Estado profundo, neoliberalismo e farsas eleitorais

(Hugo Dionísio, in Estátua de Sal, 05/11/2024, revisão da Estátua)


(Este texto resulta de um comentário a um artigo de Alexandre Dugin que publicámos sobre o Estado Profundo (ver aqui).

Pela sua atualidade – vide as eleiçoes americanas a decorrer -, e pela profundidade da análise – em algum contraponto contraditório com o autor -, resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 05/11/2024)


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Não estando de acordo com toda a análise, não posso deixar de ver nela algum sentido e atualidade. Acusações de “irregularidades”, sempre que as eleições não dão para o lado pretendido pelos EUA, são já uma prática normal.

A assunção de que o Ocidente é “liberal” e vive na “ordem baseada em regras” que ninguém sabe quais são, mas sabemos todos quem as faz, também constitui, hoje, uma realidade evidente.

Um estado que assuma, desde logo, frontal e abertamente, a sua ideologia de classe e estabeleça as formas governativas que transmitem o poder a essa classe, é um estado mais honesto e menos insidioso do que o totalitarismo invertido, do qual filósofos americanos falaram. Não quer dizer que seja “totalitário” e não se enquadre num estado de direito, embora numa ordem jurídica com regras substancialmente diferentes.

Quem acreditar que o poder de Xi não se enquadra na lei e constituição chinesas, ou que os planos quinquenais e as regras institucionais não são criados de acordo com a lei chinesa, não conhece a China moderna.

O liberalismo é mais totalitário pois, entrando de forma subliminar, escondida, como uma “não ideologia”, como “um pragmatismo”, apanha as pessoas desarmadas e aliena-as de tudo o que é seu: das suas raízes, nacionalidade, género, cultura, produto do seu trabalho, tradições, crenças… Não existe nada mais totalitário do que uma forma governativa que molda, inexorável e de forma subliminar, as nossas vidas. Isto está estudado e refletido por muita gente, incluindo liberais como Ben Chul Han.

Para além da atribuição – determinística – da lógica totalitária ao comunismo e ao socialismo, apenas porque estes assumem uma ideologia, quando se tratam de ideologias libertadoras e quando o termo “totalitarismo” é uma invenção liberal para atirar contra os governantes que, na sua maioria democraticamente escolhidos (porque suportados na vontade popular, com ou sem eleições liberais – as eleições liberais são uma forma de escolha, apenas isso, estando a democraticidade na suscetibilidade de identificação entre o povo e uma forma de governo e a sua aprovação pela praxis diária ou por sistemas de sufrágio), esta análise não faz uma ligação entre a escolha de populismos reacionários, abertamente fascistas e neonazis e a onda de revisionismo histórico que o neoliberalismo promoveu, aliando-se, nesse revisionismo à extrema-direita.

Esse revisionismo, impregnado nos manuais escolares, associado à propaganda anticomunista e antissocialista, porquanto constituírem a única alternativa ao estado capitalista (mesmo que não lhe chamem socialismo, o caminho alternativo passará sempre pela socialização e coletivização da propriedade, por oposição á sua liberalização e privatização), criou as condições, não apenas para a legitimação da ordem neoliberal, mas para a procura de alternativas onde estas não existem e em modos que favoreçam, mesmo assim, as oligarquias.

Dugin sabe bem – porque é muito inteligente – que não se pode esperar de Trump, de Meloni, ou de Le Pen, políticas de classe a favor dos trabalhadores, que se afirmem através da transição da riqueza produzida, das classes proprietárias para o trabalho. E Dugin sabe que, a distribuição de mais riqueza pelos trabalhadores, só pode encontrar-se do lado socialista.

Na Itália de Meloni, na Hungria de Orban, a vida do povo continua má. Na Rússia melhora, mas suportada numa imensa propriedade pública, dos sectores estratégicos, e de um potencial instalado e sabedoria histórica, herdados da URSS. Ou seja, com uma contribuição importante de duas coisas: maior grau de socialização da propriedade que possibilita impostos mais baixos mantendo serviços públicos; menor incidência do revisionismo histórico, pois Putin percebe o papel da URSS, mesmo não se identificando ideologicamente com esse papel. Mas, como homem pragmático e inteligente, consegue refletir nos aspetos positivos de muitas das políticas prosseguidas. A educação soviética, de grande qualidade, protege o povo russo do revisionismo do plástico ocidental. Estas relações materiais – tal como a concentração de riqueza a operar-se no Ocidente e cuja tendência na Rússia e China são inversas – são decisivas para se perceber a procura pelos “populistas” de direita.

Quanto ao estado profundo e às análises que faz, Dugin está correto noutra coisa: num sistema socialista não existe estado profundo, pois este afirma-se como é; mas num estado fascista, o estado profundo existe na mesma, na medida em que o sistema apresenta-se com uma cara que não é a sua. Basta ver como operavam, aqui em Portugal, os fascistas. Mas, mesmo assim, num estado fascista é mais fácil reconhecer o poder real.

A forma mais insidiosa, enganadora e alienante, a forma superior do sistema capitalista, é a neoliberal. Especialmente o americano, em que uma candidata a presidente necessita de teleponto nos discursos. E é escolhida apenas e tão só, por ser mulher, o que constitui um desprezo absoluto pelas mulheres e pela sua capacidade e dignidade. Quantas mulheres nos EUA seriam mais capazes de serem presidentes do que Kamala? E quantas estariam dispostas a serem fantoches do poder real? Nesse caso, Trump é mais honesto, é o que é, e pretende não enganar. É interessante que, o aparentemente mais autoritário dos dois, é o que, democraticamente está mais em linha com as pretensões de mudança e é o que mais reflete as ansiedades de mudança nos EUA. Mas podemos confiar nele? Claro que não. Não apenas pelo que é, mas pelos valores que representa. Nos EUA, este é o máximo a que se pode democraticamente aspirar, em termos de mudança.

 Bernie Sanders tentou algo mais humanista, e logo lhe disseram os barões neoliberais que, para isso, preferiam votar Trump. Votar Trump era, para eles, preferível do que votar social-democrata. Está tudo dito. Esta “democracia” já não suporta, sequer, a tese da convergência, de que fala Dugin. Apenas admite a acumulação rápida, a pilhagem e a concentração.

Os povos terão de se organizar e procurar outros escapes e alternativas onde estas não existam. Não podem esperar grandes mudanças em sistemas eleitorais neoliberais, pois esses estão feitos para a casa ganhar. O máximo a que pode almejar, apenas na Europa e outros países pluripartidários, consiste em paliativos sociais democratizantes. Mas logo serão derrubados, apesar do seu sucesso económico (vide Portugal e agora Espanha). O problema desta gente não é se a economia cresce, mas para quem cresce.

Esta dimensão da organização das massas também nada diz a Dugin, que olha para a política numa perspetiva messiânica, de cima para baixo, em que as elites dominam a partir de cima as massas. O seu olhar não é, ele mesmo, democrático. Daí que, uma vez mais, venha o erro do totalitarismo socialista ou comunista. Desvios de direita em sistemas destes também existem, desvios autoritários, indisciplina e revisionismos. Contudo, nenhum destes sistemas nasce e cresce sem ter organização das massas populares em torno de um projeto e um partido que o aplique; mobilização das classes populares e aliados pela conquista do poder; proteção do poder pela força da maioria, isto é, pela força das massas populares, que conquistam as ruas, as empresas, os meios de produção.

