Uma semana de guerra no Irão

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 10/03/2026)


Com o ataque ao Irão, Trump envolveu-se simultaneamente em duas crises estratégicas. No início do século XXI, Washington evidenciou uma enorme dificuldade em lidar ao mesmo tempo com o Afeganistão e o Iraque. Os resultados dessas decisões são conhecidos.


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Apesar de não haver sinais de abrandamento na agressão ao Irão levada a cabo pela coligação israelita-americana, é possível constatar, desde já, cinco factos incontornáveis.

Primeiro, o ataque veio confirmar a teoria da anti fragilidade do regime, ou seja, a sua capacidade para, com base numa estrutura de geometria variável — ideologia, assimetria, inventividade — reforçar-se, alavancando positivamente a pressão externa. Apesar do assassinato do Líder Supremo aiatola Ali Khamenei e de outros altos dignitários, o regime resistiu e sobreviveu. Não implodiu, como vaticinado por Washington. Não se conhecem fissuras no grupo dirigente, o governo está aparentemente coeso, não se registaram deserções de altos funcionários, nomeadamente diplomatas, nenhuma embaixada mudou a bandeira, não há sinal de militares terem alterado a lealdade ao regime. Veremos por quanto tempo esta unidade se manterá. Os apelos de Netanyahu e Trump para o povo do Irão sair às ruas e derrubar o regime não se concretizaram. O povo veio de facto para a rua, mas para apoiar o regime e gritar “Não às negociações! Não à rendição! Guerra aos Estados Unidos!”.

O assassinato do Líder Supremo, ainda por cima durante o Ramadão, foi um erro estratégico tremendo. Além de dirigente máximo do Irão, Khamenei era também um líder religioso cujo alcance extravasava as fronteiras do Irão e se estendia ao mundo xiita. Washington conseguiu, de uma penada, não só alienar a “Ummah” xiita, como largos setores da sunita. Era difícil fazer pior.

Estes erros poderão resultar das fragilidades da Administração em termos de política externa. Para além dos cargos de Conselheiro Nacional de Segurança e de Secretário de Estado estarem concentrados na mesma pessoa, o Conselho Nacional de Segurança funciona apenas com um terço dos funcionários da Administração anterior, talvez por se abraçar a ideia de que a crença na providência divina é capaz de superar o conhecimento humano. Uma semana antes da invasão, o FBI despediu os especialistas em contrainformações que geriam o dossiê do Irão.

A arrogância de Donald Trump – associada ao desconhecimento – permite-lhe achar que vai escolher o próximo responsável pelos destinos do país: “Não queremos que eles [os iranianos] coloquem ninguém lá dentro, que não seja aprovado por nós”, “eles estão a perder o seu tempo. O filho de Khamenei é um peso leve. O filho de Khamenei é inaceitável para mim,” “eu tenho de estar envolvido na nomeação, como com a Delcy na Venezuela”, “eles podem selecionar, mas nós temos de nos certificar de que é alguém razoável para os Estados Unidos.” Nada impressionado com os recados de Trump, o Conselho de Peritos elegeu exatamente o filho de Khamenei para lhe suceder.

Segundo, tornou-se claro que o conflito não será de curta duração. Segundo fontes norte-americanas, o prazo da Operação “Fúria Épica” foi reformulado, admitindo-se a possibilidade de os objetivos só serem alcançáveis dentro de quatro a cinco semanas, considerando-se mesmo o alargamento desse prazo. Segundo Trump, a guerra continuará até os objetivos serem alcançados, leia-se, até à rendição incondicional de Teerão, “não há limites de tempo para nada”. O presidente norte-americano não está aparentemente preocupado com as ‘Midterm elections’, em outubro, nem com o impacto desta operação, que não tem o apoio dos norte-americanos, no seu futuro político.

Os planos para gerir um conflito de curta duração foram substituídos pelos preparativos para uma campanha longa. O Comando Central solicitou um reforço urgente do seu quartel-general, e o Departamento de Defesa prepara-se para manter as operações ativas durante, pelo menos, mais 100 dias. Surpreendentemente, o “Haaretez” veio dizer que “Israel não tem capacidade para uma confrontação prolongada com o Irão.”

Terceiro, por ter subestimado o Irão, a Administração Trump lançou-se impreparada nesta aventura. Se na Primeira Guerra do Iraque (1990), os EUA recorreram a 1900 aeronaves, e seis porta-aviões; agora projetaram apenas 300 aeronaves e 2 porta-aviões. Este déficit está a tentar ser colmatado com o recurso ao porta-aviões francês Charles De Gaulle, em deslocamento para o Mediterrâneo Oriental, para substituir o porta-aviões norte-americano Gerald Ford, em deslocamento para o Mar Arábico. Em preparação, para reforçar o dispositivo naval de ataque ao Irão, encontra-se o porta-aviões britânico Príncipe de Gales.

