Marketing para totós: Cimeiras do Clima e Congressos dos Jornalistas

(Elisabete Tavares, in Página Um, 03/12/2023)

É um caso de marketing e de propaganda para totós. Ainda assim, jornalistas cobrem estes eventos como se fossem sérios e realmente produtivos, com o objectivo de se melhorar o mundo e as vidas de todos. Ainda assim, se fazem debates sobre esses eventos, como se realmente houvesse algo, de substância, para se debater no que lá se diz que se vai fazer.

Um desses eventos é a “Cimeira do Clima” ou sobre o Ambiente, ou Alterações Climáticas, … O nome do “espectáculo” pode ir mudando, mas o assunto é sempre o mesmo: líderes mundiais deslocam-se nos seus aviões para um local remoto do Mundo, para anunciar a “atribuição” de dinheiros e criação de fundos e medidas que vão melhorar a saúde do planeta e o futuro de todos os que nele vivem.

Muitos comunicados de imprensa. Muitos discursos “inspiradores” e “assertivos” escritos pelas diversas equipas de comunicação e os melhores spin doctors. O resultado são, invariavelmente, clichés como “não há humanidade B”, frase de António Costa nesta última Cimeira do Clima, citado na Lusa, frase que foi repetida até à exaustão pelos gabinetes de relações públicas do Governo, ou seja, os principais media do país.

Nestas cimeiras e conferências, os políticos de repente acordam para a causa ambiental e, tal como um cristão renascido, banham-se nas límpidas águas das diversas cimeiras do clima para sair delas discípulos da Nova Terra salva da poluição e imaculada. Pelo menos, até aterrarem de novo com os seus aviões nos países de origem e tudo voltar ao “business as usual“, que é como quem diz, ao andar de carro para cima e para baixo, conceder o licenciamento de empresas poluidoras e apelar ao consumo desenfreado para salvar empregos e “a economia”.

Desde pequena que ouço falar na desertificação, na necessidade de se reduzir o consumo, na urgência de se poupar água e proteger o meio ambiente. Desde pequena que assisto a sucessivos governos portugueses e descurar a ferrovia e a despejar dinheiro dos contribuintes na construção de estradas (ou melhor, nas construtoras suas amigas que construíram as estradas).

E todos os anos, sem excepção, assistimos a descargas ilegais em rios, a poluição diversa no mar. A investimentos estapafúrdios em obras e construção de monos com dinheiros públicos. Fecha-se os olhos a projectos poluidores porque criam empregos? Baixam-se os requisitos ambientais para atrair aquele investimento na fábrica que até foi classificado de PIN (projecto de interesse nacional)? Autoriza-se o abate daquelas árvores protegidas para aquele empreendimento de luxo? Dá-se o OK a mais um campo de golfe em zona onde falta a água? Avança-se com a construção de um novo aeroporto em zona de migração e nidificação única na Europa? Olha-se para o lado para o uso de pesticidas que acabam com espécies de relevo e causam cancro? Arrasa-se aquele rio selvagem e aqueles ecossistemas para construir mais uma barragem?

E incentiva-se ao consumo. Muito consumo. A quantidade de embalagens e lixos produzidos hoje é estonteante. Avassaladora. Os governos lucram com isso através dos diferentes impostos cobrados. O ambiente é que se lixa, tal como todos nós. E o planeta.

Desta vez, Costa pediu acção mais rápida e ambiciosa. Todos concordaríamos com isso, se não tivéssemos visto o que Costa fez, por exemplo, na gestão da pandemia de covid-19, desde 2020. Mas, como vimos e sentimos na pele e nos bolsos o que fez, o que lemos nessa intenção do “rápido e ambicioso” é isto: muitos vão encher os bolsos (de novo) e nós vamos ficar agarrados aos problemas e aos prejuízos. Além do atropelo que fez à Constituição da República.

