O Mendes e o genuflexório

(Por José Gabriel, in Facebook, 09/09/2024)


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Marques Mendes tomou sobre os seus ombros a defesa do Governo e dos governantes um a um, asneira a asneira, erro a erro, golpe a golpe. Todos estamos errados. Os nossos governantes são um ínclito escol de perfeição. A malta, cá fora, é que, sem dúvida obnubilada pela grandeza dos altíssimos, não entende. E, em vez de agradecer estes presentes do Alto, mostra vontade de lhes enviar presentes idos de baixo.

Marques Mendes, não. Por ele, os ministros laranja são infalíveis – como o Papa. Mais infalível que eles, portanto, mais que o Papa, só o Presidente Marcelo.

Ontem, na sua prédica dominical, Mendes informou o povo em geral da sua presença numa reunião dos jovens “liberais” onde, segundo nos contou, aprendeu uma palavra nova: “genuflexório”.

Ficámos espantados. Tal significa que as fotos tiradas a Mendes e a outros líderes da direita assistindo, circunspectos, à missa em… genuflexórios, são uma patranha para impressionar o beatério – eu não disse os católicos.

Por outro lado, fico ainda mais espantado pelo facto de Marques Mendes, cuja especialidade é ajoelhar face a todos os interesses que o possam servir, não conhecer tão útil e adequado acessório. Ele devia ter um genuflexório portátil.

Quem tem medo de Sahra Wagenknecht?

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 07/09/2024)

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As recentes eleições nos estados alemães da Saxónia e da Turíngia têm três leituras imediatas: a queda catastrófica dos partidos que integram o Governo Federal (SPD, Verdes e Liberais); o crescimento da extrema-direita (AfD); o sucesso da nova esquerda alemã obtido pelo terceiro partido mais votado, que assumiu o nome da sua líder: Aliança Sahra Wagenknecht – Razão e Justiça (BSW). A perda de credibilidade do Governo é tanta que a soma dos votos dos partidos que o suportam é praticamente igual à do BSW na Saxónia (cerca de 12%), e bastante inferior na Turíngia (9,3% contra 15,8%). França e Alemanha tornaram-se sociedades clivadas com Governos de legitimidade residual.

Sahra Wagenknecht (doravante, SW) é hoje a mais carismática figura política alemã. Filha de um estudante iraniano e de uma mãe alemã, nasceu em 1969 na ex-RDA, em Jena (Turíngia). Com 3 anos de idade, o pai partiu para o Irão, desaparecendo da vida de SW. Cresceu sob o estigma da sua diferença étnica, habituando-se a resistir em condições adversas. Em 1989 entrou na política em concorrente.

Enquanto a maioria celebrava a reunificação alemã, ela viu uma nação a ser comprada e engolida pela RFA, antecipando o risco de a prosperidade ser acompanhada pelo desenraizamento e por maior desigualdade. Doutorada em Economia, assumiu sempre a importância do marxismo na sua leitura do mundo contemporâneo. Integrou o PDS (Partido do Socialismo Democrático), de Gregor Gysi, em 1991.

Foi deputada no Parlamento Europeu (2004-2009). Participou na criação do partido Die Linke (A Esquerda), resultante da unificação em 2007 do PDS com o partido WASG, formado por Oskar Lafontaine, quando este rompeu com o SPD. Entrou no Parlamento Federal (Bundestag) em 2009, pelo Die Linke, abandonando este partido para fundar, em janeiro último, a BSW. É uma escritora incisiva e uma oradora notável, captando audiências pela elegância e clareza dos seus argumentos.

A imprensa internacional dominante tem tentado esconder a sua originalidade e inteligência sob rótulos pejorativos, encostando-a à extrema-direita nacionalista do AfD, ou designando-a como “populista de esquerda”. Uma análise fria revela, pelo contrário, uma personalidade política corajosa e lúcida, combatendo a mediocridade e a submissão total do Governo alemão ao comando dos EUA, tanto no plano militar, como na esfera económica.

Na verdade, tanto o SPD como os Verdes renunciaram às suas bandeiras originais. O SPD, em coligação com os Verdes (nos Governos entre 1998 e 2005), transformou-se no campeão do neoliberalismo, destruiu parcialmente a Segurança Social através de uma privatização ruinosa, baixou abruptamente a participação da massa salarial no PIB, multiplicou os empregos precários (os minijobs ocupam hoje 20% da mão-de-obra germânica). Pela primeira vez, em 2012, o Índice de Gini alemão, que mede a desigualdade, ultrapassou o francês.

