O cerco à Festa do “Avante!” e ao PCP

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 01/09/2022)

Daniel Oliveira

Os ataques aos artistas que atuam na Festa do “Avante!” vieram dos que mais se queixam da cultura de cancelamento. O PCP era tratado com bonomia. Mudou depois de quatro anos de “geringonça” e do bloqueio da direita, que precisa do Chega para governar. É preciso alimentar falsas equivalências. E a Ucrânia foi a oportunidade.


A Festa do “Avante!” provoca indignações sazonais. Na pandemia era porque sendo um festival como os outros devia ser interditado. Este ano, é porque sendo um acontecimento político como os outros, quem lá atua é cúmplice de Putin.

Ironicamente, a cruzada foi lançada há uns meses por José Milhazes, que, como militante do PCP, viveu na URSS, tendo descoberto a natureza do regime quando ele desmoronou. Por experiência própria sei que as pessoas mudam de opinião, mas nunca lidarei bem com o moralismo agressivo dos convertidos. Os subsequentes ataques aos artistas vieram dos que mais se queixam da cultura de cancelamento. Claro que a participação na Festa do “Avante!” é, para além de um momento cultural, um ato político. Mas nunca significou um apoio a todas as posições do PCP, que incluíram conivência com algumas ditaduras.

Apesar da vitimização, o PCP não tinha grandes razões de queixa do tratamento mediático desde a chegada de Jerónimo de Sousa à liderança. Não tem grande espaço no comentário, é verdade, mas a comunicação social tratava os comunistas com bonomia, respeito pelo seu passado e até paternalismo. Não consta que, nesse momento, as posições do PCP fossem diferentes das de hoje.

Mas as coisas mudaram depois de quatro anos de “geringonça” e do bloqueio da direita, que agora depende de entendimentos semelhantes com o Chega para reconquistar o poder. Como os discursos xenófobos de Ventura não facilitam a sua normalização, é preciso alimentar falsas equivalências com os partidos mais à esquerda. Num país que conheceu uma ditadura de direita, o trabalho não é simples. E a Ucrânia foi a oportunidade.

A posição dos comunistas sobre a Ucrânia nem sequer é um bom argumento para este paralelo. Qualquer pessoa informada sabe que o PCP não apoia o regime de Putin. É verdade que, por mais que diga que não apoia a invasão, não há um documento oficial ou uma declaração do secretário-geral – que vinculam o partido – que reconheça a invasão. E que a trate como um ato contra a autodeterminação de um povo, sem responsabilizar imediatamente a Ucrânia e os EUA por isso.

Só que, no que toca a invasões militares criminosas, ilegais e imorais, o PCP não é um estreante. PSD e CDS não se limitaram a apoiar a criminosa, ilegal e imoral invasão do Iraque. Envolveram Portugal nessa aventura. Não é “whatabautismo”, é avaliar comportamentos dos partidos com coerência e proporcionalidade. Critico Jerónimo como critiquei Barroso e Portas. A sua posição é imoral, porque insensível aos valores da autodeterminação dos povos; cínica, porque nem se assume de forma explicita; e incoerente com o que os comunistas defenderam no Iraque ou no Kosovo. Mas se isto não serviu como critério para atirar o PSD e o CDS borda fora do sistema democrático, também não serve para o fazer com o PCP.

Só que esta guerra não é tratada como as outras. Não porque seja diferente, mas porque EUA, NATO e a UE estão, excecionalmente, do lado do ocupado. Também não são critérios morais que movem o PCP. É a ideia de que a hegemonia imperial norte-americana se combate com a recuperação de um mundo bipolar (ou multipolar), em que outros impérios resistam. Na realidade, o comunismo pró-soviético não combatia o imperialismo, escolhia um imperialismo contra outro. E nisto, a posição comunista sobre a guerra da Ucrânia, que resulta de um automatismo antiamericano, é um espelho fiel do automatismo pró-americano de quem determina a sua agenda política e moral pelos interesses circunstanciais da Casa Branca. Ainda vamos ouvir os que entregaram as nossas empresas de energia ao regime chinês dar lições sobre a ditadura de Pequim. Começou no dia em Nancy Pelosi aterrou em Taiwan.

