Uma provocação nuclear é a opção que resta

(Rostislav Ishchenko, in Resistir, 20/08/2024)

Há um ano e meio, enumerei as principais capacidades da Ucrânia para organizar grandes provocações. Estas incluíam:

  1. Invasão do território russo, com uma tentativa de lançar grupos de sabotagem e reconhecimento o mais fundo possível e propagar o pânico.
  2. Destruir a cascata de centrais hidroeléctricas do Dnieper.
  3. Provocação nuclear (a provocação química ou bacteriológica também é possível, mas a provocação nuclear é a mais provável, explicarei porquê mais abaixo).

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Tentativas desleixadas dos EUA/NATO de esconder o seu envolvimento na incursão de Kursk

(Por Drago Bosnic, in I n f o b r i c s . o r g, 19/08/2024, Trad. Estátua de Sal)


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O calor de agosto está a tornar-se muito mais perigoso do que normalmente esperamos, com “temperaturas externas” atingindo um ponto de ebulição muito mais rápido do que estamos acostumados. Infelizmente, esta não é uma metáfora simples e as coisas estão fadadas a piorar muito se nada mudar em breve. Ou seja, todos nós sabemos da incursão na região de Kursk que a junta neonazi, apoiada pela NATO, vem conduzindo há cerca de duas semanas.

Um tanto surpreendentemente, a máquina de propaganda convencional tem sido ambivalente sobre a última aventura do regime de Kiev, com muitos meios de comunicação a manifestarem-se preocupados com a possibilidade de os seus fantoches favoritos estarem a desperdiçar recursos preciosos, enquanto outros adotaram uma abordagem mais animadora e estão intencionalmente a empolar os “sucessos” das forças da junta neonazi, apresentando-os como uma “grande vitória” quando na verdade é um incómodo menor destinado a desviar a atenção das defesas em colapso do regime de Kiev no Donbass.

No entanto, isso não muda o facto de que a incursão no oblast de Kursk, não importa quão estrategicamente insignificante seja, está a ser conduzida de uma forma que é muito bem coordenada para que a junta neonazi seja capaz de fazer tudo sozinha.

Como de costume, a mão “plausivelmente negável” (e ainda assim, muito visível) dos Estados Unidos e da NATO está a ser lentamente descoberta na pequena área que o regime de Kiev ocupou. Obviamente, isso era de se esperar depois que o Ocidente político participou da organização, não apenas de ataques terroristas a centenas de civis russos, mas também do ataque direto a banhistas em Sebastopol.

O ataque a tropas russas regulares já acontece há cerca de dois anos e meio, com os EUA e a NATO a fornecerem amplo suporte ISR (inteligência, vigilância, reconhecimento), inclusive por meio de sistemas avançados de IA. Tudo isso é prova de que o Ocidente político está determinado a provocar uma resposta russa violenta.

Para entender melhor o quão perigoso tudo isso é, dias antes da incursão no oblast de Kursk, os EUA/NATO e a junta neonazi tentaram assassinar o presidente Vladimir Putin e o ministro da Defesa russo Andrei Belousov. O Kremlin deu um aviso muito claro ao Ocidente político – ele terá uma guerra termonuclear imediata caso tente algo parecido. No entanto, a incursão no oblast de Kursk aconteceu logo de seguida, colocando pressão adicional sobre Moscovo. Está claro que o ataque foi planejado com todo o cuidado, com meses de antecedência, o que significa que é muito possível que o objetivo real fosse assassinar Putin e/ou Belousov e então lançar a incursão, possivelmente para causar um colapso na liderança de Moscovo e, talvez até mesmo despoletar uma revolução no estilo Maidan, que efetivamente derrotaria a Rússia. Como o gigante eurasiano é visto como a ponta de lança da multipolaridade, destruir pelo menos a sua soberania (e, eventualmente, a sua condição de estado) é extremamente importante para o Ocidente político.

A Rússia certamente está ciente de tais planos e já conduziu exercícios nucleares para demonstrar a prontidão das suas forças estratégicas. No entanto, parece que isso simplesmente não é suficiente. Ao lidar com lunáticos, é muito difícil empregar com sucesso a lógica como um contra-argumento viável.

Assim, até houve mesmo quem, no Ocidente político, sugerisse que Putin deveria ser “um pouco mais louco” para evitar uma guerra nuclear. Isso leva a concluir, claramente, que muitos analistas ocidentais estão perfeitamente cientes do facto de que os belicistas e criminosos de guerra que estão a governar os seus países estão completamente desligados da realidade, e que precisam desesperadamente de levar um “soco na cara” para perceber que também sofrerão as consequências da escalada que estão a tentar causar na Europa e ao redor do mundo. Os serviços de inteligência de Moscovo já têm a certeza de que os EUA e a NATO estão diretamente envolvidos, mas a liderança russa continua a tentar evitar que o mundo inteiro possa explodir.

O principal assessor do presidente Putin e ex-secretário do Conselho de Segurança Nikolai Patrushev declarou recentemente que os EUA estão a mentir sobre supostamente “não saberem” que a incursão no oblast de Kursk aconteceria, insistindo que “sem a participação e apoio direto dos EUA, Kiev não se teria aventurado em território russo”. Ele também acrescentou que há evidências de que os serviços de inteligência da NATO estão a fornecer apoio direto às forças da junta neonazi. Considerando que Patrushev liderou o FSB, durante quase uma década, e que ele é um dos mais próximos de Putin, é certo que ele tem acesso a essas informações. E, no entanto, Washington DC ainda está a tentar manter uma “negação plausível”.