Existe algo mais democrático do que um poder construído assim? Claro que não. Só as classes populares unidas vencem a oligarquia minoritária. A maioria vence a minoria e o terreno revolucionário constitui o mais democrático e transparente dos terrenos.

Aí, revelam-se todas as identidades. Na prática revolucionária e na sua análise concreta, não é possível esconder a ideologia. Basta analisarmos o PREC em Portugal e o papel que o PS teve. Se assumisse o papel, que dizia representar, democraticamente, o PREC teria vencido e as forças reacionárias teriam sido eliminadas. Hoje não teríamos uma classe patronal atrasada, reacionária e mesquinha. Na pior das hipóteses ter-se-ia constituído uma burguesia mais progressista e aberta. Ao invés, ficámos com as estruturas mentais do antigamente. Essa conquista teria sido amplamente democrática, porque suportada na maioria. O que vem depois da revolução são formas de exercício do poder, mas a fundação desse poder é profundamente democrática.

No nosso país, o papel do PS consistiu na rejeição dessa construção democrática e na legitimação, cobarde, insidiosa, do poder reacionário instituído. É por isso que, hoje, 50 anos depois, temos um Chega ou uma IL. Na era liberal, em Portugal, na revolução francesa e americana, também o poder fundacional era democrático. A degeneração democrática deste sistema dá-se porque o capitalismo em que assenta o poder da burguesia, então aliada às classes populares através de promessas de liberdade, igualdade e fraternidade, acaba a subverter a democracia e a promover uma anormalidade e irregularidade democráticas, que favorece a reação.

Engels falou disto e Marx também. A irregularidade democrática em que vivemos (escolha superficial sem projeto; figuras sem projeto e sem vontade própria; partidos que governam com minorias parlamentares suportados no poder da elite; admissão de partidos fascistas e racistas; ataque à igualdade de tratamento na comunicação social) favorece a extrema-direita e os populismos reacionários e demagógicos.

A regularidade democrática, as regras claras, o jogo transparente, protege os revolucionários e os progressistas. Dugin também não foca este aspecto, de que Engels e Marx falaram a respeito da Comuna de Paris. E não fala destas coisas porquê? Porque não é um materialista. Dugin é uma espécie de hegeliano, que não rejeita a dialética, mas apenas a vê no espírito e na matéria. E como tal, adota uma posição messiânica, atribuindo mais importância às figuras do que às relações materiais subjacentes.

Não obstante, o artigo é excelente e tem um enorme potencial para nos fazer pensar e questionar. Não estar de acordo não significa não reconhecer a qualidade da análise. Apenas não me identifico com os pressupostos. Mas quem sou eu para criticar Dugin?

O neoliberalismo e a destruição da consciência

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture Foundation, 01/11/2024, revisão da Estátua)

Com a destruição do professor, o ocidente neoliberal destrói algo mais importante ainda: a consciência de nós próprios!


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Muito se tem falado sobre a crise no Ocidente e, em especial, na União Europeia. O discurso tem-se concentrado sobretudo na crise energética, militar, social ou migratória. Contudo, estas crises são resultado de um mal muito mais profundo, representativas, sobretudo, da vitória da ignorância sobre o conhecimento, do individuo sobre o colectivo, do económico sobre o social.

Ao contrário do que muitos possam pensar, é nos próprios países ocidentais que a pilhagem neoliberal, operada pelas oligarquias ocidentais, mais se tem intensificado. Podemos mesmo dizer que esta pilhagem aumenta à medida que diminui a dos povos da maioria global.

Mas, para infelicidade dos que aí residem, esta dicotomia vais mais longe: quanto mais alertados estão os povos, da maioria global, para o caracter predatório da oligarquia ocidental, menos conscientes estão, os povos ocidentais, das razões, pelas quais, se agravam as suas condições de vida. Os povos ocidentais estão em contraciclo com os povos da maioria global, em todos os sentidos. À medida que os segundos ganham consciência de si, os primeiros tornam-se cada vez mais inconscientes do seu ser, alienados que estão das suas raízes, culturas, famílias, comunidades…

Vector fundamental para a produção desta inconsciência, traduzida na incapacidade crítica e analítica crescentes, por parte das populações ocidentais, tem sido, precisamente, a área da educação.

A degradação dos sistemas públicos de educação, não apenas constitui uma das características mais repugnantes, por parte dos sistemas que sucumbem ao reaccionarismo e revisionismo histórico e científico, como constitui, também, o motor desse processo reaccionário.

Portanto, não foi surpresa, para os mais avisados, que um estudo da EDULOG, um Think Thank da Fundação Belmiro de Azevedo (um dos principais multibilionários portugueses já falecido, que pertencia à Forbes 500), tenha retirado, entre muitas outras, a seguinte conclusão: “A crise de falta de professores está a tornar-se sistémica em todas as economias da OCDE”.

Como razões para este drama, entre outras, o estudo aponta: “a degradação da imagem e estatuto dos professores; a fraca atractividade dos salários e das condições de trabalho; a falta de perspectivas de progressão e evolução na carreira profissional”.

Este estudo trouxe-me à memória (uma coisa criminosa no Ocidente) que – já em 2002, durante o governo de “sua eminência”, o Dr. Durão Barroso, ex-Primeiro Ministro de Portugal, Ex-Presidente da Comissão Europeia e homem de confiança da Golden Sachs -, se havia intensificado um processo de redução dos salários dos professores, mascarado sob a forma de “sistema de avaliação”, o qual, à boleia da introdução de um sistema de medição da qualidade do desempenho acabava a reduzir os salários e, principalmente, a progressão na carreira dos professores.

Eu pergunto-me porque razão o Professor Doutor David Justino, à data Ministro da Educação, não teve em conta o que lhe transmitiram os sindicatos dos professores da CGTP-IN (maior central sindical em Portugal). Nomeadamente, alertando para as consequências nefastas que o seu ataque teria para a escola pública, a profissão do professor e para os alunos. Vejam lá o que se teria poupado em estudos e políticas desastrosas.

Fossemos ingénuos e acreditaríamos que, à data, David Justino não poderia prever estas coisas, mas a ingenuidade que não temos, é proporcional à inexistência de espinha dorsal por parte de quem, um dia atacou os professores portugueses e, passados 22 anos, fez um estudo concluindo que as políticas que então defendeu, estão todas absolutamente erradas.

Os argumentos que hoje são conclusão deste estudo, foram, à data, esgrimidos contra o governo de Durão Barroso e de que fazia parte David Justino. É caricato pensarmos que, hoje, a União Europeia de Úrsula Von Der Leyen convida sindicatos e patrões europeus para celebrar um “Pacto Europeu para o Diálogo Social”, quando, repetidamente, desconsideram todas as propostas e argumentos, empíricos, científicos ou outros, que contrariam os seus planos de guerra, concentração de riqueza e supressão das soberanias, e com elas, das liberdades nacionais.