Estarei mais incomodado com o posicionamento do PCP nesta guerra do que os seus inimigos. Não respondendo a diretivas internacionais, como no passado, ela enfia os comunistas num buraco político, mantendo-os satisfeitos com o aplauso dos convencidos e desistentes de falar para o resto do país. Não é pelo PCP que o lamento. É porque, nesta autossatisfação tribal, está a afundar estruturas necessárias para os tempos que se avizinham, como a CGTP. E porque, com a sua posição, tornou mais difíceis posições ponderadas sobre a guerra, que não se querem confundir com a sua amoralidade.

Já tenho alguma dificuldade em acompanhar as críticas ao PCP por não ter elogiado Mikhail Gorbachev, no momento da sua morte. Elogiar o quê? Não chega ter passado a vida a apoiar uma ditadura, trepar ao poder à boleia dessa ditadura e destrui-la por dentro para merecer elogio. O legado, nos anos 90, foi uma queda vertiginosa do PIB, um aumento brutal da pobreza, uma economia mafiosa e, em pouco tempo, outra ditadura perigosa. Sim, o único legado de Gorbachev é o fim da URSS ou de qualquer coisa que lhe pudesse suceder. Nem tinha no seu passado qualquer credencial democrática, nem deixou para o futuro qualquer legado democrático.

Dir-se-á, com justiça, que não foi este o fim que desejou e por isso Ieltsin o derrubou. Mas não é pelas intenções que julgamos os atores da história, é pelos resultados. E quem o diz teve enormes esperanças em Gorbachev e saiu do PCP no meio dessas esperanças porque o PCP não as acompanhava. Não se pode criticar o PCP por uma coisa – apoiar o que veio depois da URSS – e o seu oposto – criticar o que veio depois da URSS. O PCP é nostálgico da URSS (nenhuma novidade nisso), não é apoiante de Putin. As duas críticas são inconciliáveis.

Voltando à Ucrânia, o incómodo que sinto não me ilude quanto às motivações de uma perseguição política ao PCP levada a cabo por quem nunca teve qualquer problema em apoiar invasões imperiais de países soberanos que custaram centenas de milhares de vidas. O objetivo é transformar o PCP num intocável, em tudo semelhante ao Chega. Não querem banir o PCP, querem naturalizar, por via da equiparação, um partido racista para que possa contar na aritmética do poder. Se foi possível governar com um, também se pode governar com o outro.

Com tudo o que me separa do PCP, e o mais relevante é a política internacional, sei distinguir o seu discurso sobre a invasão da Ucrânia, ainda assim menos grave do que apoio institucional que o governo de Durão Barroso e Paulo Portas deu à invasão do Iraque, do racismo que se vai normalizando na política portuguesa.


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Bem dito, bem feito

(Hugo Dionísio, in Facebook, 01/09/2022)

Emmanuel Macron, moço de recados dos Rockefeller e funcionário militante da Mackinsey, ontem, deu voz a uma formulação que encerra, na sua essência, uma profunda verdade. Tal como muitos dos seus correligionários governadores europeus, disse Macron “Gorbatchov abriu a porta à democracia no espaço Russo e Soviético”. Então… Mas a Rússia não era uma ditadura e Putin pior que Hitler?

Hummmm…. Ou isto diz muito sobre o que esta gente acha de Hitler (no mau sentido), ou então, diz muito do que é o oportunismo e superficialidade com que tratam o seu discurso. Quando não lhes dá jeito “é ditadura”, quando lhes dá jeito “é democracia”. Palavras para quê?

Agora, coisas sérias e também com traidores dos povos e dos trabalhadores:

Pelas 6:00 da manhã na Ucrânia, dois grupos de sabotagem compostos por cerca de 60 operacionais de forças especiais das Forças Armadas leais a Zelinsky tentaram, através de um desembarque anfíbio na reserva de Kakhovskyi, tentaram tomar o controlo da NPP Energodar em Zaporozhie.

Esta tentativa saiu de tal modo frustrada, que cerca de 47 morreram, três estão detidos e em estado grave e cerca de uma dezena estão cercados em local próximo da central nuclear.