Ou seja: há o risco de um acelerar no caminho da destruição da democracia, por via de leis e medidas inconstitucionais, e um novo o empurrão para fortes cargas de impostos sobre “poluidores”, que vão acabar por cair afinal sobre os consumidores finais. Há o risco de se inventarem mais “políticas verdes”, mas que irão beneficiar empresas amigas. Vão anunciar-se regras que serão aplicáveis aos comuns dos mortais, enquanto os que têm amigos e cunhas serão poupados.

Talvez porque acompanhe os mercados de capitais há várias décadas, desconfio destas promessas “verdes” que até agora renderam milhares de milhões a fundos e “veículos” de investimento, filantropos, fundações e políticos a vender este peixe da economia “verde” e trouxeram mais e mais problemas ao planeta e às populações.   

Estas cimeiras do clima ou do ambiente fazem-me também lembrar os congressos dos jornalistas (vai-se agora para o 5º Congresso). Fala-se muito e não se muda nada. Fala-se muito, mas não se mexe naquilo que se precisa mesmo mexer para que haja mudanças.

Na política, continua a promover-se o crescimento eterno das economias e a cultura de consumo, como se isso fosse racional ou sensato. O crescimento eterno do Produto Interno Bruto, vendido nos telejornais como sinal de sucesso político…

Nos congressos de jornalismo fala-se que o sector está em crise, os jornalistas são mal pagos e até que há disparidade de salários e promoções entre homens e mulheres. Mas, hoje, há que assumir, que os jornalistas não têm quase nenhum poder e estão alinhadíssimos com o poder político e empresarial.

A liberdade de imprensa está ameaçada (sobretudo, desde 2020) e há notícias verdadeiras a serem censuradas no mundo digital. Os grupos de comunicação social estão vendidos (rendidos) às “parcerias comerciais” (conteúdos e eventos patrocinados por entidades públicas ou privadas). Directores de jornais, revistas, TVs e rádios fazem o papel de entertainers e apresentadores em eventos e conferências e actuam como embaixadores de políticos, de reguladores, de figuras da autoridade e todos os “clientes” que pagam as “parcerias comerciais” aos seus grupos.

As redacções estão magras, mas cheias de jornalistas e estagiários que fazem copy/paste (churnalism) das notícias da Lusa e de comunicados de imprensa. Não há tempo (nem pensamento crítico) para mais. E háá que falar nos jornalistas que têm empresas e funções incompatíveis com a profissão. Nos grupos de comunicação social com “clientes” que lhes pagam para escrever “notícias” e fazer eventos sobre os quais depois escrevem (sempre) favoravelmente. E há que falar na evidente subserviência do sector em geral face ao poder, seja do Governo, de autoridades, de reguladores, de direcções-gerais, da Comissão Europeia, (como, de resto, se viu na pandemia).

Além de que se tem obrigatoriamente de falar na falência completa de reguladores e dos que deveriam ser vozes em defesa da profissão e do sector, com destaque para a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista. Mas também a Entidade Reguladora para a Comunicação Social só tem actuado quando sente pressão. E o Sindicato de Jornalistas tem ficado em silêncio perante irregularidades e situações de promiscuidade inaceitáveis.

Como jornalista, ao longo dos anos sempre me mantive afastada de congressos e do corporativismo patente no sector da comunicação social. Não me identifico com operações de autopromoção, nem com os silêncios sobre os problemas graves, como as “parcerias comerciais”, nem com a cultura das palmadinhas nas costas enquanto o sector arde.

A meu ver, na defesa do ambiente e do planeta e na defesa do jornalismo existe algo em comum: jamais serão defendidos por políticos do actual establishment, nem pelas grandes indústrias, por bilionários donos de multinacionais ou filantropos com um histórico ético duvidoso. Nem por jornalistas que há muito se vergaram perante dinheiros públicos, privados ou de fundações, com medo de perderem o emprego, a nomeação a prémios e bolsas, além dos que não escondem agendas ideológicas.

