(Por Alexandra Lucas Coelho, in Público, 15/03/2025)
Daniel Day no topo do Big Ben com a bandeira da Palestina
(Este texto é perturbador. A causa de Israel e a suposta luta contra o antissemitismo estão a ser usadas nas “democracias” ocidentais para cercear os direitos civis, mormente a liberdade de expressão e manifestação. É esta a denúncia da autora que, ao que parece, acaba também de ser silenciada pois diz que a sua coluna no Público termina por ora. Junta-se, assim, ao Viriato Soromenho Marques, já silenciado no Diário de Notícias. E viva a democracia…
1. O dia 8 de Março de 2025 — sábado passado — dava um livro. Pouco antes das 7h30, hora de Londres, a polícia de Sua Majestade foi chamada porque um homem escalava o Big Ben descalço com uma bandeira da Palestina. E por mais de 16 horas manteve-se lá, a 25 metros, agarrado à torre, fazendo flutuar a bandeira, pés em chaga como um Cristo. De nome judeu, aliás, porque o Cosmos tem sempre os melhores argumentistas: Daniel Day. Valeu, Daniel.
Este 8 de Março já era dele. Mas durante o tempo em que ficou lá em cima, o céu sobre Berlim e sobre a Casa Branca deu ainda mais sentido àquela escalada, aquele alegre sacrifício. Porque pelas 17h30, hora alemã, a polícia com a palavra POLIZEI incandescente no blusão dava murros na cara dxs manifestantes do 8 de Março, Dia Internacional da Mulher. Não de todas, claro, só dxs que tinham keffiyehs e bandeiras palestinianas, por não separarem a luta pela sua liberdade da liberdade da Palestina. Vi muitas imagens no Instagram, falei com pessoas que lá estavam. Uma delas, portuguesa, foi-me apresentada por um palestiniano. Eles conheceram-se na Europa como aprendizes de luthiers: fazem violas, violinos, violoncelos. Eu conhecera-o em Ramallah. Quando voltei lá depois do 7 de Outubro, passei o Ano Novo com a família dele, então antes da meia-noite ele fez uma chamada-vídeo para apresentar aquelas duas pessoas portuguesas, uma moradora em Berlim, a outra ali ao lado. Foi assim que vi Consti a primeira vez. E neste 8 de Março ali estava a mesma cara nos vídeos com a POLIZEI. Consti levou murros, pontapés, pisadelas da polícia, ficou a sangrar, nariz e boca, a companheira foi brutalmente algemada, revistada e detida, ficou a precisar de tratamento médico.
A violência estatal alemã anti-Palestina tem crescido desde o 7 de Outubro, já carregara sobre os manifestantes na Universidade de Humboldt, e tantos outros. Mas eu nunca tinha visto a POLIZEI da maior potência da UE como agora. Pessoas indefesas e já imobilizadas, algumas a sufocar, a tentarem proteger-se com as mãos, esmurradas como um saco de boxe, arrastadas pelo chão. Bom dia, boa noite, António Costa, um comentário? Nossos governantes parceiros dos alemães, nada?
2. Mas este 8 de Março ainda estava longe de acabar. Porque enquanto Daniel continuava empoleirado e descalço na madrugada gélida de Londres, e as feministas dormiam feridas em Berlim, na Costa Leste dos EUA já era noite mas ainda hora para a polícia de imigração, a ICE, ir prender Mahmoud Khalil à sua residência da Universidade de Columbia, NYC, diante da mulher grávida de oito meses. Sem mandado de captura, e levando-o de imediato para um estado a milhares de quilómetros, o Luisiana. Um rapto oficial.
