Moçambique: a extrema direita tenta assaltar o poder

(Diário da Causa Operária, 07-01-2025)

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Quase 100 pessoas morreram em protestos incentivados pelo líder da extrema-direita moçambicana e ex-candidato presidencial Venâncio Mondlane, que se recusa a admitir a derrota nas eleições de 9 de outubro. Nos mais de quarenta dias de protesto já foram registradas mais de três mil prisões. Durante a tensa contagem de votos, que levou duas semanas para ser concluída, foram assassinados a tiros no meio da rua de duas figuras-chave ligadas ao Podemos, o principal partido da oposição.

Assim que os resultados foram conhecidos, o PODEMOS (Partido Otimista pelo Desenvolvimento de Moçambique), partido de Mondlane, que mal obteve vinte por cento dos votos, saiu às ruas de Maputo, capital do país, e de outras cidades. Desde então, tudo está paralisado.

Mondlane é empresário, banqueiro e pastor. Ele se apresentou como independente, apesar de pertencer à histórica oposição RENAMO (Resistência Nacional Moçambicana), uma organização de extrema-direita armada pela, na época, racista África do Sul e pelos Estados Unidos para lutar contra a FRELIMO durante a guerra civil de libertação.

O movimento da oposição de extrema-direita teve apoio de fortes panelaços dos bairros mais ricos da capital. Os protestos tornaram-se uma ocorrência diária, enquanto a repressão policial se torna mais forte chegando a usar munição letal e agredir os manifestantes. Mondlane, recentemente conclamou os seus seguidores para que continuassem os protestos por mais dois ou três meses.

Entretanto, o atual Presidente Filipe Nyusi, da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), e o candidato vencedor Daniel Chapo, por mais de setenta por cento dos votos, tentaram restabelecer a ordem no país. No dia 4 de dezembro, a oposição voltou a fazer uma nova semana contínua de protestos, enquanto o Governo alertou os cidadãos dos perigos que estão expostos se continuarem com a onda de violência. Na cidade de Pemba, capital da província de Cabo Delgado, também conhecido como Cabo Esquecido, a mil e setecentos quilômetros de Maputo, os manifestantes bloquearam ruas, incendiaram pneus e ergueram cercas para dificultar a chegada da polícia. Cenas semelhantes foram vistas em outras cidades, mas em Pemba os manifestantes foram particularmente violentos. Isso levantou suspeitas de que eles poderiam ser militantes da Ahlu Sunnah Wa-Jamaa (Seguidores do Caminho Tradicional ou Defensores da Tradição), o Daesh (Estado Islâmico) khatiba que opera em Cabo Delgado desde 2017, tendo feito desta província a principal frente de suas operações, gerando milhares de mortes, o cerco de pequenas cidades, sequestros, assassinatos rituais (decapitações), saques, ataques contra igrejas e até mesquitas.

Outro acontecimento que ficou oculto por trás do processo controverso da eleição moçambicana foi a morte a 2 de novembro, em aparente acidente de carro, de Bernardo Constantino Lidimba, chefe do Serviço Estatal de Informação e Segurança (SISE). Isso aconteceu no departamento de Mapai, na província de Gaza, a quase 400 quilômetros de Maputo e a menos de 100 quilômetros da fronteira com o Zimbábue, quando o país estava, e ainda está, à beira da explosão. O SISE conta com uma equipe de cerca de 20.000 agentes, muito superior ao próprio exército, com cerca de 12.500 soldados.

Algumas versões indicam que Lidimba estava viajando para se encontrar com seu homólogo do Zimbábue, o chefe da Organização Central de Isaac Moyo, com quem estava planejando um golpe contra o enfraquecido presidente Nyusi. O Ministério da Defesa de Moçambique informou sobre uma tentativa de golpe de Estado organizada por fatores internos e também externos, de modo que um plano de contingência foi executado.