Como prova a história, o resultado de tão intenso “diálogo social”, entre sindicatos da educação e os sucessivos governos, consistiu na “elevação” do Secretário Geral da FENPROF (Federação Nacional dos Professores), Mário Nogueira, a inimigo público número um, um dos ódios predilectos da oligarquia dominante. De cada vez que alertou para o facto de que a destruição do estatuto dos professores resultaria numa destruição a escola pública, o exército de comentadores e jornalistas de serviço, acusaram-no de “corporativismo” e de apenas se importar com os professores. Faz lembrar os EUA quando acusam os outros de fazerem, ou quererem fazer, tudo o que eles já fizeram, querem continuar a fazer e querem ser os únicos a poder fazer. O oportunismo excepcionalista constitui uma das mais odiosas expressões do supremacismo neoliberal norte americano.

Hoje tão preocupada com as “competências”, Ursula Von Der Leyen até se esquece que é parte da organização, que integrou a maldita Troika governativa (FMI, BCE e EU), que se seguiu à crise de 2008, introduzida em Portugal pela mão de um governo do Partido Socialista (só de nome, sendo um partido liberal social) e continuando a todo o gás, com um governo do Partido Social Democrata (só de nome, é neoliberal puro e duro), coligado com o partido do Centro Democrático Social (só de nome, sendo um partido da oligarquia mais reaccionária e nostálgica do fascismo), que prometiam “ir além da Troika”, produzindo uma espécie de choque neoliberal ao modo Chileno ou Argentino. Tudo isto com o beneplácito de Durão Barroso, então já Presidente da comissão Europeia.

Foi neste período que se assistiu a um abrupto desinvestimento nos gastos públicos com a educação. Dizer que este cenário é decalcado do que sucedeu nos EUA e Reino Unido, seria redundante. Seria não se perceber que factores políticos provocaram tal situação e de onde foram importados.

Mas se existe coisa que este estudo, tal como todos os estudos do tipo, nunca fazem, consiste em fazer a ligação entre estes resultados desastrosos, em matéria de política pública, e as teorias económicas que o ocidente exporta e quer impor, através do FMI, Banco Mundial e BCE, a todo o mundo. Não admira que muitos olhem para o que se passou em Kazan na semana passada, como um evento histórico. Afinal, se existe algo comum a todos esses países, consiste na tentativa de afirmarem a sua soberania económica, política e social, rejeitando o “paraíso” liberal (ou neoliberal) idealizado por Fukuyama.

Pelas razões apontadas, olhar para as conclusões deste estudo é como sofrer um déjà-vu, revivendo numa fracção temporal mínima todas as horas, dias e anos de combate político aceso, por parte de todos os que – como eu próprio – se opuseram (e opõem), de forma veemente, ao neoliberalismo, ao consenso de Washington e às charlatanices que, mascaradas de discurso tecnocrático, alegadamente pragmático e extirpada de cientificidade, mais não visaram do que desviar enormes quantidades de recursos – produzidos pelo trabalho – para a oligarquia dominante, com resultados nefastos para a própria normalidade democrática, hoje ameaçada pelo retorno do fascismo e do nazismo.

Já em 2015, aponta o estudo, um grupo de investigadores (Padhy et al., 2015) concluiu que a probabilidade de se escolher a profissão “aumenta com a percepção de ser uma carreira agradável, com bom ambiente de trabalho, colegas que colaboram e com quem se estabelecem boas relações profissionais, ter uma garantia de emprego com contratos de longo prazo”.

Acresce ainda que, “mais recentemente, um estudo alargado e desenvolvido em vários países (BCG, 2023) identificou as características mais valorizadas num emprego: emprego estável, com um bom equilíbrio entre vida pessoal e trabalho; um horário de trabalho fixo e que não se arraste pelos fins de semana; um salário compatível com as habilitações e possibilidade de evoluir na carreira; possibilidade de negociar condições adaptadas à situação individual, incluindo adaptação de horários de trabalho, períodos de férias e planos de reforma”.

Perante tais conclusões, chegou o momento de sermos jocosos: quem diria que as pessoas, os trabalhadores, querem estabilidade, salários adequados, horários fixos e não muito extensos, progressão na carreira e capacidade de negociação, férias e bons planos de reforma? Eu questiono-me sobre quantos estudos são necessários, quantos biliões de euros terão de ser gastos, quantos Think Thank de bilionários têm de ser fundados, para se chegar a esta “brilhante” conclusão. Seja para os professores ou para todos os trabalhadores, em geral.

Vale a pena questionar onde se enquadram as políticas de desregulação do mercado de trabalho, destruição da contratação colectiva, defesa da precariedade laboral e da flexibilidade do horário de trabalho. Onde se enquadram então as propostas de “contenção dos custos laborais” e “promoção da mobilidade laboral”, como encontramos, de forma repetidamente doentia, nos compêndios normativos da EU, da Reserva Federal, do BCE ou do FMI.

Numa era em que o ocidente, e a europa em particular, se debate com graves problemas de mão de obra, envelhecimento populacional e enceta uma corrida por recursos humanos, apenas para conter salários; numa época em que se desenvolve, instrumentos como a Inteligência Artificial e torna-se possível produzir em maior quantidade, com melhor qualidade, em muito menos tempo e consumindo menos recursos ainda; nesta época, em que tanto se fala de quarta revolução industrial, automação e digitalização; poucos, muito poucos, defendem que toda esta inovação, este aumento brutal da produtividade, a que se acumulam os subsídios estatais que faltam aos serviços públicos e o desagravamento fiscal para a oligarquia dominante, todos estes factores resultando, eles próprios, do trabalho, devam de reproduzir-se na melhoria das condições de vida, de quem deu vida a tais recursos..

Ao invés, as mesmas vozes que calam a conferência de Kazan, que escondem o descalabro do regime de Kiev, que nos contam que a Federação Russa e esse “maléfico” Vladimir Putin, querem conquistar a europa toda; as mesmas vozes que calam, consentem e são cúmplices do genocídio palestiniano; são as mesmas vozes que, apesar de todas as evidências, empíricas e científicas, continuam a considerar que a solução passa por intensificar ainda mais as medidas que tanto falham.

Louve-se, contudo, que o estudo da EDULOG vem, pelo menos, dizer que os governos devem evitar fazer, o que afinal têm feito em toda a linha: Baixar (e desregular) a qualificação dos docentes; alargar o horário de trabalho dos professores; aumentar o número de alunos por turma”.

Ao mesmo tempo que, para os professores (poderia ser para qualquer outro profissional) os estudos científicos dizem que não se devem “baixar as qualificações” de acesso, a União Europeia, ansiosa por captar mão de obra migrante e, ainda mais ansiosa, por poupar na sua integração e qualificação, adopta, ao invés de uma agenda para as qualificações, para a valorização das profissões ou do trabalho, opta antes por uma “Agenda para as Competências”. Não pensem que é despiciendo ou se trata de um acaso. O objectivo é bem claro. Uma vez, trata-se de flexibilizar e desregular qualificações e profissões.

