A ressurreição de um piloto

(João Gomes, in Facebook, 05/04/2026)


No princípio era o desaparecimento. E o desaparecimento gerou versões. E as versões geraram certezas – absolutas, incompatíveis, irreconciliáveis. Como em toda a boa liturgia da guerra, a verdade não morreu: foi dividida em narrativas.

Num lado do altar, proclama-se o milagre. O piloto – perdido nas areias hostis, envolto em fogo e silêncio – teria sido resgatado. Elevado, quase, das profundezas do território inimigo por uma força invisível, técnica e moralmente superior. Um corpo ferido, mas salvo. Um homem recuperado, como se a vontade bastasse para dobrar o espaço, o tempo e o adversário.

No outro lado, a negação do prodígio. Não houve ressurreição. Apenas destroços. Metal retorcido. Provas tangíveis de queda, não de ascensão. E talvez – sussurrado com calculada ambiguidade – um corpo ainda por reclamar, ainda por capturar, ainda por exibir.

E assim, neste domingo de Páscoa, celebra-se não a verdade da guerra, mas a sua ausência.

A guerra moderna aperfeiçoou aquilo que as religiões antigas apenas ensaiaram: a multiplicação de realidades paralelas. Cada lado com os seus evangelhos. Cada porta-voz com a sua revelação. Cada fotografia, cuidadosamente escolhida, como um fragmento de escritura. Mas há algo de peculiar nesta narrativa.

Durante décadas, o poder que agora proclama o milagre da recuperação habituou o mundo a outra linguagem – não a da dúvida, mas a da inevitabilidade. Falava-se em supremacia total, em domínio absoluto dos céus, em operações cirúrgicas que não falham, em inimigos reduzidos – sem apelo nem retorno – à “idade da pedra”. E, no entanto, aqui estamos.

Um piloto desaparecido torna-se um problema geopolítico. Um resgate alegado exige fé, não evidência. Um ultimato de 48 horas dissolve-se no tempo como incenso ao vento. A superpotência que prometia precisão milimétrica vê-se agora a gerir a incerteza. E, talvez mais grave, a gerir perceção. Porque esta é a essência dos “conceitos informativos” na guerra: não importa apenas o que aconteceu – importa o que pode ser sustentado, repetido, acreditado.

Ora, a verdade operacional é subordinada à verdade narrativa. Se o piloto foi resgatado, por que não o mostraram? Não existiram meios para mostrar uma foto do resgate com tanta tecnologia que destrói silos nucleares? Porque, no fundo, ambas as partes compreendem o mesmo princípio: na guerra, a verdade demasiado cedo pode ser tão perigosa quanto a mentira demasiado tarde.

Os iranianos mostraram fotos de alguns aviões que foram destruídos nas areias do deserto. Afirmaram ser dos que tentavam encontrar o piloto. Entre os que dizem que sim e os que dizem que não, entre o milagre e o destroço, entre a ressurreição anunciada e o silêncio persistente, fica o domingo de Páscoa declaradamente com esse mistério: Talvez o piloto tenha regressado. Talvez não. Mas uma coisa é certa: nesta Páscoa, não é apenas um homem que paira entre morte e redenção.

É a própria credibilidade de quem prometeu que nunca perderia o controlo da narrativa – e que hoje parece incapaz de controlar sequer o desfecho de um único acontecimento. E isso, mais do que qualquer destroço no deserto, é o verdadeiro sinal dos tempos.

Bom domingo de Páscoa!

Relembrar o fascismo para exorcizar o fascismo

(Whale Project, in Estátua de Sal, 05/04/2026, revisão da Estátua)

Imagem gerada por IA

(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos de Pacheco Pereira sobre o ataque que a direita está a empreender contra o quadro democrático-constitucional (ver aqui). Pelo realismo da descrição do Portugal do antigamente, antes do 25 de Abril, que muitos já esqueceram e outros não viveram, resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 05/04/2026)


Os portugueses gostavam tanto de cá estar que – numa população que rondaria os nove milhões de habitantes -, nos anos 60 mais de um milhão emigrou, em especial para França, onde era mais fácil chegar “a salto” fazendo de Paris “a segunda maior cidade de Portugal”.

