O Antigo Testamento – um manual de maus costumes

(Whale project, in Estátua de Sal, 13/05/2024, revisão da Estátua)


(Este artigo resulta de um comentário a um texto que publicámos, de Chris Hedges, sobre os protestos nas universidades americanas contra a atuação de Israel em Gaza, (ver aqui). Pela sua atualidade, explicando as origens antigas da crença dos judeus no seu destino de “povo eleito”, resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 14/05/2024)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

O escritor José Saramago, quase no fim da vida, ia sendo crucificado por dizer que a Bíblia era um manual de maus costumes.

Chamaram tudo ao homem mas, a verdade, é que o Antigo Testamento, ainda hoje seguido à letra pelos sionistas, é mesmo um manual de maus costumes.

E, um dos piores costumes lá relatados, para além de incestos, pais que matam filhos e filhos que matam pais, incentivos à violência contra crianças e jovens, é justamente o genocídio.

Segundo o mito fundador judaico, o tal Antigo Testamento, a primeira vítima foram os midianitas, ainda sob o comando de Moisés. Os guerreiros mataram todos os indivíduos do sexo masculino, dos velhos aos bebés, mas pouparam as mulheres. Ainda segundo este mito, Moisés terá ordenado que se matassem também as mulheres, exceto “as que nunca tiveram contacto com um macho”. Estás, deveriam rapar o cabelo e cortar as unhas, tornando-se escravas sexuais animalizadas dos assassinos das suas famílias. Mais lhes valeria a morte.

Tal como a Palestina do Século XX também a terra de Canaã tinha gente. Gente que nem sequer devia ser escravizada, devia ser toda morta, porque era impura e indigna de partilhar a terra com o povo de Deus. E, tal como hoje se desumanizam os palestinianos dizendo que são todos uns terroristas, se maltratam mulheres e se bodeiam homossexuais, também naquele tempo os cananeus eram acusados de licenciosidade sexual e sacrifício de crianças.

Nunca consegui perceber porque é que tal justificava que um bando de barbudos entrasse nas suas cidades e matasse, dos bebés aos velhos, e até os animais. No caso dos Amalequitas, o tal povo invocado pelo Netanyahu para justificar o seu genocídio, teria sido dada ordem para matar até os animais.

O primeiro rei de Israel, Saul, teria perdido os favores do carrancudo Deus de Israel por ter poupado a família real amalequita e alguns dos melhores animais, certamente a pensar numa eventual obtenção de um resgate por parte de povos aliados de Amaleque. O rei amalequita teria acabado retalhado por Samuel, um ensandecido e sanguinário sacerdote, que teria sido entregue pela mãe para servir os sacerdotes no templo, com a idade de seis anos.

Esta narrativa tornou-se um bico-de-obra para os cristãos quando se tratou de converter este Deus, apoiante do genocídio total, num Deus de paz, amor e perdão. O Islão resolveu o problema dizendo que Deus fez o seu pacto com Ismael e seus descendentes, e não com a descendência de Isaque. E que, mesmo fazendo-se a guerra santa contra os infiéis, se deveria dar uma oportunidade de conversão. Ou seja, Deus não mandou cometer genocídio, porra nenhuma. É talvez isso explique um bom número de confusões no islamismo.

O problema disto tudo é que os sionistas não evoluíram. Continuam como há quatro mil anos atrás. A maior parte dos católicos de hoje considera que os crimes da Inquisição foram isso mesmo, crimes. A maioria dos protestantes não caçaria hoje bruxas. Mas os sionistas voltariam a chacinar os cananeus e, é mesmo por isso, que hoje matam palestinianos como quem mata cães.

Os que protestam contra o genocídio mostram-se perplexos com o ódio manifestado pelos sionistas. Porque o sionismo é uma doutrina de ódio. Uma doutrina de vingança. Uma doutrina que diz que a vingança deve continuar até à septuagésima geração dos seus inimigos.

Eles vivem há quatro mil anos atrás mas usam a mais moderna tecnologia do século XXI para matar, matar e matar. Se pudessem matar todos os críticos de Israel, como estão a matar os palestinianos, não hesitariam um segundo. Mas, o que puderem fazer para lhes dar cabo do futuro, não deixarão de o fazer. Por isso é de louvar a coragem de quem não se cala. Apesar das ameaças, dos discursos de ódio de quem se baixa ao seu poderio económico, apesar de tudo.

Viva a coragem porque bem precisamos dela.


A batalha pela verdade factual

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 11/05/2024)

Quando em 1968 as forças do Vietname do Norte e da guerrilha Vietcongue iniciaram a sua poderosa Ofensiva do Tet, contra as tropas de Saigão e dos EUA, tinha eu acabado de completar 10 anos.