Desconcertado com o insucesso, do qual dependia a “verificação” de toda a narrativa do regime fantoche Ucraniano relativamente à suposta autoria russa dos bombardeamentos, eis que Zé mandou fazer o que eu havia já ontem previsto que faria.

Pelas 8:00 da manhã na Ucrânia, as forças armadas leais à NATO desataram a bombardear o local onde estava a missão da IAEA (perto de Vasilevka e da central), explodindo quatro das bombas a 400 metros da Unidade 1 da missão.

Quem leu o meu post de ontem não pôde deixar de ler o que havia escrito sobre esta visita e a atitude que seria mais provável por parte das forças proxy dos EUA. Certos de que a comunicação social corporativa não deixaria de disseminar as suas notas de imprensa como vindo das tábuas de Moisés, o regime fantoche Ucraniano pode permitir-se a tudo, menos a deixar conduzir pacificamente os inspetores à central nuclear que têm, ininterruptamente, vindo a bombardear.

Se sugerirem, após os bombardeamentos à central pelas forças leais a Zelinsky, que os mesmos são feitos por quem controla a estrutura e lá detêm tropas suficientes para, por exemplo, derrotar um grupo de 60 operacionais das forças especiais, já seria escabroso e profundamente ofensivo da nossa inteligência, infelizmente, o filme de terror não para por aqui.

EUA, NATO e o seu proxy Zelinsky têm a garantia que o que passa para o éter desinformativo são as seguintes “verdades”:

• Se a rota e local da missão da IAEA forem bombardeados, são os russos;

• Se suceder uma catástrofe nuclear por causa das bombas atiradas pelos proxys Ucranianos, foram os russos;

• Se a equipa de inspetores for atacada de tal forma que ocorra uma tragédia, foram os russos;

• Se a equipa da IAEA não chegar algum dia à NPP Energodar, foram os russos;

• Se os russos apresentarem provas de satélite e vídeo de que não foram eles, é propaganda russa;

• Se alguém no ocidente invocar tais provas ou tiver ele mesmo constatado tais situações, é propagandista russo.

Trata-se de uma pescadinha de rabo na boca, de natureza profundamente xenófoba, que visa impedir o levantamento da verdade, a reflexão em torno dos acontecimentos, garantindo a assimilação, pelo menos à superfície, da narrativa oficial – construída por poderosamente financiadas empresas inglesas e americanas de comunicação e marketing. O plano é conhecido e assumido pela própria Nuland, que veio por inúmeras vezes referir-se ao uso da informação como arma de guerra contra a Rússia. É preciso ser-se mesmo beato a sério, groupie ou fanboy, para não o saber.

Há quem diga que, partindo desta premissa, todo um plano foi desenhado, segundo alguns especialistas, pela equipa de Boris Johnson e que visava, em último lugar, impedir que este atrasado mental tivesse de se demitir, justificando o impedimento pela necessidade de o país ser colocado em estado de emergência em resultado da catástrofe nuclear provocada “pelos russos”.

Outros dizem que Zelinsky embarcou na provocação porque, vendo tudo a colapsar, da economia ao exército (até os velhos, coxos e manetas vão para guerra), tal dar-lhe-ia jeito para exigir que a NATO entrasse ainda mais diretamente no conflito, acionando o artigo 5.º do tratado, que determina a intervenção em função e um ataque nuclear a países da aliança. Como o desastre não deixaria de afetar a Polónia, Hungria e Roménia…

Seja como for, o enredo existe e as vantagens são múltiplas, mesmo que apenas em matéria de comunicação social para as massas. Mesmo que se frustre, dá sempre para apresentar o lobo mau russo, exigindo o seu esfolamento. Não bastam ainda a queima de livros, a perseguição política, atar pessoas russófonas a postes com celofane, bombardear áreas civis sem militares (ao contrário do que sucede com as forças proxys da NATO, que se instalam propositadamente em instalações civis para poderem acusar os russos do mesmo).