Os antecedentes históricos

Em abril de 2021, terroristas ocuparam a cidade de Palma, uma das mais importantes da província, com mais de sessenta mil habitantes, e Mocímboa da Praia, com pouco mais de trinta mil, o que forçou as Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) a levar semanas para expulsar os mujahideen daquelas cidades e proteger as áreas circundantes. A tomada da cidade de Palma obrigou o governo do Presidente Nyusy a concentrar todas as suas forças para neutralizar os fundamentalistas, para o qual ele pediu a assistência dos governos de Ruanda e Zimbábue, além de contratar os serviços da empresa de segurança (mercenários) Dyck Advisory Group da África do Sul e do Grupo Wagner, agora conhecido como Africa Corps. Embora não tenham conseguido derrotá-los, forçaram os mujahideen a diminuir a intensidade de seus ataques.

Desde então, o grupo matou quase 5.000 pessoas, gerando mais de um milhão de pessoas deslocadas. A presença deste grupo terrorista em Cabo Delgado tem resultado na interrupção forçada das operações de várias empresas internacionais de gás que operam na costa da província. A atuação dos terroristas tem impedido a construção de uma megausina da Total Energies francesa na península de Afungi. Dificulta também a operação de um segundo campo de gás pela ExxonMobil, que será o maior investimento privado da história do continente a um custo total de cinquenta bilhões de dólares.

Em Moçambique, a exploração de gás natural, o seu recurso mais importante, é realizada principalmente por grandes empresas norte-americanas e europeias. As principais concessões de gás estão na Bacia do Rovuma, onde foram descobertas mais de 180 trilhões de pés cúbicos de reservas. Nesta área, a empresa francesa Total Energies, Eni da Itália e ExxonMobil dos EUA são as principais exploradoras, com o apoio financeiro do Eximbank e da Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos. Estes compromissos financeiros representam um dos maiores investimentos do governo dos EUA no continente africano.

Apesar de sua riqueza em recursos naturais de alto valor, como gás natural, grafite, titânio e diamantes, Moçambique ocupa atualmente a 183ª posição de 193 países no Índice de Desenvolvimento Humano. A desigualdade e a pobreza estão entre as mais altas em nível global, com quase metade de seus 33 milhões de habitantes vivendo abaixo da linha da pobreza. Este é o resultado, que não pode ser contestado por ninguém, de anos de exploração pelo imperialismo das riquezas naturais do país que nada melhorou a vida da população.


A Venuzuela e o Guaidó 2.0

(Bruno Amaral de Carvalho, in Facebook, 06-01-2025)

Tão amigo que ele é do fascista Milei da Argentina

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Costumo dizer que Caracas é a mais bonita das cidades feias. Enterrada num vale, sempre que aqui venho fico fascinado com a dimensão das montanhas que separam a capital da Venezuela do mar. O oceano de favelas substitui por vezes o manto verde. Foi este oceano que levou Hugo Chávez ao poder em 1999. Caracas é testemunha de um trânsito histórico que começou em 1992, quando Chávez encabeçou uma revolta militar fracassada. No carnaval desse ano, centenas de crianças apareceram mascaradas com os uniformes dos soldados revoltosos.

Vista de Caracas

Passaram décadas e Caracas continua a ser o lar dos bandos de papagaios coloridos que rasgam os céus, dos idosos que jogam xadrez nas ruas e da eterna rebeldia. Podia ser a calma antes da tormenta mas, janeiro, não é mês de tempestades. Quando o ano começa, os caraquenhos abandonam a capital da Venezuela rumo ao mar. A banhos sobretudo nas praias a norte de Caracas, a cidade que viu nascer Simón Bolívar tem um relativo descanso do habitual caos que caracteriza a capital venezuelana.

Esta podia ser a descrição mais fiel do que acontece em janeiro não fosse o facto de estarmos a quatro dias da tomada de posse do Presidente da República Bolivariana da Venezuela. É já na sexta-feira que Nicolás Maduro será empossado, novamente, como chefe de Estado. No mesmo dia, Edmundo González, que diz ter sido ele o eleito, pretende também aparecer em Caracas para tomar posse. Como? Não se sabe.

