Um saneamento político disfarçado de interesse público na Santa Casa

(Carmo Afonso, in Público, 01/05/2024)


O Governo inventou uma narrativa para iludir os portugueses. E combinou tudo com a CML. Nunca o executivo de Moedas tinha feito qualquer comunicado a dar conta de uma insatisfação com a Santa Casa.


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O comunicado do Governo que anuncia a exoneração da Mesa da Santa Casa da Misericórdia, incluindo a provedora Ana Jorge, contém acusações e considerações gravíssimas sobre a atuação da equipa. Não me ocorre nada mais grave do que afirmar que aquela gestão não se pautava pelo grau de diligência, rigor e transparência que são devidos pelo interesse público. Não fizeram por menos. Basicamente acusaram a Mesa de incompetência e de falta de integridade.

O comunicado é descritivo das situações que identificam como graves e das falhas que imputam à equipa de Ana Jorge, como por exemplo a redução da ação social da instituição. Notou-se uma extrema preocupação com a fundamentação da decisão tomada. É impossível não associar este comunicado ao da vereadora da Câmara Municipal de Lisboa (CML) Sofia Athayde, que, no mesmo dia, denunciou a falta de capacidade da Santa Casa no domínio da ação social. É inegável a concertação. Chega a ser infantil esperarem que os dois comunicados sejam interpretados como sendo uma coincidência.

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Antes da exoneração foi dada oportunidade a Ana Jorge de apresentar um plano de reestruturação para a Santa Casa. Mas também aqui houve manha. Deram à provedora um prazo de 15 dias para apresentar esse plano e qualquer pessoa que tenha a mínima noção do que é um plano de reestruturação sabe que não é possível fazê-lo em 15 dias.

O Governo montou uma encenação: um comunicado contendo acusações gravíssimas, articulado com outro comunicado, do mesmo dia, da CML, que lhe dava razão e exigiu um prazo que não tinha cumprimento possível. Porquê?

Não é fácil acreditar que estavam a acautelar o interesse público. Do que se sabe a situação financeira da Santa Casa melhorou no último ano, aliás, teve um resultado positivo. E, acima de tudo, quando se age em conformidade com o interesse público não é preciso inventar tanto. Os factos costumam falar por si e não é preciso criá-los.

O Governo inventou uma narrativa para iludir os portugueses. E combinou tudo com a CML. Reparem que nunca o executivo de Moedas tinha feito qualquer comunicado a dar conta de uma insatisfação com os serviços da Santa Casa. Calhou terem-no feito logo no mesmo dia em que o Governo afirmou que “multiplicam-se os alertas de redução significativa da ação social da SCML”. Como é que um executivo camarário está disponível para alinhar nestes esquemas? Bom, deu-se ainda outra improvável coincidência: é que no mesmo dia soubemos dos resultados financeiros do exercício de 2023 da CML e as notícias não eram agradáveis. Um prejuízo de quase 19 milhões de euros. Costa e Medina tinham conseguido pagar as dívidas do município e equilibrar as contas. Carlos Moedas, que parecia ser tão bom com números e contas, não conseguiu melhor do que isto. Mas a verdade é que essa notícia foi eclipsada pelas notícias da exoneração de Ana Jorge. Tudo correu de feição.

Pelo caminho, denegriram o bom nome e a honra de muitos profissionais. A acreditar no comunicado do Governo, esses profissionais não passam de uma cambada de incapazes. O que dá mais graça às afirmações de ontem de Luís Montenegro: “É preciso desdramatizar.” Claro, organizam uma fita para acusar as pessoas de não estarem à altura – em competência técnica, dedicação e código ético – das funções que desempenham e, a seguir, apelam à desdramatização.

Deveriam ter sido os próprios a não dramatizar. Queriam uma equipa com a qual tivessem mais afinidade política? Muito bem. Dispensavam-se as manobras para fazer parecer necessária uma decisão que não era nada necessária. Invocar o interesse público para justificar decisões que se prendem com afinidades políticas (já nem digo pessoais) é de alguma forma uma heresia.