Nem a defesa do planeta, nem a defesa do jornalismo irão ser feitos por aqueles que têm contribuído para criar os problemas existentes, seja pelas suas acções seja porque pactuaram com os ataques, ficando em silêncio.

Num mundo de árvores de Natal de plástico, enfeitadas de bolas e fitas de fantasia em material sintético, o jornalismo é hoje um adereço brilhante para vender frases bonitas sobre como políticos e bilionários que contribuíram para nos trazer ao desastre, são agora os maiores defensores do ambiente e da vida no planeta.

Num mundo de cimeiras do clima da tanga e congressos dos jornalistas da treta, temos de começar a pensar se está na altura de deixarmos de ser totós. Em relação aos políticos, aos media que destroem o jornalismo e em relação ao que podemos fazer sobre o futuro do planeta e do jornalismo.

Elisabete Tavares é jornalista


.Continuar a ler em: Um passeio dos banqueiros pelo Colombo: dava jeito! – Página Um


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Israel reabre o matadouro de Gaza

(Chris Hedges, in The Chris Hedges Report, 01/12/2023, trad. Estátua de Sal)


Os céus de Gaza estão repletos – após uma trégua de sete dias – de projécteis mortais. Aviões de guerra. Helicópteros de ataque. Drones. Cartuchos de artilharia. Conchas de tanque. Morteiros. Bombas. Mísseis. Gaza é uma cacofonia de explosões e gritos desamparados pedidos de ajuda sob edifícios desabados. O medo, mais uma vez, envolve todos os corações no campo de concentração de Gaza. 

Na noite de sexta-feira, 184 palestinos – incluindo três jornalistas e dois médicos – foram mortos por ataques aéreos israelenses no norte, sul e centro de Gaza, e pelo menos 589 ficaram feridos, segundo o Ministério da Saúde de Gaza. A maioria deles são mulheres e crianças. Israel não será dissuadido. Planeia terminar o trabalho, destruir o que resta no norte de Gaza e dizimar o que resta no sul, tornar Gaza inabitável, ver os seus 2,3 milhões de habitantes expulsos numa campanha massiva de limpeza étnica através da fome, do terror, abate e doenças infecciosas. 

Os comboios de ajuda, que trouxeram quantidades simbólicas de alimentos e medicamentos – o primeiro lote consistiu em mortalhas e testes de coronavírus, segundo o diretor do hospital al-Najjar – foram interrompidos . Ninguém, muito menos o presidente Joe Biden, planeia intervir para impedir o genocídio. O secretário de Estado, Antony Blinken, visitou Israel esta semana e, embora apelasse a Israel para proteger os civis, recusou-se a estabelecer condições que perturbassem os 3,8 mil milhões de dólares que Israel recebe em assistência militar anual ou o pacote de ajuda suplementar de 14,3 mil milhões de dólares . O mundo assistirá passivamente, murmurando brometos inúteis sobre mais ataques cirúrgicos , enquanto Israel gira a sua roleta da morte. Quando Israel terminar, a Nakba de 1948 , onde os palestinianos foram massacrados em dezenas de aldeias e 750 mil foram limpos etnicamente pelas milícias sionistas, parecerá uma relíquia pitoresca de uma era mais civilizada. 

Nada está fora dos limites. Hospitais. Mesquitas. Igrejas. Casas. Blocos de apartamentos. Campos de refugiados. Escolas. Universidades. Gabinetes de imprensa. Bancos. Sistemas de esgotos. Infra-estruturas de telecomunicações. Estações de tratamento de água. Bibliotecas. Moinhos de trigo. Padarias. Mercados. Bairros inteiros. A intenção de Israel é destruir as infra-estruturas de Gaza e matar ou ferir diariamente centenas de palestinianos. Gaza está a tornar-se um terreno baldio, uma zona morta que será incapaz de sustentar a vida.

