E quando ele acordou, a China continuava lá

(Por Aram Aharonian*, in Velho General, 14/08/2022)

Militares do Exército de Libertação Popular da China desfilam em Pequim (Reuters).

O mundo mudou, ainda que os grandes conglomerados de comunicação, controlados por poucas grandes corporações, nos façam acreditar no contrário.


A guerra na Ucrânia pôs fim à ilusão pós-Guerra Fria de que o perigo de outra grande guerra não existe mais. No início da guerra na Ucrânia, o presidente dos Estados Unidos, Joseph Biden, cometeu um erro ao expressar seus medos – ou ameaças – sobre a possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial, aumentando assim os temores do fim da humanidade. E agora ele provocou a China enviando Nancy Pelosi à Taiwan.

As sanções impostas à Rússia pelos EUA e seus repetidores em uma OTAN dividida causaram um aumento nos preços do petróleo que, paradoxalmente, aumentou as receitas da Rússia, permitindo dobrar seu esforço de guerra. Essas preocupações acabaram levando o primeiro-ministro francês Emmanuel Macron a apoiar uma solução diplomática imediata e até sugeriu evitar humilhar a Rússia.

As principais economias ocidentais estão se aproximando da recessão, se é que já não estão; e ainda assim as taxas de inflação continuam a subir, adverte Michael Roberts. Os últimos inquéritos à atividade empresarial, denominados índices de gestores de compras (PMI, Purchasing Managers Index), mostram que tanto a zona do euro como os Estados Unidos estão agora em área de contração.

No início de junho, a secretária adjunta dos EUA para Assuntos Europeus e Eurasianos, Karen Donfried, descreveu a política e os motivos de seu governo: “A Ucrânia é vítima da agressão, a Rússia, a agressora. O que está em jogo para eles não é apenas a independência da Ucrânia, mas também a vontade do mundo democrático de proteger a ordem internacional baseada em regras projetada pelos EUA das garras do autoritário presidente russo Vladimir Putin.”

A mensagem parece ser dirigida não apenas à Rússia, mas também à China. À medida que a China cresce econômica e politicamente, sua disputa com os Estados Unidos se torna mais acirrada. A capacidade dos EUA de confrontar a China é limitada e restrita.

No final de julho, os presidentes Joe Biden e Xi Jinping mantiveram uma conversa telefônica de duas horas na qual os chineses alertaram que Washington não deveria brincar com fogo em Taiwan antes da anunciada visita da presidente da Câmara Nancy Pelosi à ilha.

Anteriormente, o subsecretário adjunto do Departamento de Estado para o Leste Asiático, Jung Pak, acusou Pequim de provocações contra rivais no Mar da China Meridional e chegou a argumentar que, dado seu comportamento agressivo e irresponsável, é apenas uma questão de tempo antes que ocorra um incidente ou acidente grave entre as forças armadas na área.

A situação de Taiwan, que é independente de facto desde 1949 e que Pequim considera parte indivisível de seu território, é uma das questões mais espinhosas da agenda mundial: embora os Estados Unidos e seus aliados não a reconheçam como país independente, o Ocidente mantém relações mais do que cordiais com Taipé, fornece-lhe ajuda militar constante e geralmente a usa para assediar uma China que é vista com desconfiança e animosidade, mas da qual suas economias dependem em grande parte.

A região marítima do Sudeste Asiático é de importância estratégica fundamental como zona de trânsito para 30% das mercadorias globais e é objeto de reivindicações entre os estados que ocupam suas costas. É difícil ignorar a arbitrariedade imperialista por trás das potências que patrulham obstinadamente uma área a dezenas de milhares de quilômetros de suas costas com navios e aeronaves militares.

Se os EUA se envolverem em um conflito militar contra a China, os custos relacionados seriam astronômicos. A guerra pode levar ao colapso dos mercados financeiros americanos. No final, a menos que haja um conflito nuclear, os Estados Unidos não poderiam derrotar a China militarmente.

