribuição que, mal ou bem, ainda mantém alguns padrões de justiça.

Embora não se tenham produzido grandes alterações na quantidade de riqueza auferida pelos 50% mais pobres, nos principais países europeus com registo no World Inequality Report, é da chamada “classe média” que se ouvem muitas das queixas. Em países como a Suécia, Espanha, Portugal, França, Alemanha, Países Baixos e outros, a tendência é, embora de forma mais ténue do que nos EUA, em finais do século passado, para os 50% mais pobres perderem terreno para os 10% mais ricos. Ou seja, paulatinamente, vão-se desenvolvendo as relações económicas que produzirão uma realidade material típica do período em que se formou o fascismo.

Daí que seja hora de desfazer um dos mais importantes mitos, ou dogmas, que a narrativa oficial propaga sobre o fascismo: a principal característica do fascismo não é a repressão, mas, ao invés, a aceleração da concentração da riqueza e a sua entrega a uma cada vez menor quantidade de pessoas.

Cada vez menos pessoas têm mais poder económico, com o qual compram poder político e fazem o sistema político, mesmo os que se apelidam de “democráticos”, funcionar segundo os seus termos. O lobbying, o financiamento de campanhas e Think Thanks ou até da própria academia, são alguns dos meios mais usados para interferir e moldar as soluções políticas preconizadas.

Ao invés do processo de concentração da riqueza, já a repressão pode acontecer em qualquer sistema, quando esteja em crise ou sentindo-se ameaçado. A não ser nos casos psicopatológicos, a repressão é uma resposta orgânica justificada com um ataque externo ou interno. Só alguém mesmo muito alheado ou alienado da realidade acredita que não existe repressão nos EUA e, mais recentemente, intensificada na União Europeia. Todos os sistemas estatais têm um aparelho repressivo ao seu dispor e a sua utilização – dos meios coercivos – depende do nível da ameaça. Num estado fascista, o poder repressivo está ao serviço das camadas mais ricas da população.

O mesmo se passa com as eleições. Não é a existência de eleições que determina a natureza fascizante ou democrática de um sistema. O que determina a sua natureza democrática é a abrangência das suas políticas. Se abrangem os interesses da maioria, ou não. Uma escolha entre iguais, como sucede nos EUA, não é democracia, é sufragismo. No final será o complexo militar industrial e wallstreet quem manda.

Outra característica da democracia consiste na susceptibilidade de alterar a política económica, quando esta não serve os interesses da maioria. Eleições estéreis, pouco participadas em que governam partidos minoritários, como sucede crescentemente na Europa, não se explicam através da democracia. Esses partidos minoritários governam porque a base económica que servem, lhes permite fazê-lo, mesmo em minoria. Em resumo, é possível haver fascismo com eleições. E nunca observarão um fascista assumir que o é.

Se o estado em que os EUA já se encontram explica o surgimento de um Trump, uma “resposta” impotente para acabar com os exércitos de sem abrigo, junkies e de gente a viver em carros, roulottes ou tendas; na União Europeia, esse processo não é distinto e, embora mais tardio, está agora a produzir-se. Também na Europa está a surgir a resposta do sistema à crise que resulta do aprofundamento da contradição na redistribuição da riqueza. Quanto maior a contradição, quanto mais injusta a redistribuição, mais o sistema produzirá os agentes demagógicos, reaccionários, que encantarão as massas mais pobres, com a culpabilização dos também mais pobres: emigrantes, refugiados e outros, para aqui trazidos, precisamente, pelos que mais riqueza acumulam.

Não é admissível, portanto, que alguém responsável e conhecedor das dinâmicas sociais e em posse de informação fidedigna, fique admirado com o enviesamento eleitoral para a “extrema direita”. Mais grave se torna quando os representantes políticos do centro neoliberal, que se situa, inclusive, entre o wokismo e o ultraliberalismo (partidos wokistas eurosocialistas e social-democratas acusam Maduro de cometer fraude, mas consideram Milei um jogador limpo!), uma vez mais, tal como nos anos 20 e 30 do século XX, surgem a criar as condições materiais, por sucumbirem às dinâmicas de concentração da riqueza, seja por corrupção, encantamento ou medo de serem destruídos (e que razão têm), proporcionando, por sua vez e uma vez mais, o surgimento da oportunidade fascista (seja o caso da AFD ou não). O momento em que os super-ricos usam a repressão estatal para proteger o processo de concentração da riqueza.