Não é a primeira vez. Também no caso de Fernando Araújo foi criada toda uma narrativa para fazer algo que era simples: afastá-lo do cargo. O Governo parece não ter coragem para afirmar a sua vontade sem rodeios e sem justificações. Essa falta de coragem provoca danos na reputação daqueles que quer afastar dos cargos. A razão para estas atuações é fácil de perceber: o Governo não quer ser acusado de fazer saneamentos políticos.

Mas é péssima estratégia e péssimo procedimento. Além dos saneamentos políticos, que são evidentes, põem-se a jeito para descodificarmos o método calculista, premeditado e pouco sério.

A autora é colunista o PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico


Quando Netanyahu pede o bloqueio do TPI as autoridades dos EUA correm a obedecer

(Al Mayadeen in Réseau Internationale 01/05/2024)

Os legisladores norte-americanos de ambos os partidos estão a ameaçar o Tribunal Penal Internacional com medidas retaliatórias se este cumprir a sua missão contra autoridades israelitas.


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O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, pediu ao presidente dos EUA, Joe Biden, que garanta que o Tribunal Penal Internacional (TPI) não emita mandados de prisão para altos funcionários israelenses responsáveis ​​por crimes de guerra na Faixa de Gaza, disse Axios citando dois funcionários israelenses. Axios é um site de notícias americano com sede em Arlington, Virgínia. Foi fundado em 2016 e lançado no ano seguinte pelos ex-jornalistas do Politico Jim VandeHei, Mike Allen e Roy Schwartz.

Os nomes de Netanyahu, do ministro da Segurança, Yoav Gallant, e do chefe do Estado-Maior das forças de ocupação israelenses, Herzi Halevi, teriam sido citados como suspeitos de crimes de guerra que o TPI tentaria processar.

De acordo com Axios, Netanyahu expressou preocupação com os crescentes relatos de que poderiam ser emitidos mandados de prisão, durante um telefonema com Biden sobre os desenvolvimentos regionais e o acordo de troca de prisioneiros com a Resistência Palestina.

O TPI investigou crimes de guerra cometidos em 2014 na Faixa de Gaza, mas não tomou decisões punitivas contra indivíduos.

Um porta-voz do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca recusou-se a comentar o conteúdo da ligação de Netanyahu com Biden, mas disse à Axios :

“ Como dissemos publicamente em diversas ocasiões, o TPI não tem jurisdição nesta situação e não apoiamos a sua investigação .”

No entanto, o mandado de detenção do TPI para o presidente russo, Vladimir Putin, em conexão com o conflito na Ucrânia, ganhou o apoio dos Estados Unidos e de outros países ocidentais.

Anteriormente, o vice-porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Vedant Patel, disse aos repórteres que as ações militares israelenses em Gaza não eram comparáveis ​​às operações russas na Ucrânia. Questionado sobre por que os Estados Unidos se opuseram a uma possível ação do TPI contra autoridades israelenses, mas apoiaram a ação do TPI contra a Rússia, Patel disse:

“Não há equivalência moral entre o que vemos [ do presidente russo Vladimir Putin ] e o que o governo israelense faz .”

Ele acrescentou que os Estados Unidos acreditam que o TPI não tem jurisdição para julgar a situação palestina. Patel enfatizou que os Estados Unidos não são signatários do tratado que estabeleceu o TPI.

Membros do Congresso dos partidos Democrata e Republicano estão alertando o TPI contra a emissão de mandados de prisão para altos funcionários israelenses, informou mais tarde a Axios .

À medida que a situação continua a deteriorar-se, os legisladores dos EUA teriam ameaçado o TPI com retaliação se este tomasse medidas legais contra autoridades israelitas.

A posição israelense sobre a questão foi adotada por muitos legisladores, incluindo o presidente da Câmara, Mike Johnson, que chamou os mandatos relatados de “escandalosos ” e “contrários à lei ” .

Johnson apelou à administração Biden para “exigir imediata e inequivocamente que o TPI cesse as suas atividades e “use todas as ferramentas disponíveis para prevenir tal abominação” .

Além disso, um membro republicano não identificado da Câmara dos Representantes disse que um projeto de lei já estava sendo desenvolvido para abordar possíveis mandatos. O presidente do Comitê de Relações Exteriores da Câmara, Michael McCaul, disse à Axios que espera uma versão do projeto de lei do senador Tom Cotton para sancionar funcionários públicos da Câmara do TPI envolvidos em investigações sobre os Estados Unidos e seus aliados.

