Marcelino, pan y vino

(Vítor Lima, in Blog Grazia Tanta, 14/04/2021)

 

1 – Os primórdios do artista

O Marcelino (do filme) foi mordido no seu pé descalço por um escorpião e teve a sorte de um padre lhe ter sugado o sangue que escorria da mordedura, conseguindo, com a evidente graça de Deus que o veneno não tivesse abatido o rapazito. O Marcelo do século XXI nunca seria mordido por um escorpião porque o seu pé só se descalça para mergulhar nas águas dos estoris e, não consta que se tenha picado num peixe-aranha; ou, anos atrás, quando mergulhou nas sujas águas do Tejo, numa tentativa (falhada) para conquistar a câmara de Lisboa (1989), não consta que tenha ficado preso no lodo fedorento……


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Aventuras e desventuras do R

(Amadeu Homem, 14/04/2021)

A Oposição virou-se, toda fula e colérica, para o governo e para o PR e disse: – Outro estado de emergência? Mas que pouca vergonha é esta? Atrevem-se a propor outro estado de emergência?

O governo meteu os olhos no chão; o PR tossicou e prometeu beijos. Foi o Costa que quebrou o enleio, declarando, muito tímido: – É o R, é a subida do R.

A Oposição franziu a testa e replicou:

– E quem criou o R senão vocês?

– Nós? – Interrogaram-se em uníssono o PR e o governo.

– Eu uso sempre máscara e até já deixei de beijocar – advertiu o PR.

– Eu deixei de ir à Índia e renunciei aos restaurantes – obtemperou o governo.

– Não queremos saber nada disso. Isso do R, e dos casos novos da pandemia, e dos internamentos, e dos cuidados intensivos, não é connosco. É tudo com os Senhores, que são incompetentes e não tomam as medidas mais corretas.

– Mas eu já não beijoco – obstou o PR.

– E eu já só como sandes trazidas pela Uber Eats – lamentou-se o Costa.

– Não queremos tomar conhecimento de nada disso. Ficam a saber que esta nossa permissividade acabará! Este é o último estado de emergência, ouviram bem? – Ganiram, em uníssono, o PCP e o BE e a Iniciativa Libérrima, e o Ventura Auschwitz e, mais baixo, o Canto-que-eu-Rio!

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– Mas… mas… mas… – disse o Costa, muito à rasca. Não fomos nós que fizemos festas clandestinas, e que nos juntámos na praia, e que fomos em magote fazer surf à Caparica, e que andámos a saltar de concelho em concelho, e que juntámos a família de quarenta pessoas nas almoçaradas de Páscoa, e que…

– Cale-se, tenha vergonha, incompetente, dissoluto – gritou o Canto-que eu-Rio.

– Monhé ! – ganiu o Auschwitz.

– Comunista, estalinista, amigo dos cubanos – uivou o Libérrimo.

– Eu juro que não voltei a oscular velhinhas e putos ranhosos – assegurou o PR.

– Calem-se ambos. E já! – Acrescentou a Catarina Deseufémia, muito hirta e nervosa.

Todos repetiram em coiro, digo, em coro:

– Este será último estado de emergência. Os portugueses têm o direito democrático de se infetarem em liberdade e com todas as garantias cívicas!

– Vou regressar a Goa – disse baixinho o Costa.

– Vou disputar o lugar do Marques Minorca – declarou quase inaudivelmente o nadador do Tejo.

Fez-se depois um denso silêncio, só quebrado pelo R, a subir pela escada, digo, pela escala acima.


Maria Antónia Palla nas muralhas da cidade

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 17/04/2021)

Sócrates: Porquê tanto ódio

A surpreendente, para muitos chocante, intervenção pública de Maria Antónia Palla contra o ódio político e contra a violência da direita permite tocar no melindroso assunto das relações pessoais afectadas pela Operação Marquês. É matéria íntima e privada, dentro do que os próprios considerarem como tal, mas cruza-se com a dimensão republicana para que somos convocados como cidadãos.

Como este cristalino texto de uma jornalista consagrada (e histórica combatente pela dignidade, pela democracia e pela liberdade) deixa num exuberante e comovente exemplo.