O estrategista chinês Huang Renwei, vice-presidente executivo do Instituto Cinturão e Rota e Governança Global da Universidade de Fudan, aponta para a fraqueza inerente da estrutura de poder americano e argumenta que, desde 2020, a China e os EUA entraram em uma fase de impasse estratégico que provavelmente continuará com altos e baixos pelos próximos 30 anos.

O conceito de “fase de confronto estratégico” foi cunhado por Mao Zedong no texto Sobre a guerra prolongada. A teoria de Mao era que a guerra contra o Japão consistia em três fases: a ofensiva japonesa, o impasse estratégico sino-japonês e a contraofensiva chinesa.

No entanto, a atual fase de impasse entre a China e os Estados Unidos é de natureza diferente: a competição estratégica entre as duas potências ainda não entrou em um confronto militar direto e a China ainda não estabeleceu a derrota militar dos EUA como objetivo estratégico. Em vez disso, o objetivo da China é lutar por uma nova ordem mundial justa e equitativa, com prosperidade para todos os países.

A razão pela qual essa relação entrou em um impasse estratégico é a chamada “dualidade” de estruturas de poder nos Estados Unidos, caracterizada pelo fato de que, por um lado, o país está em processo de declínio econômico e político, mas por outro, ainda é uma potência militar relativamente forte. A dualidade da China é o oposto: está em ascensão, mas também mostra muitas fraquezas. A “dualidade” evolui gradualmente ao longo do tempo.

A hegemonia do dólar americano tem, historicamente falando, beneficiado muito os interesses estratégicos dos EUA. No entanto, exagerou no uso desse poder e sua credibilidade foi posta em causa.

Nos próximos 30 anos, a China enfrentará a dura realidade de que os países ocidentais, liderados por Washington, rejeitarão e difamarão o papel e a participação da China na velha ordem mundial. Para Huang Renwei, a China deve tomar a iniciativa e mudar o cenário internacional existente para criar uma ordem mundial. Ele admite que pode levar gerações para que esse novo sistema seja estabelecido.

A duração do impasse estratégico dependerá da velocidade com que o equilíbrio de poder mudar: a década de 2030 verá uma mudança decisiva no equilíbrio de poder global, quando a economia da China, medida por seu PIB, ultrapassará a dos Estados Unidos. Huang acredita que, na década de 2040, a China alcançará os EUA nas áreas de ciência e tecnologia.

Huang acredita que nesta fase de impasse estratégico, os Estados Unidos farão amplo uso de suas vantagens de softpower, cujo custo-benefício supera em muito o de um confronto direto. Assim, a intensidade da competição de softpower entre as duas potências seria o centro das atenções.

O final incerto

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, disse que os EUA e o Reino Unido estão estendendo a guerra na Ucrânia porque “estão longe” e “a União Europeia arca com 40% dos danos econômicos das sanções”. Na sua opinião, “não há dúvida de que os ucranianos não terão permissão para continuar as negociações até que os americanos decidam que fizeram um alvoroço e semearam caos suficiente e agora podem ser deixados em paz”.

O objetivo do bloco anglo-saxão, disse ele, é “virar a Europa contra a Rússia”. Como as guerras têm um começo detectável, mas um fim incerto, ele acrescentou que o atual escopo geográfico da operação russa já é diferente do que estava na mesa durante a rodada de negociações entre as delegações ucraniana e russa em Istambul, Turquia, em março passado.

“Agora a geografia é diferente. Não é apenas a República Popular de Donetsk e Lugansk, mas também os oblasts de Kherson e Zaporizhya e alguns outros territórios, e esse processo continua firme e persistente”, embora o que a televisão hegemônica nos venda seja outra coisa.

“Com raiva impotente”, eles continuam a encher a Ucrânia com armas de alcance cada vez maior: “Os alvos geográficos se afastarão ainda mais da linha atual”. Portanto, “não podemos permitir que armas sejam implantadas na parte da Ucrânia que será controlada pelo presidente Volodymyr Zelensky ou qualquer outra pessoa, quem o substitua, que represente uma ameaça direta ao nosso território e ao das repúblicas que declararam sua independência e querem determinar seu futuro”.