Trump celebrou com post. Atribuiu a Khalil actividades “pró-terroristas, anti-semitas, anti-americanas” e fez saber que aquela prisão, antecedendo deportação, seria “a primeira de muitas”. A ordem fora dada pelo Secretário de Estado Marco Rubio, invocando uma cláusula remota, raramente usada, para ameaças à segurança dos EUA. Acusam Mahmoud de ser pró-Hamas sem provas. Ele acaba de completar o mestrado, é residente permanente com Greencard, já passou pelo escrutínio de uma organização inglesa com quem trabalhou. É preso agora apenas por ter sido um dos líderes dos protestos de Columbia contra a guerra em Gaza, pelos direitos palestinianos. Porque para o Grande Irmão de 2025 os direitos palestinianos são terrorismo.
3. Mahmoud Khalil é fruto da limpeza étnica de 1948, quando Israel foi fundado e centenas de milhares de palestinianos foram forçados a fugir. Os avós de Khalil eram da Galileia, de uma aldeia perto de Tibérias, então fugiram para a Síria. Duas gerações depois Mahmoud nasceu num campo de refugiados do sul de Damasco. Portanto, um daqueles milhões de humanos que Israel continua a transformar em refugiados mal nascem. Alguns conseguem ir para fora, depois ficar residentes, como Mahmoud, agora casado, prestes a ser pai. Já enfrentara a repressão dos protestos em Columbia e com Trump tudo piorou (no terreno fértil para isso deixado por Biden e pela maioria dos Democratas). Trump cortou 400 milhões de dólares de apoio a Columbia. Dias antes de ser preso, Mahmoud avisou Columbia que corria riscos. Em vão. A polícia pôde ir lá raptá-lo. E Columbia anunciou entretanto expulsões de outros estudantes pró-Palestina, em vez de os proteger. É o futuro da universidade que está em jogo. A liberdade de expressão da Primeira Emenda. A democracia, em alerta vermelho. Mahmoud Khalil é já o primeiro prisioneiro político da era Trump/Musk. Em nome de uma suposta protecção aos judeus.
Milhares de judeus lutam contra isso, e depois da prisão de Mahmoud tomaram o átrio da Trump Tower, quase 100 foram presos. Camisas ou cartazes diziam: “Não Em Nosso Nome”, “Nunca Mais É Para Toda a Gente”, “Parem de Armar Israel”, “A Oposição ao Fascismo É Uma Tradição Judaica”, “Liberdade para Mahmoud, Liberdade Para a Palestina”. Recusam, assim, serem os judeus úteis de Trump, as vassouras da dissidência. Porque a Trump — avisam biógrafos — não interessam os judeus. A Trump, narciso colossal, interessa Trump, a sua glória, a sua estátua de ouro no mundo. Os reféns interessam-lhe (felizmente para vários libertados) como o anti-semitismo lhe interessa: enquanto for útil.
E nada alimenta tanto o anti-semitismo como o Estado de Israel, hoje a maior ameaça para os judeus do mundo. Quase como se um anti-semita estivesse a puxar os cordéis por trás de Israel. Se alguém montasse uma conspiração não faria melhor. Israel é detestado nas ruas do mundo: eis o desfecho do sionismo. Os judeus dos nazis e de há séculos — os perseguidos, os exterminados — são hoje os palestinianos. E toda a gente que esteja com eles, de Berlim aos EUA, está sob mira, ou já atacado. Porque judeus, palestinianos e quem quer que os defenda são ratos de laboratório para o Grande Irmão.
4. Entrámos na segunda semana de Março com dezenas de milhares na Cisjordânia a deambularem por montanhas de lama e entulho, sem terem para onde ir em pleno Inverno, porque Israel acaba de lhes destruir as casas. Enquanto em Gaza continua a impedir toda a entrada de comida e ajuda. “Isto não é um cessar-fogo. É um abrandar da violência militar mas a morte pela fome”, disse Michael Fakhri, relator da ONU para o Direito à Alimentação. Ao mesmo tempo que o Conselho de Direitos Humanos da ONU apresentava uma investigação: Israel cometeu “actos genocidas” em Gaza, atacando a saúde materna, neo-natal, reprodutiva; e pratica violência sexual e de género, incluindo violação. Ontem vi o testemunho de um palestiniano a quem os soldados urinaram em cima e violaram com um pau. Mais um.
