Até ao último kilowatt

(João Gomes, in Facebook, 21/03/2026)


A Europa aproxima-se, mais uma vez, de um ponto de ruptura – não por falta de aviso, mas por excesso de convicção. Um ano depois, a contradição que já então se desenhava transformou-se numa realidade mais dura: uma crise energética iminente, catalisada pela instabilidade no Médio Oriente e pelo bloqueio do Estreito de Ormuz, expôs aquilo que durante demasiado tempo foi negado – a fragilidade estrutural da política energética europeia.

O que outrora era um paradoxo tornou-se agora um impasse. A União Europeia, que construiu a sua narrativa política em torno de sanções à Rússia após a Invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, encontra-se hoje numa posição em que os próprios fundamentos dessa estratégia são postos em causa – não apenas por analistas ou cidadãos, mas pelos próprios aliados. A administração de Trump, cuja política externa contribuiu para a atual instabilidade no Golfo, admite agora aquilo que durante anos foi implicitamente reconhecido mas nunca assumido: o petróleo russo poderá ser necessário para reequilibrar o sistema energético global.

Este reconhecimento, vindo de Washington, contrasta de forma gritante com a posição do Conselho Europeu, que continua a insistir numa linha política rígida, aparentemente impermeável à evolução dos factos no terreno. A recusa em flexibilizar a abordagem energética face à Rússia não surge já como um ato de coerência estratégica, mas como um exercício de inércia política – ou, mais gravemente, de negação. E a realidade não desaparece com discursos.

Os dados já antes eram claros. A Europa nunca deixou verdadeiramente de depender da energia russa. Mesmo no auge das sanções, países como França, Espanha e Bélgica continuaram a importar volumes significativos de gás, evidenciando que a retórica política e a realidade económica seguiam caminhos divergentes. Essa divergência não só persiste como se agravou. A tentativa de substituir rapidamente o fornecimento russo por gás natural liquefeito de outros mercados revelou-se: mais cara, logisticamente complexa e insuficiente para cobrir necessidades industriais e domésticas

As energias renováveis, embora essenciais no longo prazo, não conseguiram – nem poderiam – preencher o vazio no curto prazo. O resultado é uma Europa energeticamente vulnerável, exposta a choques externos e dependente de cadeias de abastecimento instáveis.

Sanções, guerra e desgaste interno

Ao mesmo tempo, a União Europeia mantém um nível elevado de apoio financeiro e militar à Ucrânia, prolongando o envolvimento indireto num conflito cuja resolução permanece bloqueada. A guerra, longe de uma solução rápida, transformou-se num desgaste prolongado – humano, económico e político.

A insistência numa solução exclusivamente baseada no confronto ignora um dado essencial: a Ucrânia não demonstra capacidade clara para recuperar os territórios ocupados e uma vitória decisiva no terreno é-lhe impossível – mesmo com mais investimentos europeus. Já a Rússia parece confortável com a lentidão do conflito, e não tem pressa. Joga com a profundidade estratégica e recursos energéticos vastos, e não depende da Europa para sobreviver. Já a Europa, como agora se evidencia, não dispõe de alternativas energéticas suficientemente robustas para sustentar uma rutura prolongada e gasta fortunas a alimentar um regime comprovadamente corrupto. Este desequilíbrio é estrutural – e, até agora, foi politicamente subestimado.

A ilusão da coerência estratégica?

A posição europeia tem sido apresentada como moralmente coerente: sancionar a Rússia, apoiar a Ucrânia, reduzir dependências. No entanto, na prática, essa coerência revela fissuras profundas: sanciona-se, mas continua-se a importar energia e suprimentos russos, condena-se, mas mantém-se a dependência, financia-se a guerra, mas não se investe com igual intensidade na resolução diplomática. Esta “fuga para a frente” política, já evidente há um ano, tornou-se hoje insustentável. O custo não é apenas financeiro – é sistémico e afeta: competitividade industrial, custo de vida dos cidadãos, estabilidade social e política.

Até ao último kilowatt?