Com a guerra na Ucrânia, o Governo de Olaf Scholz aceitou ser um incondicional escudeiro do Pentágono, apoiado nos ministros Verdes que trocaram a Ecologia pelo belicismo. SW tem exortado, infatigavelmente, ao imperioso calar das armas para evitar envolver a NATO e a Rússia num abraço mortal sem retorno. Berlim aceitou as sanções contra a Rússia, sabendo que se voltariam contra os milhões de alemães mais carenciados.

A Economia de Berlim, que tinha na China, na Rússia e nos parceiros da UE os mercados principais para as suas exportações, está hoje em crise profunda. As medidas protecionistas do Governo de Biden para isso contribuíram. Washington exorta a UE a cortar laços comerciais com Pequim, enquanto trata os seus aliados europeus na NATO como inimigos no plano económico. A legislação de combate à inflação nos EUA (Inflation and Reduction Act) levou, até março de 2023, 5600 empresas germânicas a investir 605 mil milhões de euros nos EUA, tendo algumas delas mudado a sua sede.

SW propõe uma política de defesa dos salários e direitos laborais, com aumento de impostos para os mais ricos. A sua recusa de uma imigração descontrolada liga-se à defesa do Estado social e à necessidade de o acolhimento dos imigrantes ser acompanhado com políticas de língua e cultura, capazes de assegurar uma verdadeira integração nas comunidades locais.

A posição da BSW não se confunde com o racismo da AfD, nem com o oportunismo do Governo Merkel, que em 2015 escancarou as portas – sem denunciar o facto de esses migrantes resultarem das desastrosas intervenções ocidentais no Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria – para depois as encerrar através de um acordo bilionário de construção de campos de internamento na Turquia.

SW foi convidada em 2014, pelo artista e professor Karl-Eckhard Carius e por mim, para um livro – editado em Portugal e Alemanha – destinado a celebrar os 40 anos do 25 de Abril. (Muros de Liberdade/Mauern der Freiheit), SW revelou como a sua visão do mundo é inclusiva.

O seu amor à Alemanha não a impediu de criticar o papel do Governo Merkel e o seu pacto diabólico com a “ditadura dos mercados financeiros”. No final do seu capítulo, SW enunciava um desafio que continua válido para os povos europeus: “A minha esperança para a Europa é a de que a melancolia portuguesa possa ceder lugar à indignação.”

A UE foi raptada por uma elite sombria que lhe roubou a alma, arrastando-a na queda dos EUA e na cumplicidade com o Governo genocida de Israel. Chegou a hora dos cidadãos e das nações, se quisermos salvar a paz e libertar a Europa.

Kursk e o Donbass já dão para jogar ao monopólio

(Tiago Franco, in Facebook, 04/09/2024)

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Um amigo perguntou-me qual a razão de ler uma história que, em teoria, já sabia. Eu parto do princípio que ninguém sabe tudo sobre uma história, seja ela qual for. E muito menos sobre aquelas que nos chegam, manifestamente complexas. Cada investigador/historiador acrescenta, aos factos, a sua interpretação. Eu gosto de ver a mesma coisa de diferentes perspetivas e acredito que a verdade está no cruzamento da informação.

Há, no entanto, um ponto em que os historiadores estão mais ou menos de acordo, que é que a visão que Lenine (ou até Trotsky) tinha para a União Soviética, não tem nada a ver com a Rússia de Putin. E é por isso que me faz alguma impressão que se acuse alguém de ser putinista quando vota no PCP. E até o próprio PCP. São modelos antagónicos de sociedade e formas muito diferentes de atribuir o poder (nomeadamente à classe trabalhadora). Putin é apenas um novo czar. Os bolcheviques (e os mencheviques) fizeram a revolução contra o czar.

É por isso ignorância dizer que o “antiquado partido comunista português” é um apoiante da Rússia de Putin. Ou bem que o PCP é criticado por ter ficado, em alguns temas, ali depois da revolução russa ou então, é criticado por apoiar Putin. Não pode ser acusado de uma coisa e do seu contrário. Fazê-lo, como tantas vezes vejo nas redes, nas colunas de opinião e na imprensa, é um caso de ignorância. Pura e dura.

Dito isto, espero que percebam que a minha simpatia pelo regime de Putin é a mesma que tenho por qualquer outro império aos dias de hoje. Não gosto de países ou regimes onde a democracia seja uma fantochada, onde os candidatos sejam patrocinados por milionários, onde o partido seja um só ou onde nem sequer existam eleições. Portanto…há um saco grande onde coloco ditaduras ou democracias de aparência, e por lá junto todos aqueles que acham que as relações externas significam substituir a vontade dos outros povos.