A isto, junta-se o facto de não existir presentemente uma componente terrestre no dispositivo norte-americano projetado na região, e uma eventual projeção exigiria seis a 12 meses de preparação. A exiguidade da aventada solução curda não é solução. Em 2003, quando os EUA atacaram o Iraque, a força terrestre norte-americana tinha um efetivo que rondava os 170.000 soldados.

Por outro lado, a enorme capacidade militar norte-americana tem alguns calcanhares de Aquiles. São públicas as suas limitações nalguns tipos de equipamentos, não só ofensivos como defensivos, particularmente em intercetores utilizados na defesa aérea. O Pentágono prepara-se para pedir ao Congresso autorização para “libertar” 50 mil milhões de dólares, a fim de fazer face ao problema que tem em mãos. A Administração Trump também já pediu às principais empresas de defesa que aumentassem rapidamente a produção.

Quarto, com o ataque ao Irão, Trump envolveu-se simultaneamente em duas crises estratégicas. No início do século XXI, Washington evidenciou uma enorme dificuldade em lidar ao mesmo tempo com o Afeganistão (2001) e o Iraque (2003). Os resultados dessas decisões são conhecidos. A guerra na Ucrânia vai em quatro anos, sem existir ainda um fim à vista, e a do Irão, de alta intensidade, corre o risco de evoluir para um cenário de atrição. Podíamos ainda acrescentar a esta complexa equação, o envolvimento militar norte-americano no Caribe — Venezuela, Cuba e México — e na Nigéria, negligenciando deliberadamente os efeitos de uma improvável ação chinesa em Taiwan. Trump está a correr um enorme risco político, militar e estratégico, sobretudo quando é conhecido o apoio da Rússia e China ao esforço militar iraniano, que Washington parece ter desconsiderado. Numa situação extrema, desenvolvimentos desfavoráveis a Washington podem afetar decisivamente a sua reputação e as suas pretensões hegemónicas.

Quinto, o dispositivo militar norte-americano no Médio Oriente, em particular no Golfo Pérsico, foi severamente afetado sendo a sua reposição, nalguns casos, muito difícil. Os EUA não conseguiram defender as suas bases militares (infraestruturas, portos, depósitos de combustível, etc.). Os navios da quinta esquadra tiveram de retirar do Golfo Pérsico. Numa ação inédita, o Irão atacou todas as principais bases norte-americanas envolvidas no apoio ou na organização da Operação “Epic Fury”. Particularmente eficaz foi a destruição dos radares de longo alcance e de apoio ao tiro dos THAAD (AN/FPS-132 Block 5, AN/TPY-2, respetivamente), sem possibilidade de os repor. Consequentemente, os países do Golfo ressentiram-se do abandono a que foram votados pelos Estados Unidos, acusando-os de serem incapazes de honrar a proteção prometida, dando prioridade a Israel.

Perante estes factos, em particular a incapacidade de fazer implodir o regime, a coligação avançou para o Plano “B”. Alargou a lista de alvos e aproximou-se daquilo a que chamamos “fórmula Gaza”, passando a incluir zonas residenciais, depósitos de combustível e estações de dessalinização, etc. Mas o Irão já está a responder na mesma moeda. Entretanto, o ministro norte-americano da guerra, Pete Hegseth veio elucidar-nos que os EUA perderam guerras porque seguiam regras. Por outras palavras, porque do antecedente respeitaram o Direito da Guerra. A partir de agora vai passar a valer tudo.

Em 7 de março, Israel atacou cerca de 30 depósitos de combustível iranianos próximos de Teerão com a consequente libertação de elevadas quantidades de substâncias químicas para a atmosfera, responsáveis por chuvas ácidas e enormes preocupações ambientais em toda a região. O petróleo em chamas espalhou-se pelas ruas de Teerão e incendiou casas e edifícios. Se a dor causada pela retaliação iraniana a estes ataques for insuportável para Telavive, não será de excluir a possibilidade de Israel pensar em recorrer à arma nuclear.

Resta ver se esta guerra não vai provocar mais rapidamente uma mudança de regime nos Estados Unidos, em vez de no Irão.

Para deleite de Israel, Trump abraça a guerra eterna e trai a promessa de ‘America First’

(Alejandro Marcó del Pont in Diálogos do Sul, 09/03/2026)


Saldo da ofensiva ao Irão já é desastroso e potencialmente irreversível para Trump; impactos da operação nos EUA serão severamente sentidos por sua base mais leal.