O que está agora em causa não é apenas uma escolha energética – é uma escolha civilizacional sobre prioridades políticas erradas. Persistir numa estratégia que ignora a interdependência energética e rejeita canais diplomáticos efetivos pode conduzir a Europa a um cenário de racionamento, recessão e erosão do seu próprio modelo social. Não por falta de recursos globais, mas por incapacidade de os integrar numa política pragmática.

A alternativa não exige capitulação política, mas sim realismo estratégico:

– reconhecer limites da autonomia energética no curto prazo;

– reabrir canais diplomáticos eficazes;

– dissociar, quando necessário, segurança energética de alinhamentos ideológicos absolutos.

A proposta – outrora considerada controversa – de soluções políticas intermédias para os territórios em disputa, com garantias internacionais para todas as partes, permanece uma via possível. Não perfeita, mas potencialmente estabilizadora e com o respeito pelo que, afinal, gerou esta guerra: a segurança preterida pela Federação Russa quanto á questão da NATO. Afinal, se o próprio Trump dá indícios de abandonar a “cobarde Europa”, porque é que os dirigentes europeus confiam na NATO?

A Europa encontra-se, hoje, mais próxima de uma crise energética severa do que em qualquer momento recente. E fá-lo não apenas por fatores externos, mas por escolhas internas. A insistência numa política que combina sanções incompletas, dependência energética e ausência de diplomacia efetiva está a conduzir o continente a um ponto crítico.

A questão já não é apenas geopolítica. É concreta, quotidiana, mensurável: até quando poderá a Europa sustentar-se – política, militar e economicamente – até ao último kilowatt?

Estão á espera que falte a luz?

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O grande circo geopolítico ou Trump e a arte da destruição criativa

(Luís Rocha, in Facebook, 20/03/2026, Revisão da Estátua)


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O ano de 2026 que, saudades, não nos vai deixar.

Um ano em que a geopolítica se tornou, finalmente, o espetáculo de revista de um império que sempre prometeu ser. E no centro do palco, com a sua cabeleira dourada e o seu ego Big Mack, quem mais senão o nosso querido Donald J. Trump. O homem que, com a subtileza de um javali numa loja da Vista Alegre, decidiu redefinir as relações internacionais como quem joga bingo. A diplomacia, é uma chatice. Os tratados, guardanapos de papel usados. A ONU, de certeza um clube literário para desocupados. O que importa é a força bruta, o grito mais alto e, claro, a vitória, mesmo que seja uma vitória pírrica sobre a decência.

Assistimos, com um misto de horror e fascínio mórbido, à sua cruzada contra o Irão. Uma nação que, por mais teocrática e repressiva que seja, ousou não se curvar. O que para Trump é um insulto pessoal, uma afronta ao seu estatuto de “melhor negociador de todos os tempos”. Os ataques coordenados, a retórica estridente, tudo aponta para um desmembramento que, se concretizado, abrirá as portas do inferno.

No entanto o Irão, na sua milenar sabedoria persa, parece conter em si a teimosia de uma mula e a resiliência de um camelo. E, ironicamente, essa teimosia pode ser a nossa última esperança contra a barbárie que se avizinha. Sim, a barbárie que usa gravatas até aos joelhos e tem acesso a códigos nucleares.

Depois de Teerão, quem se segue na lista de “maus” a serem disciplinados, será Cuba, claro. A ilha que, apesar de todos os embargos e sanções, insiste em não se tornar um resort de golfe. Trump, com a sua visão estratégica de jogador com dados viciados, já prometeu “fazer algo muito em breve” com Cuba. Talvez a transforme no 51º estado, ou a venda ao México para pagar o muro que nunca irá construir. As opções são infinitas quando se tem a imaginação de um megalómano e o poder de uma superpotência.

Venezuela, México, Canadá, até a Gronelândia, todos estão na mira do homem que não aceita um “não” como resposta à sua insanidade.

E a Espanha, que ousou criticar Israel e denunciar um genocídio? Essa pagará caro a sua insolência. A vingança, para Trump, é um prato que se serve gelado, de preferência, com umas tarifas estratosféricas e absurdamente infantis.