Antes, tinha visto o directo que o “Democracy Now” (um tesouro do jornalismo audiovisual) conseguiu fazer com dois médicos voluntários no Nasser Hospital de Khan Yunis, Gaza. Um deles, Mark Perlmutter, é judeu americano. Já o tinha ouvido dizer que a sua experiência de 40 missões em 30 anos, toda somada, “não se compara com a carnificina” que viu na primeira semana em Gaza, as crianças desfeitas, ou atingidas com precisão no peito pelos “melhores snipers do mundo”. E agora contou o que aconteceu com um seu colega palestiniano cirurgião ortopédico de crianças, levado pelas tropas de Israel em Fevereiro de 2024, libertado há pouco. Partiram-lhe os dedos, danificaram os nervos das mãos com que opera, mostraram-lhe fotos da esposa dizendo como a iam violar em grupo se ele não admitisse ser do Hamas. Onde estão os médicos de Israel? Que juramento fizeram?
Entretanto, a palestiniana Educational Bookshop, em Jerusalém Oriental, foi de novo invadida pela polícia, que desta vez deteve Imad Muna, 61 anos, a quem comecei por comprar cadernos e jornais há mais de uma geração. Na pilha dos livros confiscados estavam Joe Sacco, Rashid Khalidi, Noam Chomsky, Ilan Pappé.
Lembro-me da indignação de tantos liberais por se mexer em livros em nome do politicamente correcto: subscrevo, sempre estarei contra. E agora, que não é um parágrafo, é mesmo a caça às bruxas, é mesmo o Grande Irmão: vão defender a liberdade?
A propósito de Daniel Day, com os pés em chaga no Big Ben, também pensei nos vendilhões do Templo. E hoje mesmo li que Israel e os EUA tentaram vender os palestinianos de Gaza ao Sudão e à Somália.
Gaza é o marco do nosso tempo. Nunca mais desde o rio até ao mar.
(Por Pedro Almeida Vieira, in Página Um, 11/03/2025)
(Começa mal, o Almirante. Escusa de nos querer vender a ideia de que os partidos são uma choldra, um antro de vício, devendo por isso serem “vacinados” contra a corrupção, sendo ele um impoluto cavalheiro virtuoso. Não, não é. E se esta história não revela o compadrio e o nepotismo partidário no seu pior, então eu sou a Branca de Neve… 🙂
Sem honra nem glória, e num recato institucional pouco habitual para quem tanto celebrara em tempos a sua “contratação”, a NOVA School of Law – nome pomposo e anglicizado da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa – apagou silenciosamente o antigo Chefe do Estado-Maior da Armada, Henrique Gouveia e Melo, das suas fileiras docentes.
Esta saída discreta – o nome do putativo candidato a Belém deixou de constar no site da instituição universitária – surge após dois anos em que o agora Almirante na reserva ocupou, de forma irregular e à margem da legalidade, a regência da cadeira de Segurança Marítima no mestrado em Direito e Economia do Mar. O nome de Gouveia e Melo chegou a constar como regente e professor ainda num documento interno da Nova School of Law ainda no final de Dezembro passado.
Numa semana em que se continuam a degradar as expectativas que muitos atlanticistas tinham relativamente à aventura de Kursk, continuamos a assistir a sucessivos episódios de circo mediático à volta do conflito na Ucrânia. Entre um Trump aparentemente preocupado com uma paz “duradoura” na Ucrânia, uma “Europa” que insiste em classificar a Federação Russa como “ameaça”, um Zelensky alinhado com os poderes da UE mas aparentemente mais aberto ao início de negociações, um Macron que diz falar por toda a Europa e refere “não se poder confiar em Putin”, uma Von Der Leyen que insiste no aumento massivo das despesas militares e uma delegação ucraniana em Riade que, após o espectáculo degradante na Casa Branca, afinal, uns dias mais tarde, e após uma derrota decisiva na aventura de Kursk, vem aceitar uma proposta de cessar-fogo imediato, todos estes episódios, superficialmente contrastantes, acabam por se encaixar de forma perfeita, complementando-se como um baralho de cartas ao serviço de Trump.