A grande desertificação do interior do país começou aí, aldeias inteiras foram despovoadas ficando só os demasiado velhos para arrotear novos caminhos e muitas vezes as crianças.

Portugal teve o destino da Galiza plasmado numa canção: “Este parte, aquele parte e todos, todos se vão. Galiza, ficas sem homens que possam cortar teu pão. Tens em troca órfãos e órfãs, tens campos de solidão, tens mães que não têm filhos, filhos que não têm pai…” (Ver vídeo abaixo com a canção interpretada por Adriano Correia de Oliveira).

Em Portugal até mulheres e crianças enfrentaram os perigos de “ir a salto”. Clandestinos, ilegais, nunca saberemos quantos os que, acusados de terem ido para França e abandonado mulher e filhos, na realidade nunca lá chegaram. Abatidos por guardas-republicanos ou guardas-civis espanhóis encontraram a morte nos caminhos de serras, desaparecidos. Nunca saberemos quantos foram.

O êxodo português foi provavelmente o maior movimento migratório da década na Europa, chegando a ser comparado ao grande êxodo da Irlanda no tempo da Grande Fome dos anos 1845 e 1848.

Era por estarem muito de bem com a vida que os portugueses arriscavam a vida para viver em cidades de contentores.

Mesmo assim há uns anos um idoso que vivera num desses bidonvilles dizia que tinha valido a pena. Era de uma aldeia perdida no centro de Portugal. Dizia ele: “Em Portugal comíamos para ali umas couves, carne era uma vez por ano, ali tínhamos carne três vezes por semana, era melhor’.

Tudo isto e conhecido, está nos livros. Ainda há gente viva desse tempo. Por isso, é simplesmente indecente haver gente a dizer que alguém que vivesse do seu trabalho vivia bem nesse tempo e estava de bem com a vida.

Podiam estar alguns com o cérebro lavado pela propaganda e pela religiosidade entranhada que pregava o sofrimento nesta vida como passaporte para a bem aventurança eterna. “No céu triunfarei”, era com esta promessa de uma canção de negros brasileiros que muita gente por aqui, em especial no Norte do país ia safando a vida e odiando os “comunistas” que diziam que merecíamos melhor desta vida.

Cabe acrescentar que, nesse tempo, qualquer um que falasse mal do regime era comunista e tinha direito a estadia num dos muitos “hotéis” do regime. De onde ninguém sabia quando e como sairia.

O que a direita quer é um regresso a esse tempo. Em que os preços das casas eram tão proibitivos que viviam três ou quatro famílias numa casa de dois quartos. Por isso o Governo está tão preocupado com a crise da habitação que está a vender casas a fundos privados abaixo do preço de mercado.

A verdade é que voltámos a ter fascistas no poder e desta vez fomos nós que votámos neles. Não houve mortos a votar nem apenas chefes de família.

Tudo por muita gente ir em contos de sereia como o ficar rico por pagar menos impostos ou acabar com as mordomias daqueles malandros dos funcionários públicos.

E, quem canta esses cantos de sereia, a única coisa que quer é fazer a nossa vida andar para trás, dizendo que e um andar para a frente.

O pacote laboral é um exemplo disso mesmo. Vendido como modernidade pretende o regresso ao poder discricionário que os patrões tinham noutros tempos. Acordem ou um dia acordam nos anos 60. E acreditem, poucos eram os que iam aguentar.

Fascismo nunca mais.


Cantar de Emigração – Adriano Correia de Oliveira

Proclamar a vitória, ainda que se admita a derrota:   Não há uma forma fácil de abrir o Estreito de Ormuz

(Alastair Crooke in Resistir, 05/04/2026)


O contra-ataque estratégico iraniano não foi concebido para facilitar uma negociação, mas sim para criar as circunstâncias que lhe permitam escapar da “gaiola” imposta pelo Ocidente.


As derrotas que o Ocidente continua a sofrer são, acima de tudo, intelectuais. E “não ser capaz de compreender o que se vê implica que é impossível responder eficazmente”. Foi assim que Aurelien argumentou. Mas “o problema vai além da luta no campo de batalha e reside na compreensão da natureza das guerras assimétricas e das suas dimensões económicas e políticas”.

Continuar a ler o artugo completo aqui.