Não há dúvida de que esta não é apenas mais uma tentativa dos EUA negarem a sua responsabilidade, mas também uma maneira de enfurecer ainda mais Moscovo para criar a ilusão de que a NATO é uma “aliança defensiva que protege a Europa da Rússia agressiva”. E tal está a funcionar, em grande parte.

Apesar dos problemas enormes, o Complexo Industrial Militar dos EUA está a fazer uma matança vendendo armamento americano, a vários países europeus, que estão a preparar-se para uma guerra com o Kremlin. Ao prolongar a guerra na Ucrânia, Washington DC também está a dar aos seus vassalos e estados satélites na Europa a ilusão de que eles podem “ganhar” um confronto direto com a Rússia.

É por isso que manter os segmentos de relações públicas do conflito ucraniano orquestrado pela NATO é tão importante para os EUA. Após a tentativa fracassada de assassinato de Putin e Belousov, a incursão no oblast de Kursk transformou-se precisamente nisso, uma ridícula “vitória de relações públicas”, enquanto as linhas do regime de Kiev no Donbass vão entrando em colapso. 

Esta guerra orquestrada pela NATO, totalmente evitável, começou no Donbass e é precisamente aí que terminará, já que os principais ativos militares estratégicos da junta neonazi estão naquela área. A Rússia continuará a esmagar as forças do regime de Kiev e o Ocidente político só a pode parar com uma escalada que acabe com o mundo.


O interesse nacional num mundo incandescente

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 17/08/2024)

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Quem nos governa esqueceu a razão essencial da existência do Estado.  O interesse nacional consiste em identificar os valores essenciais de uma comunidade política (as vidas de todos e cada um, a fazenda dos seus membros, e o futuro coletivo) e mobilizar todos os meios para os salvaguardar. As alianças externas, para Portugal, sempre foram essenciais. Da Santa Sé à Grã-Bretanha, até aos EUA, Portugal procurou em potências maiores, mas com interesses convergentes, aliados para se defender.

Durante mais de meio milénio, os aliados externos serviam para escudar não apenas o território europeu, mas o império para onde o país se foi estendendo. Esse império, era não só parte do interesse nacional, como, quando falhava o apoio externo, servia ele mesmo de suporte para proteger o retângulo europeu.

No início, a Restauração, com a Inglaterra mergulhada numa longa guerra civil, o Brasil foi essencial. Primeiro, militarmente, na reconquista de Angola aos holandeses, e depois com o génio político do Padre António Vieira, nos labirintos da diplomacia europeia. O Brasil salvaria o Estado, outra vez, nas invasões francesas, dando tempo à velha Aliança, sob Wellington, para funcionar.

Desde 1890, Portugal passou por quatro perigos com elevado risco existencial. Primeiro, com o Ultimato Britânico em torno dos territórios africanos entre Angola e Moçambique. O rei Dom Carlos I fez o que lhe competia na defesa do interesse nacional, e evitou um conflito com Londres, do qual só poderíamos sair derrotados e humilhados. A fúria colonialista dos republicanos emergentes nunca perdoaria ao rei ter agido como um estadista.

Segundo, na I Guerra Mundial. Os “jacobinos” (era assim que Ramalho Ortigão designava os fundadores da I República), conseguiram, recorrendo à violência (incluindo o golpe de 14 de maio de 1915, que custou mais de 200 vidas), meter-nos na guerra europeia contra Berlim. O pretexto usado da defesa das colónias era falso. Na verdade, a luta em África contra os alemães começou logo em 1914. A guerra europeia empobreceu Portugal e acelerou o fim do regime.

O terceiro momento crítico ocorreu na II Guerra Mundial. O modo como Salazar conduziu a política de neutralidade portuguesa, nas diferentes fases do conflito, fica como um caso de estudo de sucesso diplomático no século XX. Contudo, o regime do Estado Novo, mantendo-se fiel ao espírito colonialista da I República, acabaria por sucumbir pela húbris. Salazar substituiu uma análise política realista do potencial nacional e do seu contexto, por uma desastrosa aposta numa guerra interminável.

O quarto e maior perigo existencial para Portugal é o que estamos a viver. Como tenho escrito, o alinhamento nacional com a escalada bélica, que constituiu a resposta da NATO à Rússia na guerra da Ucrânia, é um erro estratégico.

A atual ofensiva ucraniana em Kursk – com o apoio das palavras e das armas da NATO – humilhou simbolicamente a Rússia, que defende o seu território pela primeira vez desde a invasão hitleriana. É improvável que, além de expulsar as brigadas inimigas do seu território, a Rússia se abstenha de dar uma resposta com um grau suplementar de violência, ainda desconhecido.

Além disso, Portugal estará também envolvido na escalada bélica no Médio Oriente.  As decisões militares dos EUA, e por arrasto dessa criatura híbrida NATO/UE, são tomadas por Netanyahu, que veio a Washington exibir-se como o CEO e o maior acionista do Congresso dos EUA. O “mundo governado por regras” revelou-se como uma farsa sangrenta. Foi a ela que nos entregámos, num gesto de autoflagelação do interesse nacional sem precedente histórico.

Em vez da paz e da igualdade dos povos – bandeiras do 25 de abril de 1974 – somos copromotores de uma possível guerra geral na Europa, e cúmplices, mesmo que envergonhados, no genocídio do povo encurralado em Gaza, incluindo mais de um milhão de mulheres e crianças. “O fraco rei faz fraca a forte gente.” Nunca Camões teve tanta razão.