Para percebermos bem como se encaixam, a melhor forma de os tratar, é começando pelo último desses episódios: a farsa das negociações na Arábia Saudita. Não é segredo para ninguém, estejam de acordo ou não com a posição e pretensões da Federação Russa, o que é pretendido com o que se designou como “Operação Militar Especial”: desmilitarizar, desnazificar, neutralizar a Ucrânia em matéria militar, impedindo a sua integração na NATO, e proteger as populações russas das perseguições xenófobas registadas após o golpe de estado de Euromaidan.
Não obstante, os russos nunca se furtaram a deixar linhas abertas ao diálogo, de que deram prova quando se deslocaram à Arábia Saudita para conferenciar com a delegação dos EUA. Como é seu apanágio, e bem, não estiveram com meias palavras, jogos e sinais de fumo. Foram bem claros de que não estão preparados para negociar soluções frágeis e temporárias, mas apenas entendimentos sólidos, duradouros, que tenham em conta as preocupações de segurança da Federação Russa. Esta situação não terá mudado, uma vez que a imprensa mainstream vem agora dizer que a Rússia terá feito uma lista de exigências para que possa aceitar o cessar-fogo.
Não obstante, Marc Rúbio, após negociar com a delegação ucraniana um acordo para as famosas “terras raras”, assegurando a sua suposta exploração pelos EUA, disse a quem quis ouvir que os progressos seriam agora objecto de uma proposta concreta à Federação Russa. O tom era claro e visava fazer acreditar que os norte-americanos estão esperançados no resultado de todo este processo de intermediação. Estarão?
Voltemos à Federação Russa e coloquemos a seguinte questão: em que medida a proposta de cessar- fogo imediato, realizada num momento em que as forças de Moscovo obtiveram uma retumbante e humilhante vitória na região de Kursk, será do agrado da delegação russa? Será que algum dos objectivos tantas vezes sublinhados pelo Kremlin está garantido? Será que, do cessar-fogo imediato se pode depreender que a Ucrânia aceita todas as exigências do lado russo? E será de crer que, estando a Federação Russa numa posição de primazia no conflito, deite tudo a perder com um cessar-fogo? Ainda para mais quando, ao contrário do que foi anunciado, os EUA nunca pararam de facto os fornecimentos de armas e inteligência à Ucrânia?
Aliás, como todos ouvimos na imprensa mainstream, Marc Rúbio informou os jornalistas de que os fornecimentos de armas à Ucrânia foram retomados. O que quer dizer que nunca foram de facto suspensos. O tempo entre um e outro acto, dois dias apenas, tendo em conta os prazos burocráticos necessários, tornaria impossível a materialização da suspensão. Logo, se os EUA não suspenderam o fornecimento de armas às forças de Kiev, e, pelo contrário, supostamente até o retomam, que sinal dão à Federação Russa? Um sinal de que querem negociar? De que estão de boa fé? De que estão genuinamente interessados em fazer um forcing junto de Kiev para que aceite negociar?
Não me parece e, pelo contrário, a mensagem que pode passar até será a inversa, nomeadamente que o cessar-fogo servirá ao regime de Kiev para reagrupar, consolidar forças e rearmar-se. Se assim não fosse, qual o propósito, numa fase de discussão de uma proposta de cessar-fogo, do reatamento de um fornecimento que nunca foi, de facto, suspendido? Que mensagem passará para a Rússia? De que os EUA querem parar a guerra, mas não querem parar o fornecimento de armas? No mínimo é contraditório e aparentemente despropositado.
