A atribuição da Ordem da Liberdade a Zelensky revela um abuso de poder

(Por António Justo, in Geopol.pt, 24/02/2023)

Não estará MRS a alinhar no carnaval político a que nos acostumaram, transformando a Ordem da Liberdade numa distinção de Ordem Carnavalesca?


O Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa decidiu atribuir a ordem da Liberdade a Zelensky, o que tudo indica ser um abuso do poder.

Atribuir o mais alto grau dessa ordem (Grande-Colar da Ordem da Liberdade) no dia 24 de fevereiro,  a um presidente que proibiu onze partidos, andou metido em embrulhos de questões oligárquicas, e seguidor de uma política em desacordo com o cumprimento dos acordos de Minsk que pretendiam estabelecer a paz entre grupos nacionais rivalizantes na Ucrânia, num período  em que a Ucrânia se poderia ainda tornar-se numa república federal, revela-se como abuso e pleno desconhecimento do que se passou na Ucrânia e do que a História dirá sobre ela, sobre o actuar dos seus presidentes e dos beligerantes geoestratégicos. Ou será que o poder e os interesses de alguns cegam?

Será que o senhor presidente Rebelo de Sousa não estará a meter o carro à frente dos bois por mera razão de proselitismo do próprio cargo ou para alinhar no carnaval político a que nos acostumaram, transformando a Ordem da Liberdade numa distinção de Ordem Carnavalesca?

A Ordem da Liberdade destina-se a galardoar «serviços relevantes prestados em defesa dos valores da Civilização, em prol da dignificação do Homem e à causa da Liberdade»  O papel de Zelensky não enquadra em nenhum destes serviços!

O facto de servir interesses anglo-saxónicos, num conflito que explodiu em 2014 na guerra civil que matou 17.000 pessoas, pressupõe um conceito de liberdade emoldurada numa cultura guerreira e não pacífica.

Colocar-se de um lado ou do outro de um povo ucraniano dividido não significa lutar pela liberdade dele, mas sim pelo serviço de interesses, chamem-se eles russos ou ocidentais. O senhor Presidente da República é-o de todo um povo e como tal não se deveria sentir legitimado a colocar-se ao lado dos EUA nem da Rússia!

Esta é uma guerra suja que deixa sujos todos os os que nela intervêm!


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Um ano de estupidez humana

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 24/02/2023)

Miguel Sousa Tavares

Um ano depois, a Ucrânia, sobretudo as suas pequenas cidades e aldeias do interior, continua a ser paulatinamente devastada e nem Putin conseguiu a rápida vitória que teria previsto nem a NATO conseguiu, por interposto Zelensky, correr com os russos da Ucrânia. No terreno, a guerra de artilharia levada a cabo incansavelmente por ambos os lados, e sem saída militar à vista, é mantida, do lado russo, pelo envio constante de cada vez mais soldados para a morte e, do lado ucraniano, por uma tão persistente exigência de mais armas ao Ocidente que se atingiu a situação jamais vista de exaustão de munições nos arsenais da NATO. Entretanto, a continuação da guerra devora economicamente a Europa e num só dia gasta-se 10 vezes mais em armas na Ucrânia do que aquilo que seria necessário para acorrer a oito milhões de sírios que dormem ao relento e morrem de fome e frio, sem auxílios internacionais, depois do terramoto de há três semanas. Mas, sintetizando aquilo que é a voz comum de uma Europa “unida como nunca”, decretou há dias o nosso António Costa que “a paz só é possível com a vitória da Ucrânia e a derrota da Rússia”. Mas o que será essa esperada derrota da Rússia? A retirada de todos os territórios conquistados nesta invasão — seguramente que sim, que é exigível; a participação na reconstrução da Ucrânia, sim; a entrega à justiça dos responsáveis por crimes de guerra, como os de Bucha, sim. Mas também a renúncia aos Acordos Minsk II assinados pela Ucrânia? A devolução da Crimeia, que por breves 23 anos numa história secular e por descuido de um irresponsável chamado Ieltsin, pertenceu à Ucrânia independente? A aceitação da Ucrânia como membro de pleno direito da NATO e também da Geórgia e uma base americana em Odessa? Ou a derrota militar total no terreno dos exércitos russos, custe isso o que custar aos ucranianos e sejam quais forem os riscos de escalada envolvidos? António Costa e os seus iluminados pares acreditam mesmo que a “solução pacífica” estará em conseguir fazer sair a Rússia, esmagada e humilhada, da Ucrânia?