Lembro-me, vivamente, de como, apesar da censura, o trabalho dos repórteres ocidentais revelava cruamente, em imagens ainda hoje icónicas (como a da execução, à queima-roupa, de um prisioneiro comunista), a brutalidade da guerra. Nos lares de meio mundo, era possível ver as baixas e o sofrimento dos militares vindos das grandes cidades e do recôndito rural dos EUA. Nessa altura, a expressão “quarto poder” não era um exagero retórico, como o Caso Watergate o voltaria a provar em 1972. Contudo, os poderes que contam – o dinheiro e o seu braço político – aprenderam a prevenir, com mais ou menos sofisticação, essa liberdade capaz de manifestar a exuberância nua dos factos.

Sem o poder da imprensa livre, a Guerra do Vietname teria continuado e Nixon completaria tranquilamente o seu mandato.

Pouco antes da Ofensiva do Tet, a filósofa Hannah Arendt publicou na revista New Yorker um presciente ensaio intitulado Verdade e Política. Arendt salienta que o poder político tem uma incompatibilidade radical com a mais elementar manifestação da verdade, aquela que se limita a relatar e situar os acontecimentos nas coordenadas do espaço e do tempo: a verdade factual. A filósofa identifica até um conjunto de profissões e papéis sociais cuja essência consiste em testemunhar e defender a objetividade factual, correndo os seus praticantes o risco de ficarem sozinhos, ocupando “um ponto de vista fora do campo político”. O filósofo, o cientista, o artista, o historiador imparcial, o juiz, a testemunha e o repórter são, para ela, protagonistas de diferentes formas de dizer e defender a verdade factual.

Os factos suscitam opiniões e interpretações, mas não se confundem com elas. O conteúdo absoluto e único dos factos, é, contudo, muito frágil. Depende de validação, como ocorre nas testemunhas oculares de um crime chamadas a tribunal. Um exemplo: podem existir várias e contraditórias interpretações sobre as causas da I Guerra Mundial, mas nenhum revisionismo histórico pode anular a verdade factual absoluta de que a 4 de agosto de 1914, foi a Alemanha que invadiu a Bélgica e não o contrário.

A verdade factual está hoje em perigo por toda a parte. As democracias liberais, em recuo, cada vez mais subordinadas a interesses financeiros globais, não escapam à vontade de selecionar apenas os “factos” que satisfaçam as interpretações convenientes. A precariedade crescente da comunicação social torna-a mais vulnerável e menos independente. O assassinato deliberado de jornalistas em Gaza, pelo Exército israelita, mostra como até democracias podem ultrapassar a rudeza das autocracias.

Em contracorrente, o jornalista Bruno Amaral de Carvalho publicou um livro singular: A Guerra a Leste. 8 Meses no Donbass, Caminho. Ele ousou mostrar as vozes e os rostos, as vítimas, as pessoas de carne e osso, do outro lado da Guerra da Ucrânia. Começou a conhecer o Donbass, em 2018, quando o ataque do Governo de Kiev à sua população a leste, silenciado no Ocidente, provocava a fuga de refugiados para a Rússia. A invasão de 2022 tem atrás de si uma série causal que só os factos ajudam a compreender. São um sinal de esperança, os verdadeiros repórteres que preferem arriscar testemunhar os factos, recusando serem meros repetidores de interpretações prontas a usar.

A Consciência da Nação

(Chris Hedges, In Scheerpost.com, 08/05/2024, Trad. Estátua de Sal)

(O autor deste artigo é um conceituado jornalista americano (ver aqui), que faz uma notável descrição do que se está a passar nas universidades americanas. Protestos contra Israel, sim, mas o movimento em marcha é mais que isso. Quando ainda existem jovens como os que aqui dão testemunho, na capital do Império, uma réstia de esperança ainda pode iluminar o coração dos justos. Talvez não seja ainda o fim de tudo.Talvez não seja demasiado tarde.

Estátua de Sal, 13/05/2024)


A postura corajosa dos estudantes em todo o país, desafiando o genocídio, é acompanhada por um apagão quase total das suas vozes. As suas palavras são as que mais precisamos ouvir.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

CIDADE DE NOVA IORQUE: Estou sentado numa escada de incêndio do outro lado da rua da Universidade de Columbia com três organizadores do protesto da Universidade de Columbia sobre Gaza. É noite. A polícia da cidade de Nova York, estacionada dentro e fora dos portões do campus, bloqueou o campus. Há barricadas bloqueando as ruas. Ninguém, a menos que more numa residência universitária no campus, pode entrar. O cerco significa que os alunos não podem ir às aulas. Os alunos não podem ir à biblioteca. Os alunos não podem entrar nos laboratórios. Os estudantes não podem deslocar-se aos serviços de saúde universitários. Os alunos não podem ir aos estúdios para praticar. Os alunos não podem assistir às aulas. Os alunos não podem caminhar pelos relvados do campus. A universidade, tal como durante a pandemia de Covid, retirou-se para o mundo dos ecrãs onde os alunos ficam isolados nas suas salas.