Os Estados Unidos são mais uma vez rápidos a mobilizar-se em defesa do regime israelita e dos seus agentes criminosos, ao mesmo tempo que afirmam que as suas práticas de relações externas e declarações públicas são de elevados padrões éticos.


O Porto é o espelho do que pode ser a Nação

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 28/04/2024)

O Futebol Clube do Porto é o espelho da Nação? Não, não é. A Nação não tem espelho, mas a vitória de André Vilas Boas nas eleições para a presidência do Futebol Clube do Porto reflete muitas das expressões de que a nossa sociedade pode tomar perante os desafios de sobrevivência.


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No caso das eleições para a presidência de Futebol Clube do Porto estava em causa a sobrevivência de uma grande instituição popular. Era, na realidade essa a situação e foi essa percepção que os sócios tiveram, percebendo do que se tratava. O governo do FCP, como nas sociedades em geral, fora tomado há muitos anos por uma oligarquia. O processo de tomada do poder processara-se da forma mais insidiosa — mas costumeira — através de eleições em que um grupo se apresenta como a salvação e, depois de instalado, se organiza para se perpetuar no poder, transmitindo a ideia de que ou somos nós ou é caos, enquanto recrutam grupos de mercenários para trabalhos sujos de propaganda e intimidação.

O processo é conhecido e já tem um designativo atual: democracias iliberais. A primeira democracia iliberal da era moderna foi a dos Estados Unidos da América, a última da era antiga foi a Inglaterra. Quer uma, quer outra, são apresentados como o nec plus ultra dos sistemas de governo. Até tiveram um propagandista que lhes atribuiu a glória de serem o «Fim da História». Pelo seu lado, os autores do capítulo do Génesis da Bíblia afirmam ter sido ouvido o Criador proferir: Mais e melhor não consegui fazer. (magis et magis non potui)

Acreditei que o “sistema” que tanto serve a Biden como a Trump, como serviu a a Churchill ou a Berlusconi, atualmente a Macron como a Boris Johnson (ou aos seus valetes) iria funcionar e que Pinto da Costa seria reeleito com mais ou menos venda de lugares e benesses, com mais ou menos fruta, em todos os sentidos, incluindo a que o Macaco (não sei o nome de batismo da personagem do escudeiro que recebe na prisão preventiva os votos de solidariedade de Pinto da Costa, o seu senhor) distribui.

Perante a vitória do desafiador Vilas Boas, tenho de reconhecer que a mobilização para a afluência às urnas e os votos no opositor de Pinto da Costa revelam que quando existe consciência do perigo de derrocada das velhas e corruptas estacas em que assenta o edifício, os cidadãos se mobilizam para o salvar e o puderem continuar a habitar.

Esta lição pode servir para outras situações que não a do futebol, pode servir para pensarmos que a salvação das sociedades em geral depende da proximidade dos cidadãos daquilo que está em causa, da tomada de consciência dos riscos de deixar nas mãos de representantes o que lhes diz respeito. É uma lição política!

Os oligarcas — como era o caso a nível do negócio do futebol — têm por método de se eternizarem no poder e dele retirarem os benefícios a utilização do truque de fazerem os cidadãos olharem para a ponta do seu dedo, criando factos que os distraiam do essencial, enquanto tratam dos seus negócios.

É assim que os políticos populistas deixam os cidadãos (tal como os sócios de um clube) de fora das decisões que determinam as suas vidas, desde o valor do dinheiro às guerras onde os envolvem. A vitória de Vilas Boas e a ação dos sócios do Futebol Clube do Porto constituem uma lição para que os cidadãos repensem a “democracia” que lhes está a ser servida para, na realidade, servir os Pintos da Costa dos negócios, para que os cidadãos tomem consciência, como os sócios do Futebol Clube do Porto que os seus votos não podem servir para legitimar o seu afastamento da política, isto é, do que na verdade se encontra na raiz dos seus interesses. Que os seus votos, ou a sua abstenção, a sua alienação, não podem servir para justificar a apropriação de poderes por um grupo organizado.