Portanto, se perante esta realidade não é de todo crível que a Federação Russa aceite a proposta de cessar-fogo imediato – vejamos que Lavrov já referiu por diversas vezes que o Kremlin já não se deixará ir em “ingenuidades” -, devemos questionar-nos, tendo em conta todos estes factores, se é aceitável partirmos do princípio de que a proposta norte-americana é genuína e de que são genuínas as intenções da Casa Branca. Como poderão eles, que têm acesso a toda a informação, acreditar que a Federação Russa aceitará, sem mais nem menos, uma proposta deste tipo, sem que sejam prestadas qualquer tipo de garantias e, para mais, continuando o fornecimento de armas a Kiev? Como disse um Ushakov, assessor de Putin, o Kremlin está interessado numa paz duradoura e não num “intervalo”.
A não aceitação russa será muito plausível, nomeadamente na sequência da apresentação de exigências que Kiev não estará preparada, à partida, para aceitar. Mesmo que, por razões diplomáticas, a rejeição de Moscovo seja manifestada com todos os cuidados, para não justificar ou dar razões que justifiquem o afastamento definitivo das outras partes. Tal não significa que os representantes russos não saibam o que está em cima da mesa, as reais intenções da Casa Branca e a possibilidade de, para consumo interno dos EUA, a não aceitação da proposta de cessar-fogo ser utilizada para diabolizar, ainda mais, o próprio Kremlin. Algo que, nos tempos que correm, pouco preocupará os russos e os seus representantes.
Com efeito, não é nada de inédito se Trump e seus comparsas se dirigirem ao povo norte-americano e disserem que a Federação Russa não quer prescindir de nada, não quer ceder em nada e, logo, não está interessada em “parar imediatamente o conflito”. Se, para consumo interno dos EUA, esse discurso funciona, numa perspectiva material, olhando à relação de forças no terreno, porque razão Moscovo cederia nos seus intentos, uma vez que se encontra numa situação de primazia militar? Ainda para mais quando Moscovo sempre afirmou que não pretende apenas “um fim” do conflito, mas que este fim seja acompanhado da resolução dos problemas de fundo?
Esta posição russa só pode parecer revoltante aos ocidentais e norte-americanos que estejam intoxicados pela propaganda que dizia no início que “a Ucrânia estava a ganhar a guerra” e “a Rússia ia ser derrotada no campo de batalha”, mais tarde que “o conflito está empatado” ou, já sob Trump, que “estão os dois lados a perder e a Rússia já perdeu um milhão de homens”. Para os que sabem, desde o primeiro dia, que este seria um conflito perdido para o Ocidente, a não ser que acabasse numa situação em que perderiam todos, ou seja no armageddon nuclear, não é surpresa que o Kremlin não abdique dos seus objectivos, uma vez que, face ao estado de coisas, se não os atingir nas negociações, atinge-os no campo de batalha.
Voltemos então ao consumo interno e ao circo para confundir e convencer os povos ocidentais. Numa situação em que a Federação Russa se mantenha irredutível nas suas pretensões, o que se prevê, julgo que Trump necessitará do “acordo” dos seus minerais de terras “brutas”, como um trunfo a jogar perante o seu público. Afinal, por que outra razão se daria tanta importância a um acordo, o qual, tendo em conta o conhecimento sobre reservas minerais registadas, tem uma eficácia material muito limitada? Tendo em conta que o território dominado pelo regime de Kiev não integra reservas minerais de grande importância, uma vez que as existentes naquela região estão já em posse dos russos ou em território considerado “ocupado”, aos olhos da Federação Russa, porque razão Washington daria tanta ênfase a uma mão cheia de nada?
