“O que está a acontecer no mundo não é só profundamente imoral, mas também suicida”

(Entrevista a Noam Chomsky, in Diário de Notícias, 09/10/2021 )

Teórico da linguagem, pensador polémico, Noam Chomsky acaba de publicar Um guia essencial sobre capitalismo, política e o funcionamento do mundo. Na entrevista à TSF e DN fala de vacinação, clivagens políticas, Afeganistão e alterações climáticas.


Acredita que os países ricos estão dispostos a assumir as suas responsabilidades e ajudar a fornecer o que o mundo em desenvolvimento ainda precisa em termos de vacinação?
É um escândalo e também é suicida. Os países ricos praticamente monopolizaram a vacina. Tem havido alguns esforços para distribuí-la aos países que precisam dela desesperadamente. Na África, Ásia, América Latina. Não só monopolizaram as vacinas, mas insistem em que as taxas de lucro exorbitantes das empresas farmacêuticas sejam protegidas pelos chamados acordos de livre comércio altamente protecionistas. O que está a acontecer não é apenas profundamente imoral, mas também suicida. Todos entendem que quanto mais tempo levar para o resto do mundo ser vacinado, mais tempo há para o vírus se transformar em variantes que serão incontroláveis, que irão, claro, voltar aos próprios países ricos, como foi com a variante Delta. É um exemplo de como a ganância e a estupidez superam não apenas os valores morais elementares, mas mesmo um sentido de auto-preservação. Agora, há um forte movimento anti-vacinação que, nos EUA, é localizado. De forma esmagadora, nos estados republicanos, praticamente na velha confederação e em alguns estados do noroeste, há uma oposição muito forte à vacinação. E os hospitais estão lotados com quase 100% de pacientes não vacinados. Estão a morrer e dizem “não quero uma vacina, não vou deixar o governo fazer isso comigo”. Sabe, é maníaco, doentio, até alguns segmentos da esquerda são apanhados nisso. Mas a maioria dos republicanos dizem que, simplesmente, não serão vacinados.

Isso relaciona-se com as clivagens e a polarização na política americana atual. Vê-as como uma ameaça importante para a democracia dos EUA?
Bem, a democracia dos EUA está moribunda, está de partida. Podemos ver isso no Congresso agora que está a debater a legislação que levaria os Estados Unidos, em alguma medida, na direção de social-democracia que é normal na Europa. Cuidados de saúde universais dificilmente radicais, ensino superior gratuito, creches, isto é, as coisas normais na maior parte do mundo mas que nos Estados Unidos são consideradas radicais. Os republicanos são totalmente contra.

“A democracia dos EUA está moribunda, está de partida. Podemos ver isso no Congresso agora que está a debater a legislação que levaria os Estados Unidos, em alguma medida, na direção de social-democracia que é normal na Europa.”