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Realmente, é preciso ter 88 anos – ou seja, é preciso ter memória – para conseguir relacionar as peripécias da caçada a Sócrates com o modus operandi de uma ditadura. Essa característica referencial do seu clamor por “compaixão” (qualidade “feminina”, no sentido de ser do foro da empatia e da alteridade, da moldagem e do perdão) a propósito de uma figura tão inauditamente polémica como Sócrates talvez tenha sido o que levou Daniel Oliveira a carimbar como “absurdo” o passo em frente em direcção aos algozes e à turbamulta dado por Palla. O mesmo Daniel que, nas linhas cimeiras e altaneiras à desconsideração sonsa da voz da mãe de António Costa, se entretém a insultar Sócrates armado em psicólogo de café e reclamando o papel de defensor do PS e das vítimas do Engenheiro; vítimas estas por causa das relações pessoais (no partido e/ou na esfera privada) que mantinham com ele ao tempo da sua detenção e da revelação dos factos relativos ao dinheiro que Santos Silva lhe fazia chegar, directa e indirectamente.

Essas pessoas são vítimas, isso é inquestionável. Os danos do escândalo terão afectado a sua saúde de forma traumática. E para aquelas com profissões e actividades que impliquem exposição pública ainda mais, pois há um inevitável efeito de contaminação na reputação que passa a ser explorado incessantemente por pulhas e broncos. Estas pessoas, portanto, e sem carência de mínima explicação, não dispõem de qualquer motivação para mexer uma palha que possa ir ao encontro dos interesses de Sócrates. Algumas, precisamente por terem a sua voz amplificada pela comunicação social e tal lhes dar ocasião e influência para se protegerem, desde muito cedo sentiram a necessidade de começar a castigar Sócrates no plano moral, considerando (e com toda a razão) que os actos por ele assumidos em artigos e entrevistas já chegavam para uma condenação da sua conduta na esfera dos relacionamentos sem ser preciso esperar pelo desfecho do processo judicial.

Pedro Adão e Silva é um dos mais salubres, ponderados, objectivos e intelectualmente honestos “comentadores de referência”. Na edição do Bloco Central de ontem, podemos ouvi-lo na enésima denúncia moral contra Sócrates. A sua veemência desta vez, o próprio circuito espontâneo da fala, mostra como a dor que o dilacera ultrapassa a sua individualidade, remete também para terceiros que lhe são muito próximos (é o que intuo). Trago este episódio porque o Pedro, no embrulho narrativo com que procura matar simbolicamente quem considera culpado pela sua agonia, deixa as emoções dominarem a sua inteligência e ataca Ivo Rosa recorrendo a um dos argumentos mais usados na campanha para o desacreditar, o de que estaria num combate contra Carlos Alexandre e que teria disfunções psicológicas. Trata-se de uma falsa equivalência, criada para branquear Carlos Alexandre (um juiz que viola vários dos seus deveres) e para diabolizar Ivo Rosa (um juiz que cumpre exemplarmente todos os seus deveres). O admirável Adão e Silva, na frustração e desejo de vingança contra Sócrates, alargou a um inocente a impotência furiosa que o consumia.

Eis três radicalmente distintas formas de lidar com o mesmo, a dimensão moral da conduta de Sócrates nisso em que as suas decisões afectaram relações pessoais de diferente tipologia e grau. Daniel Oliveira aproveita para despachar mais uma encomenda de Balsemão e Ricardo Costa, os seus patrões, dando-lhes daquilo que eles gostam. O sofrimento a que alude no seu exercício é apenas carne para o canhão de um publicista. Pedro Adão e Silva expõe-se na sua fragilidade e dano, assume o seu papel no que fica como uma tragédia pois ele próprio se deixa diminuir na ânsia de se defender. E Maria Antónia Palla, que dá toda a ideia de ainda saber que António Costa é seu filho, avança por cima dos escombros das relações pessoais desmoronadas no PS, avança debaixo do fogo de barragem da direita que quer maximizar os ganhos e tentar atingir e comprometer o maior número dos talentos políticos socialistas que conseguir, para dizer na cara da multidão que a cidade também é dela.

Confesso: fiquei com inveja de Costa.


Fonte aqui