(José Neto, in comentários na Estátua de Sal, 02/12/2023)

(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos de Samuel Moncada, embaixador da Venezuela na ONU, ver aqui. Pelo contributo para o debate sobre a evolução futura da guerra na faixa de Gaza, resolvi publicá-lo como artigo.
Estátua de Sal, 02/12/2023)
Pois é, e a guerra não está a correr nada bem para Israel.
E devo dizer que isso não é novidade nenhuma para mim dado que, logo no rescaldo da ofensiva das Brigadas Al-Qassam, eu disse aqui, contrariando a opinião de Carlos Matos Gomes, que não me parecia que o Hamas estivesse destinado a perecer na sequência da previsível resposta furiosa dos sionistas.
Disse-o por considerar que uma ação militar tão bem executada e com uma preparação tão longa no tempo, tivesse o suicídio como único objetivo. Os árabes não são exatamente lemingues e não têm propensão para o suicídio coletivo. Nem os lemingues, de resto. Isso é uma lenda idiota criada por um documentário falso produzido pela Disney em 1958.
Desculpem lá eu estar sempre a lembrar estas coisas, mas ninguém é perfeito e acho que vocês já devem ter desconfiado de que a humildade não é uma das minhas melhores qualidades.
Acontece também que, ao contrário de outros que andam por aí, eu não me sinto limitado por nenhum preconceito de superioridade racial do Ocidente, incutido desde os tempos da escola ou transmitido subliminarmente pelo cinema americano. E então não acho que os árabes, e particularmente os palestinos e seus mentores, sejam assim uma espécie de “índios” atrasados que agem por instinto e ao sabor do fanatismo. Por acaso eles até têm exatamente o mesmo volume de massa encefálica que os ocidentais. E os seus comandantes possuem uma formação militar que em nada fica a dever à dos melhores estrategas da NATO.
E ainda por cima eles não têm nada a perder e estão a lutar na sua “casa”, no seu terreno, que conhecem como ninguém. E isso faz toda a diferença. Sempre fez, como os americanos e as antigas potências coloniais europeias, Portugal incluído, têm obrigação de saber. Aprenderam à própria custa.
Israel mobilizou mais de 100 mil soldados em torno da Faixa de Gaza, que tem uma área total de cerca de 360 quilómetros quadrados. A maior parte destas tropas pertence às forças regulares e Israel convocou mais 300 mil soldados e oficiais da reserva – mais do que o número de reservistas convocados pela Rússia para lutar na Ucrânia ao longo de uma frente de 1.500 km contra um exército ucraniano que no início do conflito teria potencialmente meio milhão de homens. Todas as forças regulares que o exército sionista conseguiu reunir foram mobilizadas na Faixa de Gaza desde o início da quarta semana de guerra. Além disso, Israel mobilizou metade do seu stock de artilharia, metade da sua força aérea e cerca de mil veículos blindados.
As tropas israelitas penetraram em Gaza a partir de três pontos e avançaram protegidas pelos bombardeamentos maciços da aviação, que foram desbravando caminho numa distância de 500 metros adiante. Eles também desembarcaram nas praias e tentaram progredir a partir do mar para o interior, mas aí encontraram uma resistência feroz que os impediu de avançar.
Os comandos do Hamas não tentam impedir o avanço dos blindados israelitas, o que seria impossível dada a cobertura aérea de que estes beneficiam, mas depois atacam-nos em locais previamente escolhidos, onde existem bocas de túneis. Eles saem rapidamente em pequenos grupos e abrem fogo sobre os blindados, destruindo-os. Muitos soldados israelitas encontraram a morte neste processo, ainda que Israel apenas confirme 70 baixas mortais. Os números reais andarão por várias centenas. O Hamas divulgou de forma documentada a destruição de 320 tanques e outros blindados.
É a guerra de guerrilha na sua expressão máxima. Israel nunca conseguirá atrair os comandos do Hamas para o combate em campo aberto. Os seus soldados não têm vontade nenhuma de sair dos seus blindados e entrar num combate urbano casa a casa, como fizeram russos e ucranianos em Mariupol e Bakhmut por exemplo. Isso faria disparar o número de baixas para números incomportáveis para os israelitas. E tão pouco podem entrar nos túneis que vão encontrando em perseguição do inimigo, pois eles estarão de certeza armadilhados e rapidamente se iriam tornar nos seus túmulos.