Primeiro começou com a exigência dos HIMAR, que tinham maior alcance do que os seus Uragan, pedido que o tio Sam logo acatou. Com os HIMAR passou a ser possível às forças nazis atingirem a retaguarda russa, mas, ao invés de alvos militares, como cada míssil custa um milhão de euros e as instalações militares estão bem guardadas com os melhores sistemas antiaéreos do mundo, o que fazem as tropas de Zé? Atacam civis. De vez em quando lá destroem um alvo militar e fazem uma festa comunicacional durante meses. Julgo que todos conhecemos a história do fantasma de Kiev ou do vingador da Mariupol.

Exigidos e entregues os HIMAR, que se somaram a muitos outros sistemas menos capazes, não foi preciso esperar muito. Lá começaram a cair bombas sobre a Energodar NPP.

A coisa correu bem, pois em nenhum órgão ocidental o regime foi acusado de o fazer, nem apenas remotamente. Não foi, pura e simplesmente. Porque não continuar?

A Rússia logo pediu a convocatória, de emergência, do conselho de segurança, onde apresentou provas inequívocas da real autoria do ataque. Por cá, de nenhuma se falou, foram tratadas com um apagamento ainda maior do que o relatório da Amnistia Internacional, que acusa o regime proxy de Zelinsky de perseguir, bombardear, matar a população russófona e de instalarem militares em casas, infraestruturas e bairros civis. Perante as evidências, nem os EUA tiveram condições morais para impedir a fiscalização. Contudo, tentaram, mesmo assim, condicionar a seleção dos inspetores, o que também não conseguiram a total contento. O que sobrou? Tentar impedir que os inspetores algum dia tenham acesso às provas. Como? Ou tomando a central, que se frustrou, ou bombardeando os próprios inspetores. Eu é que não queria estar na sua pele, tendo, por força do seu mero trabalho, de desafiar a narrativa de um império genocida e hipócrita como este. Existem muitos inspetores americanos e não só que tiveram de o fazer, a vida não lhes ficou nada fácil.

Garantindo o controlo absoluto e férreo dos órgãos de comunicação social de grande tiragem, sejam TV, Rádio ou Jornais, apenas concedendo, aqui e ali, breves lufadas de ar fresco que logo são atacadas na sua dignidade por um exército de enraivecidos guardiães da moral e bons costumes, que nas redes sociais e na própria comunicação social exigem o despedimento, silenciamento e ostracização de quem tem a coragem de discordar da narrativa reinante, dominando motores de busca (Google, Bing, Yahoo…) e redes sociais mais representativas, garantindo que nelas roda o “algoritmo corporate” como lhe chamou Jimmy Dore, o “establishment” oligárquico ocidental detém um poder absoluto sem paralelo na história humana.

Glenn Greenwald e muitos outros jornalistas de renome, premiados, inclusive, e hoje na prateleira dos órgãos corporativos da poderosa oligarquia ocidental, chamam a este poder absoluto de “totalitarismo invertido” Privado. Não existe nenhuma dimensão das nossas vidas que escape ao negócio, aos ciclos de acumulação e aos ditames da oligarquia composta pelos Soros, Rotchild, Rockefeller, Gates e companhia. Não apenas dominam os mecanismos privados, como condicionam, pelo cerco que praticam, o que ainda resta de público.

Em nenhum momento da história humana o poder absoluto resultou em algo de bom. O poder absoluto levou sempre à corrupção e degeneração absolutas.

O Ministro da Economia da Alemanha veio dizer que “ a Alemanha nunca abandonará a Ucrânia”, “mesmo que os eleitores pensem o contrário e não o queiram”! O 1.º ministro da Letónia disse “se os nossos nacionais Russos não alinharem pela nossa perspetiva, quer dizer que não são democratas, logo têm de sofrer as consequências”; Ana Gomes, que fecha os olhos às malas de dinheiro que Hunter levou a Joe Biden, diz que Bruno carvalho tem de ser ostracizado; Henrique Burnay chamou “vergonha de homem” a Carlos Branco. Tudo exemplos de grandes democratas.

Embora na forma ainda vivamos numa democracia liberal, na substância, as relações sociais que se começam a desenvolver com muita velocidade, são próprias de regimes autoritários, xenófobos e retrógrados. E quem as está a fomentar são os que mais falam de democracia e liberdade… Faz lembrar os dominicanos no tempo de Inquisição… Também eram os mais pios e caridosos… Foi o que se viu.