Para libertar os sistemas nacionais de qualificações da necessidade de investirem em processo de educação e formação mais estruturados, de maior duração, mas com maior amplitude de conhecimentos e competências, resistindo mais tempo à obsolescência e à desactualização e possibilitando um maior leque de escolhas profissionais, a EU vem promover a atomização do sistema de qualificações, com vista a reduzir o investimento com a formação estrutural dos indivíduos, promovendo uma lógica de formação de curta ou curtíssima duração, mas sem o suporte de competências chave essenciais para o desenvolvimento pessoal, social e profissional (literacia, numeracia, pensamento crítico, competências digitais…). Uma vez mais, dos EUA importam-se então coisas como as “micro-credentials”, tentando reproduzir no espaço europeu, todos os cancros educacionais e formativos que se observam no centro imperial.

Coincidentemente, é o próprio estudo da EDULOG que nos diz que EUA e Reino Unido, não apenas já sofrem, com agudeza, o problema da falta de professores, como não o conseguem resolver.

Quando me recordo, nos idos anos 80 e 90, sobre o papel que os meus professores tiveram na minha vida, nunca me esqueço que os professores eram um pilar fundamental do nosso desenvolvimento individual e social. Era absolutamente impensável, para mim ou um colega meu, falar mal, de forma gratuita, de um professor.

A crise no sistema de educação ocidental é, sobretudo, reflexo de uma crise moral e éticas profundas. As brilhantes, mas banais conclusões a que este estudo chegou- este e muitos outros –, pecam por tardias, pecam, sobretudo, por anacronia. A experiência histórica, o conhecimento científico e os instrumentos de análise permitiam em 1989 (ano da celebração do consenso de Washington), como hoje, perceber o quão erradas estavam aquelas propostas políticas. Não faltaram avisos, críticas e análises fundamentadas sobre as reais intenções e as falácias montadas para deturpar a realidade e justificar o movimento ilusório. Todas foram e são secundarizadas, quando não perseguidas e ostracizadas.

No máximo dos máximos faz-se como faz este estudo: nunca ligam as causas e as conclusões à vivência política. Fazê-lo, dizem, é “ideologizar”, não o fazer é “pragmatizar”. E assim se justifica e branqueia a candidatura e eleição, mesmo que precária e democraticamente pouco representativa, de todos os que defendem o erro e, mais grave ainda, a sua continuidade e aprofundamento.

Décadas de testes americanos – de escolha múltipla – em que se diz ao aluno o que pensar, ao invés de o fazer pensar por si mesmo, de burocratização e mercantilização do ensino, ataque à escola pública e destruição do estatuto individual e colectivo do professor, foram os veículos usados pelo neoliberalismo para conseguir o que o fascismo fazia com o analfabetismo: convencer o povo de que os seus interesses eram, na realidade, os interesses da oligarquia que o oprime.

Para o conseguir, retirou-se dos programas de ensino o desenvolvimento e utilização de um instrumento cognitivo essencial para qualquer ser humano: a análise dialéctica, ou seja, a capacidade de analisar a realidade em movimento e como parte de um processo histórico. Fazendo-o, conseguiram apresentar uma versão histórica unicista e unificadora, a versão liberal. A história tinha acabado e era importante transmitir esse facto, fazendo acreditar que, não apenas era impossível outra realidade, como não era sequer desejável. Para tal diabolizaram-se todas as experiências indesejáveis e perigosas para a oligarquia. Hoje, quando se assiste ao fenómeno BRICS, os EUA apresentam-no como uma espécie de “união das autocracias”. Trata-se de um elogio, um elogio dito pelo medo, o medo de ficarem para trás.

Neste mundo neoliberal, para chegar ao topo, o fundamental é saber operar, mas não pensar. Stoltenberg não soube responder à questão de quantas invasões a China tinha praticado nos últimos 40 anos ou de quantas bases possui no estrangeiro; o Ministro da Defesa de Portugal, Nuno Melo, não sabia o que queria dizer a sigla NATO, chamando-lhe Tratado do “Atlético” Norte; Von Der Leyen acreditava que a Rússia retirava semicondutores de máquinas de lavar…).

Num mundo em que o conhecimento é pernicioso e perigoso para a oligarquia dominante, não admira que não existam professores suficientes. Não admira que a sua imagem tenha sido degradada e destruída, afastando os jovens dessa profissão.

Não admira que o ocidente seja o mundo do populismo, das fake-news, da pós-verdade, das revoluções coloridas, das vitórias eleitorais contestadas, dos golpes de estado judiciais e da alternância sem alternativa. Neste quadro, o professor torna-se uma personagem, não apenas redundante, como indesejada. O professor da escola pública, que se organiza e organiza os alunos em turmas, que transmite, pensa e faz pensar, é persona non grata.

Num sistema que promove o individualismo e o narcisismo, em que os heróis são os que enriquecem à custa de bilionários contrato públicos, o professor constitui, ainda e apesar de todas as limitações, um elo social precioso, ainda representativo da nossa conexão social, podendo conferir-lhe coesão e sentido de unidade.

Neste sentido, a destruição da sua imagem, do seu estatuto, é consequência inevitável da aceleração e intensificação do processo neoliberal, um sistema que vive precisamente do isolamento, solidão e desconexão social. O professor, enquanto elo de ligação entre seres de uma comunidade, é triturado por um sistema que sonha ver-nos aprender sozinhos, ligados a um ecrã e apenas comunicando pelo tempo estritamente necessário e sem conexão real, emocional.

Como qualquer fascismo, também o neoliberalismo tem ódio ao grupo, ao nosso ser social e colectivo, à civilização que a existência colectiva importa. “Em 2018, já mais de metade dos países da UE reportavam falta acentuada de professores”. A violência e o sentimento de desagregação social a que se assiste no ocidente, tem muito a ver com esta aniquilação do estatuto do professor.

Não é possível viver numa sociedade civilizada, que valorize o conhecimento e a sabedoria, e ao mesmo tempo, promova o neoliberalismo, o imperialismo e a hegemonia. A sua sobrevivência depende da destruição do sistema público de educação e das suas componentes fundamentais: a turma, o grupo, a escola e o elo que liga tudo isto, o professor.

Torna-se, portanto, imperioso para o neoliberalismo, “matar” a figura do professor, para melhor dominar e chegar ao aluno. Eis o que se esconde por detrás da destruição da escola pública! No final, basta apresenta-lo como uma consequência inesperada, prometer que se vai mudar, e tudo fica como está. “Democraticamente” imóvel, em degradação constante até final.

Com a destruição do professor, o ocidente neoliberal destrói algo mais importante ainda: a consciência de nós próprios!

O individualismo extremo consiste na inconsciência mais absoluta.

Fonte aqui.


O Estado Profundo

(A l e x a n d r e D o u g u i n e, in Euro-synergies, 04/11/2024, Trad. da Estátua)

Alexandre Douguine revela que o Deep State é uma cabala ocidental corrupta, infiltrada nos Estados Unidos e na Europa para manipular as eleições, esmagar líderes populistas como Donald Trump e impor a sua agenda liberal-globalista, fazendo-se passar por um protetor da democracia enquanto subverte implacavelmente a vontade do povo.


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O termo “estado profundo” é hoje cada vez mais utilizado no discurso político, passando do jornalismo para uma linguagem política comum. No entanto, o próprio termo está a tornar-se um tanto vago, surgindo diferentes interpretações. É, portanto, essencial olhar mais de perto o fenómeno descrito como “Estado Profundo” e compreender quando e onde este conceito começou a ser utilizado.