Pensa que um Partido Republicano orientado e controlado pelo ex-presidente Trump pode ganhar as eleições intercalares do próximo ano e voltar ao poder na Casa Branca em 2024?
É muito provável. E se o fizerem, o mundo estará em grande perigo. Eles sabem que são um partido minoritário e que não podem ganhar eleições livres. Portanto, têm uma estratégia que passa por reduzir os direitos de voto. Em praticamente todos os estados republicanos estão a impor novas leis que tornam mais difícil o voto de eleitores que tendem a ser democratas, tornam mais difícil para que votem as minorias, os pobres, os trabalhadores, as populações urbanas e assim por diante. Dessa forma, aumentam o poder da base republicana, da direita, da supremacia branca, do nacionalista cristão, do tradicional. A outra tática é desviar a atenção das questões económicas e de classe, onde os republicanos estão muito à direita e a esfaquear os seus próprios eleitores pelas costas, desviando a atenção para as chamadas questões culturais. Concentram-se nisso, ou no aborto, ou em garantir que todos tenham um arsenal de fuzis na garagem, qualquer coisa menos a classe e as questões económicas. Isso faz sentido para um partido totalmente leal aos super-ricos e ao setor corporativo. Pode ver isso dramaticamente com Trump, um homem com uma autoconfiança brilhante, ele poderia levantar-se, com uma mão dizer, “eu amo-te e trabalho para ti”; e, com a outra mão, apunhalar-te pelas costas. Uma terceira parte da estratégia, que é muito aberta e explícita, é fazer com que o país sofra o máximo possível. Se ler os projetos agora no Congresso: seguro-desemprego, creche, uma ajudinha de saúde para o escandaloso sistema de saúde dos Estados Unidos, tudo isso seria muito benéfico para a população. São medidas muito populares, mesmo entre os eleitores republicanos. Mas Trump precisa ter a certeza de que não serão aprovadas. Porque se o país sofrer o suficiente e for ingovernável, eles podem culpar os democratas e voltar ao poder. Algumas das coisas com as quais os republicanos se safam são quase cómicas, como a retirada do Afeganistão, planeada por Trump. Fez um acordo com os talibãs, sem sequer notificar o governo afegão, que era “vocês podem fazer o que quiserem, assumir aquilo. Sem condições. Nós retiramos as tropas. A única condição é não dispararem contra as tropas americanas que vão embora. Fora isso, façam o que quiserem”. Foi uma traição total.

Na Economist, há algumas semanas , o senhor escreveu que os EUA permanecem sem rival em força militar e económica, mas com terríveis consequências para o mundo. Porquê?
Há uma luta em curso, que é muito mal compreendida pela imprensa. É, sobretudo, uma questão de liberdade de navegação. São questões relacionadas com o direito do mar. Há uma disposição que estipula que os países têm uma zona económica exclusiva de 200 milhas, a partir da costa. Agora, a questão da liberdade de navegação com a China está nesse ponto. Os EUA não assinaram a Lei do Mar, nem a ratificaram, mas insistem que a liberdade do direito do mar permite ações militares e de inteligência dentro da zona económica exclusiva. A China aceita a liberdade de navegação, mas sem nenhuma ação militar e de inteligência. É aí que está o conflito que, certamente, pode ser resolvido por diplomacia e negociações, mas os EUA querem resolvê-lo enviando uma armada de navios de guerra para as zonas contestadas da China. Ao mesmo tempo, enviam uma frota de submarinos nucleares avançados para a Austrália, que a Austrália vai pagar, mas que estarão sob o comando americano. Ao fazer isso, deram um pontapé na cara à França. E a Austrália é que teve que lidar com a França, que ficou certamente muito chateada e chamou os seus embaixadores na Austrália e nos EUA. Não se preocuparam com a Inglaterra, porque reconhecem que a Inglaterra é apenas um estado vassalo dos EUA, não um país independente. O principal correspondente militar australiano fez uma análise detalhada do caráter grotesco do negócio e como põe a Austrália em perigo. Mas isso não chega à imprensa ocidental, aqui é um acordo maravilhoso.

“Pode ver isso dramaticamente com Trump, um homem com uma autoconfiança brilhante, ele poderia levantar-se, com uma mão dizer, “eu amo-te e trabalho para ti”; e, com a outra mão, apunhalar-te pelas costas.”

No caso do Afeganistão, o senhor é dos que pensa que invadir foi uma opção má, e que a retirada foi provavelmente ainda pior. E agora? Acha que este novo governo talibã, pode ser melhor para o povo afegão do que o que houve entre 1996 e 2001?
Bem, a traição de Trump ao povo afegão e ao governo afegão foi severa. O acordo que ele fez com os talibãs, de lhes entregar o país, foi uma decisão para maio de 2021, o início da temporada de combates. Foi o pior momento possível, não havia oportunidade para acomodações ou qualquer outro arranjo. Bem, Biden tentou torná-lo um pouco melhor, acrescentou algumas condições que Trump não havia adicionado. Era óbvio que o governo afegão estava afundando, não era apenas um atoleiro de corrupção, mas sim um colapso completo. Era bastante óbvio que o exército afegão entraria em colapso. Eles não têm nada para lutar, os soldados estão lá, mas não são pagos. Por que deveriam lutar pelo poder estrangeiro? O colapso era óbvio. As únicas pessoas que não entenderam isso foram as agências de serviços secretos. Eles sabem exatamente o que está a acontecer e fornecem relatórios precisos. Mas, à medida que esses filtros sobem na cadeia de comando, são modificados de acordo com o que as pessoas no topo desejam ouvir. Quando chega ao poder executivo, eles não têm nenhuma relação com o que está a acontecer. Há um longo historial disso. Os serviços secretos no terreno são muito eficientes. Mas o sistema leva a uma grande confusão no topo. Era bastante óbvio que o exército afegão não resistiria; que o chamado governo afegão, com uma corrupção massiva no seu interior, entraria em colapso imediatamente. E foi o que aconteceu.