Enquanto isso, a campanha de terror sobre uma possível guerra entre potências nucleares, encenada pelo quase octogenário Joe Biden, continua. Não é uma ameaça para nenhum país em particular, mas para a humanidade, pois acabaria com o ciclo da vida – pelo menos a vida humana – na Terra. Lavrov disse que a Rússia continua comprometida com o princípio de que não pode haver vencedor em uma guerra nuclear e que ela nunca deve ser combatida.

O ministro das Relações Exteriores destacou que os países ocidentais sabem quando a Rússia será forçada a usar armas nucleares; A doutrina russa fala de uma “ameaça existencial” para usá-las. Esta não é uma consideração tranquilizadora, pois os oponentes da Rússia incluem, entre suas hipóteses, o lançamento de mísseis contra a Rússia.

Mas os historiadores nos lembram que nunca houve uma transição hegemônica sem guerra, enquanto fica claro o declínio dos Estados Unidos como hegemonia e a ascensão da China, em um processo que não será imediato, mas que agora parece inevitável.

Enquanto falamos de transição hegemônica, não contamos mais os dias de guerra na Ucrânia, nem as mortes causadas pela conflagração, nem os massacres, bombardeios, exibição obscena de armas de guerra, repetição das previsões de pseudo-analistas geopolíticos em jornais, revistas, rádios e, sobretudo, na televisão e nas redes sociais.

O mundo mudou, embora as grandes usinas de informação e comunicação nas mãos de algumas grandes empresas nos façam acreditar que não é assim, e hoje o domínio da China das tecnologias da atual revolução industrial (inteligência artificial, redes 5G e computação quântica, entre outros) se destaca. Esta situação assemelha-se ao domínio da União Europeia (EU), há um século, da organização científica do trabalho, da adoção dos avanços tecnológicos da época e sua aplicação à arte da guerra.

Mas essa transição será diferente das anteriores, ressalta Raúl Zibechi, porque o poder em declínio depende do poder em ascensão (suas economias estão entrelaçadas), porque envolve regiões e nações cujas populações têm cores de pele diferentes, porque envolve uma história de colonialismo e racismo do Ocidente contra o Oriente, do Norte contra o Sul, e porque não haverá um mundo hegemonizado pela China, nem pelos EUA, nem por qualquer outra potência, mas um mundo fragmentado em dois grandes blocos, com várias regiões e até continentes oscilando entre uma e outra.

Como a transição será resolvida pela guerra, é importante notar que o setor de defesa da China está desenvolvendo novas armas com mais eficiência e cinco a seis vezes mais rápido que os EUA, segundo um comandante sênior da Força Aérea. A vantagem da China está em sua base industrial e na escala de sua pesquisa, enquanto as principais exportações dos EUA são commodities agrícolas e armas.

A China apresenta-se como um membro construtivo da comunidade internacional: neutra, comprometida com a paz e aparentemente sempre pronta a defender a integridade territorial e o direito dos povos à autodeterminação. A integridade territorial é um capítulo importante em sua política externa, assim como a não ingerência nos assuntos internos. Claro: a China tem seu flanco frágil nos conflitos no Tibete, Xinjiang, Hong Kong e Taiwan.

A política de cerco estabelecida na Europa em relação à Rússia tem grandes semelhanças com a que os EUA estão traçando no seu entorno imediato através da promoção do AUKUS, aliança militar estratégica entre Austrália, o Reino Unido e EUA; o renascimento do Diálogo de Segurança Quadrilateral (QUAD), um fórum estratégico informal entre EUA, Japão, Austrália e Índia; e o fortalecimento de alianças anti-China de vários tipos no Pacífico Ocidental, entre outras.

A verdade é que, embora a China parecesse distraída, a onda de choque da guerra na Ucrânia a obrigou a uma moderação ativa que pode permitir aumentar sua influência e respeitabilidade entre os países africanos, asiáticos e latino-americanos. O conflito obrigou Pequim a se posicionar em relação a dois países opostos com os quais mantém relações importantes, mas ao mesmo tempo deixar claro que seu princípio de não ingerência não deve deteriorar ainda mais suas relações com os Estados Unidos e seus parceiros da Europa Ocidental.