Esta frase apareceu pela primeira vez na política turca na década de 1990, descrevendo uma situação muito específica na Turquia. Em turco, “estado profundo” é derin devlet. Isto é crucial porque todos os usos subsequentes deste conceito estão de alguma forma ligados ao significado original, que surgiu pela primeira vez na Turquia.

Desde a época de Kemal Atatürk, a Turquia desenvolveu um movimento político e ideológico específico conhecido como kemalismo. Baseia-se no culto de Atatürk (literalmente, “Pai dos Turcos”), no secularismo estrito (rejeição do fator religioso não só na política, mas também na vida pública), no nacionalismo (enfatizando a soberania e a unidade de todos os cidadãos na comunidade étnica da Turqui, num cenário político diversificado), modernismo, europeísmo e progressismo. O kemalismo representou, em muitos aspetos, uma antítese direta da visão de mundo e da cultura que dominava o religioso e tradicionalista Império Otomano. Desde a criação da Turquia, o kemalismo foi e continua a ser, em grande parte, o código dominante da política turca contemporânea. Foi com base nestas ideias que o Estado turco foi estabelecido, sobre as ruínas do Império Otomano.

O kemalismo dominou abertamente durante o reinado de Atatürk e, posteriormente, este legado foi transmitido aos seus sucessores políticos. A ideologia kemalista baseava-se na democracia de estilo europeu, mas o poder real estava concentrado nas mãos da liderança militar do país, particularmente no Conselho de Segurança Nacional (CSN). Após a morte de Atatürk, a elite militar tornou-se a guardiã da ortodoxia ideológica do kemalismo. O CSN turco foi criado em 1960, após um golpe militar, e o seu papel aumentou significativamente após outro golpe em 1980.

É importante notar que muitos oficiais superiores do exército turco e oficiais de inteligência eram membros de lojas maçónicas, misturando assim o kemalismo com a maçonaria militar. Sempre que a democracia turca se desviou do kemalismo – seja para a direita ou para a esquerda – os militares anularam os resultados eleitorais e lançaram um ciclo de repressão.

No entanto, o termo derin devlet só apareceu na década de 1990, precisamente quando o islamismo político crescia na Turquia. Foi aqui que, pela primeira vez na história turca, surgiu um conflito entre a ideologia do estado profundo e a democracia política. O problema surgiu quando islamitas, como Necmettin Erbakan e o seu apoiante Recep Tayyip Erdoğan, prosseguiram uma ideologia política alternativa que desafiava diretamente o kemalismo. Esta mudança abrangeu tudo: o Islão substituiu o secularismo, estreitaram-se os laços com o Oriente, em comparação com o Ocidente, e a solidariedade muçulmana substituiu o nacionalismo turco. No geral, o salafismo e o neo-otomanismo suplantaram o kemalismo. A retórica antimaçónica, nomeadamente a de Erbakan, substituiu a influência dos círculos maçónicos militares seculares por ordens sufistas tradicionais e organizações islâmicas moderadas, como o movimento Nur de Fethullah Gülen .

Neste ponto, a ideia de estado profundo (derin devlet) surgiu como uma imagem descritiva do núcleo político-militar kemalista na Turquia, que se considerava acima da democracia política, cancelando eleições, prendendo figuras políticas e religiosas e posicionando-se acima da democracia política e dos procedimentos legais da política de estilo europeu. A democracia eleitoral só funcionou quando se alinhou com a linha de ação do exército kemalista. Quando surgia uma distância crítica, como no caso dos islamitas, o partido que venceu as eleições e até liderou o governo poderia ser dissolvido sem explicação. Nestes casos, a “suspensão da democracia” não tinha base constitucional – o exército não eleito agia com base no “oportunismo revolucionário” para salvar a Turquia kemalista.

Mais tarde, Erdoğan lançou uma guerra em grande escala contra o Estado profundo da Turquia, que culminou no julgamento de Ergenekon em 2007, onde quase todos os líderes militares da Turquia foram presos sob o pretexto de que estavam a planear um golpe de Estado. No entanto, Erdoğan mais tarde desentendeu-se com o seu antigo aliado, Fethullah Gülen, que estava profundamente enraizado nas redes de inteligência ocidentais. Erdoğan restaurou o estatuto de muitos membros do Estado profundo, formando com eles uma aliança pragmática, principalmente no terreno comum do nacionalismo turco. O debate sobre o secularismo foi atenuado e adiado e, especialmente depois da tentativa fracassada de golpe de Estado dos Gülenitas em 2016, o próprio Erdoğan começou a ser rotulado de “Kemalista Verde”. Apesar disso, a posição do Estado profundo na Turquia enfraqueceu durante o confronto com Erdoğan, e a ideologia do kemalismo diluiu-se, embora tenha sobrevivido.

Principais características do estado profundo

Da história política moderna da Turquia podemos tirar várias conclusões gerais. Um Deep State pode existir e faz sentido quando:

1) Existe um sistema eleitoral democrático;

2) Acima deste sistema existe uma entidade político-militar não eleita ligada a uma ideologia específica (independentemente de um determinado partido vencer);

3) Existe uma sociedade secreta (do tipo maçónico, por exemplo) que reúne a elite político-militar.

O estado profundo revela-se quando surgem contradições entre as normas democráticas formais e o poder desta elite (caso contrário, a existência do estado profundo permanece obscura). O estado profundo só é possível mesmo em democracias liberais nominais. Em sistemas políticos abertamente totalitários, como o fascismo ou o comunismo, não há necessidade de um Estado profundo. Aqui, um grupo ideologicamente rígido reconhece-se abertamente como a autoridade máxima, colocando-se acima das leis formais. Os sistemas de partido único enfatizam este modelo de governação, não deixando espaço para oposição ideológica e política. Só nas sociedades democráticas, onde não deveria existir nenhuma ideologia dominante, é que o Estado profundo emerge como um fenómeno de “totalitarismo oculto”, que manipula a democracia e os sistemas multipartidários à vontade.

Os comunistas e os fascistas reconhecem abertamente a necessidade de uma ideologia dominante, tornando o seu poder político e ideológico direto e transparente  (potestas direta, como disse Carl Schmitt). Os liberais negam ter uma ideologia, mas têm. Influenciam, portanto, os processos políticos baseados no liberalismo como doutrina, mas apenas indiretamente, através da manipulação  (potestas indirecta). O liberalismo só revela a sua natureza abertamente totalitária e ideológica quando surgem contradições entre ele e os processos políticos democráticos.

Na Turquia, onde a democracia liberal foi emprestada do Ocidente e não se enquadrava bem na psicologia política e social da sociedade, o Estado profundo foi facilmente identificado e nomeado. Noutros sistemas democráticos, a existência desta autoridade ideológica totalitária, ilegítima e formalmente “inexistente”, tornou-se evidente mais tarde. No entanto, o exemplo turco é de grande importância para a compreensão deste fenómeno. Tudo aqui é tão claro quanto um livro aberto.