“China, Rússia, os estados da Ásia Central querem tentar trabalhar com os talibãs para tentar melhorar a situação e ver se os podem mover numa direção mais moderada. Isso teve a oposição de dois países, os EUA e a Índia.”

O que podemos esperar destes talibãs 2.0?
Bem, há uma divisão entre os poderes que podem lidar com isso. China, Rússia, os Estados da Ásia Central querem tentar trabalhar com os talibãs para tentar melhorar a situação e ver se os podem mover numa direção mais moderada. Isso teve a oposição de dois países, os EUA e a Índia. Nas reuniões da Organização do Conselho de Cooperação de Xangai, a Índia esteve sozinha e opôs-se aos esforços dos demais países para caminhar nessa direção. O Tesouro dos EUA detém os recursos financeiros do governo afegão. Os EUA congelam esses recursos e pressionam o FMI e o Banco Mundial para reter os financiamentos. O povo afegão está a sofrer muito: enfrentam fome massiva e destruição do país. E é aí que estamos. A China liderou os esforços das potências regionais, são os que estão a seguir a política certa. Os talibãs estão no comando, é um facto, são o governo em funções. Há muitas coisas que são muito más neles mas também há coisas muito más vindas de outros governos. O povo afegão deve ser a nossa preocupação. E a forma de ajudar é exatamente trabalhar com os talibãs, tentar induzi-los a tornarem-se mais inclusivos, menos repressivos, fazer com que mudem a economia baseada na produção de ópio, para o desenvolvimento dos seus próprios ricos recursos minerais, tentar estabelecer projetos de desenvolvimento, para ver se gradualmente podem ser incorporados no sistema regional, o que provavelmente significará incorporarem-se na Organização de Cooperação de Xangai. Bem, os EUA estão ocupados a tentar intimidar todos e a mostrar a sua força. A China está a mover-se discretamente para integrar a Ásia Central, partes da África, até mesmo a orientar-se para a América Latina e integrá-los numa espécie de sistema económico com base na China. Não são pessoas simpáticas que o estejam a fazer por motivos de caridade. Estão a fazer isso por razões de poder.