A importância atribuída ao acordo dos minerais pela Casa Branca encontra explicação no facto de este entendimento constituir um trunfo, para jogar internamente, à disposição da nova administração presidida por Donald Trump. Como business man, para poder continuar o empreendimento ucraniano, após a previsível rejeição ou apresentação, pelos russos, de exigências que os EUA terão dificuldade em garantir, Trump necessita, pelo menos, de dois argumentos:
1. De convencer o povo norte-americano de que são os russos ou os próprios ucranianos – ou até os europeus – que não querem fazer cedências com vista a um entendimento, pois não aceitaram a “razoável, sincera e generosa” proposta do “Presidente Trump”;
2. A manutenção dos gastos com a Ucrânia está salvaguardada porque o “Presidente Trump” fez um acordo de minerais com Kiev, que garante o pagamento aos EUA, com juros, das quantias avançadas, passadas ou futuras.
Ou seja, se os russos não quiserem a paz, os ucranianos não a aceitarem, ou os europeus a boicotarem, Trump terá sempre as cartas necessárias para convencer o povo MAGA de que tudo fez para acabar a guerra, mas não conseguiu. Mas não o conseguindo, mesmo assim garante que os EUA não saem prejudicados com a situação. E assim, Trump sai do problema ucraniano, ficando nele, mas podendo dizer-se desresponsabilizado e como tendo garantido, em qualquer caso, o acesso a reservas minerais “valiosas” que compensam largamente os custos. A guerra continuará? Sim! Mas Trump poderá dizer que não é culpa sua e que, ao contrário de Biden, encontrou uma forma de compensar os contribuintes pelas despesas feitas. Claro que é uma falácia, pois todos sabemos do quanto as multinacionais dos EUA se apropriaram de activos sob posse do regime de Kiev.
Se for este o caso, acredito que possa ir-se por aqui, na medida em que, pelo menos Trump quererá contar com um vasto leque de opções que lhe permitam fugir, airosamente, para um ou outro lado. Continuará, em qualquer caso, não só a vender armas à Ucrânia, como à União Europeia e a outros “aliados”, algo de que não quererá prescindir. Se o conflito parar nas condições por ele pretendidas, Trump contará com as tais reservas minerais da Ucrânia, que compensarão largamente o fim do negócio das armas à Ucrânia e todo o dinheiro que os EUA lhes emprestaram.
Este é, portanto, o papel dual da problemática do acordo mineral com Zelensky. Possibilita o reforço argumentativo, qualquer que seja a situação. O acordo mineral garante o pagamento das quantias passadas, se a guerra acabar ou os EUA dela saírem, e das quantias futuras, se a guerra continuar. Perante o povo norte-americano, Trump sairá sempre a ganhar.
Portanto, para Trump tudo parece resumir-se a garantir ter à sua disposição um vasto leque de opções, igualmente vantajosas e proporcionadoras de justificações perante o povo norte-americano. Existe, contudo, algo que pode não encaixar bem nesta estratégia. E tal dúvida reside no facto de não serem conhecidas as reservas de “terras raras” na Ucrânia e, mesmo considerando outras reservas minerais, é no território que a Rússia considera seu – o Donbass – que se encontram as maiores e mais valiosas reservas. Daí que se deva questionar em que medida a intenção do cessar-fogo, associada à manutenção dos fluxos de armamento para a Ucrânia e, em conjugação com o distanciamento russo relativamente à proposta de cessar-fogo, não tenham na manga ainda outra opção ao dispor de Trump.
Para quem tanto gosta de falar de cartas, esta parece mesmo de jogador. Caso a Federação Russa não aceite o cessar-fogo ou uma qualquer proposta de divisão das terras em disputa, garantindo aos EUA o acesso, pelo menos a parte das mais volumosas e valiosas reservas minerais da região, os EUA conseguem não apenas diabolizar ainda mais o Kremlin perante os eleitores norte-americanos, como conseguirão justificar a continuação da guerra, a venda das armas e tentar almejar – o que sabemos ser uma ilusão – a reconquista, pelo menos parcial, do Donbass, dando assim um efeito prático ao acordo de minerais que fizeram com o gangue de Zelensky.
