Desacelerar para chegar ao destino

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 20/08/2022)

Cada vez mais o espaço mediático comum (formal e informal) se transformou num lugar de vertiginosa cacofonia. Depois da aparente quebra do ritmo de vida à escala planetária, durante os primeiros dois anos de pandemia, a velocidade anterior foi retomada com avidez e intensidade redobradas. Nem a guerra que se arrasta perigosamente na Europa, refreou o impulso para retomar a “normalidade” da paixão consumista, enchendo os aeroportos e as superfícies comerciais. Lentamente, vamos todos compreendendo que neste mundo cada vez mais pequeno e interdependente não existe nem rumo, nem caminho comum por deliberação. Vivemos em plenitude na distopia do mercado mundial. Em regime de piloto automático. Os neoliberais só podem estar contentes, pois o mercado triunfante apenas pede aos Estados que não se metam.

A ideia peregrina de que seria possível isolar com sanções países que desempenham funções essenciais na divisão internacional do trabalho, como a Rússia ou a China, sem efeito de ricochete, só poderia acudir às cabeças de governantes tornados ociosos por uma globalização em que a velocidade substitui a ponderação e o fatalismo dos automatismos dispensa decisões e responsabilidades.

Na maioria das pessoas, a capacidade de adaptação tende a ser superior ao poder de resistência. A primeira, pode ser amarga, mas garante a sobrevivência. O segundo, pode ser heroico, mas quando se ergue em ataque frontal contra obstáculos invencíveis, pode levar-nos à morte ou à loucura. O difícil, contudo, é continuar a caminhar, sem nos transformarmos em zombies (sintomática criatura do bestiário imagético contemporâneo). Nunca subestimemos a terapêutica possibilidade de sermos surpreendidos pelo inesperado deslumbramento de uma obra de arte.

Foi isso que experimentei ao visitar no MAAT uma extraordinária instalação vídeo da autoria de Alexandre Farto, um jovem artista português (n. 1987) já de renome internacional, mais conhecido pela assinatura artística “Vhils”. Chegou ao grande público através das suas intensas esculturas em baixo-relevo, em paredes urbanas pelo mundo fora. Este trabalho em vídeo, intitulado Prisma (e acessível até 5 de setembro), abre outras possibilidades de expressão para o seu génio. Resultou de recolhas de imagem realizadas entre 2016 e 2020 nas seguintes grandes urbes: Cidade do México, Cincinnati, Hong Kong, Lisboa, Los Angeles, Macau, Paris, Pequim e Xangai. O produto final traduz-se numa ampla, impressionante e labiríntica instalação, onde a luz provém inteiramente das telas.

O conjunto, permite ao observador uma comovente experiência de imersão nos diferentes segmentos de imagem, que nos interpelam a partir de diferentes ângulos e níveis de altura. São imagens que olhamos e nos olham. Os filmes correm num ritmo de câmara lentíssima, como se existisse uma dimensão intermédia entre o movimento e a absoluta imobilidade. Não é possível fazer uma só passagem. Apetece regressar sucessivamente. Suspender também o nosso tempo. Verificar se aquelas jovens chinesas conseguiram, finalmente, atravessar a passadeira, ou se o trabalhador hispânico, ainda ergue a bandeira de controlo da passagem de peões junto a uma obra. Imagens, quase como prova visível da unidade psicológica da humanidade. Talvez tenhamos mesmo de desacelerar na vida real, a começar pela economia, para evitarmos o precipício para onde a nossa acelerada vertigem nos parece conduzir.


Professor universitário


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Discurso aos participantes e convidados da 10ª Conferência de Moscovo sobre Segurança Internacional

(Vladimir Putin, in Resistir, 23/08/2022)

Senhoras e senhores,

Estimados convidados estrangeiros,

Deixe-me dar-lhes as boas-vindas ao 10º Congresso de Moscou sobre Segurança Internacional. Durante a última década, seu fórum representativo tornou-se um importante local para discutir os problemas político-militares mais urgentes.


Ler artigo completo em: Discurso aos participantes e convidados da 10ª Conferência de Moscou sobre Segurança Internacional


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Tanta verdade junta mereceu publicação – take XIII

(Por José Neto, 22/08/2022)


(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos de Foicebook ver aqui. Perante tanta verdade junta, resolvi dar-lhe o destaque que, penso, merece.

Estátua de Sal, 22/08/2022)


No final da II Guerra Mundial, os militares alemães que defendiam Berlim também esperaram até ao fim a chegada de reforços para uma contra-ofensiva destinada a expulsar os aliados do território alemão, como lhes tinha sido prometido pelos seus líderes. Esperaram em vão, claro. Por essa altura já grande parte das tropas nazis era constituída por crianças.

Há coisas que nunca mudam. As tropas que foram na sua maior parte aniquiladas no Donbass eram a elite do exército ucraniano, cerca de 200 000 homens que a NATO treinou intensivamente nos últimos 8 anos, e que estavam entrincheirados em fortificações laboriosamente construídas especialmente para esta guerra. Foi tudo destruído.