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

E, se bem que seja este o único horizonte de esperança que estes líderes europeus têm para nos oferecer para o próximo ano, há coisas curiosas e contraditórias nesta guerra, onde alguns espíritos, outrora mais lúcidos, comparam a invasão russa à “barbárie nazi” e insistem que não há outra solução para a paz que não a guerra. Ora, reparem: esta é uma guerra onde, a todo o tempo, os dois lados trocam entre si prisioneiros de guerra; onde um dos lados, a Rússia, permite ao outro que continue a escoar o grosso das suas exportações — os cereais — através de portos no mar Negro, que lhe seria fácil bloquear, ao mesmo tempo que viu as suas exportações de gás para a Europa serem definitivamente encerradas através da sabotagem dos gasodutos civis Nord Stream I e II, numa operação que, sendo “nossa” e não “deles”, não pode, obviamente, ser classificada como terrorismo; onde, apesar da destruição causada pelos invasores, as principais cidades da Ucrânia e, sobretudo, as cidades cuja história está intimamente ligada à da Rússia, Kiev e Odessa, permanecem fundamentalmente intactas e com uma vida tão normal quanto possível em tempo de guerra: a “barbárie nazi” não tocou em Odessa, onde 60 mil soldados russos morreram na II Grande Guerra para a resgatar dos nazis, nem em Kiev, onde todos os líderes europeus se passeiam livremente e Joe Biden foi reafirmar ao “assassino” Putin que não tem nada a negociar com ele, depois de o ter cautelarmente avisado de que iria ali fazer uma corajosa “visita-surpresa”.

Dez pacotes de sanções à Rússia puseram de joelhos a Europa, mas não a Rússia e, menos ainda, os Estados Unidos, e deixaram de fora os preciosos diamantes da praça de Antuérpia, e Boris Johnson, o grande campeão da solidariedade ocidental para com a Ucrânia, exibe-se pelo “mundo livre” a expor as virtudes da continuação da guerra sem fim ao preço de 200 mil euros por conferência. Mas se mesmo em plena guerra, e apesar dela, é possível estabelecer acordos destes, não seria possível, havendo um mínimo de vontade séria, de lançar bases exploratórias de uma negociação de paz?

Sim, não tenho dúvidas, Vladimir Putin toma-se por um novo czar. Eu, se fosse russo e habitasse no Palácio de Inverno de S. Petersburgo ou no de Tsarskoye Selo e se conhecesse a história da Rússia imperial, também era capaz de sofrer da mesma patologia. Mas tão culpado é o doente como os que se aproveitam da sua demência. Só passou um ano e ainda é cedo; por ora, conhecemos apenas os inacreditáveis erros de avaliação e estratégia de Vladimir Putin; um dia conheceremos toda a história por detrás deles. Oxalá ainda valha a pena.