Israel começou a bombardear Khan Younis na sexta-feira, depois de ter lançado folhetos a avisar os civis para evacuarem mais para sul, para Rafah, situada no posto fronteiriço com o Egipto. Centenas de milhares de palestinianos deslocados procuraram refúgio em Khan Younis. Quando os palestinianos são empurrados para Rafah, só resta um lugar para onde fugir – o Egipto. O Ministério dos Serviços Secretos israelita, num relatório que foi divulgado, apela à transferência forçada da população de Gaza para a Península do Sinai, no Egipto. Um plano pormenorizado para deslocar intencionalmente os palestinianos de Gaza e empurrá-los para o Egipto está incorporado na doutrina israelita há cinco décadas. Já 1,8 milhões de palestinianos em Gaza foram expulsos das suas casas. Assim que os palestinianos atravessarem a fronteira com o Egipto – o que o governo egípcio e os líderes árabes estão a tentar impedir, apesar da pressão dos EUA – os palestinianos nunca mais voltarão.

Esta não é uma guerra contra o Hamas. É uma guerra contra os palestinianos.

Os ataques israelitas são gerados a um ritmo vertiginoso, muitos deles a partir de um sistema chamado “Habsora” – O Evangelho – que se baseia na inteligência artificial e que selecciona 100 alvos por dia. O sistema de IA é descrito por sete actuais e antigos funcionários dos serviços secretos israelitas num artigo de Yuval Abraham nos sites israelitas +972 Magazine e Local Call, como facilitando uma “fábrica de assassinatos em massa”. Israel, assim que localiza o que supõe ser um agente do Hamas a partir de um telemóvel, por exemplo, bombardeia e lança bombas numa vasta área à volta do alvo, matando e ferindo dezenas e, por vezes, centenas de palestinianos, afirma o artigo.

“De acordo com fontes dos serviços secretos”, lê-se no artigo, “o Habsora gera, entre outras coisas, recomendações automáticas para atacar residências privadas onde vivem pessoas suspeitas de serem operacionais do Hamas ou da Jihad Islâmica. Israel leva então a cabo operações de assassinato em grande escala através de bombardeamentos pesados nessas residências”.

Cerca de 15.000 palestinianos, incluindo 6.000 crianças e 4.000 mulheres, foram mortos desde 7 de outubro. Cerca de 30.000 ficaram feridos. Mais de seis mil estão desaparecidos, muitos enterrados sob os escombros. Mais de 300 famílias perderam 10 ou mais membros da sua família. Mais de 250 palestinianos foram mortos na Cisjordânia desde 7 de outubro e mais de 3.000 ficaram feridos, embora a área não seja controlada pelo Hamas. Os militares israelitas afirmam ter morto entre 1.000 e 3.000 dos cerca de 30.000 combatentes do Hamas, um número relativamente pequeno tendo em conta a escala do ataque. A maioria dos combatentes da resistência abriga-se no seu vasto sistema de túneis.

O livro de jogo de Israel é a “Doutrina Dahiya”. A doutrina foi formulada pelo antigo Chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel (IDF), Gadi Eizenkot, que é membro do gabinete de guerra, na sequência da guerra de 2006 entre Israel e o Hezbollah no Líbano. Dahiya é um subúrbio do sul de Beirute e um reduto do Hezbollah. Foi bombardeada por jactos israelitas depois de dois soldados israelitas terem sido feitos prisioneiros. A doutrina postula que Israel deve empregar uma força maciça e desproporcionada, destruindo infra-estruturas e residências civis, para garantir a dissuasão.

Daniel Hagari, porta-voz das FDI, admitiu no início do mais recente ataque israelita a Gaza que a “ênfase” seria “nos danos e não na precisão”.