Em nenhum momento o que escrevo visa justificar a guerra ou aceitá-la como forma válida para resolução de conflitos. Mas temos de perceber porque elas existem e o que está por detrás do que nos mostram.

Como diz um escritor indiano de nome Ulleh: “os indianos estão bem informados sobre as causas das guerras modernas”; “o que atingiram as forças dos EUA-NATO com 20 anos de ocupação do Afeganistão”? “Que democracia levaram ao Iraque”?; “nós não somos escravos dos EUA”!

Pois, mas por cá existem muitos e colocados em locai de poder. E não pensem, por um momento, que estão lá por acaso!

É o que dar ter o poder absoluto

P.S. sabem que Roger Waters dos Pink Floyd está na página que o regime Ucraniano criou com alvos a abater? Tudo porque ele discorda da sua narrativa? Que coisa tão democrática!


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Em modo de suicídio e homicídio

(Hugo Dionísio, in Facebook, 29/08/2022)

Nestes dias, passar pelas notícias, nacionais ou internacionais, é como assistir à queda de um castelo de cartas ou de uma fileira de dominó, mas numa lógica preditiva, ou seja, em vez de assistirmos somente às peças – ou cartas – em queda, temos o prazer de assistir, antecipadamente, à queda das seguintes, mesmo antes de acontecer.

Paradoxal? Nem por isso. Não é mais paradoxal do que a realidade alternativa em que nos tenta colocar a comunicação social das grandes corporações do sector, transmitindo uma realidade desprendida de causas e causadores.

Vejamos o exemplo de Macron a dizer “a era da fartura acabou”, ou do primeiro-ministro Belga, dizendo que “nos próximos sete a dez anos as coisas serão muito difíceis”, ou de um sem número de ministros do espaço europeu da NATO, dizendo que teremos de reduzir o número de duches, fornecer as nossas casas de cobertores e desligar os ares condicionados, entre muitas outras medidas “democráticas” e de acordo com os “valores europeus”.

Ao mesmo tempo que vociferam estas atoardas, desfilam notícias de encarecimento brutal da eletricidade, do gás, da água, do combustível e de todos os bens e mais alguns. “É da guerra na Ucrânia”, dizem. Mas quando analisamos bem as coisas, verificamos que não fomos invadidos, bombardeados, bloqueados, sancionados ou embargados.

Ao mesmo tempo, sabemos que a Rússia não parou a produção de Gás, de Petróleo, Óleos lubrificantes, óleos alimentares, gasóleo, Zinco, Alumínio, Aço, eletricidade, trigo, centeio, papel, Água, e de todo o conjunto de bens que são a base da nossa civilização. Pelo contrário, a Rússia até aumentou a sua produção e venda. Só que não para a Europa. E porquê? Pois… É aqui que acaba a análise da comunicação social das classes proprietárias.

Quando chegam ao tema “sanções”, tudo se cala! É que, a única razão que faz com que esta guerra tenha um efeito diferente nas nossas economias, do que as muito mais mortíferas guerras do Iraque, Iémen ou Afeganistão, reside no facto de a oligarquia dos interesses económicos ocidentais ter ordenado, aos seus moços de recados, a adoção de sanções, que sabia de antemão, irem ter um efeito nefasto no sancionador, ou seja, no Ocidente.

O que é que justifica adotarem-se sanções contra um país, quando se sabia que o resultado seria deixarmos de receber, a muito curto prazo, produtos vitais para as nossas economias? Produtos que não são passíveis de se encontrar, na qualidade, preço e quantidade desejada, nos mercados internacionais.

Ora, o que chamar a um governador (não me atrevo a chamar-lhes “governantes”), que tendo os recursos adequados, em preço, qualidade e quantidade, decide deles prescindir, sabendo que com essa rejeição, vai trazer brutais consequências ao povo que jurou proteger? Por muito que abominassem a Rússia, nada justifica que todos tenhamos de ficar na miséria, com exceção dos mandantes e seus moços de recados, para combatermos um inimigo que não nos invadiu, bloqueou, embargou ou sancionou. Mesmo que o objetivo fosse sancionar tal inimigo, e sendo eu total e frontalmente contra as sanções unilaterais, ilegítimas e genocidas que os EUA têm a mania de aplicar contra os que não se lhe submetem, não seria exigível que, primeiro e antes de tudo, estes governadores de meia tijela, acautelassem os interesses do seu povo? O povo que dizem tê-los eleito? O mesmo povo que dizem ser o próprio a mandar, por vivermos numa “democracia”?