2 Depois de confiscarem a terra aos proprietários — o que bem se justificava —, os revolucionários russos de 1917 trataram também de confiscar os cereais aos pequenos produtores e camponeses face à escassez de oferta no mercado. Revoltados, os mujiques reduziram a produção e esconderam o pouco que produziam para consumo próprio. Apesar dos fuzilamentos em massa, seguiram-se anos de fome que mataram milhões de pessoas na Rússia e na Ucrânia. Quando a oferta escasseia, a tentativa do Estado de se sobrepor à força às leis do mercado raramente melhora a economia e dificilmente não perturba a liberdade. Mas não foi por súbito assomo de ideologia “comunista” que o Governo resolveu lançar mão dos arrendamentos compulsivos das “casas devolutas”, intervir administrativamente no preço dos alugueres ou atacar os AL: foi por desespero. Esse desespero é compreensível e a tentativa de finalmente fazer alguma coisa é louvável. Até porque, ao contrário da indignação hormonal da direita, eu não acho que exista um direito à propriedade ao abandono. Simplesmente este não é o caminho, e bastaria ter visto a ministra da Habitação completamente à toa na SIC para o perceber: não só essa solução lançaria o país numa guerra política e de litigância sem fim à vista, como jamais o Estado teria a capacidade de pôr em execução uma medida abrangendo as 730 mil casas devolutas do país com um mínimo de eficiência e justiça.

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Porém, o pacote Mais Habitação tem coisas boas, como o fim dessa mistificação que são os vistos gold ou a simplificação dos processos de licenciamento de construção. Omite coisas em falta de há muito, como a municipalização de solos urbanos públicos e a sua entrega a sociedades mistas de construtores e cooperativas de habitação ou compradores para habitação própria a preços controlados. Mas erra por completo o tiro ao alvo principal, que é a inexistência desde há décadas de um mercado de arrendamento funcional. Por isso é que somos o país europeu onde mais gente é proprietária de casa própria ou, melhor dito, devedor ao banco de um empréstimo para compra de casa própria (o que, por sua vez, demonstra até que ponto é uma vergonha que, com este maná nas mãos, a banca tenha tido de ser tantas vezes socorrida pelos contribuintes). Perceber por que razão tão poucos investidores estão interessados em comprar casas para as arrendar deveria, pois, ser o primeiro passo para atacar o problema a prazo. Mas como a situação é de emergência, não há outro caminho a curto prazo que não o do alívio fiscal sobre os rendimentos dos senhorios. Isso deixará a extrema-esquerda aos berros e obrigará a fazer poupanças na despesa com a clientela fixa do Estado. Mas a alternativa é deixar tudo na mesma, uma geração inteira sem direito a uma casa.

3 Tão certo como a seguir ao Outono vir o Inverno, era de esperar que depois da divulgação do relatório da Comissão Independente sobre os abusos sexuais sobre menores na Igreja Católica Portuguesa surgisse o contra-ataque da parte desses católicos ajoelhados perante a sua hierarquia, beatos, confessionais, em tudo dispostos a desvalorizar, justificar, ocultar, contrapor: os sobreviventes da Igreja do nojento padre Frederico e do sinistro bispo do Funchal, que o cobriu e o comparou a Cristo. Os argumentos do contra-ataque foram os mesmos de sempre: anticlericalismo, ódio à Igreja, ateísmo militante e mais umas banalidades de ocasião. Mas também houve excepções, entre as quais o provincial dos Jesuítas, que não hesitou em ir ao fundo das questões, de forma desassombrada e corajosa. E agora, que a Igreja está debaixo de fogo, eu, que andei oito anos nos Jesuítas, de onde saí com uma amarga experiência pedagógica e ética, sinto-me, porém, obrigado a dizer, por dever de consciência, que, no que toca àquilo de que hoje se fala, jamais vivi de perto ou testemunhei qualquer coisa que pudesse ir parar ao relatório da Comissão. Da mesma forma que, na minha vida profissional errante, vi — em África, na Índia ou no Brasil, e em Portugal também — lugares e situações onde os sacerdotes católicos eram as únicas ou as mais evidentes presenças de humanismo e da palavra do Evangelho, e, para além disso, gente que eu gostaria de ter em minha casa, para os ouvir, para partilhar um vinho, para ficarmos amigos. Mas também conheci ou vi os outros, os padres betinhos, os deslumbrados, os da subterrânea Opus Dei. Um destes é o padre Gonçalo Portocarrero, de Almada, colunista do “Observador”. O que ele escreveu esta semana no jornal a tentar minimizar os abusos de décadas da Igreja é uma peça absolutamente abjecta e que merece ser publicamente denunciada. No seu texto, ele começa por tentar desvalorizar e ridicularizar o número de casos ocorridos através de uma aritmética da ocultação. A seguir, defende que o relatório não deveria ser público, mas apenas entregue à Comissão Episcopal (que adequado!), e que os relatos dos abusos foram uma violação da privação das vítimas e deveriam ter sido omitidos (que conveniente!), para concluir que, em tudo isto, a “Igreja portuguesa não foi cúmplice, mas sim vítima”. E, no fim, remete a coragem das denúncias para a Igreja e as culpas dos abusos para as “famílias”, que a Igreja doutrina: “É de esperar que a sociedade civil reconheça a nobreza deste gesto (da Igreja) e o saiba imitar.” À Igreja Católica, a que eu não pertenço, mas a que pertencem tantas pessoas que eu admiro e que nela acreditam, este padre Portocarrero, de Almada e da Opus Dei, não devia poder pertencer, pois que só lhe causa danos.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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Uma revelação inesperada (para a elite): os EUA podem ser os maiores perdedores na guerra contra a Rússia

