Razões da ascensão da extrema direita num país à beira-mar plantado

(António Garcia Pereira, in NoticiasOnline, 29/09/2022)

Quando alguns de nós nos surpreendemos e até nos indignamos com as subidas eleitorais (como já aconteceu em Portugal) e até com a ascensão ao poder (como está a suceder em Itália, por exemplo) de forças e personagens da extrema direita, bem faríamos se procurássemos atentar devidamente nas circunstâncias e nos factores que a tal conduzem e nas formas de os alterar de forma clara e consistente. É que se analisarmos isto com rigor, não são só fascistas e nazis que votam em tais forças. Ao invés, tem havido um número crescente de pessoas que se deixam levar pelo discurso demagógico e até mentiroso, mas por vezes aparentemente apelativo, das promessas fáceis, das denúncias ocas, mas ribombantes, do discurso do ódio contra o outro e do apelo aos instintos mais baixos e mais primários.

Sobretudo em épocas de profunda crise económica e social e em estado de necessidade grave é isso que inevitavelmente acontece quando os partidos e os dirigentes políticos que se dizem (e alguns ainda dizem, outros já nem isso) de “esquerda”, “socialistas” e até “comunistas” traem e rasgam as ideologias e abandonam por completo as bandeiras que foram desde sempre apanágio das forças de esquerda, tais como a preocupação e a protecção dos mais pobres, dos mais doentes, dos mais fracos e dos mais vulneráveis da sociedade e a defesa de adequadas e decentes condições de Educação, de Saúde, de Protecção Social e de Justiça para todos.

E quando a isto se soma a substituição das ideias e dos princípios pelos chamados “tacticismo” e “pragmatismo” (leia-se, oportunismo) e se aceita que a governação possa ser feita com base na ilusão, na mentira e até no medo, a porta fica escancarada para aqueles que, com peles de cordeiro, logo aparecem a clamar ruidosamente contra a corrupção e a incompetência dos políticos tradicionais, contra os imigrantes e aqueles a quem chamam “subsídio-dependentes” e a defender, de forma cada vez mais arrogante e acintosa as velhas e salazarentas ideias do “Deus, Pátria e Família” ou do “A Pátria e o Governo não se discutem”.

Deste modo, o discurso ideológico de que “não há alternativa”, de que “as ideologias morreram”, de que “os fins justificam os meios” e de que a vitória e o sucesso a qualquer preço são a única coisa que importa, constituem aquilo que tenho designado de uma autêntica e viscosa missa hipnótica com que somos bombardeados todos os dias e a qual nos adormece e entorpece a vontade e a capacidade de reagir perante o abuso e a injustiça.

Na verdade, se olharmos para a Saúde, o que hoje vemos são quase um milhão e quinhentos mil portugueses sem médico de família, urgências hospitalares (agora claramente já sem o pretexto da covid-19) absolutamente atafulhadas, encerramentos de serviços inteiros como os de Ginecologia e Obstetrícia, a continuação da desarticulação e definhamento do Serviço Nacional de Saúde (SNS), a permanência das infindáveis listas de espera e a subida em flecha, e de todo não explicada, da mortalidade infantil e dos mais idosos. E, todavia, o discurso oficial é o de que até estamos bem neste campo da Saúde…

No campo económico e social, a Pobreza não pára de crescer. Enquanto os salários e pensões permanecem iguais ou têm aumentos irrisórios, a inflação, sendo seis a sete vezes superior a esses mesmos aumentos, corrói por completo o poder de compra de quem vive dos rendimentos do seu trabalho ou da sua pensão de reforma. Mas enquanto as estatísticas europeias e os dados e relatórios das instituições de solidariedade social que estão no terreno (como a Caritas, por exemplo) mostram um mais que notório agravamento da pobreza, este não é afinal reflectido nos números oficiais portugueses, que assim manipulam as estatísticas.[1]

Como justamente afirmou, em depoimento prestado ao semanário Expresso do passado dia 17 de Junho, o economista e professor do ISEG, Carlos Farinha Rodrigues, “temos uma quebra no poder de compra brutal entre 2021 e 2022, que resulta essencialmente da inflação e não tanto da alteração de rendimentos e que, portanto, não irá alterar os indicadores de pobreza. Até pode não haver um aumento da pobreza monetária em 2022, mas há uma perda de condições de vida muito significativa.”