Ou seja, o efeito prático material do acordo de minerais, a confirmarem-se as suspeitas relativamente às parcas reservas na posse de Kiev, só se verifica se a Federação Russa aceitar negociar – através de cedências negociais exigidas por Kiev – a divisão de terras na sua posse ou em vias de o serem, ou, não acontecendo – como se prevê que a Rússia não aceite – através de uma reconquista pelas forças leais a Kiev, de parte dessas terras. Sem a verificação de uma destas situações, à partida, o acordo mineral não passa de um trunfo para consumo interno. Seja como for, os EUA ganham sempre. Ganham dos russos, se estes cederem (comprando a paz através das cedências territoriais) e dos europeus, porque estes compram mais armas; ganham dos ucranianos, se os russos não cederem e dos europeus, que continuam, em qualquer das situações, no caminho da militarização.
Daí que, na prática, eu tenda a acreditar que Zelensky tenha comprado, dessa forma, através da promessa de proventos futuros, o apoio de que necessita para a continuação da guerra, tentando conseguir dos russos uma pausa de 30 dias no conflito, o que, não alterando grande coisa, pelo menos pararia temporariamente a máquina de guerra que o Ocidente indirectamente levou a Federação Russa a construir. Também podem utilizar a rejeição do cessar-fogo para tentar afastar alguns aliados da Rússia, através da propagação de informação segundo a qual seria, desta feita, a Rússia, e não a Ucrânia, a rejeitar o fim dos combates e a contenção do conflito. O que será outro trunfo ao dispor de Trump, para tentar trazer a Rússia para a mesa das negociações.
Trump espera, através destes estratagemas, poder chantagear a Federação Russa com mais sanções, isolamento internacional e armamento à Ucrânia – onde encaixa maravilhosamente a suposta retoma dos fornecimentos – para dela obter cedências territoriais, onde se encontram as reservas minerais. A Rússia deixará arrastar-se para tal situação? Não me parece, mas na mente de Trump, isto fará muito sentido. Mas em algum lado encaixa a teoria manifestada por Marc Rúbio de que “também a Rússia está a perder” e também à Rússia interessa parar o conflito, tentando transmitir que o desespero não é só de Kiev, mas também de Moscovo.
Ao mesmo tempo que isto sucede e que Trump abre todas estas opções, devemos também ouvir com atenção as palavras de Peter Hegseth em Bruxelas. Se a tónica de Rubio e Trump oscila para a necessidade de parar imediatamente o conflito ucraniano, só agora se sabendo que o pretendem fazer de forma superficial e sem apresentar as garantias pelas quais os russos tanto se têm batido – embora tenham assumido por diversas vezes rejeitarem uma Ucrânia na NATO -, a tónica de Hegseth, por outro lado, tem sido mais direccionada para a necessidade de a Europa assumir a sua própria defesa, assumir as responsabilidades no conflito e fazer face, ela própria, às ameaças que pairam sobre si. Não vale a pena referir que ameaças são essas.
Conjugando estes dois discursos, temos o painel completo, percebendo-se também que, o que parece constituir uma contradição entre o comportamento europeu e as pretensões de Trump, afinal, não é contradição alguma, muito pelo contrário. Tomando Trump como uma espécie de demónio que trouxe consigo o colapso militar da Ucrânia, a União Europeia, depois de andar três anos a esconder dos europeus a real situação no terreno, aproveita agora a diabolização da administração Trump como contraponto da santificação que faz do regime de Kiev. Regime esse que agora se acertou com… Trump. Fechando um círculo aparentemente “inconciliável”.
O facto é que as resistências e rejeição manifestadas pelos “líderes” da EU à estratégia seguida pela administração Trump, no que toca às negociações com a Federação Russa e à intenção – pelo menos enunciada e agora corporizada num simples “cessar-fogo” – de colocar um fim na guerra na Ucrânia, são tremendamente contraditórias com as decisões práticas tomadas pela própria UE, estando tais decisões mais alinhadas com as pretensões destes “novos” EUA, do que possa levar a acreditar o aparentemente conflituante discurso. Uma vez mais, Peter Hegseth disse, em Bruxelas, para todos ouvirem, que era tempo de a Europa retirar o fardo (“unburden”) ucraniano das costas dos seus aliados atlânticos, para que estes possam enfrentar desafios ainda mais tremendos e os quais só os EUA podem e têm interesse em enfrentar.