Assim, ninguém se pode admirar que as massas trabalhadoras descontentes, empobrecidas, vítimas da rapina, muita dela exercida a partir de Washington, votem na “extrema direita”. Depois de ondas de revisionismo histórico a comparar o fascismo ao comunismo (e socialismo) e a URSS à Alemanha Nazi, foi o próprio centro neoliberal quem legitimou a extrema-direita. Se comparamos partidos aceites, que nunca promoveram o ódio e a discriminação (caso dos partidos comunistas), com partidos que fazem da doutrina do ódio e da discriminação as suas bandeiras, acabamos a normalizar estes últimos.

Acresce que, ao contrário do voto nos partidos progressistas (em sentido económico, marxista), que rejeitam e denunciam o wokismo enquanto característica desviante à direita, os partidos da “extrema-direita”, ao contrário, não comportam qualquer perigo para a base económica que sustenta o centro neoliberal. Nenhum regime fascista alterou o processo de concentração de riqueza, ao invés, reforçou-o. Também hoje, a “extrema-direita” defende apenas e tão só o aprofundamento do modelo económico existente e que, como demonstrei, proporcionou o seu próprio aparecimento.

E aqui chegados, se demonstra que o revisionismo histórico não é inocente. Ele visa criar um escape, uma alternativa ao centro neoliberal, sem que o poder real, o poder da riqueza acumulada, na economia, transite de mãos. Assim, os grandes concentradores ganham tempo, enganando as massas uma vez mais, prendendo-as na repressão fascista. Quando derrubado o golpe fascista, o desvio fascizante ou a deriva extremista neoliberal, as massas voltam a ser enganadas com o centro neoliberal, na medida em que não o identificam como pertencendo à mesma base económica que alimenta o estado fascista. E assim perpetuam a sua exploração, circulando entre formas mais ou menos agressivas de um mesmo remédio.

Para já, as eleições alemãs apenas confirmam este ciclo vicioso. E a prisão neste ciclo, uma vez mais, em processo de repetição histórica, esconde o maior dos conseguimentos do globalismo neoliberal, federalista, financeirizado: a formatação do conhecimento a um ponto em que os especialistas, competentíssimos na sua área, são incapazes de olhar para além daquilo que lhes ensinaram.

Neste sentido, o fascismo mais não é do que uma especialização, um aprofundamento em relação ao estágio actual do neoliberalismo globalista. O próprio belicismo, seja dos EUA (e que não termina com Trump), seja no centro neoliberal (para já), constitui também uma das consequências do processo de “fascização económica” da vida política. Resulta de uma cada vez mais agressiva tendência para a apropriação de riqueza, nem que seja pela via da guerra.

Quando ouço economistas, competentíssimos (não estou a ironizar), com canais concorridos, criticarem o Ocidente por estar a sucumbir, entre outras razões, por praticar salários elevados, percebo que a herança ideológica neoliberal é de facto pesadíssima. Nenhum destes competentíssimos economistas é capaz de olhar para além do esquema neoliberal que lhe ensinaram. Apenas reproduzem o que lhe ensinam, sendo meros instrumentos da lógica de acumulação e pilhagem ocidental.

A incapacidade de sonhar e almejar o que hoje se considera impossível, constitui a mais pesada herança dos últimos 100 anos, que os EUA tiveram para nos entregar. As eleições alemãs, na sua divisão entre sonhadores, situacionistas e aprofundadores, demonstram esta tensão latente. Demonstram que existe quem sonhe, mas as forças do medo, do ódio e da reacção, estão mais fortes que nunca. O neoliberalismo constitui o seu alimento preferido.