Israel abandonou a tática de “bater no telhado”, em que um foguete sem ogiva aterrava num telhado para avisar as pessoas que se encontravam no interior para evacuarem. Israel também acabou com as chamadas telefónicas que avisavam de um ataque iminente. Agora, dezenas de famílias de um bloco de apartamentos ou de um bairro são mortas sem aviso prévio.

As imagens de destruição maciça alimentam a sede de vingança em Israel, após a humilhante incursão dos combatentes do Hamas a 7 de outubro e a morte de 1200 israelitas, incluindo 395 soldados e 59 polícias. Muitos israelitas manifestam um prazer sádico pelo genocídio e uma onda de apelos ao assassínio ou à expulsão dos palestinianos, incluindo os da Cisjordânia ocupada e os que têm cidadania israelita.

A selvajaria dos ataques aéreos e dos ataques indiscriminados, o corte de alimentos, água e medicamentos, a retórica genocida do Governo israelita, fazem desta uma guerra cujo único objetivo é a vingança. Isto não será bom nem para Israel nem para os Palestinianos. Irá alimentar uma conflagração em todo o Médio Oriente.

O ataque de Israel é a última medida desesperada de um projeto colonial de colonos que pensa tolamente, como muitos projectos coloniais de colonos fizeram no passado, que pode esmagar a resistência de uma população indígena com genocídio. Mas nem mesmo Israel conseguirá escapar impune a uma matança desta dimensão. Uma geração de palestinianos, muitos dos quais viram a maior parte das suas famílias, se não todas, serem mortas e as suas casas e bairros destruídos, terão uma sede de justiça e de retribuição para toda a vida.

Esta guerra não acabou. Ainda nem sequer começou.

Fonte aqui


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O chapéu do mágico e o grande simulacro do bálsamo paliativo

(Alastair Crooke, in Geopol.pt, 02/12/2023)

Quando a Grã-Bretanha prometeu aos judeus uma pátria, as potências ocidentais também prometeram aos palestinianos um Estado, mas nunca o concretizaram. Esta lacuna está a culminar numa colisão frontal.


O Mágico entra no palco, com o seu manto preto a rodopiar à sua volta. No centro do palco, ele tira o chapéu: Está vazio. Dá-lhe um leve murro para demonstrar a sua solidez. O Mágico pega então em alguns objectos e coloca-os no chapéu. Nele entra a tomada de um navio israelita pelo AnsarAllah (a situação está a ser “monitorizada”); nele entram os ataques iraquianos a bases americanas (pouco notados pelos principais meios de comunicação social); nele entram também os 1000 mísseis disparados contra o norte de Israel pelo Hezbollah; nele entra a guerra quente na Cisjordânia. O Mágico vira-se para o público — o chapéu está vazio. Mas o público sabe que esses objectos têm uma realidade física, mas de alguma forma estão magicamente ofuscados.

É desta forma que os principais meios de comunicação ocidentais mantêm a dissuasão, minimizando o estado de guerra através daquilo que Malcom Kyeyune descreve como “um simulacro de paz” — de um conflito que se vai atenuando suavemente e da implantação tranquila de (parafraseando Kyeyune) uma “questão muito pós-moderna”: Afinal, qual é exatamente o significado de “não-combatente” civil?

Um aspeto da imagem de atenuação do conflito é a troca de reféns que foi acordada. É real e, ao mesmo tempo, sustenta o simulacro de que, assim que o Hamas for aniquilado e os reféns libertados, o problema dos 2,3 milhões de palestinianos poderá ser colocado no chapéu do mágico e desaparecer de vista. Para alguns, a esperança é sincera e bem intencionada — que uma vez cessados os combates, estes se mantenham, e que o fim dos bombardeamentos em Gaza possa abrir uma janela para uma qualquer “solução” política — se esta puder ser prolongada sine dei.

