A maior empresa de armamento da Alemanha, a Rheinmetall, anunciou um plano de reconversão industrial no sentido de redirecionar para o sector do armamento a produção que actualmente destina ao sector automóvel. A isso acrescentou ainda a intenção de comprar fábricas de automóveis para lhes dar o mesmo destino.
Da proposta não constam preocupações com os trabalhadores nem garantias dos seus direitos, designadamente quanto à manutenção de postos de trabalho, salários, carreiras ou condições de trabalho.
Este caso é um exemplo flagrante das orientações políticas da União Europeia e das consequências práticas que se pretende que elas tenham de imediato.
Transforma-se a guerra em motor da economia e faz-se do militarismo e da corrida aos armamentos a referência para a orientação dos recursos produtivos. Recusa-se e apaga-se o papel dos Estados na definição da política económica, incluindo da política industrial, deixando essas decisões nas mãos dos grupos económicos e financeiros. Ao mesmo tempo disponibilizam-se avultados recursos públicos para aqueles objectivos de forma a que o negócio se faça sem risco e com garantias de rentabilidade.
A satisfação das necessidades sociais nos mais variados domínios é postergada para segundo plano, a começar pelos trabalhadores e pela consideração dos seus direitos. Aqueles que ontem exploravam o trabalho alheio na produção de automóveis, explorá-lo-ão amanhã na produção de tanques e carros de combate com a benção do mesmo poder político, que a partir dos governos nacionais ou das instituições da União Europeia, estiver de turno ao seu serviço.
E a partir de Bruxelas a mensagem é clara. Para as multinacionais haverá apoios e planos bilionários de 800 mil milhões de euros como o «ReArmar a UE». Para os trabalhadores ficam reservados os planos de despedimentos, formação e requalificação profissional, subsídios e apoios sociais temporários.
Às classes exploradoras servem-se privilégios em bandejas de prata, à classe trabalhadora servem-se balas e paliativos.
As prioridades e opções políticas têm de ser outras e também os trabalhadores do sector automóvel em Portugal precisam de outra resposta.
Garantir os postos de trabalho e defender e aprofundar os direitos dos trabalhadores. Reforçar e desenvolver a capacidade de produção industrial. Orientar a política económica e a produção industrial em função da satisfação de necessidades sociais e do desenvolvimento nacional em vez dos lucros das multinacionais. Combinar a produção industrial, a política de mobilidade e transportes e a protecção ambiental, por exemplo promovendo a melhoria das redes de transportes públicos colectivos e o reforço da sua cobertura e capacidade de resposta.
Estas são algumas das referências que assume a política alternativa pela qual continuamos a bater-nos. Alternativa que recusa a orientação «tanques em vez de carros» e lhe contrapõe a de «paz e progresso em vez de guerra e exploração».
Não é a primeira vez que Ekrem Imamoglu, ‘mayor’ de Istambul e figura popular da oposição turca, enfrenta acusações de ter praticado graves crimes (corrupção e terrorismo, dizem os acusadores).
Na verdade o mais famoso ‘crime’ do líder do Partido Republicano do Povo, (CHP), uma organização política laica, foi ter derrotado Erdogan em Istambul, nas eleições autárquicas de 2019. Alarmado, o actual presidente turco que dominou a capital por mais de um quarto de século e tinha ele mesmo começado sua carreira política como mayor da capital turca, não o deixou no cargo mais que 18 dias.
As eleições foram então anuladas, a pretexto de irregularidades e logo repetidas: pior a emenda que o soneto, Imamoglu venceu com margem ainda mais folgada. Em 2023, o Mayor voltou a vencer as mesmas eleições, com margem ainda mais folgada e foi preso, pela primeira vez. Sua condenação porém permitiu-lhe pena condicional e manter seu cargo.
Desde aí, a rota de colisão do autarca com o todo poderoso Erdogan tornou-se inevitável. Agravando tudo, o empresário (53 anos) e político, anunciou sua intenção de se candidatar à presidência turca, submetendo-se a eleições primárias no seu partido.
Erdogan já enfrentava o enorme descontentamento de seu povo, motivado pela desvalorização da moeda turca e pela inflação galopante e o anúncio da intenção de Ekrem Imamoglu de se candidatar à presidência de imediato o catapultou nas sondagens de intenções de voto.