Neoliberalismo: a antecâmara do fascismo! Eis o que se esconde por detrás das eleições alemãs.

Fonte aqui.


7 pensamentos sobre “Neoliberalismo: a antecâmara do fascismo!

  1. Escreve o autor do texto:
    “Acresce que, ao contrário do voto nos partidos progressistas (em sentido económico, marxista), que rejeitam e denunciam o wokismo enquanto característica desviante à direita, os partidos da “extrema-direita”, ao contrário, não comportam qualquer perigo para a base económica que sustenta o centro neoliberal.”

    Mais uma alfinetada no Wokismo! Tanto quanto percebo este movimento é sobretudo atacado pela direita e pela extrema direita, mas não enxergo porquê tanto encarniçamento por parte da esquerda ou das esquerdas que, pelo menos da boca para fora, costumam assumir uma atitude solidária para com os oprimidos da terra.
    Nem sequer se dão ao trabalho de explicar às pessoas o que é e como surgiu o wokismo não contextualizam o movimento nem apresentam argumentos para o rejeitar, é execução sumária pura e simples. Assim, vou aqui integrar um texto que escrevi e publiquei algures esperando a melhor atenção:

    Guerra cultural anti woke
    Lutas antirracistas e anti sexistas, ou pelo menos algumas das suas manifestações, eram vistas até há pouco como casos exemplares de justiça social; todavia, mais recentemente, passaram a ser percebidas por alguns setores, que, digamos assim, ganharam coragem para ‘sair do armário’, como radicalismos perfeitamente despropositados e enquanto tal carentes de legitimidade. Esta reação coincide com o avanço da extrema direita a que estamos assistindo, estimulado pelas dificuldades que as democracias liberais estão a encontrar junto do eleitorado que tende a culpar os políticos e as políticas pelos problemas com que as pessoas se deparam no seu quotidiano.
    É neste contexto que se situa a guerra cultural anti woke que mobiliza algumas camadas da sociedade e que de certa maneira funciona como uma manobra para desviar a atenção das pessoas atingindo alvos que podem funcionar como bodes expiatórios. Se indagarmos do extrato político e social dessas camadas confirmamos que maioritariamente estamos perante extratos conservadores, ligados ao pensamento de direita e de extrema direita, embora neste caso também inclua pessoas ligadas à esquerda liberal, eventualmente, agastadas com certas atitudes e posições que consideram excessivas e desproporcionadas.