(Alastair Crooke, Strategic Culture Foundation, 20/02/2023, Trad. Estátua de Sal)

Para onde vai a Europa na sequência das alegações do Nord Stream? É difícil ver uma Europa, dominada pela Alemanha, divergindo de Washington. A atual liderança alemã está escravizada por Washington e prontamente aceitou a sua situação de vassalagem.


“A OTAN nunca foi tão forte; A Rússia é um pária global; e o mundo continua inspirado pela bravura e resiliência ucranianas; em resumo, a Rússia perdeu, a Rússia perdeu estratégica, operacional e taticamente – e eles estão pagando um preço enorme no campo de batalha”.

Ele, (o General Mark Milley, Chefe do Estado-Maior da Defesa dos EUA) não acredita em nada disso. Sabemos que ele não acredita porque, há dois meses, disse exatamente o contrário – até ser repreendido pela Casa Branca por se desviar da mensagem de Joe Biden. Agora ele está de volta, jogando na ‘Equipa’.

Zelensky, provavelmente, também não acredita na recente promessa europeia de tanques e aeronaves – que ele sabe que é, no essencial, uma quimera. Mas ele joga na ‘Equipa’. Alguns tanques extra não farão diferença no terreno, e sua quinta mobilização está a ter resistência internamente. Os militares europeus estão esperando o desenlace dessa ação, e os seus arsenais atingindo o limite.

Zelensky diz repetidamente que deve ter tanques e aviões até agosto para reforçar a sua defesa sangrenta. Mas, contraditoriamente, Zelensky é avisado, é crítico “conseguir ganhos significativos no campo de batalha” agora – pois é a “visão muito forte” da Administração americana de que será mais difícil depois obter apoio do Congresso (ou seja, em agosto já passou a hora; será tarde demais).

Os EUA estão claramente a preparar o terreno para um ‘Anúncio de Vitória’ na Primavera – como os comentários delirantes de Milley prefiguram –, surgindo como o apito inicial para a abertura do calendário eleitoral presidencial dos EUA.

A ‘narrativa’ na comunicação social mainstream já começou a transitar para a de uma próxima ofensiva russa de esmagamento – e da heroica resistência ucraniana.

“A natureza crítica dos próximos meses já foi transmitida a Kiev em termos contundentes pelos principais funcionários de Biden – incluindo o vice conselheiro de segurança nacional Jon Finer, a vice-secretária de Estado Wendy Sherman e o subsecretário de defesa Colin Kahl, tendo todos eles visitado a Ucrânia no último mês”. (Washington Post ) – com o diretor da CIA, Bill Burns, viajando para informar Zelensky, pessoalmente, apenas uma semana antes da chegada desses funcionários.

