Está a preparar-se o país para a guerra nas costas dos cidadãos

(Estátua de Sal, 01/03/2025)

Exercício TAURUS 25, uma importante jornada de treino tendo em vista a certificação das unidades que integram o Battlegroup da União Europeia, durante o segundo semestre de 2025 e o primeiro de 2026.

Nós, portugueses, estamos metidos num grande sarilho. Andamos distraídos, alienados pelas notícias que nos servem para nos manipular e com aquelas que nos sonegam para não anteciparmos os perigos de um futuro negro e a ele resistirmos.

Fazemos parte de uma União Europeia que, durante os três anos de duração da guerra na Ucrânia, nunca falou de paz, embandeirou pela russofobia militante, cavalgou pacotes de sanções e mais sanções contra a Rússia, malbaratou milhões do nosso dinheiro em armas que os russos transformaram em ferro-velho, e que hoje, com os ventos da paz a soprarem forte no horizonte, continua belicista e disposta a prosseguir com a mortandade dos ucranianos.

E Portugal, tristemente, está no pelotão da frente dessa união de assanhados guerreiros de secretária. Temos um governo e uma classe política – exceção ao PCP e, nessa matéria, honra lhe seja feita -, que ergue sem rebuço bandeirinhas azuis e amarelas defendendo um regime corrupto, sanguinário e provadamente nazi. Ao que nós chegámos.

Ainda recentemente se pôde ler, num projeto de voto, iniciativa do presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco que: “A Assembleia da República, reunida em plenário, reafirma a sua solidariedade para com o povo ucraniano, no dia em que se cumprem três anos desde o início da invasão russa“. O voto foi aprovado com os votos a favor de todas as bancadas e do deputado Arruda não inscrito, e o voto contra do PCP. No final da votação, os deputados dos vários partidos aplaudiram de pé, à exceção dos comunistas, que permaneceram sentados. (Ver notícia desenvolvida aqui).

Mas, entretanto, os ímpetos belicosos da nossa classe política e a solidariedade com os nazis da Ucrânia não se resume só à conversa inócua e sem consequências práticas dos deputados, como se pode ver na notícia abaixo, à qual não foi dado quase nenhum destaque na comunicação social, talvez para os cidadãos não começarem a refletir sobre o que se pode avizinhar.

Brigada portuguesa pronta para ir para a Ucrânia

Uma brigada do Exército Português prepara-se para ser enviada da União Europeia como força de reacção rápida, a partir do segundo semestre, pelo período de um ano, podendo ser enviada para a Ucrânia caso a paz seja assinada, disse o chefe do Estado-Maior do Exército.

Com a esperança de que o conflito na Ucrânia esteja a diminuir de intensidade, existe também a possibilidade de a UE apreciar a importância” de uma força não destinada ao combate, mas sim para responder a crises internacionais e a missões humanitárias, de estabilização e de manutenção da paz, explicou o general Mendes Ferrão no campo de treino militar de Santa Margarida, onde o comando da brigada portuguesa estava a ser testado esta semana.” (Ver notícia mais desenvolvida aqui ).

E o mesmo se passa com o vídeo que segue abaixo, nenhum destaque. O Ministério da Defesa português publicou um vídeo motivacional para as crianças para que não tenham medo e vão servir nas Forças Armadas, isto em 21/02/2025. Sim, não basta a mortandade dos ucraniamnos e russos, agora também querem a mortandade dos jovens europeus e, Portugal, “alegremente lá vai cantando e rindo, levado, levado, sim“, como entoava o hino de má memória da Mocidade Portguguesa. Produzir carne para canhão leva tempo pelo que é preciso começar já a trabalhar na empreitada…

Mas, claro, as guerras ficam caras e os milhões não caem das árvores como fruta madura. Mas nada a temer – não há imbróglio que não tenha solução. A prestimosa União Europeia da Van der Leyen já descobriu a árvore das patacas. Os países que se endividem que eles, polícias e burocratas de Bruxelas, fecham os olhos a essa sacrossanta regra do limite do défict dos estados-membros a 3% do PIB! Mas só se for para fazer despesas com guerra, para dar tiros e matar gente, russos de preferência. Se for para estradas, escolas, hospitais e outros serviços públicos eles atiram-nos logo, mais uma vez, a troika para cima…

Ora, tal posição da União Europeia, levou o deputado do PCP no Parlamento Europeu, João Oliveira, a questionar a Comissão sobre a aplicação da cláusula de derrogação do Pacto de Estabilidade para promover o militarismo e a guerra. Eis um extrato da interpelação:

“O aumento do custo de vida degrada a vida dos trabalhadores e das suas famílias. Na UE há mais de 90 milhões de pessoas em risco de pobreza e exclusão social, entre elas 20 milhões de crianças. A dificuldade no acesso à habitação agudiza-se. No entanto, a Comissão Europeia continua a dar prioridade ao militarismo e a fazer da corrida aos armamentos o motor de uma economia que concebe como de guerra.”