Os edifícios da universidade estão praticamente vazios. Os caminhos do campus estão desertos. Columbia é uma universidade Potemkin, um playground para administradores corporativos. A reitora da universidade – uma baronesa anglo-egípcia que construiu a sua carreira em instituições como o Banco da Inglaterra, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional – convocou a polícia com equipamento antimotim, com armas em punho, para limpar o acampamento da escola, despejando à força estudantes que ocuparam uma sala do campus e espancaram e prenderam mais de 100. Eles foram presos por “invasão criminosa” no seu próprio campus.

Estes administradores exigem, como todos os que gerem sistemas corporativos de poder, obediência total. Dissidência. Liberdade de expressão. Pensamento crítico. Indignação moral. Isso não tem lugar em nossas universidades contratadas e financiadas pelas empresas.

Todos os sistemas de totalitarismo, incluindo o totalitarismo corporativo, deformam a educação em formação profissional onde os alunos aprendem o que pensar e não como pensar. Apenas as competências e conhecimentos exigidos pelo Estado corporativo são valorizados. O desaparecimento das humanidades e a transformação das principais universidades de investigação em escolas vocacionais empresariais e do Departamento de Defesa, com a sua ênfase descomunal na ciência, tecnologia, engenharia e matemática, ilustram esta mudança. Os estudantes que perturbam a Universidade Potemkin, os estudantes que ousam pensar por si próprios, enfrentam espancamentos , suspensão , prisão e expulsão.

Os mandarins que dirigem a Universidade de Columbia e outras universidades, corporativistas que ganham salários de centenas de milhares de dólares, supervisionam as novas gerações académicas. Eles tratam os seus professores adjuntos mal pagos, que muitas vezes não têm seguro de saúde e benefícios, como servos. Eles servem servilmente os interesses de doadores ricos e das corporações. Eles são protegidos por segurança privada. Eles desprezam os estudantes, forçados a uma onerosa servidão por dívida pela sua educação, que são não-conformistas, que desafiam os seus feudos e clamam contra a sua cumplicidade no genocídio.

A Universidade de Columbia, com uma doação de 13,64 biliões de dólares, cobra aos estudantes pela frequência quase 90 mil dólares por ano. Mas os estudantes não estão autorizados a opor-se quando o dinheiro dos seus impostos e propinas financia o genocídio, ou quando o pagamento das propinas é usado para os ver agredidos e enviados para a prisão., juntamente com os apoiantes do corpo docente. Eles são, como disse Joe Biden, membros de “grupos de ódio”. Eles são – como disse o líder da maioria no Senado, Chuck Schumer, sobre aqueles que ocuparam Hamilton Hall em Columbia, renomeando-o como Hind Hall, em homenagem a uma menina palestina de seis anos, Hind Rajab, que foi assassinada pelas forças israelitas depois de passar 12 dias presa num carro com seus seis parentes mortos – envolvidos em “ilegalidade”.

Durante o ataque de dezenas de policias ao salão ocupado, um estudante ficou inconsciente, vários foram espancados e encaminhados para o hospital e um tiro foi disparado por um policia dentro do salão. O uso excessivo da força é justificado com a mentira de que existem infiltrados e agitadores externos a dirigir o protesto. À medida que os protestos continuarem, e continuarão, este uso da força tornar-se-á mais draconiano.

“A universidade é um lugar de acumulação de capital”, diz Sara Wexler, estudante de doutoramento em filosofia, sentada com outros dois estudantes na escada de incêndio. “Temos doações de biliões de dólares que estão ligadas a Israel e às empresas de defesa. Estamos a ser confrontados com o facto de que as universidades não são democráticas. Você tem um conselho de administração e investidores que realmente tomam as decisões. Mesmo que os alunos tenham votos dizendo que querem o desinvestimento e o corpo docente queira o desinvestimento, na verdade não temos nenhum poder porque eles podem ligar para o NYPD.” (Departamento de Policia de Nova Iorque, NT).

Há uma determinação férrea por parte das instituições governamentais, incluindo os meios de comunicação social, de desviar a narrativa do genocídio em Gaza para ameaças contra estudantes judeus e antissemitismo. A raiva que os manifestantes sentem pelos jornalistas, especialmente os de organizações noticiosas como a CNN e o The New York Times, é intensa e justificada.

“Sou um judeu alemão-polaco”, diz Wexler. “O meu sobrenome é Wexler. Significa em iídiche, fazedor de dinheiro, cambista. Não importa quantas vezes eu diga às pessoas que sou judeu, ainda sou rotulado de antissemita. É irritante. Dizem-nos que precisamos de um Estado no século XXI baseado na etnia, e que essa é a única forma de o povo judeu estar seguro. Mas, na verdade, o que se pretende é que a Grã-Bretanha, a América e a outros estados imperialistas tenham uma presença no Médio Oriente. Não sei porque é que as pessoas ainda acreditam em tal narrativa. Não faz sentido ter um lugar para o povo judeu, que exija que outras pessoas sofram e morram.”