Zelenksky foi notificado. Resultados agora, ou nunca!

Só que Seymour Hersh veio revelar, finalmente em voz alta, uma dura realidade ainda não dita – uma realidade com consequências políticas extremamente complicadas – retirada da entrevista subsequente de Hersh ao Berliner Zeitung, (tradução do Google). Não, não é a sabotagem do Nord Stream (sabíamos isso), mas a do juízo errado e da raiva crescente em Washington – e do desprezo de Biden e do seu círculo próximo de imaturos neoconservadores, em termos de julgamento político.

Não é só porque a equipa Biden “rebentou com os oleodutos”; eles estão orgulhosos disso! Não é só porque Biden estava preparado para estripar a capacidade competitiva e as perspetivas de emprego da Europa para a próxima década (alguns irão aplaudir). A parte explosiva da narrativa foi que “Nalgum momento depois da invasão russa, e a sabotagem foi feita… (estas são pessoas que trabalham em posições de topo nos serviços de inteligência, e estão bem treinadas): viraram-se contra o projeto. Acharam que era uma loucura”.

“Havia muita raiva entre os envolvidos” observou Hersh. Inicialmente, a narrativa de Biden Nord Stream – “não vai ser feito” -, foi entendida pelos “profissionais” da inteligência como uma simples alavanca (ligada a uma possível invasão russa na altura) – uma invasão que Washington sabia que estava para vir, porque os EUA estavam a preparar furiosamente os ucranianos – precisamente para desencadear a invasão russa.

No entanto, a sabotagem Nord Stream foi adiada – de Junho até Setembro de 2022 – meses após a invasão. Então, qual foi o objetivo de paralisar a base industrial europeia através da imposição de elevados custos energéticos? Qual foi a razão de ser? E havia mais raiva contra os membros da equipa de Biden que “dispararam sobre o Nord Stream”, gabando-se efetivamente de “com toda a razão, sim, nós ordenámos”.

Hersh comenta que embora a CIA responda ao ‘poder’ em sentido lato, e não ao Congresso, “até esta comunidade está horrorizada com o facto de Biden ter decidido atacar a Europa, numa ação de subversão económica – a fim de apoiar uma guerra que ele não vencerá”. A sua opinião é que, numa Casa Branca obcecada pela reeleição, a sabotagem do Nord Stream foi vista como uma “vitória”.

Hersh disse na sua entrevista ao Berliner Zeitung:

“O que eu sei é que não há maneira desta guerra acabar da maneira que nós [os EUA] queremos que acabe… Assusta-me que o Presidente estivesse pronto para tal coisa. E as pessoas que realizaram esta missão acreditavam que o presidente estava bem ciente do que estava a fazer ao povo da Alemanha. E a longo prazo, [eles acreditam] que isto não só prejudicará a sua reputação como presidente, mas também será muito prejudicial do ponto de vista político. Será um estigma para os E.U.A.”.

A preocupação é mais do que isso – é que o zelo obsessivo de Biden está a transformar a Ucrânia de uma guerra por procuração numa questão existencial para os EUA (existencial no sentido da humilhação e dos danos na reputação se a guerra for perdida). Trata-se já de uma questão existencial russa. E duas potências nucleares num confronto existencial são más notícias.

Sejamos claros: esta não foi a primeira vez que Biden fez algo – considerado pelos profissionais de inteligência dos EUA – como totalmente imprudente: Robert Gates, o antigo Secretário da Defesa disse no domingo que Biden se enganou em quase todas as grandes questões externas de segurança ao longo de quatro décadas. Em Fevereiro de 2022, apreendeu os ativos cambiais da Rússia; expulsou os seus bancos da SWIFT (o sistema de compensação interbancária) e impôs-lhe um tsunami de sanções. A Reserva Federal e o BCE disseram depois que nunca foram consultados, e se o tivessem sido nunca teriam consentido tais medidas.