    Para normalizar o racismo, o sexismo e outros tipos de discriminação é muito conveniente fazer passar a mensagem de que todos aqueles e aquelas que lutam contra estes fenómenos são anormais; desse modo e por contraposição, estes mesmos fenómenos passam a ser percebidos como normais. Continuar a usar linguagem que deprecia um povo de determinada raça ou grupo social ou continuar a objetificar as mulheres serão coisas inocentes e perfeitamente normais, só um anormal, destituído de senso comum e de sentido de humor nelas irá reparar.
    Neste contexto esquece-se que o difícil não é ser racista ou sexista, o difícil é ser contra, ou seja, contrariar a tendência que temos para desenvolver uma mentalidade racista, sexista (e, em última análise, fascista), sobretudo, se estivermos do lado da barricada que sai, ou julga sair, beneficiada com essas posições. Por exemplo, os brancos pobres podem sentir que a sua autoimagem é positivamente reforçada pela existência de outros indivíduos que ainda ocupam um lugar mais baixo na escala social.
    Se o objetivo é normalizar o racismo e outros tipos de discriminação negativa denunciando como anormais, porque extremistas, dogmáticos e fanáticos, aqueles que os denunciam, a estratégia consiste em procurar chamar a atenção para procedimentos de elementos do movimento Woke que, alegam, apontam para essa anormalidade. Nesse sentido, os críticos do movimento Woke acusam-no de dois pecados capitais: recorrer ao que designam de política do cancelamento e a medidas tendentes a coartar a liberdade de expressão de pensamento das pessoas que deles discordam; e assumem desse modo o papel de vítimas.
    Todavia, quando, numa primeira abordagem, consulto o Google para me informar sobre a ideologia e cultura Woke, vejo inúmeras publicações que fazem uma avaliação negativa do movimento e não encontro praticamente nenhuma neutra e muito menos positiva. No mínimo é preocupante e parece mostrar que afinal quem está a ser cancelado são os representantes e defensores deste movimento e não os seus detratores. Acusam-no de ser uma espécie de veneno que está a destruir a sociedade americana e o Ocidente, mas, como é habitual, a argumentação em defesa de tal tese é fraca ou mesmo secundarizada, como se bastasse execrá-lo.
    Um dos argumentos a que mais frequentemente recorrem consiste em acusar o movimento Woke de, sobretudo através das redes sociais, cancelar pessoas cujas palavras ou atos, por um qualquer motivo, são considerados politicamente incorretos; fragilizando desse modo o seu prestígio e influência. Mas, mesmo aceitando-se que tal seja verdade, se bem repararmos, estar-se-ia tão simplesmente a fazer aquilo que os críticos do movimento fizeram e continuam descaradamente a fazer. Com estes está tudo bem, mas com os negros? Com as mulheres e homens feministas? Com as minorias não heterossexuais? Como se atrevem?!
    Portanto é legitimo deduzir que o objetivo do movimento anti woke é, como acima referido, normalizar o racismo e outras atitudes sociais discriminatórias, e desse nodo naturalizar as situações de dominação e opressão que passam pela desumanização do outro, do que é dominado e oprimido porque é inferior, e naturalmente precisa de tutela – o natural transforma-se assim em normativo, é o que deve ser, não o aceitar é ser anormal, é não seguir a norma.
    Tudo isto para concluir que basicamente o movimento anti woke é um movimento reacionário, conservador na melhor das hipóteses – pretende congelar o passado para a ele retornar, mesmo se, entretanto, se tiver procedido a algum aggiornamento.

  2. Um sírio a viver em Portugal há 25 anos, não foi daqueles que de la saíram em 2014, diz que gosta de viver em Portugal.
    E diz que nos últimos tempos gosta mais ainda.
    Diz que Portugal e hoje o único país da Europa Ocidental onde se pode dizer “Palestina Livre” sem ser preso.
    E as notícias que nos chegam de França ou Alemanha confirmam isso mesmo.
    O simples uso de um Keffieh pode valer multa em França e grosso espancamento pela polícia na Alemanha.
    O antissemitismo e um saco enorme onde cabe tudo, todas as dissidências, todas as condenações ao estado genocida de Israel e a sua soldadesca sodomita.
    Nessa Europa que aprendemos a admirar, muitas vezes com mentalidade autoflafelante, a democracia esta também a morrer como que debaixo das bombas que destroem o povo de Gaza ou das balas e bulldozers que destroem a Cisjordânia.
    Alguém disse um dia que Portugal era um oásis.
    Era mentira mas agora é infelizmente verdade. Portugal e um oásis onde se refugia a liberdade de expressão na Europa Ocidental.
    A vaca da Van der Pfizer disse a manifestantes no Porto que tinham sorte em não estar em Moscovo porque logo seriam presos.
    A vaca sabia que estava a mentir pois dificilmente alguém seria preso na Rússia por criticar apoiantes do genocídio em Gaza.
    Mas no seu país seriam imediatamente presos e levariam logo ali umas bastonadas por conta.
    Porque e assim que teem acabado todas as manifestações contra o genocidio em Gaza naquela terra que nunca foi desnazificada.
    Se alguma vez pensei que o meu país martirizado por uma ditadura de 48 anos seria o único país europeu onde e possível escrever o que escrevemos aqui sem ser presos? Decididamente não.
    Mas esperemos que se mantenha assim. Que a Europa não apague aqui a luz da liberdade.
    Do rio até ao mar Palestina será livre.
    Outra frase pela qual muita gente já foi preso ou apanhou da polícia por essa Europa que se diz um livre jardim.
    Vão ver se o mar da choco.