Estamos a menos de um mês da Conferência do Clima COP 26 em Glasgow, e o secretário-geral da ONU disse recentemente que o mundo deve acordar, estamos à beira do abismo e a mover-nos na direção errada. O senhor escreveu um livro com Robert Poland, em que afirma que devemos ter um Novo Acordo Verde Global, Global Green New Deal. Como é que deve ser esse acordo?
Temos ideias detalhadas explícitas nesse livro. São propostas viáveis para reduzir o uso de combustíveis fósseis de petróleo todos os anos, até atingirmos as emissões zero por volta de meados do século, empregando meios para produzir energia melhor, sustentável e mais barata e uma economia melhor; no fundo, uma vida e economia muito melhores para as pessoas. Agora, voltemos ao mundo real. Os líderes do mundo querem levar-nos ao limite o mais rápido possível, para conseguirem os seus objetivos. Se ler os jornais do setor do petróleo, andam eufóricos a discutir todas as novas perspetivas para novos campos de petróleo enquanto descobrem como podem aumentar a produção de combustíveis fósseis, um futuro maravilhoso pela frente. Se houvesse um observador do espaço sideral a observar-nos, pensaria que somos clinicamente insanos. As grandes empresas de petróleo precisam mudar a sua propaganda de relações públicas. É interessante como fazem isso, continuando a produção de combustíveis fósseis e investindo nalguma tecnologia futurística, – que não existe, já agora -, que será capaz de remover os venenos da atmosfera, depois de despejá-los numa lavagem verde. Essa é a política deles. Veja o Partido Republicano nos Estados Unidos. São todos negacionistas; para eles, não está a acontecer. Ou os chamados democratas moderados, como Joe Mancini, aquele que impede os esforços de fazer algo pelo meio ambiente no orçamento. A sua posição é clara e explícita. Ele diz: só inovação; sem eliminação, continuem a produzir combustíveis fósseis sem limites, mas encontrem uma maneira de superar as críticas. É a pessoa que mais recebe financiamento das empresas de combustíveis fósseis no Congresso, o que é muito significativo porque essas empresas financiam e compram abundantemente membros do Congresso. É o campeão nisso. Os seus próprios constituintes, os mineiros de carvão na Virgínia Ocidental, estão a mover-se no sentido da energia sustentável, mas o seu representante no Congresso está comprado pelas petrolíferas, que querem continuar a correr para o precipício.

“[Greta Thunberg] terminou a dizer: vocês traíram-nos. Essas palavras devem ser gravadas na consciência de todos. Na minha geração e na sua. Traímos a juventude do mundo. Estamos a trai-los agora. Estamos a trair os nossos filhos e netos.”

Há motivos para esperar que os jovens ainda possam fazer uma mudança e salvar o mundo para as gerações futuras?
Eles estão a liderar. Na sexta-feira da semana passada, houve uma greve climática global de jovens, centenas de milhares deles nas ruas da Europa, exigindo que as nossas gerações, a sua e a minha, façam algo para acabar com a crise que está a destruir as vidas deles, mas isso quase não foi relatado nos EUA. Não sei como foi em Portugal. Mas são os jovens que nos imploram. Agora, voltemo-nos para a cimeira de Davos no ano passado, dos ricos e poderosos. Greta Thunberg, uma adolescente, foi lá e teve um discurso sóbrio e cuidadoso sobre a situação atual. O secretário-geral da ONU teria concordado com cada palavra. Terminou a dizer: vocês traíram-nos. Essas palavras devem ser gravadas na consciência de todos. Na minha geração e na sua. Traímos a juventude do mundo. Estamos a trai-los agora. Estamos a trair os nossos filhos e netos.


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‘Arrepiado’ com a dupla Cavaco & Eanes

(Alfredo Barroso, in Facebook, 09/10/2021)

Cavaco “depois de mim o dilúvio” Silva, já nem se lembra da miséria causada pelo governo Passos-Portas, que apoiou.


Já se tornaram habituais os ataques brutais aos Governos do PS e aos partidos de esquerda, lançados periodicamente em algum jornal ‘de reverência’ (como, por exemplo, o ‘Expresso’ – ver aqui o último artigo de Cavaco) pelo “senhor Silva” (era como lhe chamava o ‘ogre’ da Madeira Alberto João Jardim) e que eu hoje prefiro tratar como o senhor Aníbal Cavaco “depois de mim o dilúvio” Silva. Ele e o general Ramalho Eanes estão a tornar-se duas peças do museu político nacional que, de vez em quando, sentem absoluta necessidade de sair dos seus metafóricos ‘sarcófagos’ (em que é suposto estarem ‘mumificados’) para se mostrarem ‘vivíssimos da costa’ e ‘taparem o sol com uma peneira’…

Constituem ambos – Cavaco & Eanes – uma bem conhecida parelha reacionária, sempre apostados, em vão: um deles, Ramalho Eanes, em tomar conta do PS, primeiro com ‘cavalinhos de Troia’, depois com a criação do PRD ‘que Deus tem’; o outro, Aníbal Cavaco “depois de mim o dilúvio” Silva, em destruir o PS ou, pelo menos, em reduzi-lo à ínfima espécie (com a ajuda de Eanes e do PRD). De facto, ambos são ‘retratos chapados’ ou exemplos inolvidáveis da mesquinhez e da mediocridade política que ascendeu ao poder e fez muitíssimo mal à democracia portuguesa – e quer continuar a fazer…