Já antes vi este ataque às universidades e à liberdade de expressão. Vi isso no Chile de Augusto Pinochet, na ditadura militar em El Salvador, na Guatemala sob Rios Montt, e durante a minha cobertura dos regimes militares na Argentina, Peru, Bolívia, Síria, Iraque e Argélia.

A Universidade de Columbia, com seus portões trancados, filas de viaturas policiais, fileiras de barricadas de metal de três e quatro filas, enxames de policias uniformizados e seguranças particulares, não parece diferente. Não parece diferente, porque não é diferente.

Bem-vindo à nossa ditadura corporativa.

A cacofonia das ruas de Nova Iorque pontua a nossa conversa. Os alunos sabem o que estão a arriscar. Eles sabem o que estão a enfrentar.

Os ativistas estudantis esperaram meses antes de montar os acampamentos. Tentaram, repetidamente, que as suas vozes fossem ouvidas e as suas preocupações abordadas. Mas foram rejeitados, ignorados e assediados. Em Novembro, os estudantes apresentaram uma petição à universidade apelando ao desinvestimento nas empresas israelitas que facilitam o genocídio. Ninguém se preocupou em responder.

Os manifestantes sofrem abusos constantes. A 25 de abril, durante o cruzeiro de barco para idosos em Columbia, estudantes muçulmanos e outros identificados como apoiantes dos protestos, tiveram álcool derramado na cabeça e nas roupas, uma ação de chacota de sionistas. Em janeiro, ex-soldados israelitas que estudavam em Columbia usaram spray de gambá para agredir estudantes nos degraus da Biblioteca Lowe. A universidade, sob forte pressão assim que os agressores foram identificados, disse ter banido os ex-soldados do campus, mas outros estudantes relataram ter visto um dos homens no campus recentemente. Quando estudantes judeus no acampamento tentaram preparar as suas refeições na cozinha kosher do Seminário Teológico Judaico, foram insultados pelos sionistas que estavam no edifício. Os contramanifestantes sionistas juntaram-se no campus ao fundador da organização supremacista branca Proud Boys. Os estudantes tiveram as suas informações pessoais publicadas na Missão Canárias e encontraram os seus rostos nas laterais dos camiões que circulavam pelo campus, denunciando-os como antissemitas.

Estes ataques são replicados noutras universidades, incluindo a UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles, NT), onde sionistas mascarados libertaram ratos e atiraram fogos de artifício para o acampamento e transmitiram o som de crianças a chorar – algo que o exército israelita faz para atrair os palestinianos em Gaza para fora do esconderijo e matá-los. A multidão sionista, armada com pimenta e spray contra ursos, atacou violentamente os manifestantes, enquanto a polícia e a segurança do campus observavam passivamente e se recusavam a fazer prisões.

“Na gala de Estudos Gerais, que é uma das escolas de graduação que tem uma grande população de ex-soldados das FDI, pelo menos oito alunos usando keffiyehs foram assediados física e verbalmente por estudantes identificados como ex-FDI e israelitas”, disse-me Cameron Jones, um estudante do segundo ano com especialização em estudos urbanos e que é judeu. “Os alunos eram chamados de ‘vadia’ e ‘prostituta’ em hebraico. Alguns foram chamados de terroristas e mandados a voltar para Gaza. Muitos dos estudantes perseguidos eram árabes, alguns tiveram os seus keffiyehs arrancados e atirados ao chão. Vários estudantes com keffiyehs foram agarrados e empurrados. Um estudante judeu usando um keffiyeh foi xingado em hebraico e mais tarde levou um soco no rosto. Outro aluno foi pontapeado. O evento terminou com dezenas de estudantes a cantarem o hino nacional israelita, alguns deles empurrando alunos usando keffiyehs. Fui seguido pelo campus por vários indivíduos, fui amaldiçoado e ouvi obscenidades gritadas contra mim”.

A universidade recusou-se a repreender aqueles que perturbaram a gala, embora os indivíduos que cometeram as agressões tenham sido identificados.

As universidades contrataram pessoas como Cas Halloway, atualmente diretor de operações em Columbia, que foi vice-prefeito de operações no governo de Michael Bloomberg. Holloway, supostamente supervisionou a libertação policial do acampamento Occupy no Parque Zuccotti. Este é o tipo de especialização que as universidades desejam.

Em Columbia, os organizadores estudantis, após as prisões e despejos em massa do seu acampamento e de Hind Hall, convocaram greves em toda a universidade, de professores, funcionários e estudantes. Columbia cancelou as aulas em toda a universidade.

Estou no campus da Universidade de Princeton. É depois das orações noturnas que 17 estudantes que fizeram greve de fome estão sentados juntos, muitos deles enrolados em cobertores.

À medida que as universidades aumentam a repressão, os manifestantes intensificam a sua resposta. Os estudantes de Princeton realizaram comícios e greves ao longo de outubro e novembro, que culminaram num protesto no Conselho da Comunidade da Universidade de Princeton, composto por administradores, estudantes, funcionários, reitores e o presidente. Eles foram recebidos em cada protesto com um muro de silêncio.