Afinal, que interesses e expectativas tiveram em conta estes moços de recados? Não foram as nossas, isso é certo. Daí que a esmagadora maioria da humanidade se tenha negado a criar danos irreversíveis aos seus povos, a troco de aplicar as sanções. É caricato que os que se consideram o exemplo acabado da “democracia” sejam os primeiros a trair os seus povos, entregando-nos uma bandeja de miséria, fome e aldrabice. Já os povos “mais atrasados” do sul global negaram-se a fazê-lo e hoje é muito interessante ver os americanos a quererem ir ao méxico comprar coisas como materiais de construção.

É certo que houve muita arrogância e impertinência, nomeadamente a de considerar a Rússia um país despreparado, impotente para responder às “sanções do inferno”, o que levaria à queda iminente do “regime” de Putin. Perante o colapso e a derrota, os EUA, em vez de negociarem com o seu opositor e pararem imediatamente a guerra, optaram por uma escalada xenófoba contra o povo Russo, incitando a sempre cumpridora EU e a sua estafeta Úrsula Van der Crazy, a impedirem os Russos de entrarem no espaço europeu, numa espécie de punição coletiva muito típica dos nazis, seus avós.

Já o corrupto, cocainómano e neonazi Zelinsky, em vez de se retirar para as suas mais de 20 casas, mostra o que costuma fazer um nazi quando tem costas quentes. Desesperado pela derrota iminente, decide bombardear a maior central nuclear da Ucrânia, numa tentativa de culpar a Rússia por uma catástrofe nuclear, que levasse a Nato a intervir. Claro que, na comunicação social da oligarquia reinante não vão encontrar uma só palavra sobre os autores dos bombardeamentos. Essa autoria é propositadamente deixada à especulação do ouvinte. Uns, mais informados, pensarão: “que raio, mas os Russos não tinham tomado a central nuclear logo nos primeiros dias?”. Se continuarem a investigar, chegarão rapidamente à conclusão e que existe informação mais do que suficiente e esclarecedora sobre os autores, da sua localização e do tipo de armas usadas, por sinal, na sua maioria, europeias e americanas. Se o seu estado for já de total submissão mental à realidade ilusória passada pela comunicação social corporativa, ficará por um simples “estes Russos são mesmos terríveis, até bombardeiam uma coisa que têm na sua posse para culparem os outros e para matarem tudo”! E acaba por ali a sua reflexão.

Os outros, ficarão pela tendência da moda, que será a do esquecimento do que se passou logo nos primeiros dias, com a tomada da NPP de Zaporozie, e de se contentarem com um “aquilo está mesmo perigoso”, ou “o Putin quer explodir com isto tudo”. A partir de tal acriticismo mental, tudo pode acontecer, sendo normal a adoção pelas mais mirabolantes explicações, menos as mais plausíveis.

E nesta escalada, assistimos à explosão controlada da economia europeia. Quem segue os meus escritos, já há muito tempo me ouve dizer que os EUA têm a pretensão de destruir a economia europeia, o euro e a sua indústria. A verdade é que, após uma colonização sem precedentes, da comunicação social corporativa aos órgãos institucionais, é isso mesmo que estão a conseguir e com a ajuda dos moços de recados que foram colocando em posições chave, ao longo dos anos.