Deste modo, cada vez mais portugueses deixam de conseguir comprar peixe ou carne para se alimentarem condignamente ou pagar os medicamentos ou as despesas de educação dos filhos, só conseguindo subsistir deixando de pagar a renda de casa ou a prestação do banco. Famílias inteiras dependem da ajuda de instituições, de familiares ou até de terceiros e (sobre)vivem abaixo dos limites da dignidade humana.

Se e quando conseguem trabalhos, eles são quase todos precários (ou até mesmo informais, ou seja, por “debaixo da mesa”), com remunerações muito baixas, vivendo estas pessoas com o permanente sobressalto de a todo o momento poderem perder esse magro meio de subsistência. E, todavia, o discurso oficial também a este respeito é o de que não estamos assim tão mal, de que o Governo tem uma “Agenda de Trabalho Digno” e que até já aprovou em Dezembro uma “Estratégia Nacional de Combate à Pobreza” (aliás, sem qualquer desenvolvimento desde então) e se comprometeu, a nível europeu, a atingir a meta, até 2030, de retirar da situação de pobreza 660 mil pessoas, das quais 230 mil são trabalhadores e – pasme-se! – 170 mil são crianças!

Entretanto, o que esta gigantesca (e sempre crescente) legião de pobres vê, ouve, lê e sente é que os sacrifícios, por maiores que sejam, têm de ser suportados só por eles, pois os grandes interesses económicos e financeiros não devem ser hostilizados e, por isso, puderam, com o maior desplante e tranquilidade e precisamente à conta da crise e à custa dos que com ela sofrem, embolsar ganhos absoluta e pornograficamente gigantescos.[2]

Ora, se aquilo que os dirigentes e partidos ditos de esquerda têm para dizer aos pobres deste País é que “aguentem”, quem se pode depois admirar quando o desespero e até a raiva de quem é assim maltratado e espezinhado o faça correr a apoiar aqueles que lhes aparecem como “salvadores”?

Finalmente, temos a Justiça, que se mostra com uma balança cada vez mais desigual: extremamente cara, acessível apenas aos mais ricos e (tal como sucede com o Fisco, por exemplo), muito forte, pertinaz e até implacável com os alvos fáceis, ou seja, os mais fracos, mas lenta, ineficaz e até benevolente com os mais ricos e protegidos do sistema. Entidades administrativas e governamentais (da Segurança Social ao dito Fisco, passando, por exemplo, pelas autarquias locais e os ministérios) sabem que, com o “poço sem fundo” que é hoje e desde há muito a Justiça Administrativa e Fiscal, a esmagadora maioria dos cidadãos atingidos por actos e decisões ilegais não têm quaisquer disponibilidades (financeiras, anímicas ou temporais) para aguentar demandas judiciais que chegam a ultrapassar, só na primeira instância, a dúzia de anos de duração, conferindo-se assim àquelas mesmas entidades, quais autênticas “companhias majestáticas”, uma sensação e um estatuto de arrogante e acintosa impunidade.

O Conselho Superior da Magistratura (CSM) – supostamente o órgão superior da avaliação da gestão e da disciplina dos Juízes – funciona como uma instituição feudal, fechada no seu terreno dominial, sem efectivo controlo, quer jurisdicional quer político-democrático, das suas decisões, e num registo de permanente opacidade da sua actividade e das suas decisões. E, ciente disso mesmo, permite-se liquidar princípios constitucionais como o do “juiz natural” (chancelando distribuições manuais de processos ou até determinando, ele próprio, distribuições ad hominem). 

Simultaneamente, com o tipo de avaliação que faz dos juízes e com o “modelo” de juiz que com aquela tem vindo a construir (o de que muito bom juiz é o que despacha muito, independentemente da qualidade das suas decisões e da sua postura no processo), tal revela-se fatal, em particular para jurisdições como a de Família e Menores (com decisões bárbaras de retirada dos filhos aos seus progenitores com base em relatórios ditos “técnicos” falsos e cuja veracidade os juízes não fiscalizam) ou a do Trabalho (onde deixa de interessar o apuramento da verdade dos factos e a materialidade das coisas passa a ceder o passo à formalidade, relevando sobretudo a capacidade de despacho do contingente processual, abdicando-se assim, em favor da estatística, de se controlarem com rigor as mais recentes e inovadoras técnicas e manobras patronais de fuga e de fraude à lei, como despedimentos colectivos transvertidos de transmissões de estabelecimento, ou vínculos laborais disfarçados de contratos precários).