Os estudantes de Princeton decidiram, seguindo o exemplo de Columbia, montar um acampamento em tendas em 25 de Abril e emitiram uma série de exigências apelando à universidade para “desinvestir e dissociar-se de Israel”. Mas quando chegaram de manhã cedo às suas áreas de concentração, bem como ao local em frente à Biblioteca Firestone, que esperavam usar para um acampamento, encontraram dezenas de polícias do campus e da polícia da cidade de Princeton que tinham sido avisados. Os estudantes ocuparam à pressa outro local no campus, McCosh Courtyard. Dois estudantes foram imediatamente presos, despejados dos seus alojamentos estudantis e banidos do campus. A polícia forçou os estudantes restantes a desmontarem as tendas. Os manifestantes no acampamento têm dormido ao ar livre, inclusive quando chove.

Num ato de ironia, que os estudantes ainda não perderam, espalhadas pelo campus de Princeton estão enormes tendas montadas para o fim de semana de reunião, onde os ex-alunos bebem grandes quantidades de álcool e se vestem com roupas berrantes com as cores da escola, laranja e preto. Os manifestantes estão proibidos de entrar neles.

Treze estudantes de Princeton ocuparam o Clio Hall em 29 de abril. Eles, assim como os seus colegas de Columbia, foram presos e agora estão proibidos de entrar no campus. Cerca de 200 estudantes cercaram o Clio Hall em solidariedade enquanto os estudantes ocupantes eram levados pela polícia. Enquanto eram processados ​​pela polícia, os estudantes presos cantaram o espiritual negro Roll Jordan Roll, alterando a letra para “Bem, alguns dizem que John era batista, alguns dizem que John era palestino, mas eu digo que John era um pregador de Deus e a minha Bíblia também diz isso.”

Os grevistas da fome, que iniciaram a sua dieta apenas com líquidos em 3 de maio, emitiram esta declaração:

O Acampamento de Solidariedade de Princeton Gaza anuncia o início de uma greve de fome em solidariedade com os milhões de palestinianos em Gaza que sofrem sob o cerco contínuo do Estado de Israel. A ocupação israelita bloqueou deliberadamente o acesso às necessidades básicas para provocar uma fome terrível para os dois milhões de residentes de Gaza. Desde o anúncio, em 9 de Outubro, do Ministro da Defesa israelita, de proibir a entrada de alimentos, combustível e eletricidade na Faixa de Gaza, Israel tem obstruído e limitado sistematicamente o acesso à ajuda vital para os palestinianos em Gaza, destruindo mesmo intencionalmente as terras agrícolas existentes. Em 18 de Março, o Secretário-Geral da ONU declarou que “Este é o maior número de pessoas que enfrentam uma fome catastrófica alguma vez registado pelo sistema integrado de classificação de segurança alimentar”. Para fazer pão, os habitantes de Gaza foram forçados a usar ração animal como farinha. Para quebrar o jejum no Ramadão, os habitantes de Gaza foram forçados a preparar refeições com erva. 97% da água de Gaza foi considerada imprópria desde Outubro de 2021 e foram forçados a beber água salgada suja para sobreviver. As consequências desta fome sem precedentes, criada e mantida por Israel devastarão as crianças de Gaza durante as gerações vindouras e não poderão continuar a ser toleradas. Iniciámos a nossa greve de fome para nos solidarizarmos com o povo de Gaza. Inspiramo-nos na tradição dos prisioneiros políticos palestinianos que fazem greves de fome apenas com água salgada nas prisões israelitas desde 1968. A nossa greve de fome é uma resposta à recusa da administração em aceitar as nossas exigências de dissociação e desinvestimento de Israel. Recusamo-nos a ser silenciados pelas táticas de intimidação e repressão da administração universitária. Lutamos juntos em solidariedade com o povo da Palestina. Comprometemos nossos corpos com sua libertação. Os participantes nas greves de fome abster-se-ão de toda comida ou bebida, exceto água, até que as seguintes exigências sejam atendidas:

• Reunir-se com estudantes para discutir exigências de divulgação, desinvestimento e um boicote académico e cultural total a Israel.

• Conceder anistia completa de todas as acusações criminais e disciplinares aos participantes do protesto pacífico.

• Reverter todas as proibições e despejos de estudantes no campus.

A universidade e o mundo devem reconhecer que nos recusamos a ser cúmplices do genocídio e tomaremos todas as medidas necessárias para mudar esta realidade. A nossa greve de fome, embora pequena em comparação com o sofrimento duradouro do povo palestiniano, simboliza o nosso compromisso inabalável com a justiça e a solidariedade.

O presidente da universidade, Christopher Eisgruber, reuniu-se com os grevistas da fome – a primeira reunião de administradores escolares com manifestantes desde 7 de outubro – mas rejeitou as suas exigências.

