Uma guerra por escolha da NATO – A sabotagem das negociações de Istambul

(Glenn Diesen, Tradução de Fernando Oliveira, in A Tertúlia Orwelliana, 27/02/2026) 

Glenn Diesen é professor de geoeconomia política na Universiteteti Sørøst-Norge 
[Universidade de Sudeste-Noruega].

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O professor Glenn Diesen descreve neste texto (e no vídeo de onde ele foi extraído) algumas das provas de como os EUA e o Reino Unido sabotaram as negociações de paz em Istambul para usar a Ucrânia como instrumento para enfraquecer a Rússia. Depois de a OTAN (/NATO) ter construído um grande exército ucraniano para enfraquecer um rival estratégico, era absurdo supor que a Ucrânia teria permissão para restaurar sua neutralidade e fazer as pazes com a Rússia (F. Oliveira).

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Montenegro luta pelo poder e receia a crise

(João Gomes, in Facebook, 06/03/2026)


Há apenas poucas semanas, o primeiro-ministro português, Luís Montenegro, garantia aos portugueses que governaria durante quatro anos. A promessa parecia simples, direta e quase tranquila, como quem acredita que o caminho está limpo de obstáculos. A política, porém, raramente respeita calendários anunciados com tanta confiança. De repente, o cenário mudou.

Uma devastadora sequência de tempestades no centro-sul do país destruiu uma parte significativa da produção nacional, afetando cadeias industriais e agrícolas e abrindo um rombo financeiro que poderá ultrapassar os quatro mil milhões de euros. Um impacto próximo de um ponto percentual do PIB – o suficiente para transformar previsões orçamentais otimistas numa realidade muito mais incerta.

Quando um governo ainda procura resolver velhos problemas estruturais – saúde pública em tensão permanente, dificuldades na política de imigração, mercado de trabalho pouco dinâmico e uma execução lenta dos fundos europeus – a chegada de uma crise inesperada tem o efeito de revelar aquilo que já existia: fragilidade na capacidade de resposta do Estado.

É neste contexto que a política portuguesa entra num momento curioso. Passos Coelho decidiu reaparecer no debate público com críticas claras à direção política atual. Não é um gesto banal. Na tradição dos grandes partidos portugueses, antigos líderes raramente intervêm de forma tão direta quando o partido está no poder. Quando isso acontece, normalmente significa que algo mais profundo está a mover-se nos bastidores.

Ao mesmo tempo, surge outra sombra política: o caso da empresa Spinumviva, ligada ao próprio primeiro-ministro. Embora não exista acusação criminal, a decisão do Tribunal Constitucional de permitir a divulgação de informação relevante mantém o tema no centro do escrutínio público. Em política, muitas vezes o problema não é a ilegalidade comprovada, mas a suspeita persistente.

Como se não bastasse, o ambiente internacional também começa a mudar. A tensão no Médio Oriente e a guerra envolvendo o Irão já provocaram oscilações significativas no preço dos combustíveis. A história económica europeia mostra que estas crises energéticas raramente ficam confinadas ao mercado petrolífero: rapidamente se transformam em inflação, aumento do custo de vida e pressão social.

Perante este cenário acumulado – crise natural, pressão económica, escrutínio político e críticas internas – Montenegro tomou uma decisão que revela tanto confiança como prudência: convocar eleições internas no seu partido. Foi uma mensagem clara. Quem quiser contestar a sua liderança terá oportunidade de o fazer nas urnas do partido. É um gesto político clássico. Ao antecipar o confronto interno, o líder procura transformar a contestação difusa num desafio claro e imediato. Se vencer, reforça a sua legitimidade; se perder, o problema deixa de ser apenas político e passa a ser institucional. Porque, nesse caso, Portugal entraria numa zona politicamente delicada.

Se o líder do partido do governo deixar de ser primeiro-ministro – ou se o partido escolher outro líder – abre-se inevitavelmente uma questão constitucional e política: quem governa e com que legitimidade parlamentar? Em teoria, o chefe do governo pode continuar em funções. Na prática, o sistema político português dificilmente toleraria tal dissociação durante muito tempo. É por isso que as eleições internas do partido podem acabar por ser mais relevantes do que parecem. Não se trata apenas de uma disputa de liderança. Trata-se de um teste ao equilíbrio de poder dentro do próprio governo.

Entretanto, enquanto a política se reorganiza, os problemas estruturais do país continuam praticamente no mesmo lugar onde estavam antes das tempestades. O sistema de saúde permanece pressionado, a política de imigração continua a gerar divisões, o mercado de trabalho não mostra sinais claros de transformação e os grandes projetos financiados pela União Europeia avançam mais devagar do que o discurso oficial sugere. Portugal parece viver um curioso paradoxo: a política move-se rapidamente, mas os problemas movem-se muito pouco.

Se Montenegro vencer as eleições internas, poderá apresentar o resultado como uma renovação de confiança. Mas isso não eliminará os desafios que se acumulam à porta do governo. Se, pelo contrário, perder – hipótese ainda teórica – Portugal poderá entrar num novo ciclo político marcado por reorganização partidária, eventual mudança de liderança governativa e até eleições antecipadas.