E, do mesmo João Oliveira, e na mesma linha de pensamento, o texto que já publicámos na Estátua (ver aqui), intitulado “Para o povo nada, para o militarismo tudo“, alerta também ele para a postura belicista e guerreira de uma União Europeia que, só pode estar com tal postura, por se encontrar num delírio de grandeza irreal, que antecede o último suspiro de um moribundo.

E, enquanto tudo isto ocorre, temos o Almirante Gouveia e Melo a declarar que “Se a Europa for atacada e a NATO nos exigir, vamos morrer onde tivermos de morrer para a defender”. Sim, parece que andamos todos distraídos, não tendo noção do beco perigoso para onde nos querem levar: o homem parece que já está a contar com os nossos filhos e netos para serem carne para canhão, e mesmo assim, parece que vai à frente nas sondagens.

E como uma desgraça nunca vem só, todos os outros candidatos que até aqui se tem perfilado, são também eles “Gouveias e Melos“, “almirantezinhos” dos pequeninos. É hora de acordar, antes que seja demasiado tarde.

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Para o povo nada, para o militarismo tudo

(João Oliveira, in Diário de Notícias, 25/01/2025)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Se um país quiser investir em habitação, saúde, educação, transportes, infraestruturas, se quiser apoiar a actividade produtiva ou o desenvolvimento científico e tecnológico, se quiser aumentar salários e pensões ou combater a pobreza e a exclusão social, isso só pode ser feito desde que não sejam ultrapassados os limites do défice orçamental e da dívida pública fixados pelo Pacto de Estabilidade e Crescimento (na formulação revista e reforçada pelos diversos mecanismos de controlo económico e orçamental que estão hoje ao dispor da União Europeia).

Se quiser investir em equipamento militar, armas, munições, tecnologia militar ou no prolongamento de uma guerra aprovada pela UE – nomeadamente a guerra na Ucrânia – não precisará de se preocupar com os limites do Pacto porque a Comissão Europeia vai criar uma excepção para esses gastos.

É este absurdo político que resulta das palavras da presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, quando afirmou recentemente que irá propor a ativação da cláusula de derrogação (do Pacto de Estabilidade e Crescimento) para os investimentos em Defesa.

Vinte anos depois da aprovação do Pacto, a racionalidade económica e orçamental dos seus critérios continua por explicar. Mas estão bem à vista as consequências e os fins da sua aplicação. E é também evidente que essa aplicação não é a mesma para todos nem para tudo.

As consequências dos critérios do Pacto estão à vista na queda do investimento público, na degradação dos serviços públicos, no agravamento do atraso relativo de Portugal face às principais potências da UE, na crescente dependência externa, na contenção dos salários.

Os fins a que se destina a aplicação do Pacto ficaram especialmente à vista com as políticas dos PEC e das troikas em Portugal, entre 2008 e 2015. Foi em nome dos seus critérios que se impuseram medidas draconianas de controlo político e económico, de entrega de empresas e sectores económicos estratégicos a multinacionais, de drenagem de recursos nacionais para as grandes potências da UE, de aprofundamento da exploração dos trabalhado- res em benefício dos grandes grupos económicos e financeiros.

Quando se tratou de aplicar o Pacto de Estabilidade a Portugal, Irlanda, Grécia ou Espanha para satisfazer os interesses dos megabancos e especuladores internacionais não se poupou nada. Quando são as potências da UE, como a França, a assumir abertamente que não vão cumprir os seus critérios, nada acontece.

As declarações de Von der Leyen sobre a excepção para os gastos com o militarismo mostram que a prioridade da UE é a aventura belicista e militarista. Esse é o ponto de partida para novas medidas de favorecimento dos grupos económicos e das multinacionais, apresentando a guerra como motor de uma economia concebida como economia de guerra.

A resposta aos problemas dos povos fica para trás e nem como excepção é considerada.

Quem não aceitar este caminho que levante a voz contra o Pacto!

Eurodeputado

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

Terras raras e mentes raríssimas

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 27/02/2025, Revisão da Estátua)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

As centrais de comunicação lançaram há uns tempos o tema das “terras raras” como elemento central da girândola de fogo-de-artifício de distração sobre o essencial do que está a ser negociado sobre a Ucrânia. As terras raras não são assim tão raras, as maiores reservas situam-se na China, os Estados Unidos dispõem grandes reservas, assim como a Rússia e a Ucrânia não faz parte dos reservatórios significativos.