Não quero mesmo ouvir falar em solidariedade do Ocidente, seja com que guerra for, enquanto as décadas de ocupação e extermínio na Palestina não chegarem ao fim. Estou-me perfeitamente a cagar se a Mongólia não prende Putin (mandato do TPI) quando Israel é autorizado a não cumprir qualquer resolução da ONU.

Quero tanto saber da invasão de Kursk como queria saber da invasão do Donbass. Da mesma maneira que não papei a narrativa de “levar a democracia ao Kuwait” no século passado ou “libertar o povo da Líbia”, neste século não aceito que um país (Ucrânia) ande a combater separatistas durante 8 anos e quando o bicho pega (a Rússia tem tudo o que precisa para lá meter a mão) vir pedir ao resto do mundo que pague os custos.

Esta coisa de impérios bons e impérios maus, guerras justas e guerras injustas, bombas pela paz e bombas terroristas, povos esquecidos ou povos lembrados, consoante a riqueza do solo em questão, começa a dar-me a volta à cabeça ao ponto da solidariedade simplesmente já não existir.

Ainda ontem ouvi o Rogeiro na SIC Notícias a dizer que o Ocidente tem que se despachar a enviar mais armas (de longo alcance) para que os ucranianos possam atacar solo russo. Epá…a que propósito? Temos algum contrato de solidariedade eterna com a Ucrânia que foi sonegado ao resto do mundo? Temos mesmo que continuar a pagar este jackpot para a indústria de armamento americana, francesa e alemã?

Não sei se fui o único a receber contas maiores de luz, de supermercado e de prestação da casa mas, quer dizer, já estou farto desta merda. Mesmo farto. Não sei se sou o único a passar por isto mas adiante. Ouço os Rogeiros e os outros analistas, com trabalho garantido há dois anos, a cada dia, a gritarem por mais guerra, enquanto tenho que me esfolar sem férias para fazer face ao aumento dos custos, sempre, mas sempre com a mesma origem. “É da Ucrânia, sabe?” Foda-se mais à Ucrânia!

A Ucrânia meteu-se num buraco enorme, imaginando que tinha as costas quentes. Quem incentivou Zelensky diz-lhe agora que se sente a negociar. Quem tentou empobrecer a Rússia com sanções (a Ursula e demais idiotas não eleitos), viu a economia russa crescer e a zona euro a empobrecer. Isto são factos. Não é simpatia por Putin, não é antipatia por Zelensky. São factos. Nós somos mais pobres hoje do que éramos em 2021 e isso deve-se, em parte, à guerra que insistimos em patrocinar no leste da Europa.

Se morrem mais russos e ucranianos, se empobrecem mais europeus e se enriquecem países que nos passaram a fornecer, além das armas, a energia que já não chega diretamente da Rússia…a quem interessa isto tudo? A mim e a ti, que andamos a viver no mundo dos juros a 3% ou 4% e vamos metendo bandeirinhas no perfil em nome da solidariedade?

Meus amigos, se os impérios e as suas lutas por recursos, ao serviço de umas quantas empresas e alguns bilionários, tem mesmo que ser a base das relações externas no planeta, não me peçam solidariedade e compreensão quando a parte que me toca é, sempre, a de pagar.

A vida é simples e já o meu avô, homem de poucas palavras, o dizia: não te metas em alhadas das quais não consegues sair sozinho.

A Ucrânia não precisa de mais mortos ou cidades estropiadas. A Rússia não precisa de mais desculpas para fortalecer a aliança com a China. E nós, os espantalhos que servem café na diplomacia mundial, aqui pela Europa, não precisamos de continuar a pagar para que os EUA lucrem mais com guerras por procuração..

Partindo do princípio que a III Guerra Mundial ainda não é opção (não sei se isto incomoda o Rogeiro, o Isidro e a Helena), eu sugeria a Zelensky que se abarbatasse com mais umas aldeias russas e, depois, fosse para a mesa das negociações jogar ao monopólio.

Se, entretanto, os russos se chatearem e partirem mais do que é costume, é aguentar e não chorar muito.

Está mais do que na hora de meter um fim ao roubo coletivo que nos estão a fazer e de parar com esta carnificina, que prejudica milhões, em benefício de uma ínfima minoria.