O certo é que todas as direitas ainda não se refizeram da clara derrota sofrida nas eleições gerais autárquicas (que o PS ganhou em votos, em Câmaras Municipais, Assembleias e Juntas de Freguesia conquistadas) e agora querem agarrar-se, como náufragos às boias, a tudo e todos quantos sirvam para dar ‘arraiais de porrada’ neste Governo e no PS.

Não foi por acaso que, de repente, os ‘doutores catástrofe’ da Ordem dos Médicos recomeçaram a atacar o SNS, clamando que os hospitais públicos estão a rebentar pelas costuras (viram a ‘mesa oblonga’ da SIC Notícias só com defensores dos hospitais privados?). Tal como não foi por acaso que Eanes & Cavaco saíram dos ‘sarcógrafos’ para darem uma ajuda muito mediática ao ‘Arraial De Porrada Em Curso’ (ADPEC) no PS.

Tal como nunca é por acaso que o comentador-mor do ‘reino’ de Portugal, mais conhecido como Marcelo PR, se põe e repõe a fazer declarações hipócritas e só pretensamente enigmáticas e subtis sobre a governação do PS e os ‘cacaus’ da ‘bazuka’, ao mesmo tempo que comenta (coisa espantosa) o que é que a direita pode fazer com este ‘punhal eleitoral’ que não chega a ser uma ‘espada’ – o Carlos ‘ir além da Troika’ Moedas – para ‘chatear’ o Costa, por exemplo, molhando-lhe os sapatos com aquilo que o dicionário da Porto Editora descreve como sendo o líquido excretado pelo aparelho urinário, constituído por água com substâncias minerais e orgânicas, entre elas importantes produtos de desassimilação, como a ureia, o ácido úrico, etc…

As direitas são assim, mas, para derrubarem o Governo, já, precisam, obviamente, que não só o BE mas também o PCP se disponham a ‘chumbar’ o Orçamento de Estado. Com o BE podem contar, com o PCP ainda não sabem…

Campo d’Ourique, 9 de Outubro de 2021


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Todos contra Leão. PS pressiona remodelação no Governo e Medina pode assumir Finanças

(In Zap.aeiou.pt, 09/10/2021)

Atualmente, o Orçamento do Estado é a maior preocupação dos partidos, mas o PS já tem outra questão que quer ver ser discutida o mais rapidamente possível: a remodelação do Governo. E o nome de Medina surge como possibilidade para as Finanças.


João Leão, atual ministro das Finanças, tem integrado todo o processo de negociação do Orçamento de Estado para 2022 (OE2022) e a sua posição tem sido questionada dentro do próprio Executivo, segundo revelam algumas fontes.

Na reunião do Conselho de Ministros que aprovou a versão final da proposta de OE2022 que será discutida e votada no Parlamento, essas diferenças ficaram bem marcadas, com uma “rebelião de todos os ministros contra João Leão”, como reporta o Correio da Manhã (CM).

O jornal destaca que Leão se mostrou focado no equilíbrio das contas públicas e no controle da despesa pública e que, por isso mesmo, “queria aumentar apenas os ordenados mais baixos da Função Pública, remetendo a atualização de todos os salários para 2023″.

Mas “todos os outros ministros foram contra esta proposta”, reforça o CM, destacando que foi uma reunião em “clima tenso”.

De resto, a maratona negocial só terminou na manhã de sábado, tendo-se prolongado pela madrugada, com longas horas de negociação.

Mas o desconforto com Leão não surgiu apenas agora e já ficou marcado por palavras recentes de Pedro Nuno Santos, ministro das Infraestruturas, que deixou críticas ao colega das Finanças.