O site americano de Hal Turner divulgou dias atrás um relatório das Forças Armadas da Ucrânia onde se relata a perda confirmada de 191 000 soldados, entre mortos e feridos com gravidade. Mas esse relatório está apenas a menos de 50% completo. E a maior parte das perdas na frente de batalha não são contabilizáveis neste momento. (1)

O próprio relatório refere que ninguém sabe quantos militares estão desaparecidos e ninguém quer saber. Então o número real de baixas será muito superior, talvez duas vezes o número apresentado. Recorde-se que a Ucrânia tinha um exército de cerca de 600 000 homens no começo da guerra, dos quais 200 000 eram tropas especiais dos batalhões neonazis especialmente treinados pela NATO, que já estão praticamente todos mortos,

Recorde-se que a Rússia iniciou esta Operação Especial com 200 000 soldados, dos quais 40 000 permaneceram de reserva em território da Bielorrússia. Provavelmente já estarão em igualdade com os efetivos inimigos ou até mesmo em maioria. É sintomático o frenezim de recrutamento que o Governo ucraniano está a levar a cabo entre a população civil indiscriminada. Se a pessoa tem duas pernas e dois braços completos, serve perfeitamente.

Neste momento, as forças russas em ofensiva são quase só a Guarda Nacional e as milícias das RPD. O grosso das tropas nesta fase está estacionado nos territórios conquistados, consolidando posições e concentrando armamento pesado para eliminar uma contra-ofensiva. Mas ela não faz sentido, simplesmente.

A Ucrânia pode juntar, como eles dizem, um milhão de “soldados”, recrutados à força, mas esses não terão o treino militar nem as capacidades físicas e cognitivas dos que morreram. Se avançarem contra as linhas russas fortificadas, serão como gado a caminhar para a matança. E como a Rússia domina completamente o espaço aéreo, como é que eles vão evitar serem chacinados no percurso pela aviação? Um milhão de idiotas a marchar numa planície aberta não passam despercebidos. O que faz a diferença numa guerra atual é o poder de fogo, não é o número de candidatos a cadáveres que um exército pode juntar.

Além disso, como muito bem referiu o analista militar Andrei “The Saker” num dos seus artigos recentes, para avançarem sobre Kherson as tropas ucranianas qualificadas, que iriam liderar a anunciada ofensiva, teriam de sair dos locais onde se encontram agora, o que significaria a Ucrânia perder definitivamente essas posições, que por acaso são as últimas que lhe restam nos territórios do Donbass.

E Zelensky vem para a Imprensa dizer que vai ordenar uma ofensiva em força?! Mas realmente, não faz sentido. Se essa ofensiva estivesse eminente, ela estaria a ser preparada em segredo para surpreender o inimigo, não seria anunciada na TV. Por outro lado, já todos percebemos que aquela gente é louca, pelo que não é obrigada a agir com racionalidade.

Acredito perfeitamente que a escumalha nazi dirigente e os seus patrocinadores ocidentais não se importassem nada de enviar um milhão de rapazes, velhos, mulheres e aleijados para a morte. Depois Hollywood podia até fazer um filme giro sobre isso. Mas já tenho muitas dúvidas de que os comandantes militares no terreno vão na conversa.

A Rússia venceu claramente a guerra nas primeiras duas semanas da operação militar, limitando-se desde então a trabalho de limpeza dos assentamentos ucranianos ativos dispersos no vasto território. Basicamente, os militares russos estão entretidos a praticar tiro ao alvo com armas pesadas contra tudo o que tem duas pernas e uma farda, esteja onde estiver. Pacientemente, vão também destruindo todo o armamento que os países ocidentais para lá mandam, a maior parte do qual não chega nem perto da linha da frente.

No entanto, os novos desenvolvimentos desencadeados pelos líderes ucranianos e seus mentores ocidentais, com recurso a métodos puramente terroristas praticados em território russo, parecem ter deixado os russos um bocadinho aborrecidos. O site Geopolítica Atual divulgou imagens de um bombardeamento realizado em 10 do corrente na região de Peski, entretanto libertada, no qual foram usados, creio que pela primeira vez nesta operação, vários mísseis TOS-1A “scorching sun” termobáricos, sobre um assentamento de militares ucranianos que provavelmente estavam a chatear demais, os quais obviamente “viraram” pernil assado num instante. (2)

Se a Rússia começar a sentir alguma pressa de terminar o assunto, o nível de dor poderá aumentar exponencialmente. De facto, esses ridículos imbecis como a figurinha Luís Delgado, que vêm para as TVs torcer pela Ucrânia neonazi como se aquilo fosse um jogo de futebol, deviam ser enviados para a frente de combate para verem como as coisas ali realmente são.

Claro que Luís Delgado, face à inqualificável situação atual da nossa “Imprensa”, poderá até sentir-se injustiçado por estas minhas palavras e dizer indignado, como fazia o outro primata, no velho programa do impagável Jô Soares: “Mas sou só eu?! “Cadê” os outros???”

Realmente, eu nem quero pensar no que seria a minha vida se não existissem outras fontes de informação para além das que nos querem impingir, ou se os bloqueios estatais a sites “inconvenientes” fossem minimamente eficazes, exceto para os totós. Uma noite destas sonhei com isso e acordei com suores frios…

(1) https://geopoliticaatual.wordpress.com/2022/08/15/relatorios-do-exercito-ucraniao-vazados-191-000-tropas-mortas-ou-feridos/

(2) https://geopoliticaatual.wordpress.com/2022/08/21/imagens-surreais-tos-1a-da-russia-tambem-conhecido-como-foguetes-termobaricos-scorching-sun-dizimando-posicoes-militares-ucranianas-em-peski-em-10-de-agostovideo/


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