  3. Se conseguir-mos compreender o mundo e a sociedade em que vivemos é essencial, especialmente nos dias de hoje, em que a retórica populista que beira o fascismo está a reaparecer….O neoliberalismo está a destruir a democracia..

    A democracia foi domesticada há muito tempo. Os meios de comunicação social burgueses fabricam a opinião, transmitem emoções, gostos, escolhas, etc. São tão poderosos que conseguiram fazer com que políticos incompetentes são reeleitos. A este nível de condicionamento, de alienação, podemos dizer que não estamos numa democracia.

    A democracia sempre foi acusada de ser uma grande farsa, um logro a que por vezes se chamava “república das bananas” porque entre a ditadura e a democracia, os métodos de governar e domesticar as massas são apenas diferentes na sua abordagem e nos meios utilizados. A democracia seria, de facto, uma ditadura branda ou uma república com laivos totalitários… Não sei se, desde o início, a democracia não seria uma ditadura disfarçada que imitava os métodos democráticos (utilizando a educação nacional, a propaganda da narrativa republicana, a concessão de uma série de direitos e liberdades, o poder de compra, etc.) para comprar o consentimento, o servilismo e a docilidade do povo…

    Mas admitamos que vivemos num sistema em que as elites exteriores decidem tudo, têm a última palavra e, consoante a reação, o consentimento ou a resistência do povo, essas elites deslocam o cursor ora para o lado dos meios “democráticos” (povo consentido, soft power, engenharia social, via suave, sedução, recompensa, marcha do progresso, etc.), ora para o lado dos meios ditatoriais (povo revoltado, propaganda de linha dura, diabolização, recurso à força repressiva, à censura, etc.)… ora ao lado dos meios ditatoriais (povo revoltado, propaganda de linha dura, demonização, recurso à força repressiva, à censura, à violência do Estado, etc

    A ilusão de que a democracia é apenas uma ditadura mais elaborada e sofisticada no seu funcionamento, em comparação com outras ditaduras “clássicas”, empregando métodos “menos violentos” que ajudam a fazer malabarismos e a controlar a violência interior do povo contra si próprio (dividir e conquistar, tornar inacessíveis os verdadeiros patrocinadores e líderes, etc.) e tornar a população amorfa e incapaz de se revoltar verdadeiramente, tomando o seu destino nas suas próprias mãos sem gurus…Mas, cada vez mais, as nossas elites corruptas estão a desabafar, porque talvez estejam fartas de fingir que se preocupam com o povo, fazendo de actores de uma eterna fábula política diante dos nossos olhos…

    A ideologia burguesa dominante é sempre a que visa a maximização da capitalização e do lucro, ou seja, a que justifica a posteriori a “naturalidade” das medidas políticas tomadas nesse sentido.
    O que falta a esta amável discussão é um fio de prumo, uma análise do estado da crise económica, a que levou ao fim de Bretton Woods, a de 2008 e a muito mais grave, pelo menos em termos potenciais, em que o Capital se encontra hoje. O sapo quis tanto assemelhar-se ao boi, lucrando com a criação monetária ilimitada, que está agora pronto a rebentar.

    O Capital não é uma entidade uniforme, mas, pelo contrário, é um corpo conflituoso, tanto na sua composição (apenas uma parte do Capital se alimentou nos últimos 3 anos) como a nível “nacional” (daí as guerras dos EUA contra o resto do mundo).

    O capital também compreendeu perfeitamente a crise ecológica e as suas inevitáveis consequências mortais, que serão maciças, tanto mais que o seu objetivo declarado é que as consequências desta crise não sejam problema seu, mas daqueles que morrerão ou estão a morrer em consequência dela.

    Não estamos num sistema autoritário, mas sim num sistema totalitário.

    O sistema não precisa de ser autoritário no sentido maoísta, estalinista ou hitleriano do termo para ser totalitário. Só tem de ser subtil, tortuoso, alusivo e sedutor.