A crise da Ucrânia “não é algo que queremos ver”, disse Xi Jinping a Joe Biden em sua cúpula virtual em março. Para a China, as principais economias devem estar focadas na recuperação pós-pandemia, na reconstrução das cadeias industriais e de abastecimento globais. Hoje, as principais questões de conflito com os EUA e seus parceiros europeus são questões de direitos humanos e de minorias, o estado de vigilância e suas dúvidas sobre a democracia declamatória ocidental como um sistema de governo.

A verdade é que Biden está limitado por muito menos espaço de manobra do que admite, e até pensou em suspender algumas das tarifas sobre produtos chineses postas em prática durante a era Trump para reduzir a inflação até então imparável, que gera enorme desconforto entre os americanos, e já está vista como um fator importante na derrota eleitoral antecipada de seu partido em novembro.

O novo conceito estratégico da OTAN adotado em 29 de junho definiu a China como “um desafio” e denunciou seus métodos de “subverter a ordem internacional baseada em regras” do Ocidente. O documento enfatizou que a China “busca o controle dos principais setores tecnológicos e industriais” ao abusar de sua vantagem econômica. Os Estados Unidos respondem assim ao desafio da China com ameaças de seu braço armado internacional, uma OTAN com seus tentáculos estendidos para o Leste.

Ao contrário da Rússia, que é incapaz de prejudicar os EUA, mas é capaz de prejudicar a União Europeia, que está teimosamente engajada em uma guerra de sanções contra Moscou, a China pode prejudicar gravemente a economia dos EUA. Como a Rússia, a China pode resistir a uma guerra econômica melhor do que os EUA ou a Europa. Já está testando isso com seu muito longo lockdown.

A visita a Taiwan da presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, a octogenária Nancy Pelosi, terceira na cadeia de comando civil norte-americana, foi uma clara provocação a Pequim. Durou menos de 24 horas, mas terá consequências profundas que se farão sentir a médio prazo. Um confronto militar é improvável, mas desencadeou a tempestade que se forma no Mar da China Meridional. Para Pequim, os EUA usaram o disfarce da democracia para violar a soberania chinesa.

Tampouco se sabe até onde pode ir o apoio de Washington a Taiwan, quando os EUA e seus parceiros europeus estão enviando carregamentos maciços de dinheiro e armas para Kiev para impedir a invasão russa. Tampouco se sabe até que ponto a promessa de defender militarmente a ilha, delineada por Biden há alguns meses, realmente irá.

Os analistas alertam, mas poucos ouvem: quanto mais Pequim for pressionada a cumprir as diretrizes ocidentais, maior a probabilidade de uma escalada da guerra e uma internacionalização da disputa ucraniana.

Augusto Monterroso, escritor guatemalteco-mexicano, escreveu o menor conto da história, com sete palavras: Quando o dinossauro acordou, ele ainda estava lá.

Quando a guerra na Ucrânia terminar, a China ainda estará lá.


Publicado no Centro Latinoamericano de Análisis Estratégico.


*Aram Aharonian é jornalista e comunicólogo uruguaio. Mestre em Integração, é criador e fundador da Telesur. Preside a Fundação para a Integração Latino-Americana (FILA) e dirige o Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE).


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Costa, a Galp e a Endesa

(Manuel Gouveia, in AbrilAbril, 12/08/2022)

Percebe-se que o Governo não queira responder com clareza. Qualquer resposta clara só ajudará a deixar também mais clara a total perversidade de todo o mercado liberalizado da electricidade, mecanismo ibérico incluído.


Ler artigo completo aqui: Costa, a Galp e a Endesa | AbrilAbril


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O novo disparate do Sr. Scholz

(Jorge Figueiredo, in Resistir, 12/08/2022)

Os deuses enlouquecem aqueles que querem fazer perder.