Em 28 de fevereiro de 2026, as explosões que sacudiram Teerã não atingiram apenas os enclaves subterrâneos do programa nuclear iraniano; sua onda expansiva percorreu milhares de quilômetros até fragmentar o alicerce político sobre o qual Donald Trump havia construído sua segunda presidência. Em uma operação de audácia e risco extremos, a Força Aérea dos Estados Unidos, em coordenação com Israel, lançou o ataque mais contundente contra o Irã desde a crise dos reféns de 1979.

O objetivo declarado da Casa Branca era cirúrgico e clássico: eliminar de uma vez por todas a ameaça representada pelas instalações nucleares e pelo arsenal de mísseis balísticos da República Islâmica. Mas a magnitude do que ocorreu naquela madrugada — com relatos que falavam não apenas de bombas sobre centrifugadoras, mas também de um míssil que atingiu o bunker onde se refugiava o líder supremo, Ali Khamenei — revelava uma ambição muito maior: a decapitação do regime e seu colapso definitivo.

No entanto, a pergunta que paira sobre os escombros de Teerã — e também sobre os mercados de Nova York — não é tanto se o Irã conseguirá se reconstruir, mas se os Estados Unidos e seu presidente poderão sobreviver às consequências de seu próprio sucesso militar. O paradoxo possui a beleza trágica típica de um drama grego. Donald Trump, o presidente que chegou ao poder prometendo enterrar as “guerras eternas” e colocar a “América em primeiro lugar”, acaba de abrir a porta para um conflito de desgaste no Oriente Médio que ameaça devorar seu legado, sua base eleitoral e a estabilidade da economia global. E tudo indica que não o fez sozinho: foi conduzido até ali, com a precisão de um relojoeiro suíço, pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.

Para compreender a magnitude do abismo diante do qual Trump se encontra, é preciso abandonar por um momento os mapas dos generais e voltar os olhos para os postos de gasolina de Ohio e Pensilvânia. O coração do movimento MAGA (Make America Great Again – Fazer a América Grande de Novo, em tradução livre) bate no ritmo do preço do petróleo. Seu núcleo eleitoral — a classe trabalhadora branca e a classe média manufatureira — foi uma das principais vítimas da inflação pós-pandemia. Cada dólar que o barril sobe é um voto que se afasta das urnas republicanas. Analistas do Goldman Sachs e do Barclays vinham advertindo sobre isso havia semanas em seus relatórios: um conflito aberto com o Irã faria disparar o preço do petróleo. Brent e WTI ultrapassariam facilmente a barreira dos 100 dólares, levando a inflação de volta a territórios proibidos, próximos de 5%. As hipotecas ficariam mais caras, o crédito para pequenos negócios do Meio-Oeste se congelaria e o sonho da “America First” se dissolveria na miragem de uma estagflação.

A lógica elementar indicava que Trump não poderia se permitir esse cenário. Seu instinto de sobrevivência política, que sempre foi sua principal bússola, deveria tê-lo levado a contemporizar, a ameaçar, talvez a realizar um bombardeio simbólico sobre instalações militares abandonadas. Mas não isso. Não um ataque que, segundo fontes de inteligência citadas pela Reuters e pelo The Straits Times dias antes da operação, havia sido explicitamente desaconselhado pela CIA. A agência advertia que um “golpe decapitador” contra Khamenei não provocaria o colapso do regime, mas sua substituição por figuras ainda mais radicais da Guarda Revolucionária (IRGC), dispostas a travar uma guerra de desgaste infinita. Se a inteligência americana sabia disso, se os modelos econômicos o previam, que nuvem tóxica turvou o julgamento do presidente?

A resposta, incômoda, mas cada vez mais aceita nos círculos analíticos de Washington, tem duas faces. Uma, a mais vulcânica e pública, é a do próprio Netanyahu, um sobrevivente político que há décadas enxerga no Irã uma ameaça existencial que precisa ser eliminada antes que seja tarde demais. Sua lógica era a do “agora ou nunca”. Com um presidente americano imprevisível e ansioso por demonstrar força, e com a percepção — possivelmente equivocada — de que os aiatolás estavam enfraquecidos pelos protestos internos, a janela de oportunidade parecia escancarada. A outra face, mais turva e que circula nos corredores do poder sob o sigilo do off the record, tem nome e sobrenome: o lobby israelense e os dossiês Epstein.