“Esta é provavelmente a coisa mais importante que fiz aqui”, diz Areeq Hasan, estudante do último ano que fará o doutoramento em física aplicada no próximo ano em Stanford, e que também faz greve de fome. “Se estivermos numa escala de um a 10, isto é 10. Desde o início do acampamento, tenho tentado tornar-me uma pessoa melhor. Tenho pilares de fé. Um deles é a sunnah, que é oração. É um lugar onde você treina para se tornar uma pessoa melhor. Está ligado à espiritualidade. Isso é algo que eu venho enfatizando mais, durante o meu tempo em Princeton. Há outro aspeto da fé. Zakat. Significa caridade, mas você pode interpretá-lo de forma mais geral como justiça… Justiça económica e justiça social. Estou a treinar-me, mas para quê? Este acampamento não se trata apenas de tentar cultivar, de purificar o meu coração para tentar tornar-me uma pessoa melhor, mas de tentar defender a justiça e usar ativamente as competências que estou a adquirir para comandar o que sinto ser certo e proibir o que acredito ser errado, defender as pessoas oprimidas em todo o mundo.”

Anha Khan, uma estudante de Princeton em greve de fome e cuja família é do Bangladesh, está sentada com os joelhos dobrados à sua frente. Ela está vestindo calças de treino azuis que dizem Looney Tunes e tem um anel de noivado que, de vez em quando, brilha na luz. Ela vê na história de colonialismo, expropriação e genocídio do Bangladesh a experiência dos palestinianos.

“Tanto foi tirado ao meu povo”, diz ela. “Não tivemos tempo nem recursos para recuperar desses tempos terríveis por que passámos. O meu povo não só sofreu um genocídio em 1971, mas também fomos vítimas da divisão que ocorreu em 1947 e depois das disputas civis entre o Paquistão Ocidental e Oriental ao longo dos anos quarenta, cinquenta e sessenta. Isso me deixa com raiva. Se não tivéssemos sido colonizados pelos britânicos ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX, e se não estivéssemos ocupados, teríamos tido tempo para desenvolver e criar uma sociedade mais próspera. Agora estamos cambaleando porque fomos espoliados de muita coisa. Não é justo.”

A hostilidade da universidade radicalizou os estudantes, que veem os administradores universitários a tentarem aplacar as pressões externas dos doadores ricos, dos fabricantes de armas e do lobby israelita, em vez de lidarem com as realidades internas dos protestos não violentos e do genocídio.

“A administração não se preocupa com o bem-estar, a saúde ou a segurança dos seus alunos”, diz-me Khan. “Tentamos montar pelo menos as barracas à noite. Como estamos em jejum de líquidos 24 horas por dia, sem comer nada, os nossos corpos estão a trabalhar horas extras para permanecerem resilientes. O nosso sistema imunológico não é tão forte. No entanto, a universidade diz-nos que não podemos armar tendas para nos mantermos protegidos do frio e dos ventos durante a noite. É abominável para mim. Sinto muito mais fraqueza física. As minhas dores de cabeça estão piores. Há agora uma incapacidade, até mesmo de subir escadas. Fez-me perceber que, nos últimos sete meses, o que os habitantes de Gaza têm enfrentado é um milhão de vezes pior. Você não pode entender a situação deles a menos que experimente o tipo de fome que eles estão enfrentando, embora eu não esteja experimentando as atrocidades que eles estão enfrentando.”

Os grevistas da fome, embora recebam muito apoio nas redes sociais, também têm sido alvo de ameaças de morte e mensagens de ódio de influenciadores conservadores. “Dou-lhes 10 horas antes de ligarem para o DoorDash”, alguém postou no X. “Porque eles não desistem da água, eles não se importam com a Palestina? Vamos, desista da água! outra postagem lida. “Eles também conseguem prender a respiração? Pedindo um amigo”, leu outro . “OK, ouvi dizer que haverá muitos churrascos em Princeton neste fim de semana, vamos trazer um monte de produtos de carne suína também para mostrar a esses muçulmanos!” alguém postou.

No campus, pequenos grupos de contramanifestantes, muitos deles da ultraortodoxa Chabad House , zombam dos manifestantes, gritando “Jihadistas!” ou “Gosto do seu lenço terrorista!”

“É horrível ver milhares e milhares de pessoas desejarem a nossa morte e torcerem para que morramos de sede e de fome”, diz Khan suavemente. “No vídeo do comunicado à imprensa, eu usei máscara. Um dos comentários mais engraçados que recebi foi: ‘Uau, aposto que aquela garota da direita tem dentes salientes por trás daquela máscara.’ É ridículo. Outra leitura: ‘Aposto que aquela garota da direita usou seu Dyson Supersonic antes de publicar o comunicado à imprensa.’ O Dyson Supersonic é um secador de cabelo muito caro. Honestamente, a única coisa que tirei disso foi que meu cabelo estava bonito, então, obrigada!”