Acresce que Erdogan não é propriamente um novato no duvidoso talento de reprimir e prender opositores. O seu infame historial conta, entre outras façanhas, com a prisão de várias pessoas, incluindo académicos, escritores, jornalistas, activistas e personalidades políticas.
Neste caso, o líder do CHP viu sua casa invadida por agentes policiais mas não esteve só nisso: como também aconteceu na Roménia, centenas de seus mais notórios apoiantes tiveram o mesmo ‘tratamento’.
É caso para dizer, com sarcasmo, que a actuação de Erdogan e seus esbirros é um claro sinal que ele envia à União Europeia de que a Turquia segue à risca suas políticas ‘democratas’, pelo que não se entende por que razão o país ainda não foi admitido na agremiação.
Erdogan demonstrou que tal como Ursula Van der Leyen uma vez afirmou – na altura das eleições italianas, creio – ele possui as ferramentas para impedir resultados eleitorais não desejados.
O ainda presidente turco tinha de resto ainda muitas vantagens sobre seu rival: a imprensa, largos sectores do funcionalismo público e do exército, os fiscalizadores de resultados eleitorais (os que contam os votos).
O facto de apesar disso tudo ter recorrido à prisão do seu rival é talvez o mais sério sinal de fraqueza que poderia ter fornecido ao país. Os turcos sentiram esse cheiro a medo e querem aproveitar a oportunidade para se livrarem do seu ‘homem forte’ de uma vez por todas.
(Maria Vieira da Silva, in Observador, 23/03/2025, Revisão da Estátua)
(De uma pequena toca pode sair um grande coelho. Vejam lá que até o insuspeito jornal da direita, O Observador, publica peças de qualidade sobre a lunática postura da União Europeia relativamente à guerra na Ucrânia. Isto está muito pior do que se julga. O texto que o Parlamento Europeu aprovou, e é escalpelizado no artigo, é de fugir. Ou já nem eles acreditam no que aprovam, ou ficámos a um passo de a UE declarar guerra à Rússia.
Estátua de Sal, 23/03/2025)
Esta UE liderada por Von der Leyen, não rejeita a guerra como resolução de disputas internacionais, prepara-se para ela.
Não há palavras para descrever a indigna farsa belicista encenada no passado dia 12 no Parlamento Europeu (PE). A UE rejeita a paz como meio de resolver disputas internacionais e apoia a guerra como instrumento para recuperar a liberdade e o bem-estar de outros povos.
Sim, eu sei que o que acabei de escrever é o art. 3.º do Tratado de Lisboa, mas ao contrário. Mas, enquanto o art. 3.º afirma claramente que o objetivo da UE é promover a paz, os seus valores e o bem-estar dos seus povos, a resolução aprovada com 442 votos a favor, 98 contra e 126 abstenções, é o oposto. Na verdade, vai muito mais longe do que o obsceno plano ReArm Europe, de 800 mil milhões de euros, imposto por Von der Leyen a um Parlamento Europeu silenciado e privado do direito de voto, com recurso à vigarice de estarmos perante “um perigo claro e imediato” vindo de Moscovo, como se Putin pretendesse entrar em Berlim amanhã, em Paris depois de amanhã e em Roma no dia seguinte.
Mais do que reafirmar o apoio a Kiev, a resolução visa criticar Trump, acusando-o de uma “aparente mudança de posição” sobre a guerra. Em essência, o PE lamenta que, após a escalada alimentada por Joe Biden, Trump esteja disposto a encontrar uma saída diplomática para a carnificina, que a UE em clima de guerra repudia, como uma espécie de crime hediondo desde a época de Caim.
Diante desta loucura, sejam quais forem os resultados das negociações de paz em curso, a UE pretende explicitamente sabotá-los para pressionar os ucranianos a continuarem a ser mortos à toa e a perder mais território.
Leia para crer. No ponto 15, onde a UE e os seus estados-membros são instados a apoiar firmemente a Ucrânia, o parágrafo continua com a seguinte declaração:
“Ele [o PE] relembra a sua convicção de que é nos campos de batalha da Ucrânia que futuro da Europa será decidido”.
Não na mesa de negociações de paz, por mais complexa que possa vir a ser, mas nas trincheiras, armados com canhões, tanques e mísseis. Não acabou. Depois de terem declarado que só com a guerra se pode construir o futuro radioso na UE, o PE insta os países-membros a fornecer mais armas e munições a Kiev “antes do fim das negociações” e convida todos, isto é, tanto os governos europeus como a NATO, a revogar todas as restrições à utilização de sistema de armas ocidentais fornecidos aos ucranianos para que possam ser usados “contra alvos militares em território russo”.