Sabe-se — e isso não é segredo para os serviços de inteligência — que Jeffrey Epstein não operava sozinho; sua rede de influência e chantagem era uma teia que se conectava a interesses israelenses, incluindo o Mossad. A teoria que ganha cada vez mais adeptos sustenta que o material comprometedor que o Departamento de Justiça dos Estados Unidos guarda em seus cofres sobre figuras-chave do establishment não é propriedade exclusiva do governo federal. O Mossad, argumenta-se, teria uma cópia. E, no momento crucial — quando a máquina de guerra hesitava entre a prudência e a audácia — essa informação pode ter funcionado como um elemento sutil, porém eficaz, de coerção. Não seria necessário um vídeo de Trump em uma situação comprometedora para dobrar sua vontade; bastaria ter a capacidade de vazar informações sobre um colaborador próximo, um familiar ou um grande doador para que a geometria das decisões começasse a se inclinar.

Além da lenda obscura dos vídeos e das fotos, a influência do lobby israelense em Washington é uma realidade tão tangível quanto o mármore do Capitólio. Acadêmicos do porte de John Mearsheimer e Stephen Walt documentaram isso há anos em The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy (O lobby israelense e a política externa dos EUA, em tradução livre). Não se trata de uma conspiração, mas de um fato político: o Comitê de Assuntos Públicos Estados Unidos–Israel (AIPAC) e suas organizações satélites financiam campanhas, moldam discursos e condicionam votações no Congresso com uma eficácia avassaladora. Nenhum político que aspire a manter-se no poder deseja enfrentar uma máquina multimilionária de pressão e desgaste político financiada pelo lobby. Essa coerção — financeira e política — pode ser tão eficaz quanto qualquer forma de chantagem. Assim, quando o Pentágono e o Departamento de Estado debatiam a resposta ao Irã, as opções que priorizavam a “vantagem militar qualitativa” de Israel pesavam mais na balança do que aquelas que defendiam a estabilidade econômica interna dos Estados Unidos.

O que ocorreu no terreno na madrugada de 28 de fevereiro revela até que ponto essas prioridades estavam desalinhadas. Se os Estados Unidos buscavam uma operação cirúrgica para degradar a capacidade militar iraniana e proteger suas bases na região, os resultados indicam outra coisa. Os satélites mostravam impactos em instalações navais e lançadores de mísseis, sim. Mas também chegavam imagens dantescas de Minab, onde uma escola primária próxima a uma base militar foi atingida, matando 150 meninas. Houve ainda ataques contra hospitais em Teerã, já abarrotados de vítimas civis. Era a marca de um ataque concebido não para ser breve e exemplar, mas para ser total e, sobretudo, irreversível. Aquilo não era um aviso; era uma declaração de guerra existencial. Era a assinatura de Israel, o aliado que necessita que o conflito se transforme em um pântano do qual o Irã não consiga se reerguer.

E é nesse pântano que Trump corre o risco de ficar preso. O que ele provavelmente concebeu como um espetacular show of force ao estilo Trump — uma explosão de grandeza destinada a forçar o Irã a negociar sua rendição — foi interpretado pelo mundo e pelos mercados como a entrada em uma armadilha de custos infinitos. O Irã não colapsou. Sua liderança foi substituída por linhas ainda mais duras da Guarda Revolucionária, que prometem vingança. O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 25% do petróleo mundial, treme diante da possibilidade de um bloqueio total. E, enquanto os petroleiros começam a desviar suas rotas, o rendimento do título do Tesouro americano de 10 anos dispara: os investidores exigem maior retorno diante do risco de uma inflação que já não veem como transitória, mas como um fenômeno entranhado na geopolítica.

A lógica de Netanyahu, fria e calculada, funcionou com perfeição. Ele conseguiu que o exército mais poderoso da Terra participasse da eliminação de seu maior inimigo estratégico sem precisar sacrificar a totalidade de suas próprias reservas. Conseguiu também que os Estados Unidos queimassem seu capital político e econômico em um conflito que, para Israel, é uma questão de vida ou morte. Para Trump, em contrapartida, o saldo é desastroso. Ele não apenas rompeu sua promessa fundacional de encerrar as “guerras eternas”, como o fez em um momento de máxima vulnerabilidade econômica para seu eleitorado. A fratura em sua base mais leal — profundamente antiglobalista e responsável por levá-lo ao poder — pode já ser irreversível. Muitos o veem agora como um presidente que foi enganado ou chantageado, ou que simplesmente traiu seus próprios princípios sob pressões externas.