Também na Justiça Criminal (como já se viu em decisões como as tristemente célebres da autoria do Juiz Desembargador Neto de Moura, e não só…!), a benevolência machista com os autores de violações e outros crimes sexuais ou de violência doméstica contrasta em absoluto com a dureza das penas aplicadas ao pilha-galinhas e toxicodependentes. 

Contudo, bem mais graves ainda do que tudo isso são as estarrecedoras conclusões de um recente inquérito efectuado pela insuspeita Rede Europeia de Conselhos de Justiça (abrangendo 27 países), no âmbito do qual foram inquiridos 15.821 juízes europeus, dos quais 494 portugueses, sendo que mais de 1/4 (26%) destes últimos declararam acreditar que o fenómeno da corrupção já se infiltrou no próprio sistema de Justiça português e que alguns dos juízes terão mesmo aceite subornos ou praticado outras graves ilegalidades no período destes últimos três anos[3]!

É certo que esta realidade já vem sendo referida, ainda que por muito poucas vozes incómodas – logo silenciadas ou até ameaçadas, inclusive de processos-crime – que salientavam não só a absoluta estranheza de algumas decisões judiciais (como algumas daquelas que têm valido humilhantes condenações do Estado português nos Tribunais internacionais, seja o Tribunal de Justiça da União Europeia, seja o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos) como também a observação de que a corrupção, muito em particular na Justiça Criminal, poderia passar não propriamente pela entrega e recebimento de dinheiro, mas sim pela promoção pública e benefício da carreira do prevaricador, por exemplo, num caso de violação do segredo de justiça a troco daquelas.

Mas perante a enorme gravidade dos resultados do referido inquérito às tais perto de cinco centenas de juízes portugueses, o governo declarou, pela boca da ministra da Justiça, que… o ano de 2021 “foi um ano excepcional”! E aquilo que o CSM entendeu fazer foi apressar-se a recusar qualquer “leitura apressada” (sic!?) daqueles resultados e a autoelogiar-se, afirmando enfaticamente ter actuado disciplinarmente “sempre que teve conhecimento de actos censuráveis imputáveis a Juízes”!?

É então assim que dirigentes e responsáveis da Justiça assumem as suas responsabilidades?!

Doentes e sem a assistência médica e medicamentosa a que têm constitucional direito, cada vez mais pobres e inclusive com fome, diariamente sujeitos ao risco de despejo das suas casas ou do despedimento e permanentemente confrontados com uma Justiça que funciona desta forma, há portugueses que, mais do que justificadamente, se sentem, e cada vez mais, abandonados, destratados, enganados e profundamente angustiados[4].

E se a Saúde do Povo, o combate à Pobreza, o Trabalho e a Justiça em condições compatíveis com a dignidade da pessoa humana não são prioridades absolutas daqueles que se proclamam de esquerda e se dizem verdadeiramente preocupados com os problemas do mesmo Povo, quem se pode admirar de que uma parte deste – também privado, é certo, da memória histórica pois igualmente a esta pouca ou nenhuma importância se dá – aceite dar o apoio e o voto àqueles lobos que, embora por enquanto disfarçados de afáveis cordeiros, sempre foram, e sempre serão, os seus algozes?

Retomar, e de forma competente, o ataque a estes problemas e assumir sem hesitações a defesa dos mais pobres, mais fracos e mais vulneráveis, é que devia ser, verdadeiramente, o desafio dos homens e das mulheres de esquerda, em Portugal e no mundo!


[1] Segundo revelou recentemente um estudo do Eurostat, com dados relativos a 2021, Portugal é o segundo país da União Europeia (só atrás da Roménia) com maior percentagem de desempregados em risco de pobreza e de exclusão social (60.4%, número significativamente muito superior ao apresentado pelas estatísticas portuguesas, de apenas 46.51%), o mesmo se passando com os chamados “trabalhadores independentes” (32,4% daqueles que, na sua grande maioria, são trabalhadoras por conta de outrem disfarçados de por contra própria) e com os reformados (22,3%).

[2] Para não irmos mais longe, e a título de meros exemplos, importará referir que, nos primeiros seis meses de 2022, os lucros da Galp foram de 420 milhões de euros, os da EDP de 306 milhões, os do Grupo Jerónimo Martins – Pingo Doce de 261 milhões, os do Banco Santander de 241 milhões, os do BPI de 201 milhões e os da Sonae – Continente de 118 milhões!