Ou seja, a resolução pressiona os estados-membros a remover os obstáculos que atualmente os impedem de atacar diretamente a Rússia. Na prática, estamos prestes a declarar guerra à Rússia. E, de facto, no ponto 9, a resolução insta a UE a “coordenar respostas conjuntas com os seus estados-membros semelhantes às utilizadas em tempos de guerra”.
No ponto 32 convida os países-membros a preparar-se “para contingências militares mais extremas”, e são instados a desenvolver “testes de esforço para legislação existente”, sublinhando a “necessidade de reduzir os obstáculos presentes na legislação nacional e na UE em vigor que comprometam a eficiência da defesa e da segurança europeias”. Por outras palavras, o artigo 3.º do Tratado de Lisboa e o art. 7.º, n.º 1 da Constituição da República Portuguesa devem ser removidos, porque são considerados obstáculos caso a UE decida atacar a Rússia ou algum outro aliado de Putin. Não só isso. No ponto 37 da resolução há um capítulo que diz respeito às forças armadas, para as quais é necessário passar da abordagem baseada em fluxos, que prevaleceu durante os tempos de paz para uma baseada em reservas.
Ou seja, é preciso encher os arsenais e preparar também planos de emergência e cooperação económica em caso de conflito, acelerando a mobilidade militar (ponto 52), permitindo que tanques, armas e munições passem pacificamente, sem muitas formalidades, através das fronteiras, sem que as alfândegas dos países-membros façam alarde. E também permitindo a possibilidade de uma revogação centralizada e justificada das “regras de circulação rodoviária e ferroviária”. Sim, em suma, se necessário, as rodovias e ferrovias de passageiros devem ser fechadas para deixar passar vagões de carga carregados de armas.
Esta desgraça esquizofrénica, não só estabelece, portanto, as regras que devem ser aplicadas em estado de guerra, como afirma, para quem ainda tinha dúvidas, de que esta UE liderada por Von der Leyen, não rejeita a guerra como resolução de disputas internacionais, segundo os princípios do direito internacional e da Carta das Nações Unidas, pelo contrário: prepara-se para ela.
O Costa, afinal, ri-se de quê? Bem, com 35 000€ por mês também eu me ria…
Suspeito, aliás — pela forma como a UE inventa invasões sem sentido e sem motivo, finge que a NATO foi abolida, fala de armamento como se a Europa não gastasse quase o dobro do que gasta a Rússia em armas e não estivesse pejada de ogivas nucleares americanas, francesas e inglesas –, que se esta infeliz guerra acabasse, Von der Leyen & Companhia imediatamente preparariam outra.
Apesar de tudo, este teatro do absurdo, aterroriza, mas não espanta, porque a narrativa da guerra é a mesma que saturou a perceção coletiva durante o caos da pandemia, com os slogans “segurança” e “risco zero”, sacrificando os jovens e os idosos, os primeiros segregados em casa, os últimos abandonados em asilos. Agora, com o slogan “risco”, sacrificam-se o desenvolvimento económico e um povo inteiro no altar de interesses geopolíticos. Em ambos os contextos ressalta a aversão intolerante e histérica a qualquer pensamento contrário ao mantra repetido pelos media (a propósito, já leram o manual linguístico publicado pela Comissão Europeia no passado dia 14 de Fevereiro? São cento e trinta páginas que impõem limites muito precisos e estreitos à liberdade de expressão).
Goste-se ou não – e eu não gosto nem um pouco – esta declaração de guerra à paz parece ainda mais grotesca quando decidida por um Parlamento e Comissão sem poderes para promover o rearmamento e a guerra (art. 24.º do Tratado de Lisboa), razão pela qual só poderá ser entendida à luz do aumento dos gastos militares exigidos por Trump.
Ou seja, a propaganda que visa levar as pessoas a acreditar que a UE é capaz de criar um exército muito poderoso e grande, capaz de derrotar a Rússia, capaz de controlar todas as ameaças e mais algumas, serve apenas para esconder que a UE está a seguir à risca as instruções recebidas, primeiro de Biden e depois de Trump. Não contra Trump, mas de acordo com Trump. Afinal estamos a falar da mesma UE, que continua a bater recordes em importações de combustíveis russos, apesar das sanções.