O desespero dos dirigentes alemães conduz a disparates sem conta, uns a seguir aos outros. Primeiro adotam a política suicida de se absterem deliberadamente de utilizar o gasoduto Nord Stream 2, que já se encontra pronto. Trata-se de uma verdadeira política de auto-flagelação energética, corroborada pela indivídua não eleita que preside a Comissão Europeia bem como por todos os seus pares. A seguir, com a aproximação do Inverno 2022-2023, desesperam-se e procuram alternativas – que a curto prazo não existem. E para fingir que tem alguma coisa a dizer, o chanceler alemão acaba de rematar os disparates anteriores com outro ainda maior: a proposta de construir um gasoduto entre o porto metaneiro de Sines (Portugal) e a Europa Central.

Aqui está a notícia que descreve esta pérola do sr. Scholz:

O chanceler alemão, Olaf Scholz insistiu esta quinta-feira na construção de um gasoduto em Portugal e Espanha, para ligar a Península Ibérica à Europa central, através de França, a fim de libertar a Europa da dependência energética da Rússia.

“Este gasoduto iria aliviar massivamente a situação atual do abastecimento”, assinalou o chefe do Governo alemão durante uma conferência de imprensa em Berlim, segundo declarações citadas pela Reuters.

Esta questão terá sido abordada em conversações com os líderes de Espanha, Portugal, França e a Comissão Europeia em Bruxelas. Na mesma ocasião, Olaf Scholz fez também um forte apelo para que se crie um projeto desta dimensão.

Sobre estas declarações, o Governo português recordou que “as interligações são uma grande prioridade estratégica nacional. É uma questão que tem sido colocada no centro das prioridades do Governo”, referiu o secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, André Moz Caldas, após a reunião desta quinta-feira.

In eco.sapo.pt/2022/08/11/chanceler-da-alemanha-apela-a-construcao-de-gasoduto-de-portugal-para-europa-central/

Por que se afirma que a proposta do Sr. Scholz é disparatada? A resposta a essa pergunta repousa tanto em razões técnicas como como em razões económicas. Convém analisar umas e outras.

Razões técnicas

O gasoduto proposto seria de transporte, ou seja, uma conduta em aço com capacidade para aguentar altas pressões (iguais ou maiores do que 70 bar) com uma extensão da ordem dos 3500 km.

Em primeiro lugar, a elaboração de um projeto desta natureza levaria no mínimo um ano ou dois, senão mais. A sua execução levaria um período de tempo que agora não se pode prever, mesmo admitindo que se possam ultrapassar todos os obstáculos técnicos (atravessamentos de rios, atravessamento marítimo para contornar os Pirineus, etc) e legais (direitos de propriedade sobre terrenos, etc).

Em segundo lugar, entra o fator da perda de carga. Os 3500 km de extensão de um gasoduto com início em Sines obrigaria necessariamente a instalar numerosas estações de compressão ao longo do seu trajeto. O Nord Stream, com apenas 1224 km, tem oito estações de compressão. Fazendo uma proporção grosseira, o gasoduto proposto por Scholz exigiria a enormidade de 23 estações (mas a Siemens agradeceria, com certeza).

Em terceiro lugar está a matéria de facto de Portugal não ser um país produtor de gás natural. Mesmo propostas muito mais modestas, como o transhipment de grandes navios metaneiros que aportam Sines para metaneiros mais pequenos são técnica e economicamente muito discutíveis (pensou-se nisso a fim de abastecer países do norte da Europa). Sines recebe gás natural liquefeito (GNL) de países terceiros e este combustível tem de ser ali armazenado até que possa ser regaseificado e injetado nas redes de gás existentes ou no novo gasoduto sonhado pelo político alemão. É claro que a capacidade de armazenagem e regaseificação de GNL em Sines também teria de ser aumentada a fim de atender ao novo gasoduto.