Quando a Indústria automóvel, aeronáutica e eletrónica europeia e japonesas não conseguir manter os seus níveis de competitividade, devido aos elevados preços dos fatores de produção, qual será o país cujas indústrias aparecerão em melhores condições para ocupar as suas posições? As dos EUA. Quando a agricultura, agro-indústria, pecuária e agropecuária, não conseguirem subsistir por causa do preço dos fatores de produção – e da suicida agenda verde europeia que protege tudo menos o ambiente -, qual será o país cujos bens ocuparão o mercado europeu e por preços mais elevados? Pois… Os dos EUA. Quando, as empresas que já começaram a fechar (na EU estão a fechar todos os dias fábricas metalúrgicas – o metal é a base de tudo) precisarem de investidores, quem terá o dinheiro para as comprar? Pois, os EUA. Quando deixarmos de receber totalmente gás dos Russos, petróleo e derivados… Quem estará preparado para fornecer esses bens e a preços muito mais elevados? Pois, os EUA. E tudo em dólar, porque, afinal, os EUA estão a tentar travar o já circulante processo de desdolarização da economia mundial. Ou seja, OS POVOS EUROPEUS ESTÃO A SER TRATADOS COMO ALMOFADAS DE AMORTECIMENTO DA QUEDA DO IMPÉRIO ESTADO UNIDENSE, numa tentativa de manter a sua hegemonia incontestável. É esta a traição que devemos aos moços de recado a que chamam políticos do arco da governação e da direita.

No nosso país há ainda uma curiosidade, é que para além do PCP, que à esquerda tenta defender de forma cada vez mais difícil, a nossa soberania, independência e autonomia, como condições básicas necessárias para a liberdade e identidade nacional, à direita, o nosso parlamento não se pode orgulhar de ter um qualquer partido que defenda o país. Da ala direita do PS, ao PSD, passando pela moderna, no século XVII, Iniciativa Liberal, e da criação artificial Chegana, nenhum, mas nenhum, defende e protege a soberania nacional. TODOS NÃO PASSAM – INCLUINDO BE E PAN – DE MOÇOS DE RECADOS DO GLOBALISMO E IMPERIALISMO ESTADO UNIDENSE, alinhando alegremente nas suas quimeras genocidas, nas suas provocações supremacistas e no seu belicismo indiscriminado.

Se ser de esquerda é preocuparmo-nos com o nosso povo, a nossa pátria e a sua liberdade e identidade, para escolher o caminho histórico que mais lhe aprouver, então a esquerda está mesmo muito sub-representada no nosso parlamento. É que, vê-se muita esquerda no que respeita ao identitarismo e à liberdade dos costumes (LGBT+, Ambiente, Igualdade de Género, animais…), mas vemos muito pouca quando se trata de combater o imperialismo, opressor da soberania e cultura dos outros povos, de combater a pilhagem ocidental aos países do sul global, e de abordar o maior problema de classe de todos: o da desigualdade material entre pessoas, que vota uns à pobreza acrescentando a riqueza de outros.

É que como dizia Marx, isto não é um problema de esquerda ou direita – mera referência geográfica parlamentar -, é um problema de classe, de defesa da classe mais representativa, a classe trabalhadora. E não existe classe trabalhadora livre num mundo submetido ao imperialismo, ainda para mais na sua forma capitalista ideologicamente neoliberal. Nesse mundo todos se submetem, pela força se necessário, à oligarquia proprietária. E nunca, como antes, tal verdade foi tão clara. No final, o que existe é capital e trabalho. E muitos dos que se dizem de esquerda, não sabem se estão de um lado ou outro.

E hoje, se contassem efetivamente as questões de classe e a necessidade – democrática na sua essência – de se governar para a classe maioritária, nunca a Europa, e Portugal, se encontrariam nesta crise, pois o conflito nem havia começado, por não ser do interesse dos trabalhadores começa-lo.

Sabem quem é que não vai ter de racionar os banhos, a saída dos carros, a eletricidade? Os que nos pedem para fazê-lo agora, em nome dos interesses da classe que nos oprime.

E assim se suicida a economia europeia e se matam todos os que morrerem por falta de serviços de saúde, de alimento, de aquecimento, de alimentação de qualidade, de educação…. O capitalismo mata a sério e de muitas formas e a europa vai viver agora o que era previsto ter vivido nos anos 30 em diante, quando os EUA e o capitalismo mais feroz fomentaram pelo mundo as múltiplas formas de fascismo que conhecemos. Na altura houve uma URSS que disse basta e nos libertou dessa catástrofe… Hoje, teremos de ser nós, os povos e os trabalhadores, a derrotar tal proposta.

A xenofobia, a censura, a perseguição e o condicionamento já chegaram. A seguir, se deixarmos, virá o resto!


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