Aquele aglomerado de nações que, na sua riqueza e fragilidade, se tornou o alvo perfeito para o predador, chamado União Europeia, que não espere pela demora. Por mais que Ursula von der Leyen e a sua comitiva se desdobrem em salamaleques e bajulações, a verdade é que a Europa é vista como uma presa fácil. Rica, mas fraca. Próspera, mas desprotegida. Um convite irrecusável para uma “operação de desmantelamento concertada”. Para quê a solidariedade e a cooperação quando se pode ter tudo à força.

 A Europa, na sua eterna ingenuidade, ainda acredita no diálogo e no bom senso. Trump, por outro lado, acredita na cultura da marreta. E a marreta, é a sua política externa demolidora.

No fim, o que nos resta é a esperança de que o Irão resista. Que o regime dos ayatollah, na sua peculiar forma de resistência, consiga atrasar o inevitável. E, confesso que nunca na vida julguei vir a escrever estas palavras. Porque se o império do capricho triunfar sem oposição, se a força bruta se tornar a única lei, então o mundo será um lugar muito menos interessante. E muito mais perigoso.

Preparem-se, pois, para a próxima temporada do Grande Circo Geopolítico. Os bilhetes já estão esgotados, e o espetáculo promete ser… Explosivo. Mas não se sentem muito à frente pois pode haver radiação…

Beijinhos e até à próxima…


Referências consultadas

https://relacoesexteriores.com.br/ataques-dos-eua-ao-ira…

https://www.aljazeera.com/…/well-be-doing-something…

https://au.finance.yahoo.com/…/spain-nchez-says-trump…

https://moderndiplomacy.eu/…/europe-draws-a-line-on…

https://energymixweekender.substack.com/…/winners-and…

Ucrânia e Irão. Duas faces do mesmo projeto

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 19/03/2026)


Não será por acaso que a falcão Hillary Clinton veio, numa entrevista ao programa 60 minutos, tecer loas a Donald Trump elogiando-o pelo ataque ao Irão. Democratas e republicanos servem a mesma oligarquia dos negócios. Ambos subscrevem o mesmo projeto de hegemonia global.


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Como na Ucrânia, em que os interesses de Washington não coincidiam com os de Kiev, também na guerra que opõe os EUA ao Irão, os interesses de Washington não coincidem com os de Telavive. Tanto num caso como noutro, o comportamento norte-americano encontra-se subordinado à consecução de uma grande estratégia de hegemonia global, não abandonada pela Administração Trump, enquanto o da Ucrânia e de Israel insere-se numa estratégia de âmbito local e/ou regional.

Na Ucrânia, os EUA pretendiam desencadear uma mudança de regime em Moscovo e instalar uma liderança dócil no Kremlin, atuando em três vetores: vertente económica, através das sanções, tornar a Rússia um estado pária, isolando-a internacionalmente, e impor-lhe uma derrota militar, recorrendo ao sangue ucraniano, sem colocar soldados norte-americanos no terreno.

Segundo Eric Green, membro do Conselho de Segurança Nacional durante a Administração Biden, numa entrevista à revista Time, “a vitória militar da Ucrânia não era um objetivo para Washington”. O objetivo norte-americano era provocar um desgaste prolongado e uma erosão na sociedade russa, que a fizesse soçobrar e assim atingir os seus objetivos.

Agora, enquanto Israel pretende decapitar o regime iraniano e colocar em Teerão um vassalo que lhe permita tornar-se na potência regional fazendo dos estados árabes entidades subordinadas – o que esteve quase a conseguir antes do 7 de outubro, uma vez estar a causa palestiniana adormecida e a Autoridade palestiniana num estado comatoso – com o ataque ao Irão, os EUA pretendem controlar o petróleo mundial e os principais choke points (rota do Ártico, Canal do Panamá, estreito de Ormuz) para controlarem as rotas comerciais e subordinarem os seus rivais à sua vontade, entenda-se, China e Rússia.