A teoria da “captura estratégica”, estudada nas academias militares, ganha aqui uma expressão concreta. Quando um aliado menor consegue levar uma potência maior a executar ações que servem essencialmente a seus próprios interesses regionais — mesmo à custa do bem-estar interno da potência dominante — a relação deixa de ser uma aliança para tornar-se uma espécie de tutela invertida. E foi exatamente isso que ocorreu. Netanyahu olhou Trump nos olhos e o convenceu de que assassinar Khamenei seria um presente. Mas esse presente veio acompanhado de inflação, aumento das taxas de juros e da quase certeza de uma derrota nas eleições de meio de mandato.

Enquanto a fumaça se dissipa sobre Teerão e as represálias iranianas atingem bases americanas em sete países, uma pergunta paira sobre o Salão Oval: quem governa realmente a política de defesa dos Estados Unidos? A resposta, por mais incômoda que seja em um país que se orgulha de sua soberania, parece apontar para Jerusalém.

Donald Trump, o negociador que prometia não se deixar enganar, caiu na armadilha mais antiga do tabuleiro do Oriente Médio: acreditar que é possível usar a força sem pagar um preço político. Seu legado — o da “America First” — jaz agora enterrado sob as ruínas de um bombardeio que não trará paz, mas uma guerra interminável concebida nos gabinetes de Tel Aviv.

E a história, mais uma vez, provavelmente o lembrará não como o presidente que encerrou guerras, mas como aquele que foi utilizado por seu aliado mais astuto para iniciar a mais perigosa de todas.

(*) Texto em português do Brasil, de acordo com a fonte aqui

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O papagaio e o corvo

(João Gomes, in Facebook, 09/03/2026)


Quando Marcelo Rebelo de Sousa entrou em Belém, trouxe consigo uma qualidade rara na política portuguesa: a ubiquidade. Marcelo esteve em todo o lado. Nas cheias, nas praias, nos incêndios, nos hospitais, nas feiras, nas televisões e – talvez mais importante – nas câmaras dos telemóveis de qualquer cidadão que tivesse a oportunidade de o encontrar a menos de três metros de distância.

Foi uma presidência ruidosa, quase tropical. Marcelo falou muito, apareceu ainda mais e pareceu possuir uma curiosa incapacidade de permanecer ausente. Como um papagaio numa varanda virada para o Tejo, repetiu, comentou, explicou e por vezes antecipou-se a tudo. A política portuguesa, que sempre preferiu a discrição de gabinetes e a prudência das frases medidas, ganhou durante dez anos um presidente que não temeu o excesso de palavra.

Não faltaram críticas. Demasiado presente. Demasiado comentador. Demasiado pronto a surgir onde talvez bastasse o silêncio institucional. Mas também não faltou algo que raramente se vê no poder: proximidade real com o público. Marcelo compreendeu cedo que a política moderna se faz tanto de gestos como de decisões. E cultivou ambos, com uma habilidade que poucos lhe negam. Agora sai. E entra António José Seguro.

Se Marcelo é (foi) um “papagaio” – colorido, ruidoso e impossível de ignorar – Seguro parece outra “ave”. Mais escura. Mais silenciosa. Talvez um corvo.

A ideia pode parecer pouco simpática, e talvez seja injusta para o corvo. Na história de Lisboa, dois corvos acompanharam as relíquias de São Vicente e ficaram para sempre no brasão da cidade, empoleirados num barco. Não falavam, não gesticulavam, não comentavam. Observavam. É possível que essa seja precisamente a presidência que agora começa.

António José Seguro chega a Belém num país onde a política se tornou mais nervosa. A extrema-direita, personificada por Ventura, descobre finalmente que existe espaço eleitoral para o ruído permanente. O discurso político torna-se mais áspero, mais teatral, mais impaciente. Neste ambiente, o silêncio pode parecer fraqueza. Mas também pode ser vigilância.

A presidência portuguesa não governa. Não legisla. Não dirige maiorias parlamentares. O seu poder é outro: esperar. Observar. Escolher o momento exato em que uma palavra, um veto ou uma dissolução do parlamento se tornam inevitáveis. Marcelo preferiu  ocupar o palco. Seguro talvez prefira o mastro.

É um lugar menos visível, mas não necessariamente menos importante. De lá vê-se o horizonte – e também os navios que se aproximam. Alguns trazem mercadorias. Outros trazem corsários.

A esperança, modesta e um pouco irónica, é que o novo ocupante de Belém saiba fazer aquilo que os corvos fazem melhor do que qualquer papagaio: permanecer imóvel tempo suficiente para perceber o que realmente está a acontecer. Porque, na política portuguesa, falar é fácil. Difícil é saber quando ficar em silêncio.

De todo o modo, boa sorte para o que sai, melhor sorte para o que entra. É preciso desejar-lhe excelentes voos e que – sempre que for preciso – saiba sair do mastro.

Bom dia!

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