Israel atingiu assim um ponto de bloqueio do qual não consegue sair. Não significa nada dizer que “ocuparam este ou aquele território”. Porque, se eles lá estão, os comandos Al-Qassam também estão. Mesmo por baixo deles. Esta não é uma guerra do tipo convencional, como sucede na Ucrânia. Ali, quando os ucranianos controlam uma região os russos saíram de lá e vice-versa. Em Gaza os dois exércitos inimigos coincidem nos mesmos locais, com os árabes no papel de “snipers” e os israelitas como alvos.
Foi por se ter chegado a uma situação de impasse, com maior prejuízo para o exército israelita, que Israel finalmente aceitou negociar um cessar-fogo e proceder a uma troca de prisioneiros, que é exatamente o que Netanyahu tinha dito que nunca faria. E ainda pior, aceitou fazê-lo nas condições exigidas pelo Hamas, como Scott Ritter muito bem chamou a atenção num texto aqui publicado.
Esta pausa nos combates beneficia Israel muito mais do que o Hamas, que mantém o seu exército praticamente intacto (terá sofrido cerca de 1 500 baixas num total de efetivos de cerca de 40 000 reforçado com cerca de mais 30 000 provenientes das outras forças de resistência suas aliadas) enquanto Israel vai ter de repensar toda a sua estratégia.
Entretanto, na Cisjordânia, prosseguem ferozes combates com as forças do Hezbollah, que não integram o acordo para a pausa nos combates. O facto de Israel ter as suas forças divididas em duas frentes deveria preocupar os seus estrategas militares, já que o Hezbollah é uma força formidável, equipada com armamento de ponta iraniano e possuidora de grande experiência de combate real (que os soldados israelitas não têm) sobretudo resultante da sua participação na luta contra o ISIS na Síria. O Hezbollah tem ainda à sua disposição entre 150 000 e 200 000 misseis de médio e longo alcance capazes de destruir rapidamente toda a infraestrutura de Israel. E poderá ter mais trunfos que ainda não são conhecidos, como é normal em todas as guerras. Nunca se mostra tudo ao inimigo.
Aparentemente os Israelitas estão confiantes de que o Hezbollah não irá desencadear uma ofensiva decisiva por receio de entrar em rota de colisão com a força de intervenção da OTAN sita no Mediterrâneo. Talvez, mas eu não apostaria o meu dinheiro nisso.
Uma ofensiva americana contra o Hezbollah levaria à guerra com o Irão e eu não acho que os russos achassem muita graça a isso. Neste momento da sua História, com todo o esforço diplomático que eles estão a desenvolver para ganharem ascendente junto dos países da região, e por extensão em todo o Sul Global, não podem de maneira nenhuma dar-se ao luxo de permitir que o seu maior aliado militar seja eventualmente destruído pelas forças do Império. Isso iria deitar por terra tudo o que foi conseguido nesse campo ao longo dos dois últimos anos. Faria desabar (mais uma vez depois da Perestroika) toda a sua credibilidade como potência mundial.
Repare-se que as sucessivas afrontas que o Rei da Arábia Saudita tem vindo a infligir a Biden e aos seus diplomatas deve-se muito ao facto de ele considerar que tem as costas quentes. O truculento americano não o assusta porque ele acha que tem na Rússia um protetor mais forte e que, ainda por cima, é mais respeitoso e menos intrusivo. O recuo de Putin numa situação limite como essa seria o fim de muita coisa. O próprio desenvolvimento da organização BRICS+11 seria talvez ferido de morte.
Também por essa razão se encontra uma frota chinesa com grande capacidade de dissuasão no local.
Os comandos militares dos Estados Unidos e da Rússia têm vias de comunicação diretas para falarem entre si e de certeza que os americanos foram avisados das linhas vermelhas de maneira bastante enfática. Eu acho que eles estão ali só para fazer pose. Ou então a III guerra Mundial pode estar mesmo ao virar da esquina. Os cogumelos laranja também são possíveis, claro. E eu até acho que prováveis, como já disse aqui mais de uma vez, mas talvez não para já.