  4. Pois, a lendária classe média americana, muito religiosa e muito fascista, que festejou efusivamente a execução do casal Rosemberg.
    A classe média que punha toda a gente a sonhar com amanhas que cantam assim conseguissem rumar a América.
    Após a derrota do nazismo, a União Soviética e o seu sacrifício foram reconhecidos por muita gente.
    Foi também por isso e não so por ninguém ter a certeza se a União Soviética não tinha também a bomba que os americanos não acederam aos insistentes pedidos do fascista Churchill para destruir o país com armas nucleares.
    Essa destruição tornaria os Estados Unidos odiados em todo o mundo e a admiração bovina que muita gente tinha pela sociedade norte americana seria igualmente destruída. Isso não colocaria os Estados Unidos em perigo mas seria sempre mau para os negócios.
    Mas criar uma vigorosa classe média também nalguns países europeus como a França, Alemanha, Inglaterra e Países Nórdicos teve também o efeito de por soviéticos e outros a desejar mais do que tinham.
    Eles não tinham noção que mesmo a tal classe média americana tinha de se esfolar se quisesse por um filho numa Universidade e que se tivesse uma doença grave tinha boas hipóteses de morrer por não ter dinheiro para pagar o tratamento.
    Pensavam que poderiam ter tudo o que tinham e ainda um carro para cada um.
    Em resumo, acabaram por trocar saúde,educação,segurança no trabalho e comida no prato por coca cola e calças de ganga.
    Também porque nunca perceberam que no chamado mundo livre só meia dúzia de países e que tinham a tal classe média vigorosa.
    A América Latina vivia mergulhada numa miséria negra e boa parte dos países eram ditaduras cruéis.
    O Sul da Europa tinha enormes bolsas de miseria e na Península Ibérica só em meados dos anos 70 nos livramos ate de ditaduras.
    Na Ásia dominada pelo Ocidente a situação era terrível em todo o lado. No Irão foi deposto um primeiro ministro que queria dar dignidade ao povo e dado o poder a um soberano clinicamente louco.
    A Indonésia foi massacrada por Suharto com a benção e apoio do Ocidente que até lhe deu listas de morte.
    Mas do outro lado daquilo a que o fascista Churchill chamou cortina de ferro sonhavasse com um carro para cada um e casinhas com jardim.
    Porque ninguém tinha ido ao poço dos negros lá do sítio, leia se Harlem e outros a ver quem podia lá morar.
    Ora destruída a União Soviética claro que deixou de ser preciso deixar tantas migalhas para a tal classe média.
    Por isso desde os anos 90 do Século passado ela tem empobrecido em todo o lado.
    No Leste a prosperidade não chegou e, antes pelo contrário, viram a face mais cruel do capitalismo.
    Passaram de ser descritos como uns pobres explorados para ser descritos como uns malandros que não queriam nem sabiam trabalhar por viverem a sombra do Estado. Mas a gente ia ensina los acabando lhes com a mama.
    Caíram numa miséria negra e na República Checa ate houve quem quisesse destruir a rede de metro de superfície de Praga porque era preciso provar que o comunismo não tinha feito nada de bom.
    Contasse a anedota de que morto Bill Gates, lhe dariam a escolher entre o céu e o Inferno, dado que ele tinha feito coisas mas mas também boas.
    Ele vai ao céu e aquilo e uma pasmaceira, com gente a tocar harpa. Vai ao Inferno e há mulheres, bebida, boa comida, música. E escolhe o Inferno.
    Dias depois o Sao Pedro vai ao Inferno e o Bill está a ferver num caldeirão e a ser picado com espetos pelos demônios.
    E o Bill pergunta “mas afinal o Inferno e isto?”. Responde o São Pedro “um gênio da informática como tu e não viste que aquilo era o screen saver?”.
    Pois foi isso que a Leste não viram. Por isso afundaram na miséria e do lado de cá temos ido afundando. Já ninguém precisa de nos dar migalhas.
    Agora e aguentar. Cá e lá.

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