“Solução” é aqui apenas uma palavra educada para a tentativa de suborno da UE ao Egipto e à Jordânia. Segundo consta, a presidente da UE, Ursula von der Leyen, visitou o Egipto e Israel para lhes apresentar ofertas financeiras (10 mil milhões de dólares para o Egipto e 5 mil milhões de dólares para a Jordânia), em troca da dispersão dos habitantes da Faixa de Gaza para outros locais — efetivamente para facilitar a evacuação da população palestiniana da Faixa, em conformidade com os objectivos de Israel de limpar Gaza etnicamente.

No entanto, o tweet da antiga ministra Ayalet Shaked — “Depois de transformarmos Khan Yunis num campo de futebol, temos de dizer aos países que cada um deles aceita uma quota: Precisamos que todos os 2 milhões se vão embora. Essa é a solução para Gaza” — é apenas um dos tweets de altos responsáveis políticos e de segurança israelitas que exaltam o que Israel considera ser cada vez mais a “solução” para Gaza.

Mas, ao ser tão explícita, Shaked terá provavelmente torpedeado a iniciativa de von der Leyen — porque nenhum Estado árabe quer ser cúmplice de uma nova Nakba.

Um Hudna ou “time out” é inevitavelmente muito precário. Nos combates de 2014, quando as forças do FDI iniciaram uma operação militar em Gaza após o início de um cessar-fogo, isso levou a um tiroteio e ao colapso do cessar-fogo. Os combates continuaram durante mais um mês inteiro.

Duas lições fundamentais que aprendi ao tentar iniciar tréguas em nome da UE durante a Segunda Intifada foram que uma “trégua é uma trégua” e apenas isso — ambos os lados a utilizam para se reposicionarem para a próxima ronda de combates. E, em segundo lugar, que a “calma” numa localidade confinada não estende a desescalada a outra localidade geograficamente separada; mas sim que um surto de violência flagrante é viralmente contagioso e se espalha geograficamente de forma instantânea.

A atual troca de reféns está centrada em Gaza. No entanto, Israel tem três frentes de conflito abertas (Gaza, a sua fronteira norte com o Líbano e a Cisjordânia). Um incidente que ocorra em qualquer uma das três frentes pode ser suficiente para fazer ruir a confiança nos entendimentos de Gaza e relançar o ataque de Israel a Gaza.

Na véspera das tréguas, por exemplo, as forças israelitas bombardearam fortemente a Síria e o Líbano. Sete combatentes do Hezbollah foram mortos.

A questão aqui, dito de forma simples, é que os precedentes históricos de hudnas que conduzem a aberturas políticas não são assim tão grandes. Uma libertação de reféns, por si só, não resolve nada. A questão da crise atual é muito mais profunda. Quando, “era uma vez”, a Grã-Bretanha prometeu aos judeus uma pátria, as potências ocidentais também (em 1947) prometeram aos palestinianos um Estado, mas nunca o concretizaram. Esta lacuna está a culminar numa colisão frontal.

A ambição do gabinete israelita de criar um Estado judaico nas terras bíblicas de Israel destina-se simplesmente a impedir a criação de qualquer Estado palestiniano, quer em parte de Jerusalém, quer noutros locais da Palestina histórica. Neste contexto, as acções do Hamas destinavam-se precisamente a quebrar este impasse e o paradigma interminável de “negociações” infrutíferas.

Não é de surpreender que o Ministro da Defesa de Israel já tenha anunciado a intenção de Israel de retomar os combates imediatamente após o fim do cessar-fogo. Os oficiais israelitas têm dito aos seus homólogos norte-americanos que prevêem mais algumas semanas de operações no norte da Faixa de Gaza, antes de se concentrarem no sul.

Até agora, as FDI têm estado a operar em áreas próximas da linha costeira de Gaza e em locais, como o Wadi, a sul da cidade de Gaza, onde o subsolo não facilita a construção de túneis. Estas são, portanto, as zonas onde o Hamas não dispõe de capacidades defensivas significativas. Se a ação militar for retomada, é provável que as FDI se afastem da costa norte em direção ao epicentro da Cidade de Gaza, permitindo ao Hamas manobrar mais facilmente e infligir maiores perdas às FDI e aos seus veículos blindados. Neste sentido — longe dos simulacros — a guerra está apenas a começar.