Assim, o país aproxima-se de maio com uma pergunta no ar: saber se estamos perante um simples episódio de turbulência política ou perante o início de uma nova fase na vida política portuguesa. Entretanto, como tantas vezes acontece em Portugal, a política discute o poder enquanto o país espera pelas soluções.


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Imagina que a Democracia tem um “final feliz”

(Luis Rocha, in Facebook, 05/03/2026, mural de António Reis, revisão Estátua )


Imagina que um homem extremamente bem relacionado te convida para almoçar. Não um almoço qualquer, claro. Um daqueles almoços onde a lista de convidados parece saída de um encontro entre a realeza, Wall Street, Hollywood e meia dúzia de políticos que juram nunca ter estado ali. Imagina que o anfitrião é educado, inteligente, simpático, daqueles que conhecem toda a gente e que, curiosamente, toda a gente parece conhecer.

Imagina que, a meio da tarde, o anfitrião te pergunta com a naturalidade de quem oferece café se queres uma massagem. Nada de estranho. Stress, agenda cheia, o mundo é duro para quem tem responsabilidades. Depois mostra-te uma sala com jovens raparigas que parecem ter saído de um catálogo de spa tropical.

Imagina que aceitas. Imagina que a massagem termina com um daqueles chamados “finais felizes” que, convenhamos, transformam rapidamente qualquer spa numa tese prática sobre hipocrisia humana. Oral, manual, talvez mais do que isso. Um momento breve de decadência privada entre adultos que, naquele instante, acreditam que ninguém está a ver.

Agora imagina que dias depois o teu anfitrião telefona. E com uma voz perfeitamente tranquila te informa que as jovens eram menores. E que, por acaso, tudo foi gravado. Parabéns. Acabaste de ser promovido a marioneta.

Agora imagina que és juiz. Estás a decidir um processo delicado do tipo pedofilia, corrupção, tráfico de influências ou evasão fiscal. O tipo de caso que aparece nos jornais, e faz os discursos sobre moralidade pública florescer como papoilas em Maio. Imagina que o telefone toca. Do outro lado está o teu antigo anfitrião. Não pede nada de forma direta, claro. Pessoas sofisticadas não fazem chantagem de forma vulgar. Limitam-se a recordar-te que a memória digital é uma coisa extraordinária. E que certos vídeos envelhecem muito mal.

Imagina agora que és político. Tens de votar legislação sobre controlo de armas, direitos laborais ou regulação ambiental. Discursos inflamados no parlamento, entrevistas televisivas, promessas de integridade. Tudo muito digno. Até te lembrares da sala de massagens. E da câmara no canto.

Imagina que és editor de um grande jornal. Um desses guardiões da verdade que escrevem editoriais sobre ética pública e civilização ocidental. E imagina que sabes que existe um ficheiro com o teu nome. Um ficheiro onde a tua dignidade aparece reduzida a meia hora de spa altamente comprometedora.

Agora imagina que o teu simpático anfitrião afinal não era apenas um milionário excêntrico com amigos influentes. Imagina que era um operador. Um ativo. Alguém financiado para recolher segredos, fragilidades e pecados de gente poderosa. Um colecionador de compromissos humanos embalados em vídeo. Um homem chamado Jeffrey Epstein.

Imagina também que a sua companheira, Ghislaine Maxwell, não era apenas uma socialite elegante, mas também filha de Robert Maxwell, figura rodeada durante décadas pela aura de colaboração com os serviços de inteligência israelitas. E imagina que, quando Robert Maxwell morreu, recebeu funeral com honras em Israel.

Mas claro, tudo isto são coincidências. A História adora coincidências. Imagina agora a dimensão da coleção. Príncipes, bilionários, senadores, governadores, jornalistas, juízes, académicos e até presidentes. Um verdadeiro museu das elites ocidentais. Alguns desses nomes surgiram publicamente. Outros ficaram convenientemente protegidos pela névoa jurídica e pelo silêncio institucional.

Depois imagina que um dia o colecionador morre numa prisão. Oficialmente suicídio. Câmaras que não funcionam. Guardas que dormem. Protocolos que falham todos ao mesmo tempo, como se a incompetência tivesse decidido fazer uma festa. E imagina que, pouco depois, desaparecem gravações. Desaparecem documentos. Desaparecem provas.

Porque revelar tudo seria… inconveniente. Não para a justiça, naturalmente, essa gosta de luz, mas para uma certa elite global que descobriria, de repente, que a moralidade pública tinha sido administrada por um clube privado de pecadores gravados em alta definição.

Imagina agora a última cena. Milhares de pessoas poderosas continuam nos seus cargos. Fazem discursos, votam leis, escrevem editoriais, tomam decisões sobre guerras, economia e liberdade. E talvez algumas delas, quando o telefone toca à noite, sintam aquele frio muito particular na espinha.

Não é culpa. Não é arrependimento. É apenas a lembrança de que algures pode existir um vídeo.

E que, no grande teatro da política mundial, a democracia pode até parecer um sistema de governo. Mas às vezes funciona mais como um espectáculo de marionetas.

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