Biden alegou que a sua ação iria “reduzir o rublo ao rublo”; estava gravemente enganado. Pelo contrário, a resiliência da Rússia aproximou os EUA de um precipício financeiro (à medida que a procura de dólares seca, e o mundo se desloca para leste). Na perspetiva de atores financeiros significativos de Nova Iorque, Biden e o FED têm agora de se apressar a resgatar um país sistemicamente frágil.

Dito de forma simples, a importância da entrevista ao Berliner Zeitung de Hersh (e as suas outras peças) é que há facções dentro do estado profundo dos EUA que estão furiosas com o círculo de neocons (Sullivan, Blinken e Nuland). A confiança está quebrada. Eles irão atrás deles; e continuarão a ir… A peça de Hersh é apenas um primeiro episódio.

Por ora, o projecto “neocons” da Ucrânia permanece “atual”, com a Equipa Biden a exigir que todos os aliados ocidentais permaneçam firmemente ligados à mensagem, antes do primeiro aniversário da Operação Especial da Rússia, a 24 de Fevereiro.

No entanto, parece que a janela crítica para a Ucrânia, de alguma forma, “ganhar magicamente”, está a ser cortada de meses para algumas semanas. A “vitória”, é claro, continua por definir. No entanto, a realidade é que será a Rússia, e não a Ucrânia, a montar a ofensiva da Primavera – e possivelmente ao longo de toda a extensão da linha de contacto.

Os dados estão lançados para a Ucrânia (embora com Kamala Harris enviada à Conferência de Segurança de Munique) para ligar a ‘linha’ de um ‘compromisso duradouro com a Ucrânia’, por parte do Ocidente coletivo, para o longo curso.

Paradoxalmente, por detrás da cortina, esta “guerra civil” em curso, no establishment dos EUA ameaça tornar-se “a escrita na parede” também para Biden – à medida que ele se aproxima do momento de decisão da candidatura de 2024.

A comunidade da inteligência dos EUA deve estar a perguntar-se a si própria: poderá confiar-se que Biden não será imprudente, à medida que a Ucrânia se transforma em entropia sob uma onda russa que atravessa todas as frentes? Será que Biden voltará a ficar desesperado?

Podemos imaginar que os EUA podem simplesmente levantar as mãos e conceder a vitória russa? Não – a NATO poderia desintegrar-se perante um fracasso tão espetacular. Assim, o instinto político será uma aposta a dobrar: uma implantação da NATO no oeste da Ucrânia como ‘uma força tampão’, para ‘protegê-la dos avanços russos’ está a ser considerada.

Não é difícil de ver porque as fações dentro do estado profundo estão “horrorizadas”: os produtos da indústria de defesa dos Estados Unidos estão a ser consumidos na Ucrânia mais rapidamente do que podem ser fabricados. Está mudando negativamente o cálculo dos EUA sobre a China, à medida que o stock militar dos EUA se consome na Ucrânia. E a guerra na Ucrânia pode facilmente espalhar-se pela Europa Oriental…

O ponto principal é a perceção inesperada (para a elite) de que os próprios EUA podem ser os maiores perdedores na guerra contra a Rússia. (Moscovo entendeu isso desde o início).

A Equipa Biden, essencialmente, acabou por provocar uma reação coordenada do establishment contra sua competência de tomada de decisão. O relatório de Hersh; o Rand Organization Report, as entrevistas do Economist com Zelensky e Zaluzhny, o relatório do CSIS, o relatório do FMI mostrando a Rússia a crescer economicamente e as erupções dispersas da dura realidade que aparecem na comunicação social mainstream – tudo isso atesta que o círculo de dissidência, na manipulação da guerra da Ucrânia por Biden, está ganhando força.