Repare-se que os líderes do Hezbollah e do Hamas, organizações muito próximas e dependentes do Irão, rapidamente se esforçaram por vincar que a decisão da ofensiva “Dilúvio de Al Aqsa” foi exclusivamente do Hamas e nada teve a ver com o governo iraniano. Provavelmente não é verdade mas trata-se de não dar aos americanos um pretexto aceitável para o conflito aberto de grande dimensão (ou um motivo de constrangimento praticamente impossível de engolir) que não interessa a ninguém. Nem aos americanos, obviamente.
A economia de Israel não poderá suportar uma guerra de vários meses e não se está a ver como é que eles conseguirão atingir os seus objetivos militares em menos tempo do que isso. Aquele conflito tem tudo para durar anos. As brigadas Al-Qassam poderão receber suprimentos indefinidamente por via subterrânea a partir do Egito. Os Estados Unidos, na pessoa de Blinken, já fizeram saber ao governo de Israel que aquela guerra terá de ser resolvida muito rapidamente, de uma maneira ou de outra, supostamente em menos de trinta dias. Porque quanto mais tempo ela durar, maior será a condenação mundial e americanos e israelitas estão no mesmo barco. Todo o trabalho da diplomacia americana no Médio Oriente e em outras partes do mundo será arruinado.
A indignação do mundo árabe atinge níveis avassaladores, talvez nunca antes atingidos mesmo quando os americanos arrasaram o Iraque e a Líbia, e quase conseguiram fazer o mesmo na Síria, se os russos não tivessem atuado de forma inteligente para lhes frustrar os planos. Aí as coisas foram feitas de outra maneira e os americanos jogaram sabiamente com as grandes rivalidades entre os países muçulmanos da região que eles próprios fomentam. A maior parte das atrocidades cometidas só veio a ser revelada mais tarde. Agora é diferente, com os telemóveis a filmarem tudo e a divulgarem as imagens na net. O mundo está a assistir pela primeira vez na sua história a um genocídio em direto.
É claro que as elites árabes da região, ainda que em alguns casos possam estar genuinamente indignadas com o que estão a ver, consideram também os interesses que possuem nos países ocidentais e de que não querem abdicar. Mas as suas populações pensam de outra maneira. Ao contrário do que se possa pensar, o facto de os líderes da região serem soberanos que governam por desígnio divino e não políticos eleitos, não significa necessariamente que não podem ser demitidos. Significa apenas que poderão não sobreviver ao processo de impugnação.
Mais uma vez, não resisto a lembrar aqui o excelente trabalho de destruição da estrutura mundial do poder americano que o velho Biden tem levado a cabo desde que foi eleito. Apenas no decurso de um mandato ele já conseguiu conduzir os Estados Unidos a dois vexames militares espetaculares, no Afeganistão e na Ucrânia, libertar a Rússia da sua dependência face ao Ocidente e lançar a respetiva economia num crescimento de 5% ao ano (algo que a UE não conseguiu nem nos seus melhores tempos) acelerar o crescimento do BRICS e o processo de desdolarização, fazer disparar a dívida americana para níveis realmente estratosféricos e ainda, a cereja no topo do bolo, pôr os líderes dos principais centros de produção energética (dos quais a América depende em absoluto) furiosamente contra si.
Biden abriu descuidadamente a caixa de Pandora, esquecendo que lhe tinham dito que ali não era para mexer, e ela estava cheia de dragões que rapidamente saltaram para fora e se espalharam pelo mundo vomitando fogo e enxofre contra os interesses americanos nos quatro cantos do planeta.
O raio do velho tem realmente uma capacidade de gerar o caos que faria corar de inveja qualquer borboleta chinesa que se preze!
Quando a trégua em Gaza terminar Israel irá retomar os bombardeamentos assassinos sobre a população. E as forças da resistência continuarão em segurança, à espera na segurança dos seus túneis fortificados.
Quando o mar bate na rocha…
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