O Frankenstein moribundo

(António Gil, in Substack.com, 23/11/2025)


Uma história de horror ficcionado, agora tornada real.


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Não interessa absolutamente NADA saber qual foi a ideia de Trump – assumindo que ele tem ideias – ou de seu círculo – assumindo que um punhado de russófobos poderia elaborar 28 pontos que deixariam Ze e seus desesperados amigos europeus à beira de um ataque de nervos.

Também não interessa absolutamente NADA saber se esse plano pode ou vai ser trabalhado de forma a agradar (ou pelo menos não desagradar tanto) ao monstro Frankenstein e seus desesperados paramédicos europeus.

A única coisa que interessa saber é esta; poderão os EUA, com ou sem Trump, permitir que Frankenstein (a criatura, náo o criador) continue a assombrar a União Europeia, a NATO e em última análise afectar também a já frágil saúde do seu criador?

Em volta do leito do moribundo, os 28 paramédicos (maus enfermeiros) da União Europeia discutirão interminavelmente o que fazer do que resta do monstro, sabendo-se que ninguém fará nada sem a concordância do Doutor Frankenstein, seu criador.

E o problema é que esse Doutor, ao contrário do ficcionado, tem outros ‘monstros’ com que se ocupar, bem mais perto de casa e começa-lhe a faltar tempo e disponibilidade para aturar a gritaria do monstro ferido e seus enfermeiros incompetentes, mesmo se foi ele, o Doutor, o pai daquela criatura agora jacente.

Então o que interessaria discutir seria não tanto se o Doutor Frankenstein quer salvar a vida da sua criatura mas se ainda PODE fazê-lo porque a vida do monstro não está mais nas suas mãos e muito menos na dos 28 enfermeiros atarantados.

O Castelo (União Europeia) está cercado por camponeses irados, os enfermeiros lá dentro não se entendem e estão em vias de se agredirem uns aos outros e este Frankenstein, como o outro, é uma colecção de partes de muitos corpos defuntos trazida à vida por um Doutor que resolveu brincar a Deus e por isso, viu a sua criatura escapar do seu controlo.

Previsivelmente o corpo deste Frankenstein reencarnado agora no mundo material será disperso, para que cada uma de suas partes seja sepultada nos túmulos dessacralizados de onde saíram.

Fonte aqui

Pela porta, pela janela ou pior que isso

(Rui Pereira, in Facebook, 23/11/2025, Revisão da Estátua)


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É indisfarçável o tom fúnebre com que os nossos conquistadores do Kremlin desfilam as suas mágoas pelos estúdios televisivos outrora prestes a “desgastar a Rússia até ao último ucraniano”, a “promover uma mudança de regime em Moscovo” a partir de uma vitória europeia, da NATO e de Kiev que mostraria como os russos são -como sempre foram – uns “bárbaros incivilizados”.

Depois da impotente omnipotência do “American Century” cujo último herói epígono foi a triste figura de Joseph Biden, foi necessária uma outra figura tão bizarra quanto Donald Trump para dar à “questão ucraniana” um banho de realidade. Da troupe alienada de Bruxelas a Berlim, passando por Paris ou pelos verrinosos bálticos, nada há a dizer. Basta o que eles próprios dizem.

Zelensky, por uma estranha razão – a que o narcisismo e a impreparação política podem não ser de todo alheios -, quis não ver que as razões para duvidar do “Ocidente” eram e são -como sempre foram- maiores do que a sua vontade de nele acreditar. Lembramo-nos dele, poucas horas antes da intervenção russa, nos ecrãs de televisão, a duvidar com uma patética jactância da sua concretização. É verdade que ele sabia bem que Putin adiara durante oito anos esse movimento, que tentou evitar por todos os meios, nomeadamente dando um tácito apoio à eleição do comediante que prometia uma paz com os “russos” do Donbass, paz que a rapaziada das suásticas, com o freio nos dentes, não viria a deixá-lo fazer.

Mas, em todo o caso, não percebeu nada. E como tal, resta-lhe agora perceber que Trump e Putin estão a deixar-lhe uma fresta aberta na porta de saída. Já não estamos nos tempos em que as grandes figuras das tragédias políticas punham fim aos seus desvarios com um tiro na cabeça. Agora, a legião de farsantes procura simplesmente escapar, depois de circunstancialmente convencida por poderes maiores, de que tem alguma substância, mais do que a mera forma da fórmula burguesa que Bertolucci consagrou no seu filme “1900“: “serve-me e vai para o diabo!”. Quem não perceber isso, terá de sair pela janela, o que é sempre mais incómodo para o próprio.

Não sabemos o que virá a seguir, embora não custe admitir que a coisa já está mais do que ajustada entre norte-americanos e russos, como desde o início tantos de nós sabíamos que o seria, sem precisarmos para tanto de sermos génios da geopolítica.

Mas sabemos o que fica para trás: uma geração de jovens ucranianos imolados pelo fogo da falta de escrúpulos ocidentais, da estupidez remunerada da má propaganda, da feira televisiva de vaidades ocidentais e um grande negócio chamado “reconstrução da Ucrânia” em que todos quererão abocanhar a sua fatia.

The show must go on! Pelo caminho fica mais este episódio que Borges incluiria na sua “História Universal da Infâmia“, em que um comediante corrupto de segunda ordem, se transformou num político de terceira, à custa de palmadinhas nas costas dadas por oportunistas de quarta.


Conferência europeia e cidadã para a paz na Ucrânia, Rússia e Europa – Intervenção de encerramento

(Major-General Raúl Cunha, in Facebook, 23/11/2025)


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Caros Amigos

Verificamos que, hoje em dia e finalmente, se começa a formar uma sólida opinião que as ações da UE e do Reino Unido (além das que, por vezes, emanam dos EUA), destinadas a fomentar tensões com a Rússia, constituem afinal um enorme erro.