David Chmielewski, um idoso cujos pais são polacos e que teve a família internada nos campos de extermínio nazis, é um muçulmano convertido. As suas visitas aos campos de concentração na Polónia, incluindo Auschwitz, tornaram-no profundamente consciente da capacidade para o mal humano. Ele vê este mal no genocídio em Gaza. Ele vê a mesma indiferença e apoio que caracterizaram a Alemanha nazi. “Nunca mais”, diz ele, significa nunca mais para todos.

“Desde o genocídio, a universidade não conseguiu chegar aos estudantes árabes, aos estudantes muçulmanos e aos estudantes palestinianos para oferecer apoio”, diz-me ele. “A universidade afirma estar comprometida com a diversidade, a equidade e a inclusão, mas não sentimos que pertencemos aqui.”

“Nossos profetas nos dizem, na nossa tradição islâmica, que quando uma parte da ummah, a nação dos crentes, sente dor, então todos nós sentimos dor”, diz ele. “Essa deve ser uma motivação importante para nós. Mas a segunda parte é que o Islão nos dá a obrigação de lutar pela justiça, independentemente de por quem lutamos. Há muitos palestinianos que não são muçulmanos, mas lutamos pela libertação de todos os palestinianos. Os muçulmanos defendem questões que não são especificamente questões muçulmanas. Havia muçulmanos envolvidos na luta contra o apartheid na África do Sul. Havia muçulmanos envolvidos no movimento pelos direitos civis. Nós inspiramo-nos neles.”

“Esta é uma bela luta inter-religiosa”, diz ele. “Ontem montámos uma lona onde estávamos orando. Tínhamos pessoas fazendo recitações do Alcorão em grupo. Na mesma lona, ​​estudantes judeus realizavam o serviço religioso do Shabat. No domingo, tivemos cultos cristãos no acampamento. Estamos a tentar dar uma visão do mundo que queremos construir, um mundo depois do apartheid. Não estamos apenas a responder ao apartheid israelita, estamos a tentar construir a nossa própria visão de como seria uma sociedade. Isso é o que você vê quando há pessoas recitando o Alcorão ou lendo os serviços do Shabat na mesma lona, ​​esse é o tipo de mundo que queremos construir.”

“Fomos retratados como pessoas que fazem com que as pessoas se sintam inseguras”, diz ele. “Fomos vistos como uma ameaça. Parte da motivação para a greve de fome é deixar claro que não somos nós que deixamos alguém inseguro. A universidade está a deixar-nos inseguros. Eles não estão dispostos a encontrar-se connosco e nós estamos dispostos a passar fome. Quem está causando a insegurança? Há uma hipocrisia sobre como estamos sendo retratados. Somos retratados como violentos quando são as universidades que chamam a polícia contra manifestantes pacíficos. Estamos sendo retratados como perturbadores de tudo ao nosso redor, mas estamos a basear-nos em tradições fundamentais para a cultura política americana. Estamos a basear-nos nas tradições de protestos, greves de fome e acampamentos pacíficos. Os presos políticos palestinianos realizam greves de fome há décadas. A greve de fome remonta às lutas de-coloniais anteriores, à Índia, à Irlanda, à luta contra o apartheid na África do Sul.”

“A libertação palestina é a causa da libertação humana”, continua ele. “A Palestina é o exemplo mais óbvio no mundo de hoje, além dos Estados Unidos, do colonialismo de colonos. A luta contra a ocupação sionista é vista com precisão pelos sionistas, tanto nos Estados Unidos como em Israel, como uma espécie de último suspiro do imperialismo. Eles estão tentando segurá-lo. É por isso que é assustador. A libertação da Palestina significaria um mundo radicalmente diferente, um mundo que ultrapassasse a exploração e a injustiça. É por isso que tantas pessoas que não são palestinianas, não são árabes e não são muçulmanas estão tão empenhadas nesta luta. Eles veem seu significado.”

“Na mecânica quântica existe a ideia de não localização”, diz Hasan. “Mesmo estando a quilómetros e quilómetros de distância das pessoas na Palestina, sinto-me profundamente entrelaçado com eles, da mesma forma que os eletrões com os quais trabalho no meu laboratório estão entrelaçados. Como David disse, esta ideia de que a comunidade de crentes é um só corpo e se uma parte do corpo está com dor, toda ela dói, é nossa responsabilidade esforçarmo-nos por aliviar essa dor. Se dermos um passo atrás e olharmos para este sistema composto, ele está evoluindo de forma perfeitamente unitária, mesmo que não o entendamos porque só temos acesso a uma pequena parte dele. Há uma justiça subjacente, profunda, que talvez não reconheçamos, mas que existe quando olhamos para a situação do povo palestino.”

Há uma tradição associada ao profeta”, diz ele. “Quando você vê uma injustiça ocorrer, você deve tentar mudá-la com as mãos. Se você não consegue alterá-la com as mãos, tente ajustá-la com a língua. Você deveria falar sobre isso. Se você não pode fazer isso, deveria pelo menos sentir a injustiça no seu coração. Essa greve de fome, esse acampamento, tudo o que estamos a fazer aqui como estudantes, é a minha forma de tentar perceber isso, de tentar implementar isso na minha vida.”