[3] Neste aspecto, essa percentagem de 26% dos 494 magistrados portugueses inquiridos apenas foi igualada pela Lituânia e ultrapassada pela Itália (36%) e a Croácia (30%).

[4] Segundo o Relatório do Bem-estar e Teletrabalho – 2022 da NFOM, uma plataforma de comunicação empresarial, este ano, o consumo de indutores de sono subiu de 38% para 62,6%, o de suplementos alimentares sem prescrição médica para 34% e o de produtos legais de canábis de 24% para 43,3%.


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Volta Passos, que estás perdoado

(Por Estátua de Sal, 15/10/2022)

Depois das infelizes declarações sobre os casos de pedofilia na Igreja – em que tentou minimizar a sua gravidade, colocando a tónica na quantidade por comparação com outros países -, o comentador-mor do reino, Marcelo Rebelo de Sousa, veio hoje com um número de malabarismo comunicacional para tentar limpar a face perante o país.

É que não se fala de outra coisa. Até o Zelensky perdeu o brilho e Marcelo considerar que 400 casos documentados de pedofilia na Igreja “não é assim tão mau”, fere a consciência de qualquer cidadão bem formado, crente ou não crente, católico ou não católico.

Marcelo fala várias vezes ao dia, sobre tudo e mais alguma coisa. Sobre o orçamento, sobre as incompatibilidades dos membros do Governo, sobre a guerra, sobre os gasodutos, surgindo como uma espécie de 1º Ministro de um governo-sombra e criando dificuldades insidiosas ao governo real e legítimo de Costa. Até Montenegro, legitimado líder da oposição, tem dificuldade em acompanhar tamanha verborreia.

Só que, no caso da pedofilia, não se tratou de atazanar o governo mas sim de branquear os crimes dos seus amigos da Igreja, que frequenta desde o berço. Uma atitude à moda do Chega. Também Ventura cai em pecadilhos semelhantes: propõe a castração química para os pedófilos mas se o pecador for bispo nem um grilo ele se atreve a querer capar! Parece que a água benta tem poderes miraculosos e santifica a ignomínia e a pila dos paramentados.

Ora, depois de várias correções às controversas declarações produzidas sobre a pedofilia, em que se foi “enterrando” cada vez mais, Marcelo – em queda óbvia de popularidade -, só tinha uma forma de tentar fazer – se é que tal ainda é possível -, alguma contenção de danos: tirar do 1º plano as infelizes declarações e a sua envolvente. Para o conseguir só produzindo outras declarações que, de tão bombásticas, retirassem espaço mediático às primeiras.

E elas aí estão. Marcelo elogia Passos Coelho e o governo da troica! Na cerimónia que assinalou o início das comemorações do centenário de Agustina Bessa Luís, Marcelo discursou – e deve ter mandado vir Passos Coelho para a primeira fila – para ter o ensejo de dizer que o país ainda “deve esperar muito do contributo” do antigo primeiro-ministro (ver notícia aqui). Longe vá o agoiro.

Um governo de má memória, que cortou salários, direitos e pensões e que fez o país retroceder décadas é elogiado por Marcelo como se fosse um governo que nos tivesse trazido o reino do mel e da ambrosia. Quer-nos, pois, o propagandista mor fazer crer que esta declaração bombástica é muito pior do que aquela que produziu sobre a pedofilia na Igreja. Entretenham-se, ó papalvos, ataquem-me agora e digam que estou a ressuscitar o Passos e o seu defunto PSD – até está -, mas esqueçam lá essa história dos pedófilos. A isto, chama-se, em técnicas de comunicação uma manobra de diversão.

Meu caro, Marcelo. Como diz o povo: “quem não te conhecer que te compre”. O que devias falar era da fome e da miséria que por aí já grassa e que vai aumentar, com as políticas seguidistas do governo de Portugal face à União Europeia, no dossier da guerra da Ucrânia e na política de sanções à Rússia. Sobre isso nada dizes e subscreves os absurdos. Como a história ridícula de não termos helicópteros para apagar os fogos – por falta de manutenção devido às sanções à Rússia -, tendo agora que os “oferecer” à Ucrânia o que é o cúmulo do ridículo: então a Ucrânia já pode comprar peças para a manutenção dos helicópteros à Rússia e nós não?! Porque não falas sobre isto?