O primeiro-ministro Netanyahu tem sido descrito tanto em Israel como na imprensa ocidental como um “homem morto a andar” em termos políticos. Seja como for, Netanyahu tem a sua estratégia: Desafiou abertamente a equipa Biden em todas as questões relacionadas com a guerra, exceto a da erradicação do Hamas.

Durante uma conferência de imprensa no domingo passado, Netanyahu elogiou uma “Cúpula de Ferro diplomática”, dizendo que não cederia à “pressão cada vez mais forte (…) usada contra nós nas últimas semanas (…) Rejeito essas pressões e digo ao mundo: Continuaremos a lutar até à vitória — até destruirmos o Hamas e trazermos os nossos reféns de volta a casa”.

Yonatan Freeman, da Universidade Hebraica, percebe a jogada nas declarações vagas de Netanyahu: Ele desafia a equipa Biden, mas tem o cuidado de deixar “espaço de manobra” suficiente para que possa sempre culpar Biden, sempre que for “forçado” pela América a alguma reviravolta.

A estratégia do gabinete israelita, portanto, assenta na grande aposta de que a opinião pública israelita se manterá — apesar dos índices de desaprovação pessoal de Netayahu — devido ao esmagador apoio público, nesta altura, aos dois objectivos declarados pelo gabinete de guerra: Destruir o “regime do Hamas” e as suas capacidades, e a libertação de todos os reféns israelitas.

No fundo, “a aposta” reside na convicção de que o sentimento da opinião pública — contextualizado deliberadamente pelo gabinete israelita em termos absolutamente maniqueístas (luz versus trevas; civilização versus barbárie; todos os habitantes de Gaza são cúmplices do “mal do Hamas”) — acabará por suscitar uma onda de apoio à nova iniciativa de retirar “a ficção” de um Estado palestiniano da mesa “de uma vez por todas”. A mesa está a ser posta para uma longa guerra contra o “mal cósmico”.

A “solução”, como o ministro Smotrich e os seus aliados sublinham, é oferecer aos palestinianos uma escolha — “renunciar às suas aspirações nacionais e continuar a viver na sua terra num estatuto inferior”, ou emigrar para o estrangeiro. Dito sem rodeios, a “solução” é a remoção de todos os palestinianos não-subservientes das terras do Grande Israel.

Passando agora às perspectivas em confronto:

O “eixo unido” que apoia os palestinos observa que Israel continua a aderir aos seus objectivos militares iniciais de destruir Gaza até ao ponto em que não reste nada — nenhuma infraestrutura civil — de que os habitantes de Gaza possam viver, se tentarem sequer regressar às suas casas destruídas.

Este objetivo israelita é plenamente apoiado por Biden quando o seu porta-voz afirmou:

Acreditamos que eles têm o direito de [embarcar em novas operações de combate em Gaza]; mas tais acções devem incluir uma maior e melhor proteção da vida civil.

Hasan Illaik, comentador de segurança regional, observa que,

Os responsáveis do Eixo também acreditam que as declarações conciliatórias dos EUA, que por vezes sugerem que está iminente uma fase de desanuviamento, não passam de um esforço para reparar uma imagem pública fortemente prejudicada pelo apoio incondicional dos EUA ao massacre contínuo de palestinianos em Gaza por parte de Israel.

Então, será que Israel, apoiado pela equipa Biden e por alguns líderes da UE, está a ganhar?

Tom Friedman — um íntimo da Equipa Biden — escreveu no New York Times em 9 de novembro — depois de viajar por Israel e pela Cisjordânia:

Agora percebo porque é que tanta coisa mudou. Para mim, é absolutamente claro que Israel está em perigo real — mais perigo do que em qualquer outra altura desde a sua Guerra da Independência em 1948.