Medina apontado ao lugar de Leão

Entretanto, as “críticas aumentam no interior do PS” contra Leão com acusações de “insensibilidade” e “incapacidade política”, como apurou o Nascer do Sol junto de fontes socialistas.

“Leão é atacado no PS por cortar na despesa pública, como o seu antecessor e atual governador do Banco de Portugal [Mário Centeno] veio esta semana dizer que é inevitável”, destaca ainda este jornal.

Apesar disso, várias fontes socialistas lamentam os “cortes cegos” e Leão pode, assim, acabar a pagar “as favas da incompreensão de vários sectores do PS”, acrescenta o Nascer do Sol.

Ao longo do seu percurso, Leão tem sido acusado por outros ministros de “vetos de gaveta”, bloqueando o trabalho dos seus colegas que se vão comprometendo com objetivos que as Finanças acabam por travar, como lembra o Público.

Assim, quando o tema da remodelação do Governo ganha cada vez mais força, Leão surge como um dos ministros a ser substituído.

Fernando Medina, o recém-derrotado presidente da Câmara de Lisboa, é apontado para o cargo de ministro das Finanças pelo Público.

Note-se que Medina foi o responsável das Finanças quando Costa era presidente da Câmara de Lisboa (CML) e teve um bom desempenho no saneamento das contas da autarquia.

“Pressões internas sobem de tom no PS”

O assunto da remodelação do Governo já é incontornável e cada vez mais socialistas, mesmo entre apoiantes do núcleo duro de Costa, defendem mudanças para ganhar força para o ciclo que se iniciou com as últimas legislativas.

O Nascer do Sol constata que as “pressões internas sobem de tom no PS e a renovação do Executivo é considerada cada vez mais urgente“. Assim, o assunto pode avançar já depois da aprovação do OE2022.

O tema tem causado algum burburinho dentro do partido e o ex-ministro da Cultura João Soares assumiu, em entrevista à TSF, que o Governo “precisa de ser remodelado e precisa sobretudo de ser reduzido”.

O Governo é grande demais, há um número de secretários de Estado gigantesco, há sobreposições de competências e há um número de ministros também muito grande. Quanto mais reduzido melhor”, afirmou João Soares.

António Costa já tinha admitido “refrescamentos” e agora o PS está de olhos postos no pós-Orçamento, à espera de mudanças num Governo cuja coesão já viveu melhores dias.

A primeira mulher na Defesa?

Além das Finanças, as pastas da Defesa, Educação, Administração Interna e Cultura são as que têm sofrido mais críticas – sendo que já vão sendo apontados alguns nomes que podem substituir os atuais governantes.

Na Defesa já há um nome na mira que, segundo o Público, é Helena Carreiras. Esta poderá vir a ser a primeira mulher a liderar a pasta, substituindo João Gomes Cravinho que tem estado envolvido em várias polémicas, sendo a mais recente a da exoneração do Chefe de Estado-Maior da Armada, Mendes Calado.

Por outro lado, há vários meses que o ministro da Defesa está a ser contestado devido à proposta de alteração à Lei Orgânica de Bases da Organização das Forças Armadas (LOBOFA), rejeitada pelos três chefes de Estado-Maior.

Por sua vez, Mariana Vieira da Silva poderá assumir a pasta da Educação, onde Tiago Brandão Rodrigues tem sido muito contestado.

Também a Cultura foi uma das pastas que mais sofreu com a pandemia.

Do drink” de fim de tarde à lotaria do Património, a ministra Graça Fonseca somou às suas polémicas críticas à forma como respondeu aos problemas de um dos setores mais afetados pela crise da covid-19.

Eduardo Cabrita, cuja manutenção é vista como totalmente problemática e já não só pela oposição, também poderá vir a ser uma carta fora do baralho.

No núcleo interno do PS, muitos socialistas acreditam que a queda do PS nos centros urbanos também se deve ao ministro da Administração Interna, objeto de várias polémicas.

Se Cabrita sair de cena, é encarada a hipótese de transitar para outra pasta onde esteja menos exposto.


Fonte aqui


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