E sim. Sanções à Rússia ou sanções a nós próprios e aos países europeus? Quando tivermos que pagar 5€ por um litro de gasolina, com as empresas a fecharem por custos de energia incomportáveis, o desemprego a atingir taxas a dois dígitos, a fome a alastrar como um vendaval, e os nossos filhos a serem chamados para uma guerra que não é nossa, estaremos a aplicar sanções à Rússia ou a aplicar o garrote à nossa própria sobrevivência enquanto país e enquanto povo?

O rei vai nu, dizia a criança do conhecido conto de Christian Andersen. O Presidente também vai nu. Os afetos são só para as selfies, os beijos para as fotografias que geram a empatia dos eleitores menos avisados. Se Portugal fizesse fronteira com a Rússia e fosse um entreposto da NATO numa guerra por procuração tu serias o nosso Zelensky. Acho que ainda farias melhor que ele. Ele que ainda tem muito que aprender contigo.


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Não lhes perdoeis, Senhor, pois eles sabem o que fizeram

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 14/10/2022)

Miguel Sousa Tavares

Esperámos tranquilamente um ano pelos resultados do trabalho da Comissão Independente para o Estudo de Abusos de Menores na Igreja e um ano depois, cumprindo o prazo fixado, a Comissão registou 424 testemunhos ao longo de muitos anos, dos quais apenas 17 foram encaminhados para o Ministério Público, por constituírem crimes não prescritos, cujos autores e vítimas estão vivos. Mas a Comissão não se deixou iludir e nós também não: os crimes foram incomparavelmente mais, reflectindo uma atitude “endémica” de abusos de menores dentro da Igreja Católica portuguesa e a sua ocultação a partir de cima ao longo de décadas.

Ao contrário de Marcelo Rebelo de Sousa, que se precipitou a saudar os números pouco “elevados” apurados pela Comissão — e, com isso, aliviar a responsabilidade da Igreja —, nós percebemos que isto é apenas a ponta do icebergue de uma estrutura sinistra e submersa, que durante décadas guardou dentro de si um segredo vergonhoso, ocultando-o dos fiéis, da sociedade e das autoridades. Protegendo os seus criminosos, como as máfias fazem.

Hoje sabemos que, dentro da hierarquia da Igreja, a nível intermédio e a nível superior, houve homens com responsabilidades que, sabendo de casos concretos, não se limitaram a olhar para o lado: ignoraram as queixas das vítimas, esconderam-nas dos olhares públicos ou, no melhor dos casos, encerraram o assunto com discretos “inquéritos verbais”, que se desvaneceram sem rastro nem consequências. Não têm perdão nem aos olhos dos homens, nem aos olhos de Deus. Mas, sobretudo, não têm perdão aos olhos das vítimas, dos que sofreram às mãos dos criminosos que eles protegeram e de que foram cúmplices no mais ignóbil dos crimes.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Pessoalmente, não consigo conceber nenhum crime que me cause mais repúdio — pela cobardia dos seus autores e pelas consequências para as vítimas — do que o abuso sexual de menores. Que ele, ainda por cima, seja cometido por sacerdotes, a quem a fé de muitos confere uma confiança acrescida para se ocuparem da educação e do acompanhamento espiritual de crianças, torna as coisas particularmente repugnantes. E não é indiferente, antes agravante, que as taras sexuais dos padres se exerçam sobretudo sobre os rapazes à sua guarda e que, no contexto socioeconómico histórico português, tenham sido obviamente as crianças mais pobres a sofrerem as sevícias destes tarados e os seus pais a serem os mais impotentes para enfrentar a cumplicidade da hierarquia católica. Não, não há perdão algum para isto: foram décadas em que milhares de crianças indefesas pagaram na pele e na alma, e para a vida inteira, o preço da absurda regra da castidade do sacerdócio.

Não foram todos os padres ou nem sequer a maioria? Claro que não. Mas duvido muito que, naquele mundo submerso e mais temente às aparências do que a Deus, houvesse quem ignorasse o que se passava ou não desconfiasse o suficiente para abrir a boca. Quando ouvimos o que diz o diletante bispo do Porto, Manuel Linda, percebemos bem o que se passou, como se passou e porque se passou. Quer estivesse a mentir sem pudor, quer revelasse uma indecente ignorância sobre o assunto, quando ele diz que o crime de abuso sexual de menores não é um crime público, o que ele no fundo quer dizer é que acha que não é uma coisa assim tão grave. Como as carícias a crianças do violador e assassino de menores padre Frederico, protegido pelo ex-bispo do Funchal, que “não foram assim tão íntimas”. Fosse ele um governante ou titular de um cargo público, Manuel Linda já teria sido corrido de funções por não dar garantias mínimas de poder desempenhar o cargo com respeito pelas regras de comportamento moral de uma sociedade civilizada. Mas, em vez disso, vai continuar aí, a benzer pontes e a celebrar missas, como se o Deus que invoca lhe tivesse perdoado e o quisesse como exemplo.