Em quarto lugar estão as leis da termodinâmica. O GNL é um combustível excelente porque tem uma alta densidade energética. Ao ser regaseificado, a fim de poder ser injetado num gasoduto de transporte, está-se a diluir o seu conteúdo energético. Tudo indica que o balanço energético final nunca poderá ser favorável. Gasta-se energia para regaseificá-lo, gasta-se energia para injetá-lo num gasoduto de transporte e gasta-se energia nas numerosas estações de compressão que terá de haver pelo caminho até a Europa Central. Às tantas, será preciso verificar se o valor energético intrínseco do gás natural é maior ou menor do que o valor energético gasto com todo o seu processamento até ao centro da Europa. Caso seja menor, o gasoduto do Sr. Scholz não seria uma fonte de energia e sim um sumidouro da mesma.

Razões económicas

Custos de gasodutos na UE a partir de 2021.

Antes de apontar as razões económicas convém recordar um facto interessante e muito mais simples que um gasoduto Sines-Europa Central. A Espanha e a França discutem há mais de 20 anos uma famosa ligação dos dois países através de um gasoduto de grande capacidade. Ambos os países dizem que querem a referida ligação, mas nenhum dos dois quer pagá-la. Como este gasoduto seria para transporte, além de atravessar ou contornar os Pirineus ele deveria também estender-se no território francês pois a atual rede gaulesa de distribuição foi dimensionada apenas para as suas necessidades nacionais. Essa extensão, naturalmente, aumenta os custos do projeto. Assim, as autoridades francesas argumentavam (antes da crise gasista de 2022) não estarem dispostas a pagar este acréscimo de custo porque não atenderia às suas necessidades nacionais e sim a de outros membros da UE. Com toda essa discussão, que se arrasta há anos, a Península Ibérica acabou por se tornar uma “ilha” gasista na Europa Ocidental.

Do ponto de vista económico, a ideia de abastecer a Europa Central a partir de um gasoduto de 3500 km com início em Sines só poderia ocorrer na mente de um lunático ou de um político vulgar. O facto de ter sido lançada por um primeiro-ministro alemão mostra quão baixo chegou o nível da governação daquele país.

Depois de encerrarem centrais nucleares (no governo Merkel), centrais termoelétricas a carvão, de apostarem tudo nas energias intermitentes (eólica e fotovoltaica), de rejeitarem o Nord Stream 2 que já está pronto e fora proposto pela própria Alemanha, só faltava mesmo essa ideia peregrina de um gasoduto Portugal-Europa Central.

Adotando-se um preço da ordem dos 4 milhões de euros/km, o investimento no gasoduto poderia montar a algo como 14 mil milhões de euros. No entanto, a UE é generosa e há uma velha máxima irónica a dizer que todo projeto é rentável desde que alguém pague por ele. Contudo, um projeto não é só investimento – há também os custos de exploração.

Em termos físicos, viu-se acima, tal projeto ameaça tornar-se um sumidouro de energia e não uma fonte dela. Mas quando se traduz isto para símbolos de euro, parece que as coisas ficam mais sombrias. Os custos somados da reintegração do investimento + os custos do GNL importado + os custos de regaseificação e de injeção no gasoduto + os custos da compressão e da operação geral do sistema teriam de ser inferiores ao valor do gás entregue aos consumidores centro-europeus. Seriam realmente? Há sérias dúvidas.

Por outro lado, ninguém parece estar preocupado com o problema a montante. Como Portugal não é produtor de gás natural, o país é um tomador de preços (price taker) em matéria de gás natural, ou seja, depende fundamentalmente dos preços do GNL que consegue obter no mercado spot ou em contratos a longo prazo. Mesmo que tais compras fossem feitas diretamente pela Europa ou pela futura empresa responsável pelo gasoduto Sines-Europa Central, o problema seria o mesmo: o comprador será sempre um price taker. E nem vale a pena recordar que o GNL proveniente dos EUA costuma ser mais caro do que aquele de outras origens.

É frustrante ter de responder seriamente a uma proposta que não é séria. O Sr. Scholz não sabe nada do assunto, está mal assessorado e diz alarvidades. Tão pouco é de admirar que o Sr. António Costa, pressuroso, corra a apoiar a ideia peregrina do seu colega Scholz. Alguns dizem que os políticos (vulgares) são todos iguais e há um grão de verdade nisso. Mas não estávamos habituados a que a República Federal Alemã fosse dirigida por políticos tão ignorantes.


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