Julian: A longa e dolorosa espera de um jornalista preso no Reino Unido

(Entrevista a Stella Assange, in Página Um, 26/03/2024)

A Justiça britânica reconheceu, esta terça-feira, que o pedido de extradição do jornalista Julian Assange por parte dos Estados Unidos viola o direito à liberdade de expressão, expõe o fundador da WikiLeaks à pena de morte e também à possibilidade de ser prejudicado no julgamento devido à sua nacionalidade. O tribunal deu aos Estados Unidos até ao dia 16 de Abril para apresentar garantias de que aqueles receios não se cumpram. Na sequência desta decisão de hoje, o PÁGINA UM republica a entrevista a Stella Assange, mulher do fundador da WikiLeaks, divulgada no dia 5 de Março. 

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É a guerra: o verdadeiro moedor de carne começa agora

(Por Pepe Escobar, in Strategic Culture, 23/03/2024, Trad. Estátua de Sal)

O jogo de sombras acabou. Agora é a céu aberto.


Evidência 1: Sexta-feira, 22 de março de 2024. É a guerra. O Kremlin, por intermédio de Peskov, admite-o finalmente, oficialmente. A citação: “A Rússia não pode permitir a existência nas suas fronteiras de um Estado que tem a intenção documentada de usar todos os métodos para lhe tirar a Crimeia, para não mencionar o território das novas regiões”. Tradução: O vira-latas de Kiev fabricado pelo Hegemon está condenado, de uma forma ou de outra.

Evidência 2: Sexta-feira à tarde, algumas horas depois de Peskov. Confirmado por uma fonte europeia séria – não russa. Tropas regulares francesas, alemãs e polacas chegaram, por via ferroviária e aérea, a Cherkassy, a sul de Kiev. Uma força numerosa. Não foram divulgados números. Estão alojadas em escolas. Para todos os efeitos, trata-se de uma força da NATO e é o sinal: “Que comecem os jogos”. Do ponto de vista russo, os cartões-de-visita do Sr. Kinzhal vão ser muito procurados.

Evidência 3: Sexta-feira à noite. Ataque terrorista em Crocus City, uma sala de concertos a noroeste de Moscovo. Um comando altamente treinado dispara à vista, à queima-roupa, a sangue-frio, e depois incendeia a sala de espetáculos. O contrassinal definitivo: o campo de batalha caiu, resta apenas o terrorismo em Moscovo. E, ao mesmo tempo que o terror atingia Moscovo, os Estados Unidos e o Reino Unido, no sudoeste asiático, bombardeavam Sanaa, a capital do Iémen, com pelo menos cinco ataques. Uma bela coordenação.

O Iémen acaba de concluir em Omã um acordo estratégico com a Rússia e a China para uma navegação sem entraves no Mar Vermelho e é um dos principais candidatos à expansão dos BRICS+ na cimeira de Kazan, em outubro. Assegurar à China e à Rússia que os seus navios podem atravessar sem problemas o Bab-al-Mandeb, o Mar Vermelho e o Golfo de Aden é trocar o apoio político total de Pequim e Moscovo.

Os patrocinadores continuam a ser os mesmos

Moscovo, na calada da noite, antes do amanhecer de sábado, dia 23. Quase ninguém está a dormir. Os rumores dançam como lobos. É claro que nada foi confirmado – ainda. Só o FSB terá respostas. Está a decorrer uma investigação exaustiva.

A data do massacre de Crocus é bastante intrigante. Uma sexta-feira durante o Ramadão. Os verdadeiros muçulmanos nem sequer pensariam em levar a cabo um assassínio em massa de civis desarmados numa ocasião tão sagrada. Comparem isso com a carta do ISIS, freneticamente brandida pelos suspeitos do costume.

Para citar os Talking Heads: “Isto não é uma festa/isto não é uma discoteca/ isto não é uma brincadeira”. Não, é mais uma operação psicológica americana. Os membros do ISIS são mercenários/bandidos de desenho animado. Não são muçulmanos a sério. E toda a gente sabe quem os financia e arma.

Isto leva-nos ao cenário mais plausível, antes da intervenção do FSB: capangas do ISIS importados do campo de batalha sírio – neste momento, provavelmente tajiques – treinados pela CIA e pelo MI6, a trabalhar por conta do SBU ucraniano. Várias testemunhas no Crocus falaram de “wahhabitas”.