Trump e a descoberta do estado profundo nos Estados Unidos

Agora vamos concentrar-nos no facto de que o termo “estado profundo” apareceu nos discursos de jornalistas, analistas e políticos nos Estados Unidos durante a presidência de Donald Trump. Mais uma vez, o contexto histórico desempenha um papel decisivo. Os apoiantes de Trump, como Steve Bannon e outros, começaram a falar sobre como Trump, tendo o direito constitucional de determinar o curso da política americana enquanto presidente eleito, encontrou obstáculos inesperados que não podiam ser atribuídos simplesmente à oposição do Partido Democrata ou à inércia burocrática.

Gradualmente, à medida que esta resistência se intensificava, Trump e os seus apoiantes começaram a ver-se não apenas como representantes da agenda republicana, tradicional para anteriores políticos e presidentes de partidos, mas como algo mais. O seu foco nos valores tradicionais e as suas críticas à agenda globalista atingiram não apenas os seus adversários políticos diretos, os “progressistas” e o Partido Democrata, mas também uma entidade invisível e inconstitucional, capaz de influenciar todos os principais processos da política americana – finanças, grandes empresas, meios de comunicação, agências de inteligência, sistema judiciário, grandes instituições culturais, instituições educacionais de ponta, etc. – de forma coordenada e direcionada.

Parece que as ações de todo o aparato governamental deveriam seguir o curso e as decisões de um Presidente dos Estados Unidos legalmente eleito. Mas descobriu-se que não era esse o caso. Independentemente de Trump, num nível mais elevado de “poder paralelo”, estavam em curso processos incontroláveis. Assim, o estado profundo foi descoberto nos próprios Estados Unidos.

Nos Estados Unidos, tal como na Turquia, existe sem dúvida uma democracia liberal. Mas a existência de uma entidade político-militar não eleita, ligada a uma ideologia específica (independentemente da vitória de um determinado partido) e possivelmente membro de uma sociedade secreta (como uma organização de tipo maçónico), era completamente imprevista para os americanos. Portanto, o discurso sobre o Estado Profundo durante este período abriu os olhos de muitos, passando de uma “teoria da conspiração” para uma realidade política visível.

É claro que o assassinato não resolvido de John F. Kennedy, a provável eliminação de outros membros do seu clã, numerosas inconsistências em torno dos trágicos acontecimentos de 11 de Setembro e vários outros segredos não resolvidos da política americana levaram os americanos a suspeitar da existência de uma espécie de “poder oculto” nos Estados Unidos.

As teorias da conspiração populares propuseram os candidatos mais improváveis ​​– desde cripto comunistas até reptilianos e Anunnaki. Mas a história da presidência de Trump, e mais ainda a sua perseguição após a derrota para Biden e as duas tentativas de assassinato durante a campanha eleitoral de 2024, tornam necessário levar a sério o estado profundo nos Estados Unidos. Não é mais algo que pode ser ignorado. Ele existe, ele age, ele é ativo e ele… governa.

Conselho de Relações Exteriores: rumo à criação de um governo mundial

Para explicar este fenómeno, devemos primeiro recorrer às organizações políticas americanas do século XX, que foram as mais ideológicas e procuraram funcionar para além das divisões partidárias. Se tentarmos encontrar o núcleo do Estado profundo entre os militares, as agências de inteligência, os magnatas de Wall Street, os magnatas da tecnologia e outros, é pouco provável que cheguemos a uma conclusão satisfatória. A situação é muito individualizada e difusa. Em primeiro lugar, devemos prestar atenção à ideologia.

Deixando de lado as teorias da conspiração, duas entidades destacam-se como as mais adequadas para desempenhar este papel: o CRE (Conselho de Relações Exteriores), fundado na década de 1920 por apoiantes do Presidente Woodrow Wilson, um ardente defensor do globalismo democrático, e o movimento muito posterior de neoconservadores americanos, que emergiram do meio trotskista outrora marginal e gradualmente ganharam influência significativa nos Estados Unidos.

Tanto o CRE como os neoconservadores são independentes de qualquer partido. O seu objetivo é orientar a política americana como um todo, independentemente de qual o partido que esteja no poder num determinado momento. Além disso, estas duas entidades possuem ideologias claras e bem estruturadas: o globalismo liberal de esquerda, no caso do CRE, e a hegemonia americana afirmada, no caso dos neoconservadores. O CRE pode ser visto como sendo os globalistas de esquerda e os neoconservadores como os globalistas de direita.

Desde o seu início, o CRE propôs-se a transformar os Estados Unidos de um Estado-nação num “Império” democrático global. Contra os isolacionistas, o CRE avançou a tese de que os Estados Unidos estão destinados a tornar o mundo inteiro liberal e democrático. Os ideais e valores da democracia liberal, do capitalismo e do individualismo foram colocados acima dos interesses nacionais. Ao longo do século XX, salvo uma breve interrupção durante a Segunda Guerra Mundial, esta rede de políticos, especialistas, intelectuais e representantes de corporações transnacionais trabalhou para criar organizações supranacionais: primeiro a Liga das Nações, depois as Nações Unidas, o Clube Bilderberg, o Comissão Trilateral, etc. A sua tarefa era criar uma elite liberal global unificada que partilhasse a ideologia do globalismo em todas as áreas: filosofia, cultura, ciência, economia, política, etc. As atividades dos globalistas dentro do CRE visavam estabelecer um governo mundial, envolvendo o desaparecimento gradual dos Estados-nação e a transferência de poder de antigas entidades soberanas para uma oligarquia global, composta pelas elites liberais do mundo, formada de acordo com os modelos do Ocidente.

Através das suas redes europeias, o CRE desempenhou um papel ativo na criação da União Europeia (um passo concreto em direção a um governo mundial). Os seus representantes – especialmente Henry Kissinger, o líder intelectual da organização – desempenharam um papel fundamental na integração da China no mercado mundial, uma medida eficaz para enfraquecer o bloco socialista. O CRE também promoveu ativamente a teoria da convergência e conseguiu exercer influência sobre os líderes soviéticos desde o final da era soviética, até Gorbachev. Sob a influência das estratégias geopolíticas do CRE, os últimos ideólogos soviéticos escreveram sobre a “governabilidade da comunidade mundial”.

Nos Estados Unidos, o CRE é uma organização estritamente apartidária, que reúne tanto os democratas, de quem é um pouco mais próximo, como os republicanos. Serve como sede do globalismo, com iniciativas europeias semelhantes – como o Fórum de Davos de Klaus Schwab – a funcionar como subsidiárias. Nas vésperas do colapso da União Soviética, o CRE estabeleceu uma filial em Moscovo, no Instituto de Estudos Sistémicos chefiado pelo académico Gvishiani, de onde emergiu o núcleo dos liberais russos da década de 1990 e a primeira onda de oligarcas ideológicos.

É claro que Trump se encontrou precisamente com esta entidade, apresentada nos Estados Unidos e em todo o mundo como uma plataforma inofensiva e prestigiosa, para a troca de opiniões entre especialistas “independentes”. Mas, na realidade, é uma verdadeira sede ideológica. Trump, com a sua agenda conservadora à moda antiga, ênfase nos interesses americanos e crítica ao globalismo, entrou em conflito direto e aberto com ela.