Pobre Papa, que tal gente tem!

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2 Terminadas as férias e desaparecido o grosso dos turistas, o Sotavento Algarvio começou a enfrentar episódicos, mas sucessivos, cortes de água nas torneiras. Não se trata de avarias nem de obras em curso, mas de “cortes programados” e anunciados no Facebook, para quem é freguês da coisa. Trata-se de uma situação normal — o novo e futuro normal — quando a seca se prolonga e a barragem de Odeleite, responsável por metade do abastecimento de água ao Algarve, está a 20% da sua capacidade e a de Odelouca, a segunda mais importante, a 17%. O que não é normal é que o Conselho Nacional da Água, reunido pela primeira vez ao fim de três anos de seca, em lugar de se ocupar com projectos de dessalinização ou medidas para poupar água — como reparar as fugas nas canalizações agrícolas, impor a obrigatoriedade de utilização de águas residuais para regar golfes, jardins públicos, etc., ou suspender de imediato a contínua expansão de culturas agrícolas exóticas de alto consumo de água —, tenha optado exactamente pelo caminho oposto: como gastar mais água. Os chamados “produtivistas”, de braço dado com o Ministério da Agricultura, ao contrário de todas as previsões, confiam em que vêm aí grandes anos de chuva, para os quais é preciso estarmos preparados, construindo mais barragens e aumentando a capacidade das existentes. Até lá, querem avançar para a solução espanhola dos transvases de água do Norte para o Sul — com o pequeno contratempo de os espanhóis terem justamente acabado de suspender as descargas de água para o rio Douro.

Há um ponto até ao qual se podem discutir as políticas e, mesmo quando temos a certeza de estar certos ou errados, pode-se continuar a discutir. Mas se estamos a discutir a falta de água e se abrem as torneiras uma e outra e outra vez, e durante 24 ou 36 horas nada jorra, o que há para discutir?

3 Na última Revista do Expresso vinha uma surpreendente história de um casal lisboeta “muito bem”, muito família, muito católico, muito ansioso por “partilhar”, muito empenhado na “excelência do ensino, conjugando a grandeza de Portugal com a tradição cristã”, através dos alunos dos Colégios Planalto, Mira Rio e S. Tomás. Enfim, a fina flor da Opus Dei — uma opção legítima e um modelo para quem se revê nos valores da santíssima agremiação. Mas o que tinha a história de surpreendente? Isto: o casal tem um Van Dyck em casa, que lhe custou “uns milhões não revelados”, a par de uma “importante colecção de centenas de quadros de mestres antigos”. Os quadros estão em casa, mas, obviamente, não lhes pertencem, pertencem a uma fundação, que, essa sim, é deles: um clássico. Surpreendente é que o casal exponha assim as paredes da sua casa: normalmente, estas coisas não se revelam — há os ladrões e o Fisco, apesar da fundação. Então, qual é a ideia? Pois, aqui chegado, o leitor já deve ter percebido, tal como eu logo percebi: o casal não tem onde guardar as suas centenas de quadros dos mestres e espera que o Estado lhe resolva o problema — outro clássico. Lá fora, os verdadeiros mecenas, os verdadeiros coleccionadores, quando se vêem nesta situação, fazem uma de duas coisas: ou oferecem o que querem e lhes sobra a museus já existentes ou fazem um museu a expensas suas e metem lá os quadros. Mas aqui os nossos “mecenas” têm outra solução: eles acumulam e o Estado resolve-lhes o problema, arranjando-lhes instalações e pagando as respectivas despesas de funcionamento — Casa das Histórias Paula Rego, Colecção Berardo, Fundação Saramago, etc. É claro que, no caso concreto, a solução para o problema do casal está mesmo à vista: o Museu Nacional de Arte Antiga, se a colecção valer mesmo a pena. Mas essa, dizem eles, “não é a solução ideal, o grande desafio é mostrar a colecção ao público” (parece que o MNAA não mostra os quadros ao público).

Mais surpreendente ainda, a história terminava com o ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, a declarar o “interesse por parte do Estado” em juntar-se a tão comovente história de “partilha”. Com o seu dinheiro, sr. Ministro?

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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