O sérvio Aleksandar Vucic foi direito ao assunto. Estabeleceu uma ligação direta entre os “avisos” emitidos no início de março pelas embaixadas americana e britânica aos seus cidadãos – pedindo-lhes que não se deslocassem a locais públicos em Moscovo -, e o facto de os serviços secretos da CIA e do MI6 terem informações privilegiadas sobre possíveis atos terroristas e não as terem divulgado a Moscovo.

O enredo adensa-se quando se descobre que o Crocus pertence aos Agalarov, uma família bilionária do Azerbaijão e da Rússia, que são amigos muito próximos de… Donald Trump, o que faz deles um alvo óbvio do Estado Profundo. Derivados do ISIS ou da linha dura – os patrocinadores continuam a ser os mesmos. O palhaço do secretário do Conselho Nacional de Segurança e Defesa da Ucrânia, Oleksiy Danilov, foi suficientemente tolo para praticamente confirmar, indiretamente, que eles o tinham feito, dizendo à televisão ucraniana: “Vamos dar-lhes [aos russos] este tipo de diversão mais vezes”.

Mas foi Sergei Goncharov, um veterano da unidade antiterrorista de elite Russia Alpha, quem chegou mais perto de resolver o enigma: disse ao Sputnik que o autor mais provável do crime era Kyrylo Budanov – o chefe da principal direção de inteligência do Ministério da Defesa ucraniano. O “espião-chefe” que, por acaso, é o principal agente da CIA em Kiev.

É preciso ir até ao último ucraniano

As três evidências acima completam o que já foi dito pelo chefe do comité militar da NATO, Rob Bauer, num fórum de segurança em Kiev: “Precisamos de mais do que granadas. Precisamos de pessoas para substituir os mortos e os feridos”.

Tradução: A NATO está a deixar claro que esta é uma guerra até ao último ucraniano, e os “líderes” de Kiev ainda não perceberam. O antigo ministro das Infraestruturas, Omelyan, disse: “Se ganharmos, pagaremos com petróleo, gás, diamantes e peles russas. Se perdermos, não se vai falar de dinheiro – o Ocidente vai pensar em como sobreviver”.

 Entretanto, o insignificante “jardim e selva”, Borrell, admitiu que seria “difícil” para a UE encontrar mais 50 mil milhões de euros para Kiev, se Washington cancelasse a operação. Os líderes de camisola, cheios de cocaína, acreditam mesmo que Washington não os está a “ajudar” com empréstimos, mas com presentes. O mesmo se passa com a UE.

O Teatro do Absurdo é inigualável. O chanceler alemão da salsicha de fígado acredita mesmo que os rendimentos dos bens russos roubados “não pertencem a ninguém”, pelo que podem ser usados para financiar o armamento adicional de Kiev.

Toda a gente com dois dedos de testa sabe que usar os juros dos ativos russos “congelados”, na verdade roubados, para armar a Ucrânia é um beco sem saída – a não ser que roubem todos os ativos da Rússia, cerca de 200 mil milhões de dólares, na sua maioria depositados na Bélgica e na Suíça: isso afundaria o Euro de vez e toda a economia da UE.

Os eurocratas fariam melhor se ouvissem Elvira Nabiullina, a grande “perturbadora” (na terminologia americana) do Banco Central russo: o Banco da Rússia tomará “medidas apropriadas” se a UE fizer alguma coisa em relação aos ativos russos “congelados”/roubados.

Escusado será dizer que as três provas, acima desenvolvidas, anulam completamente o circo “La Cage aux Folles” promovido pelo insignificante Pequeno Rei, agora conhecido nos seus domínios franceses como MacroNapoleão. Praticamente todo o planeta, incluindo o Norte Global anglófono, já estava a gozar com as “proezas” do seu Exército CanCan, Moulin Rouge.

Assim, soldados franceses, alemães e polacos, no âmbito da NATO, já se encontram no sul de Kiev. O cenário mais plausível é que se mantenham muito, muito longe das linhas da frente – embora seja possível localizá-los através das atividades comerciais do Sr. Khinzal.

Mesmo antes da chegada deste novo contingente da NATO ao sul de Kiev, a Polónia – que é o principal corredor de trânsito das tropas de Kiev – tinha confirmado que as tropas ocidentais já se encontravam no terreno.

Portanto, já não se trata de mercenários. A França, aliás, está apenas em 7º lugar em termos de mercenários no terreno, muito atrás da Polónia, dos EUA e da Geórgia, por exemplo. O Ministério da Defesa russo tem todos os registos exatos.