Trump pode ter sido presidente dos Estados Unidos apenas durante um breve período, mas o CRE tem uma história que abrange mais de um século e que determina a direção da política externa americana. E, claro, durante os seus cem anos no poder, o CRE formou uma vasta rede de influência, espalhando as suas ideias entre os militares, funcionários públicos, figuras culturais e artistas, mas especialmente nas universidades americanas, que se tornaram cada vez mais ideologizadas ao longo do tempo. Oficialmente, os Estados Unidos não reconhecem qualquer dominação ideológica. Mas a rede do CRE é altamente ideológica. O triunfo global da democracia, o estabelecimento de um governo mundial, a vitória completa do individualismo e da política de género – estes são os objetivos mais emblemáticos, dos quais é inaceitável desviar-se.

O nacionalismo de Trump, o seu programa América Primeiro e as suas ameaças de “drenar o pântano globalista” representaram um desafio direto a esta entidade, guardiã dos códigos do liberalismo totalitário (como de qualquer ideologia).

Mate Putin e Trump

Pode considerar-se o CRE uma sociedade secreta? Dificilmente. Embora favoreça a discrição, ele geralmente opera abertamente. Por exemplo, logo após o início da operação militar especial russa, os líderes do CRE (Richard Haass, Fiona Hill e Celeste Wallander) discutiram abertamente a viabilidade de um assassinato do Presidente Putin (uma transcrição desta discussão foi publicada no site oficial do CRE). O estado profundo americano, ao contrário do estado turco, pensa globalmente. Assim, os acontecimentos na Rússia ou na China são considerados por aqueles que se consideram o futuro governo mundial como “assuntos internos”. E matar Trump seria ainda mais fácil – se não conseguissem prendê-lo ou expulsá-lo das eleições.

É importante notar que as lojas maçónicas têm desempenhado um papel fundamental no sistema político americano desde a Guerra da Independência americana. Como resultado, as redes maçónicas estão intimamente ligadas ao CRE e servem como agências de recrutamento para ele. Hoje, os globalistas liberais já não precisam de se esconder. Os seus programas foram totalmente adotados pelos Estados Unidos e pelo Ocidente como um todo. À medida que o “poder secreto” se fortalece, gradualmente deixa de ser secreto. O que antes deveria ser protegido pela disciplina do segredo maçónico tornou-se agora um programa global aberto. Os maçons não hesitaram em eliminar fisicamente os seus inimigos, mesmo que não falassem sobre isso abertamente. Hoje eles fazem-no. Essa é a única diferença.

Os neoconservadores: dos trotskistas aos imperialistas

O segundo centro do estado profundo são os neoconservadores. Originalmente, estes eram trotskistas que odiavam a União Soviética e Estaline porque, segundo eles, a Rússia não tinha construído um socialismo internacional, mas um socialismo “nacional”, isto é, um socialismo num só país. Como resultado, argumentam eles, uma verdadeira sociedade socialista nunca foi criada e o capitalismo não foi plenamente realizado. Os trotskistas acreditam que o verdadeiro socialismo só poderá emergir quando o capitalismo se tornar global e triunfar em todo o lado, misturando irreversivelmente todos os grupos étnicos, povos e culturas, ao mesmo tempo que aboliu tradições e religiões. Só então (e não antes) chegará o momento da revolução mundial.

Os trotskistas americanos concluíram, portanto, que devem ajudar o capitalismo global e os Estados Unidos como seu porta-estandarte, ao mesmo tempo que procuram destruir a União Soviética (e mais tarde a Rússia, a sua sucessora), bem como todos os Estados soberanos. O socialismo, acreditavam eles, só poderia ser estritamente internacional, o que significava que os Estados Unidos tinham de fortalecer a sua hegemonia e eliminar os seus adversários. Só quando o Norte rico estabelecer o domínio completo sobre o Sul empobrecido e o capitalismo internacional reinar supremo em todo o lado é que as condições estarão maduras para passar para a próxima fase do desenvolvimento histórico.

Para levar a cabo este plano diabólico, os trotskistas americanos tomaram a decisão estratégica de entrar na grande política – mas não diretamente, uma vez que ninguém nos Estados Unidos votou neles. Em vez disso, infiltraram-se nos principais partidos, primeiro através dos Democratas e depois, depois de ganharem impulso, também através dos Republicanos.

Os trotskistas reconheceram abertamente a necessidade da ideologia e encararam a democracia parlamentar com desdém, vendo-a simplesmente como uma cobertura para o grande capital. Assim, juntamente com o CRE, formou-se outra versão do Estado profundo nos Estados Unidos. Os neoconservadores não ostentaram o seu trotskismo, mas sim apelaram aos militaristas americanos tradicionais, aos imperialistas e aos apoiantes da hegemonia global. E é contra essas pessoas, que até Trump praticamente dominavam o Partido Republicano, que Trump teve de lutar.

Democracia é uma ditadura

Num certo sentido, o estado profundo americano é bipolar, ou seja, tem dois polos:

1) o polo globalista de esquerda (CRE) e

2) o polo globalista de direita (os neoconservadores).

Ambas as organizações são apartidárias, não eleitas e carregam uma ideologia agressiva e proactiva que é, em essência, abertamente totalitária. Em muitos aspetos eles estão alinhados, divergindo apenas na retórica. Ambos se opõem ferozmente à Rússia de Putin e à China de Xi Jinping, e são contra a multipolaridade em geral. Nos Estados Unidos, ambos se opõem igualmente a Trump, porque ele e os seus apoiantes representam uma versão mais antiga da política americana, desligada do globalismo e focada em questões internas. Tal posição de Trump é uma verdadeira rebelião contra o sistema, comparável às políticas islâmicas de Erbakan e Erdogan, que outrora desafiaram o kemalismo na Turquia.

Isto explica porque é que o discurso em torno do Estado profundo surgiu com a presidência de Trump. Trump e as suas políticas conquistaram o apoio de uma massa crítica de eleitores americanos. No entanto, descobriu-se que esta posição não correspondia às opiniões do Estado profundo, que se revelou agindo duramente contra Trump, indo além do quadro legal e atropelando as normas da democracia. A democracia somos nós, declarou essencialmente o estado profundo americano. Muitos críticos começaram a falar em golpe de estado. E foi essencialmente isso que aconteceu. O poder paralelo nos Estados Unidos entrou em conflito com a fachada democrática e começou a parecer cada vez mais uma ditadura – liberal e globalista.

O Estado Profundo Europeu

Consideremos agora o que o Estado Profundo poderia significar no caso dos países europeus. Recentemente, os europeus começaram a notar que algo incomum está a acontecer com a democracia nos seus países. A população vota de acordo com as suas preferências, apoiando cada vez mais vários populistas, especialmente os de direita. No entanto, uma entidade dentro do Estado suprime imediatamente os vencedores, sujeita-os à repressão, desacredita-os e remove-os à força do poder. Vemos isso na França de Macron com o partido de Marine Le Pen, na Áustria com o Partido da Liberdade (FPÖ), na Alemanha com a Alternativa para a Alemanha (AfD) e com o partido de Sahra Wagenknecht, e na Holanda com Geert Wilders, entre outros. Eles vencem eleições democráticas, mas depois são afastados do poder.

Uma situação familiar? Sim, isto parece-se muito com a Turquia e o papel do exército kemalista. Isto sugere que estamos também a lidar com um Estado profundo na Europa.