Passe algum tempo com os estudantes nos protestos e você ouvirá histórias de revelações, epifanias. No léxico do cristianismo, estes são ditos momentos de graça. Estas experiências, estes momentos de graça, são o motor invisível dos movimentos de protesto.

Quando Oscar Lloyd, um aluno do terceiro ano de Columbia que estudava ciências cognitivas e filosofia, tinha cerca de oito anos, ele e a sua família visitaram a reserva Pine Ridge, no Dakota do Sul.

“Vi a grande distinção entre o enorme memorial da Batalha de Little Big Horn e a pequena placa de madeira do massacre de Wounded Knee”, diz ele, comparando os numerosos monumentos que celebram a derrota do 7ª Regimento de Cavalaria dos EUA em 1876 em Little Big Horn, ao massacre de 250 a 300 nativos americanos, metade dos quais eram mulheres e crianças, em 1890 em Wounded Knee. “Fiquei chocado ao saber que pode haver dois lados da história, que um lado pode ser contado e o outro pode ser completamente esquecido. Esta é a história da Palestina.”

Sara Ryave, estudante de pós-graduação em Princeton, passou um ano em Israel estudando no Instituto Pardes de Estudos Judaicos, uma yeshiva não confessional. Ela ficou cara a cara com o apartheid. Ela foi banida do campus após ocupar o Clio Hall.

“Foi durante aquele ano que vi coisas que nunca esquecerei”, disse ela. “Passei um tempo na Cisjordânia e com comunidades no sul de Hebron Hills. Eu vi a realidade diária do apartheid. Se você não os procurar, você não os notará. Mas quando você fizer isso, se quiser, fica claro. Isso predispôs-me a fazer isto. Vi pessoas vivendo sob ameaças policiais e militares das FDI todos os dias, cujas vidas são tornadas insuportáveis ​​pelos colonos.”

Quando Hasan estava na quarta classe, lembra-se da sua mãe a chorar descontroladamente na 27ª noite do Ramadão, um dia especialmente sagrado conhecido como A Noite do Poder. Nessa noite, as orações são tradicionalmente atendidas.

“Tenho uma recordação muito viva de estar a rezar à noite ao lado da minha mãe”, diz ele. “A minha mãe estava a chorar. Nunca a tinha visto chorar tanto na minha vida. Lembro-me muito bem disso. Perguntei-lhe porque estava a chorar. Ela disse-me que estava a chorar por causa de todas as pessoas que estavam a sofrer em todo o mundo. E, entre elas, imagino que estivesse a pensar nas pessoas da Palestina. Naquela altura da minha vida, eu não compreendia os sistemas de opressão. Mas o que eu compreendia era que nunca tinha visto a minha mãe a sofrer tanto. Não queria que ela estivesse a sofrer tanto. A minha irmã e eu, ao vermos a nossa mãe a sofrer tanto, começámos a chorar também. As emoções foram muito fortes nessa noite. Acho que nunca tinha chorado assim na minha vida. Foi a primeira vez que tive consciência do sofrimento no mundo, especificamente dos sistemas de opressão, embora só muito mais tarde tenha compreendido as suas várias dimensões. Foi nessa altura que o meu coração estabeleceu uma ligação com a situação do povo palestiniano”.

Helen Wainaina, uma estudante de doutoramento em inglês que ocupou o Clio Hall em Princeton e está impedida de entrar no campus, nasceu na África do Sul. Viveu na Tanzânia até aos 10 anos de idade e depois mudou-se com a família para Houston.

“Penso nos meus pais e nas suas viagens em África e, eventualmente, na sua saída do continente africano”, diz ela. “Se as coisas tivessem corrido de forma diferente durante os movimentos pós-coloniais, eles não se teriam mudado. Nós teríamos podido viver, crescer e estudar onde estávamos. Sempre achei que isso era uma profunda injustiça. Estou grata por os meus pais terem feito tudo o que podiam para nos trazer para aqui, mas lembro-me de que quando obtive a minha cidadania, fiquei muito zangada. Não tinha voz ativa. Gostava que o mundo fosse orientado de forma diferente, que não precisássemos de vir para cá, que os sonhos pós-coloniais das pessoas que trabalharam nesses movimentos se concretizassem de facto.”

Os movimentos de protesto – que se espalharam por todo o mundo – não se constroem em torno da questão única do Estado do apartheid em Israel ou do seu genocídio contra os palestinianos. São construídos em torno da consciência de que a velha ordem mundial, a do colonialismo dos colonos, do imperialismo ocidental e do militarismo usado pelos países do Norte Global para dominar o Sul Global, tem de acabar. Eles condenam o açambarcamento dos recursos naturais e da riqueza pelas nações industriais, num mundo de rendimentos decrescentes. Estes protestos são construídos em torno de uma visão de um mundo de igualdade, dignidade e independência.

Fonte aqui.