Mesmo a recente histeria do balão chinês, levando o NORAD a abater todos e quaisquer objetos não identificados no espaço aéreo dos EUA, cheira a alguns no Pentágono cutucando a equipa Biden ‘no olho’: ou seja, se você (Equipa Biden) for estúpido o suficiente para insistir, nós ‘desmarcamos todas as caixas’ nos radares NORAD, e não se surpreenda com o lixo que você estará derrubando diariamente.

Isso revela, em primeiro lugar, o desdém pela compreensão da Casa Branca dos detalhes mais subtis; e, em segundo lugar, como o balão chinês desempenhou um papel simbólico no reforço dos falcões da China dos EUA, que detêm a maioria em termos de apoio bipartidário do Congresso.

Biden pode ser removido? Teoricamente ‘sim’. Sessenta por cento dos jovens membros do Partido Democrata não querem que Biden se candidate novamente. A dificuldade, contudo, está na profunda impopularidade de Kamala Harris como sua possível sucessora. A evidência mais recente da posição decadente de Harris é um artigo extremamente crítico no New York Times, repleto de desaprovação anónima de democratas seniores, muitos dos quais já a apoiaram. Agora, eles estão preocupados.

O medo deles, escreve Charles Lipson, é que ela seja quase impossível de largar:

“Para vencer, os democratas precisam do apoio entusiástico dos afro-americanos, que provavelmente se sentirão insultados se Harris for dispensada. Esse problema poderia ser evitado se ela fosse substituída por outro afro-americano. Mas não há alternativas óbvias. Se Harris for substituída, provavelmente será por um candidato branco ou hispânico…

“Tal mudança perturbaria um partido profundamente investido na política de identidade racial e étnica, onde os grupos perdedores são vistos como vítimas ofendidas, os vencedores como opressores “privilegiados”. Essas divisões são mais virulentas quando centradas na histórica ferida racial da América, e seriam voltadas para dentro do partido”.

Por que não devemos esperar uma investigação da hierarquia do Partido Democrata ou do Congresso às alegações de Seymour Hersh de Biden ter contornado deliberadamente o Congresso? Bem, resumindo, é isso: porque expõe o ‘indizível’. Sim, Biden não ‘informou’ o Congresso, embora alguns congressistas pareçam ter sabido com antecedência sobre a sabotagem do Nord Stream. Tecnicamente, ele contornou o sistema.

A dificuldade é que ambos os lados da Câmara APROVAM amplamente esse excecionalismo – o excecionalismo dos EUA prevê que os EUA possam fazer o que quiserem, quando quiserem, com quem quiserem. Há tantos exemplos arraigados dessa prática: quem ousará atirar a primeira pedra no ‘Velho Joe’? Não, o caso contra Biden – se for para prosseguir – deve ser a visão coletiva de que Biden é incapaz de exercer um bom julgamento sobre questões que podem arriscar levar os EUA a uma guerra total com a Rússia.

Se Biden for forçado a sair, isso será feito em ‘salas cheias de fumaça’ de pessoas de dentro. Muitos foram beneficiados discretamente com a confusão da Ucrânia.

Para onde vai a Europa na sequência das alegações do Nord Stream? É difícil ver uma Europa dominada pela Alemanha divergindo de Washington. A atual liderança alemã está escravizada por Washington e prontamente aceitou a sua situação de vassalagem.

A França vai – alguns soluços à parte – ficar com a Alemanha. No entanto, como os EUA observam, a supremacia do dólar – com a expansão dos BRICS e da Comunidade Econômica do Leste Asiático -, será duramente questionada nas suas economias cativas mais próximas. A Europa provavelmente pagará um preço devastador.

De qualquer forma, a UE não discute questões realmente delicadas em público – apenas em salas de reunião onde todos os celulares foram removidos com antecedência. Transparência ou responsabilidade mal figuram nessas discussões.

Fonte aqui


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