Torna-se imediatamente claro que em todos os países europeus esta entidade não é nacional e funciona segundo o mesmo modelo. Este não é apenas um estado profundo francês, alemão, austríaco ou holandês. É um estado profundo pan-europeu, parte de uma rede globalista unificada. O centro desta rede está no estado profundo americano, principalmente no CRE, mas esta rede também envolve estreitamente a Europa.

Aqui, as forças liberais de esquerda, em estreita aliança com a oligarquia económica e os intelectuais pós-modernos – quase sempre de origem trotskista – formam a classe dominante não eleita mas totalitária da Europa. Esta classe vê-se como parte de uma comunidade atlântica unificada. Essencialmente, são a elite da NATO. Mais uma vez podemos recordar o papel semelhante do exército turco. A NATO é o quadro estrutural de todo o sistema globalista, a dimensão militar do estado profundo coletivo do Ocidente.

Não é difícil localizar o Estado profundo europeu em estruturas semelhantes ao CRE, como a secção europeia da Comissão Trilateral, o Fórum de Davos de Klaus Schwab e outras. É esta autoridade que a democracia europeia enfrenta quando, tal como Trump nos Estados Unidos, tenta fazer escolhas que as elites europeias consideram “más”, “inaceitáveis” e “repreensíveis”. E não se trata apenas das estruturas formais da União Europeia. O problema reside numa força muito mais poderosa e eficaz que não assume qualquer forma jurídica. Estes são os portadores do código ideológico que, de acordo com as leis formais da democracia, simplesmente não deveria existir. São os guardiões do liberalismo profundo, que respondem sempre com severidade a qualquer ameaça que surja dentro do próprio sistema democrático.

Tal como no caso dos Estados Unidos, as lojas maçónicas desempenharam um papel importante na história política da Europa moderna, servindo como sede de reformas sociais e transformações seculares. Hoje, as sociedades secretas já não são realmente necessárias, pois há muito que funcionam de forma aberta, mas a manutenção das tradições maçónicas continua a ser parte integrante da identidade cultural da Europa.

Chegamos assim ao mais alto nível de uma entidade antidemocrática e profundamente ideológica, que opera em violação de todas as regras e normas legais e detém o poder absoluto na Europa. Este é um poder indireto, ou uma ditadura oculta – o Estado profundo europeu, como parte do sistema unificado do Ocidente coletivo, vinculado pela NATO.

O Estado Profundo na Rússia na década de 1990

A última coisa que resta a fazer é aplicar o conceito de estado profundo à Rússia. Deve-se notar que no contexto russo este termo é usado muito raramente, se é que é usado. Isto não significa que não exista nada semelhante a um Estado profundo na Rússia. Pelo contrário, sugere que nenhuma força política significativa com apoio popular crítico o confrontou ainda. No entanto, podemos descrever uma entidade que, com um certo grau de aproximação, pode ser chamada de “estado profundo russo”.

Na Rússia, após o colapso da União Soviética, a ideologia estatal foi banida e, a este respeito, a Constituição russa alinha-se perfeitamente com outros regimes ditos liberais-democráticos. As eleições são multipartidárias, a economia é baseada no mercado, a sociedade é secular e os direitos humanos são respeitados. Do ponto de vista formal, a Rússia contemporânea não difere fundamentalmente dos países da Europa, da América ou da Turquia.

No entanto, existia na Rússia uma espécie de entidade implícita e apartidária, especialmente durante a era Yeltsin. Na época, esta entidade era designada pelo termo geral “A Família”. A Família desempenhava as funções de um estado profundo. Embora o próprio Yeltsin fosse o presidente legítimo (embora nem sempre legítimo no sentido lato), os outros membros desta entidade não eram eleitos por ninguém e não tinham autoridade legal. Na década de 1990, a Família consistia no círculo íntimo de Yeltsin, oligarcas, oficiais de segurança leais, jornalistas e ocidentais liberais. Foram eles que implementaram as principais reformas capitalistas do país, empurrando-as desafiando a lei, alterando-as como quisessem ou simplesmente ignorando-as. Eles não agiram puramente por interesse do clã, mas como um verdadeiro estado profundo: baniram certos partidos, apoiaram artificialmente outros, negaram o poder aos vencedores (como o Partido Comunista e o LDPR) e concederam-no a indivíduos desconhecidos e indiscriminados, controlaram a mídia e o sistema educacional, reatribuíram indústrias inteiras a figuras leais e eliminaram aquilo que não lhes interessava.

Naquela época, o termo “estado profundo” não era conhecido na Rússia, mas o fenômeno em si estava claramente presente.

Deve notar-se, no entanto, que em tão pouco tempo após o colapso do sistema de partido único abertamente totalitário e ideológico, um Estado profundo totalmente desenvolvido não poderia ter-se formado de forma independente na Rússia. Naturalmente, as novas elites liberais integraram-se simplesmente na rede global ocidental, extraindo dela tanto a ideologia como a metodologia do poder indireto  (potestas indireta) – através de lobbying, corrupção, campanhas mediáticas, controlo da educação e estabelecimento de normas sobre o que era benéfico e o que era prejudicial, o que era permitido e o que deveria ser proibido. O Estado profundo da era Yeltsin rotulou os seus oponentes de “castanhos-avermelhados”, bloqueando preventivamente desafios sérios tanto da direita como da esquerda. Isto indica que existia uma forma de ideologia (oficialmente não reconhecida pela Constituição) que serviu de base para tais decisões sobre o que era certo e o que era errado. Essa ideologia era o liberalismo.

Ditadura liberal

O estado profundo só aparece dentro das democracias, funcionando como uma instituição ideológica que as corrige e controla. Este poder sombrio tem uma explicação racional. Sem esse regulador supra democrático, o sistema político liberal poderia mudar, porque não há garantia de que o povo não escolherá uma força que ofereça um caminho alternativo à sociedade. Isto é precisamente o que Erdoğan na Turquia, Trump nos Estados Unidos e os populistas na Europa tentaram fazer – e conseguiram parcialmente. No entanto, o confronto com os populistas obriga o Estado profundo a sair das sombras. Na Turquia isto foi relativamente fácil, uma vez que o domínio das forças militares kemalistas estava em grande medida em linha com a tradição histórica. Mas no caso dos Estados Unidos e da Europa, a descoberta de uma sede ideológica que funciona através da coerção, de métodos totalitários e de frequentes violações da lei – sem qualquer legitimidade eleitoral – surge como um escândalo, porque desfere um duro golpe na crença ingénua no mito da democracia.

O Estado Profundo baseia-se numa tese cínica, no espírito do Animal Farm de Orwell: “Alguns democratas são mais democratas do que outros”. Mas os cidadãos comuns podem ver isso como uma forma de ditadura e totalitarismo. E eles estão certos. A única diferença é que o totalitarismo de partido único opera abertamente, enquanto o poder paralelo que está acima do sistema multipartidário é forçado a esconder a sua própria existência.

Isso não pode mais ser escondido. Vivemos num mundo onde o Estado Profundo passou de uma hipótese de teoria da conspiração para uma realidade política, social e ideológica clara e facilmente identificável.

É melhor encarar a verdade. O estado profundo é real e é uma coisa séria.

Fonte aqui.