Por isso, Pequim e Moscovo não podem deixar cair o Irão, que joga aqui um papel extremamente importante. A sua queda garantiria aos EUA o controlo mundial do mercado do petróleo, dada a posição dominante que iria adquirir, como aniquilaria os esforços da China e da Rússia utilizarem o território iraniano para se furtarem aos choke points e ao controlo norte-americano dos mares: a Rússia através do Corredor de Transporte Internacional Norte-Sul, de S. Petersburgo até Bombaim, passando pelo porto de Bandar-Abas, no Irão; e a China através de um corredor da sua “Faixa uma Rota”, de Kasghar na China, a Istambul na Turquia. O Irão ocupa uma posição estratégica central na rota terrestre, que liga a China à Europa e à Ásia Ocidental.

É crucial ter esta “nuance” em consideração porque, em função disso, os níveis de compromisso de uma e de outra parte diferem. É razoavelmente consensual admitir que Washington se terá envolvido nesta guerra com o Irão indo a reboque de Telavive. Isso mesmo foi afirmado pelo secretário de estado Marco Rubio e pelo presidente da câmara dos representantes Mike Johnson. Haverá certamente algum fundo de verdade nessas afirmações, mas o ataque ao Irão feito pelos EUA, embora inserido numa operação militar de interesse para Israel, enquadra-se na mesma lógica da guerra na Ucrânia, do controlo do regime na Venezuela, e das ambições territoriais na Gronelândia.

Não será por acaso que a falcão Hillary Clinton veio, numa entrevista ao programa 60 minutos, tecer loas a Donald Trump elogiando-o pelo ataque ao Irão, provando que, apesar das nuances, a política externa dos EUA é verdadeiramente bipartidária. Tanto democratas como republicanos servem a mesma oligarquia dos negócios. Ambos subscrevem o mesmo projeto de hegemonia global.

Donald Trump preparava-se para ir a Pequim no final de abril com a situação no Irão esclarecida, qual Julio Cesar a entrar em Roma após uma vitória militar retumbante, humilhar o presidente chinês Xi Jinping lembrando-o da sua dependência do crude iraniano, de onde a China importa cerca de 13% das suas necessidades. Se Pequim quisesse continuar com a venda de terras raras suspensa, de que os EUA tanto necessitam, teria de fazer cedências. Como os seus desejos não se vão concretizar, cancelou a visita porque é elevada a possibilidade de vir a ser ele o humilhado.

A campanha iraniana está longe de correr conforme o planeado podendo tornar-se não só num pesadelo para Trump, mas também no toque de finados no projeto hegemónico norte americano. A falta de esclarecimento levou Trump a empenhar-se decisivamente no Médio Oriente, quando a Ásia e a China eram as suas prioridades estratégicas declaradas. Nesta altura, já se fala em pedir ao Congresso cerca de $200 mil milhões para manter a operação.

Após três semanas de guerra, ficou claro que Washington não foi capaz de garantir a proteção dos Estados do Golfo Pérsico, em conformidade com os compromissos securitários assumidos com eles, não garantiu a expectável liberdade de circulação marítima no Golfo – os seus navios retiraram-se para parte incerta – teve de recorrer aos sistemas THAAD que se encontravam estacionados na Coreia do Sul, deixando desprotegidos os seus aliados na Ásia, que nesta altura estão muito céticos relativamente à capacidade dos EUA lhes conferir proteção. O mesmo se estará a pensar em Taipé. Trump destruiu o estatuto norte-americano de protetor securitário dos seus aliados em todo o mundo.

Os dois porta-aviões deslocados para a região mostraram grandes vulnerabilidades operacionais, um deles, o maior do mundo, teve de se retirar para a Grécia, devido alegadamente a um incêndio. O dispositivo militar norte-americano no Médio-Oriente foi atacado pelo Irão, algo nunca visto, encontrando-se praticamente destruído. A sua recuperação vai demorar muito tempo. Os seus rivais não voltarão a olhar para os EUA da mesma maneira. Para além de ser uma derrota pessoal, com as já notórias consequências internas, esta campanha arrisca tornar-se numa derrota estratégica formidável que poderá subverter e colocar em causa o projeto hegemónico norte-americano.