Num périplo de curta duração por vários países da América Latina, o candidato da oposição foi recebendo o apoio de vários presidentes e apelou aos militares venezuelanos para derrubarem Nicolás Maduro. Encontrou-se também com Mike Waltz, futuro assessor de Segurança Nacional de Donald Trump. Por outro lado, Maria Corina Machado, veterana opositora, que está em lugar desconhecido, apelou a que o povo saia às ruas na próxima quinta-feira: “Maduro no se va a ir solo, hay que hacerlo salir con la fuerza de un pueblo que no se rinde jamás“.

A haver distúrbios nas ruas, será a enésima tentativa da oposição de provocar uma guerra civil no país. Profundamente dividida, a oposição perde líderes atrás de líderes, desacreditados e sem apoio da população. Foi assim com Guaidó. Insuflado pelos governos ocidentais e pela imprensa, acabou apedrejado pelos seus próprios apoiantes e ostracizado em Miami.

A oposição faz desfilar candidatos atrás de candidatos. Nas outras eleições, para autarquias e estados, aceita os resultados porque consegue eleger. Nas eleições em que não consegue eleger, reclama fraude.

É verdade que há uma parte da população que está descontente com a atual situação económica. A Venezuela é um país assediado por sanções, tentativas de golpes de Estado e terrorismo. A asfixia é absoluta. É uma receita para afundar povos e derrubar governos. Há bem pouco tempo, várias bombas danificaram seriamente uma das principais refinarias de petróleo do país. Apesar de a dolarização da economia ter promovido a entrada de divisas estrangeiras e isso ter potenciado a importação num país absolutamente dependente da indústria petrolífera, também é verdade que isso gerou mais desigualdades, que o governo tem tentado travar com sucessivos aumentos salariais e suplementos.

Mas independentemente do que possamos achar da Venezuela, de Nicolás Maduro ou das suas opções políticas e económicas, o único motivo que leva a que o país seja alvo do assédio ocidental é o facto de ter as maiores reservas de petróleo e o facto de se opor aos Estados Unidos. As ruas falarão nos próximos dias e cabe-nos ouvir o que nos têm para dizer.


Vade retro, beijoqueiro

(Por Estátua de Sal, 06/01/2025)

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Durante a cerimónia de entrega dos Prémios Gazeta de Jornalismo, uma das agraciadas, a jornalista Marta Vidal, distinguida com a Gazeta de Imprensa pela reportagem “A liberdade, lá em cima: os pássaros de Gaza”, publicada pelo Expresso, defraudou as expectativas de Marcelo a maior aproximação, recusando o ósculo do conhecido beijoqueiro-mor do Reino. Levas um aperto de mão e vais com sorte, porque estamos fartos da tua hipocrisia untuosa – terá ela pensado.

E, para culminar a faena ao poder dos notáveis, tão exuberantemente representado na cerimónia, terminou a jornalista com um discurso de crítica à conivência dos nossos políticos e dos líderes do país com o genocídio que está a ocorrer em Gaza, acusando Marcelo e também o Governo e o presidente da Câmara Municipal de Lisboa de se manterem “em silêncio” perante “a aniquilação de um povo e de um território” por parte de Israel.

Moedas engoliu em seco, e calou-se. Marcelo ficou amarelado e ainda tentou retorquir, dizendo que Portugal aprovou na ONU todas as resoluções a favor de Gaza.

Sim, triste país sem autonomia para fazer o que é correcto. Manda o Império, manda o lobby sionista, manda Bruxelas e todos se calam.

Citando o Miguel Castelo Branco no seu mural do Facebook:

Pela coragem e desassombro, Marta Vidal redime, mas também envergonha essa classe profissional que cala, colabora e rasga diariamente a carta deontológica do ofício. Mereceu largamente o galardão e esbofeteou publicamente com estrondo e sem luva de pelica a cobardia de bem, a hipocrisia medrosa e o double standard do nosso tempo. Temos jornalista!

Parabens à jornalista pela coragem e pela verticalidade de princípios que evidenciou. Uma bofetada sem luva, às vezes, tem efeitos terapêuticos.

Ver o vídeo da cerimónia aqui mormente a partir do minuto 25 quando ocorre a cena do Vade retro 🙂

Ou em alternativa, para quem tiver conta no X, aqui, já só a partir do minuto 25.