O que está causa no acordo para o fim da guerra é a divisão do «botin» de guerra, do espólio da Ucrânia, o modo como os Estados Unidos e a Rússia vão ser compensados com as despesas que fizeram com esta guerra que as administrações americanas prepararam desde 2004. Já se sabe que os Estados Unidos vão ter direito a explorar os recursos minerais da Ucrânia nos territórios que ficarão sob controlo do estado ucraniano, que Kiev terá um governo vassalo e será dotado de umas forças armadas com capacidade para garantir que cumpre os acordos com os EUA e a ordem interna. Do lado dos territórios ocupados pela Rússia, esta também já se mostrou disponível para integrar os seus recursos minerais no acordo geral do “negócio dos minérios”. Ajuda a compor o orçamento.

O acordo dos minérios na Ucrânia é na sua essência idêntico aos acordos que nos anos 60 e 70 os Estados Unidos impuseram a estados vassalos na América do Sul, do qual o mais conhecido é o da exploração do cobre no Chile, por empresas americanas. A nacionalização das minas de cobre decretada pelo governo de Allende originou o golpe para repor a ordem do “negócio”, embora a nacionalização não afetasse as empresas estrangeiras, apenas as suas “compensações”. O acordo dos minérios na Ucrânia é do mesmo tipo do que ocorreu no Chile e dotará as empresas americanas do direito de exploração, o que arrasta o direito de intervenção. Os Estados Unidos garantirão as condições de segurança do negócio, que tem a vantagem suplementar de também favorecer a Rússia, a quem convém uma Ucrânia o mais dependente económica e politicamente possível.

Em resumo, as duas superpotências já acordaram sobre o grau de soberania que será concedido à Ucrânia e à administração dos seus recursos e estão de acordo que uma Ucrânia sob duplo controlo é o melhor negócio para ambos. Dispõem de dois dos maiores exércitos do planeta para garantirem os seus interesses na Ucrânia.

É neste momento, quando as duas superpotências acordam na tutela partilhada da Ucrânia, na vantagem de instalação de um regime em Kiev que assegure a ordem interna sem grandes perturbações, que as mentes raríssimas de Bruxelas, na União Europeia e na NATO, levantam a necessidade de criar um “exército europeu”! Este exército europeu é para fazer face a que ameaça? Aos tanques russos? Mas estes não passaram o Dnipro! Aos misseis russos, mas a Europa não é uma ameaça militar para a Rússia! O novo “exército europeu” é para constituir uma “força de interposição de paz” entre dois dos maiores exércitos do planeta?

As mentes raríssimas de Bruxelas entendem que é necessário criar um exército europeu para defender as empresas americanas que vão explorar as matérias primas ucranianas e a reconstrução de infraestruturas! Não se sabe é o que o tal exército vai defender! Vai defender as empresas americanas do exército russo?

A Europa não dispõe das matérias primas que quer os Estados Unidos quer a Rússia dispõem em grande quantidade, as “terras raras” que são raras na Europa, isso sim, os minerais ferrosos e carvão que permitem fabricar o aço, o petróleo e ainda terras aráveis, já concessionadas a grandes empresas agroindustriais americanas, mas as mentes raríssimas de Bruxelas entendem que os europeus devem criar e pagar um exército para garantir a segurança do negócio de fornecimento destas matérias aos Estados Unidos a título de pagamento eterno pelo armamento que lhes forneceram para uma guerra que correspondia aos seus interesses estratégicos no início do século XXI e deixou de fazer sentido!

As mentes raríssimas da Europa vão em fila a Washington pedir ao presidente dos Estados Unidos que deixe instalar um contingente militarmente irrelevante na Ucrânia em nome da defesa da Europa, que apenas está ameaçada pela desindustrialização e pela irrelevância resultantes da sua incapacidade de ter criado uma Europa com poder e como uma potência a ter em conta!

A única explicação racional para a insistência das mentes raríssimas da Europa na criação do exército europeu, na criação de um ambiente de histeria belicista, de ameaça, é que esse exército que será sempre um pequeno exército vai proporcionar grandes negócios de que a oligarquia europeia que domina as instituições europeias beneficiará.

A Ucrânia poderá ter ou não terras raras significativas e que justifiquem a troca de parte significativa da soberania pela sua sobrevivência, mas Bruxelas tem, sem dúvida, mentes raríssimas que oferecem a Europa para fazer o papel do espontâneo que entra em campo durante o jogo para causar confusão.

As reuniões entre os Estados Unidos e a Rússia têm-se desenrolado na Arábia Saudita e na Turquia, nenhuma na Europa. A Europa tem andado a bater a portas para se oferecer. Os dirigentes dos Estados Unidos e da Rússia têm sido muito generosos em atenderem estes peregrinos de mentes raríssimas e a coluna vertebral de uma lesma.