Daí que, este circo de aparências durante o qual assistimos a uma espécie de complot contra Trump, por parte dos “dirigentes” da União Europeia, quando analisado em profundidade e para lá das aparências, permite constatar que, de alguma forma, a UE permanece alinhada com a estratégia hegemónica dos EUA – a qual não acabou sob o trumpismo. A União Europeia, perante a “deserção” dos EUA, ao invés de exigir destes as responsabilidades que lhe cabiam, logo alinhou no discurso veiculado por Peter Hegseth e, contra as pretensões dos povos europeus, voluntariamente aceitou a proposta de deserção de Washington e iniciou o cumprimento da ordem enunciada pela Casa Branca, apostando tudo numa militarização da União Europeia. Inclusive, garantindo a Trump um prémio pela “deserção”: o aumento exponencial dos gastos europeus no quadro de uma, cada vez mais obsoleta, NATO.
Claramente, e ao contrário das aparências, a União Europeia da veemente Von Der Leyen, não apenas não choca com as pretensões de Trump, como lhe facilita, de facto, a tarefa em relação ao desastre ucraniano. Como se o seu papel fosse o de lhe facilitar a tarefa, ajudando a desviar as atenções em relação ao essencial.
A UE desvia as atenções de Trump, assume o peso do fardo dos EUA, libertando-os para o seu empreendimento do Pacífico. Tudo isto enquanto parece muito zangada com a nova administração, mas tudo fazendo de forma a que as suas acções convirjam com as necessidades estratégicas hegemónicas dos EUA.
A UE, assumindo o financiamento do projecto e o aumento das despesas europeias com armamento, permite a Trump a manutenção do leque de opções de que atrás falei. Se continuar dentro do conflito, Trump tem a justificação da intransigência russa, ucraniana ou europeia, se pretender sair, Trump vende armas à UE e à Ucrânia e, mesmo que o conflito acabe, Trump garante sempre, no aumento de verbas europeias para a defesa, os ganhos que poderia ir buscar ao conflito, e com juros. Garante também, caso o conflito acabe nos seus termos, uma parte dos minerais que hoje estão em posse da Federação Russa. Os EUA nunca perderão, seja qual for a alternativa. Pelo menos acredito ser esta a pretensão de Trump, pretensão essa que choca com o facto de muito dificilmente a Rússia se deixar chantagear ou arrastar para uma situação em que os ganhadores sejam os EUA, às custas da própria Rússia. Não vejo Moscovo em tal situação de desespero. Ao contrário, o desespero está do lado de Kiev e da União Europeia e será a estes que Trump retirará o escalpe.
Daí que devamos de distinguir bem entre o que a entourage de Trump diz quando refere que “o Presidente quer acabar com este problema”. Tudo tem a ver com a óptica, sendo que, o “acabar” significa não poder ser responsabilizado pelo que suceder. Daí que, atirando as culpas à Rússia, à Ucrânia, à UE ou a Biden, Trump tem à sua disposição um amplo leque de cartas, que, pelo menos na sua mente maquiavélica, lhe permite sair deste conflito, de forma airosa. Trump sai do conflito, o que não quer dizer que o conflito não continue e que os EUA não continuem a enviar para lá as suas armas. Trump, ao invés, suceda o que suceder, sairá sempre limpo do mesmo e com ganhos – mesmo que virtuais ou futuros – a apresentar aos seus apoiantes, que “justifiquem” o falhanço das negociações.
Como jogador que é, Trump quer ficar com todas as cartas na mesa. A UE, apesar do bluff, garante a Trump o acesso ao prémio final.