Resumindo: agora, a guerra deslocou-se de Donetsk, Avdeyevka e Belgorod para Moscovo. Mais à frente, pode não parar apenas em Kiev. Poderá parar apenas em Lviv. O Sr. 87%, que goza de uma quase unanimidade nacional, tem agora o mandato para ir até ao fim. Sobretudo depois de Crocus.

É bem possível que as táticas de terror dos capangas de Kiev levem finalmente a Rússia a devolver a Ucrânia às suas fronteiras terrestres originais do século XVII: privada do Mar Negro, e com a Polónia, a Roménia e a Hungria a recuperarem os seus antigos territórios.

Os ucranianos que restarem interrogar-se-ão seriamente sobre o que os levou a lutar – literalmente até à morte – em nome do Estado Profundo dos EUA, do complexo militar e da BlackRock. Tal como as coisas estão, o moedor de carne da autoestrada para o inferno está destinado a atingir a velocidade máxima.

Fonte aqui.


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A Ocidente, uma desolada paisagem

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 23/03/2024)

Vamos esquecer, por agora, que há uma guerra europeia que se pode tornar mundial. Por amor à disciplina do pensamento crítico, enfrentemos esta dolorosa pergunta: o que é o Ocidente e quais os seus valores atuais? Comecemos pelos EUA, cuja perspetiva, seguindo as vozes autorizadas da Casa Branca e do Congresso, considera existir um saldo positivo desta guerra. O que está em causa não é, nem nunca foi, a vitória da Ucrânia, mas sim usar esse povo como aríete para enfraquecer a Rússia, de acordo com orientações estratégicas há muito públicas e publicadas.

Trinta anos a encostar a NATO às suas fronteiras, sobretudo na Ucrânia, levariam o Urso a acordar. Mas os EUA estavam em prontidão. As sanções, o ataque à exportação de petróleo e gás natural russos, o impedimento de mais oleodutos (sabotagem do Nordstream II), a fuga de cérebros, o fomento da instabilidade no Cáucaso, tudo isso já estava prescrito num vasto documento que mais parece uma declaração de guerra: James Dobbins et alia, Extending Russia. Competing from Advantageous Ground, Santa Monica, CA, Rand Corporation, 2019, 354 pp..

Nesse saldo positivo dos EUA, além da rutura dos laços entre Berlim e Moscovo, entra também o alargamento da NATO e a convicção de que a Europa vai aumentar, duradouramente, as compras em armamento norte-americano (quer ganhe Biden ou Trump), assegurando que o bom negócio, nutrido com centenas de milhares de mortos e estropiados na Ucrânia, não vai ser interrompido, mesmo depois do calar das armas.

E que pensar da UE, a outra metade do Ocidente? Nunca a Europa sofreu, em tempo de guerra, com líderes tão perigosamente impreparados para governar. Em setembro de 2022, o triunfalismo: a presidente da CE troçava dos russos, dizendo que a eficácia das sanções obrigava Moscovo a usar os chips dos eletrodomésticos para fins militares… Hoje, um pânico antigo (“Vêm aí os russos!”) percorre as capitais europeias. Basta ouvir o “valente” Macron, ou ler o apavorado Charles Michel. Não só a Rússia resistiu às sanções, como cresceu com elas, diversificando a sua economia (isso já estava a ocorrer, desde as sanções de 2014, por causa da Crimeia).

Surpreendentemente, a indústria militar russa suplantou o conjunto da produção ocidental em material bélico corrente, como obuses de artilharia. Mas partir daí para lançar a mentira incendiária de que a Rússia quer atacar a NATO é criminoso. Putin sabe que isso desencadearia uma autodestruição generalizada. Esta guerra, além de ter enterrado o Pacto Ecológico Europeu, significou uma total subordinação europeia aos interesses do complexo militar-industrial e energético que governa os EUA. O europeísmo foi engolido pela máquina trituradora do belicismo. Nos próximos anos, pendularmente, o nacionalismo regressará em força. A Alemanha será comprimida entre uma França ressentida e uma Polónia militarista, atrelada a Washington. Se, ou quando, o euro vacilar, a “balança da Europa” entrará em ebulição.

Finalmente, o genocídio em Gaza marca a certidão de óbito dos alegados “valores ocidentais”. O direito à vida tem um valor de mercado. Modesto para as vidas ucranianas. A preço de saldo para os corpos palestinianos.

Berlim, tristemente, repete a maldição de estar sempre no lado errado: apoia os autores do genocídio de hoje, porque estes foram vítimas do seu genocídio de ontem… O crepúsculo ocidental é desolador. Nem um pingo de transcendência. Uma ruidosa e amnésica vontade de poder, sem alma nem culpa.

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