No entanto, também podemos constatar que uma das características do nosso tempo é que, quem tenta começar a discutir sobre as realidades da situação entre a Rússia e o dito Ocidente alargado, é imediatamente apelidado de traidor. De facto e em concreto, no dito Ocidente perdeu-se a capacidade de reconhecer as realidades.

Não se trata de uma questão de alguém ser pró-Rússia ou pró-Ucrânia ou pró-guerra, mas sim de ser pró-verdade e sensatez porque, na ausência de entendimento, na ausência de alguma solução diplomática, ou pelo menos da vontade política de encontrar uma, haverá apenas mais morte e destruição.

Quando se continua a inexoravelmente fomentar uma guerra permanente, a eventualmente escalá-la até um limite que pode acabar por nos destruir a todos, ou simplesmente a promover um conflito congelado que irá continuar a consumir vidas humanas e as parcas riquezas da Europa numa conflagração eterna. Isso constitui sim uma verdadeira loucura. E se puder ser parada, assim deverá ser. É um imperativo moral. É um dever de nós todos.

Os políticos ocidentais não percebem que as aspirações pela paz são um dever não para consigo mesmos, mas para com as suas nações e para com o seu futuro, para com os seus filhos e para com o mundo que se irá formar em resultado das suas decisões.

O dito Ocidente precisa de reconhecer que as nações não são todas iguais, têm o seu próprio interesse nacional e, de facto, há uma esfera nacional de influência ou existem responsabilidades estratégicas que implicam a necessidade de defender as suas áreas de interesse, nomeadamente nas regiões que lhes são adjacentes. O não reconhecimento do interesse nacional de outras nações pode provocar um enorme custo em vidas humanas e uma desestabilização económica generalizada, que acaba por levar aos problemas com que hoje nos confrontamos.

Assim, e como iniciativa de todos os cidadãos lúcidos do dito Ocidente e dos seus líderes que, eventualmente, readquiram alguma lucidez, deverá ser, de imediato e sem condições prévias, promovida a concretização de um Acordo de Paz compreensivo que contenha, no mínimo, as seguintes propostas dos promotores desta conferência e que passo a descrever:

● Constituição de uma  “Comissão de Verdade e Reconciliação”, à semelhança do que foi feito na África do Sul do pós-apartheid e em Timor-Leste depois da independência.

● Os julgamentos por crimes de guerra deverão ser organizados pelos respectivos Estados.

● A neutralidade militar permanente da Ucrânia será consagrada na sua Constituição, bem como a renúncia da Ucrânia ao ingresso na OTAN.

● Garantias legais de que a Ucrânia não permitirá o fabrico, o recebimento, o trânsito ou o destacamento de armas nucleares e outras armas de destruição em massa no seu território.

● Garantias legais de que a Ucrânia e a Rússia não permitirão o estabelecimento de bases militares ou a presença de contingentes militares estrangeiros nos seus respectivos territórios.

● Reconhecimento do direito à autodeterminação nas suas diversas formas (autonomia regional, federalismo, secessão, integração voluntária em outro país) para a população da Crimeia e as populações das regiões leste e sul da Ucrânia que se sintam mais russas do que ucranianas e que expressarem livremente a sua vontade por meio de referendos.

● Garantias legais para a proteção da língua russa como língua cooficial da Ucrânia e dos direitos culturais (incluindo a liberdade religiosa) dos ucranianos de língua russa, bem como dos direitos culturais dos ucranianos que falam línguas minoritárias (por exemplo, húngaro e romeno).

● Fim de todas as sanções ⎼ proibição de transmissão de veículos de comunicação na UE; proibições de visto e viagens na UE, área Schengen, Reino Unido e Irlanda; congelamento de bens; restrições económicas de importação e exportação.

Para terminar, reafirma-se a necessidade de levar a cabo uma verdadeira e concreta reavaliação das realidades para que possamos sair desta presente crise.

Assim, o comité organizador desta Conferência, informalmente conhecido como “Os Quatro Mosqueteiros”, assumirá  a responsabilidade de redigir uma Declaração formal. Para maior clareza e facilidade de consulta, esse documento será oficialmente intitulado Declaração da Conferência Europeia e Cidadã para a Paz na Ucrânia, Rússia e Europa.

Essa Declaração descreverá de forma abrangente as medidas inicialmente especificadas no documento fundador da Conferência. Será dada ênfase às ações, que destaquei e que foram identificadas como sendo as de maior prioridade e urgência. A Declaração será enriquecida pelas diversas contribuições feitas pelos participantes antes, durante e depois da conferência, garantindo que as perspetivas e sugestões compartilhadas sejam devidamente incorporadas.

Pensamos que o trabalho desta Conferência deverá continuar para além desta sessão. Se o desenrolar dos acontecimentos inerentes ao conflito não trouxer o ambicionado Acordo de Paz que, de certo modo, se começa a vislumbrar, assumimos desde já o compromisso de convocar uma segunda Conferência em Lisboa, no mesmo local. Essa mesma Conferência será organizada de acordo com a Declaração que vamos agora emitir, a qual será divulgada por toda a Europa com a assistência de todos os seus signatários. O objetivo dessa eventual segunda Conferência será analisar e avaliar os progressos atingidos em direção à paz durante o período decorrido, tentando assim manter o impulso e fomentando um diálogo contínuo.

Vamos acreditar que a lucidez voltará, que a sanidade vencerá e que a real vontade de concretizar um projeto de paz duradoura irá aparecer, antes que a escalada de incongruências, contradições e medidas belicistas, fomentada por desmedidas ambições políticas, acabe por nos arrastar a todos para o abismo.

Sábado, 22 de Novembro de 2025, em Lisboa.