Rebuscado? Talvez não.

Em 2012, o escritor norte-americano Michael Greer escreveu que Israel foi fundado numa altura particularmente propícia, apesar de estar rodeado de vizinhos hostis:

Várias das principais potências ocidentais apoiaram o novo Estado com uma ajuda financeira e militar significativa; com uma importância pelo menos igual, os membros da comunidade religiosa responsável pela criação do novo Estado, que permaneceram nessas mesmas nações ocidentais, empenharam-se em esforços vigorosos de angariação de fundos para apoiar o novo Estado e em esforços políticos igualmente vigorosos para manter ou aumentar o apoio governamental existente. Os recursos assim disponibilizados ao novo Estado deram-lhe uma vantagem militar substancial contra os seus vizinhos hostis, e a sua existência tornou-se um facto suficientemente consumado para que alguns dos seus vizinhos se afastassem de uma posição de confronto total.

(…)

No entanto, a sobrevivência do Estado dependia de três factores. A primeira, e de longe a mais crucial, era o fluxo contínuo de apoio das potências ocidentais para pagar um estabelecimento militar muito maior do que os recursos económicos e naturais do território em questão permitiriam. A segunda era a fragmentação contínua e a relativa fraqueza dos Estados circundantes. A terceira era a manutenção da paz interna no Estado e do consenso coletivo em relação a um sentido claro de prioridades, de modo a que este pudesse responder com toda a sua força às ameaças vindas do exterior – em vez de desperdiçar os seus limitados recursos em conflitos civis ou projectos populares que em nada contribuíam para a sua sobrevivência.

(…)

A longo prazo, nenhuma destas três condições poderá ser satisfeita indefinidamente… Quando estes padrões iniciais de apoio se romperem, Israel poderá ver-se encurralado.

Na semana passada, um importante comentador israelita observou que:

Poder-se-ia pensar que uma visita presidencial, um discurso presidencial, três visitas do Secretário de Estado, duas visitas do Secretário da Defesa, o envio de dois grupos de porta-aviões, um submarino nuclear e uma unidade expedicionária da Marinha, e a promessa de 14,3 mil milhões de dólares em ajuda militar de emergência, são testemunho do apoio inabalável que os EUA estão a dar a Israel…

Pensa oura vez.

Por debaixo do apoio total e robusto da administração Biden, há correntes perigosas e traiçoeiras que estão a destruir e a invadir a simpatia pública por Israel nos Estados Unidos. As sondagens divulgadas na semana passada continham os dados mais alarmantes e reveladores: O apoio do público a Israel está a diminuir — sobretudo entre o grupo etário dos 18 aos 34 anos. Outra sondagem revela que 36% dos americanos se opõem a um financiamento adicional para a Ucrânia e Israel: O apoio ao financiamento de Israel, apenas — era de 14%.

O que é verdadeiramente notável é o facto de os líderes das novas narrativas serem os jovens das Gerações Z, Y e Alpha. Tirando partido dos meios de comunicação social e falando diretamente com os seus pares, transmitiram ao mundo as queixas dos palestinos. Muitos tinham um conhecimento limitado da Palestina, mas o seu sentido de justiça não filtrado alimentou a sua raiva colectiva contra a limpeza étnica da Palestina por parte de Israel.

A segunda e a terceira condições de Greer para a sobrevivência de Israel também estão a sofrer metástases à medida que as placas tectónicas globais se movem: As potências não ocidentais não estão do lado de Israel. Estão a unir-se em oposição à aspiração do gabinete israelita de acabar com a noção de um Estado palestiniano, de uma vez por todas. E hoje, Israel está amargamente dividido quanto à visão do seu futuro; o que é exatamente que constitui “Israel” e mesmo aquela questão pós-moderna, “o que é ser judeu”.

Peça traduzida do inglês para GeoPol desde Strategic Culture


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