Quando Rio, Santos, Ventura e Figueiredo se encontram num salão

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 27/04/2021)

É uma festa, que promete nada mais e nada menos do que abundar sobre a “reconfiguração social, política e económica para as próximas décadas”, nas vésperas da inauguração do congresso do Chega, que foi apontada para o faustoso dia 28 de maio. A caminho destas décadas tão prometedoras, a convenção do Movimento Europa e Liberdade (MEL) junta os chefes dos quatro partidos da direita, os recentemente chegados encerram as manhãs, os que têm mais pedigree encerram os dias (Rio faltou no ano passado, vai este ano ser a estrela da companhia). Acrescenta-se a aristocracia do Observador, que veio em peso, José Manuel Fernandes, Rui Ramos e Helena Matos, mais alguns cronistas avulsos (e que injustiça esquecerem os do Sol), um painel dos notáveis do PS que são parceiros deste mundo, Luís Amado, Sérgio Sousa Pinto, Álvaro Beleza, mais um ex-governante PS que era do PSD e retornou ao PSD, Nogueira Leite, também Henrique Monteiro, não podia faltar, e mais algumas glórias laranjas, Joaquim Sarmento, Miguel Morgado e Poiares Maduro, desta vez Montenegro foi esquecido, e do CDS, Paulo Portas. Há ainda uma feira de extravagâncias: o representante dos hospitais privados, Óscar Gaspar, ou Camilo Lourenço, que escreve sobre a “deriva bloquista de Vítor Gaspar” e do FMI, lá se irão explicar ao Centro de Congressos. Numa palavra, está toda a gente que devia estar e, em vez de notarem com surpresa esta confraternização, os analistas deviam saudar o acontecimento, do qual resulta um interessante sinal convivial. Quanto mais juntos melhor, quanto mais falarem melhor.

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Tavares, outro dos que vai partilhar “oxigénio e alcatifas” com estas figuras gradas, garante que é tudo só para proteger os direitos oprimidos de alguns coitados que são silenciados pelo manto pesado da censura e lá estará, “de preferência na primeira fila e com a seguinte inscrição” na sua T-shirt: ‘André, boa parte das tuas ideias são uma vergonha, mas vergonha maior era não as poderes defender’” (ofereço-me para pagar esta tshirt a Tavares, como incentivo carinhoso à sua coragem democrática, o coitado do “André” está tão impedido de dizer o que pensa). Isto promete, vão discutir o tamanho das vergonhas respetivas.

Só que, em janeiro de 2019, o André escorraçava esta iniciativa para a qual não fora convidado, nos termos que só ele sabe utilizar: “Qualquer líder de direita e centro-direita devia estar envergonhado de participar num movimento como este (…), é um favor que me fazem não me convidarem”. Logo no ano seguinte fizeram o favor de o convidarem e lá esteve. Agora repete cordatamente, desta vez como encerrante de uma manhã de profícuas discussões, acolitado pelo seu vice-presidente, Nuno Afonso, e por Fátima Bonifácio, que há pouco explicou ao povo maravilhado que, como “a direita não se conseguiu impor com boas maneiras e falinhas mansas”, uma vitória do Chega será o início de “uma barrela de alto a baixo” no país.

O problema é que os organizadores parecem discordar destas versões delicodoces, ou até suspeitar da higiénica “barrela de alto a baixo”. Chefiados por Jorge Marrão, partner no “Deloitte Hub” (“o Jorge Marrão lidera o Real Estate em Portugal”, diz a empresa, orgulhosa), garantem que a ambição é “caminhar-se para um compromisso num espaço político alargado dentro do arco constitucional”. Pelos vistos, o partner da Deloitte anuncia que está a servir de consultor para organizar o “compromisso”, “alargado” como não podia deixar de ser, para a direita constitucional. Treta. Como o CDS não está capaz de eleger um deputado e o IL brilha com 1% na última sondagem do Expresso, Santos e Figueiredo só servem para o coro do convívio e sobram unicamente dois protagonistas, o Chega e o PSD. Ora, estes até podem dançar o fox trot, mas não será com a música do arco constitucional.

A operação pode ser ideologicamente ambiciosa. Desde que a direita se começou a trumpizar, mistura alegremente todos os fantasmas do passado, como o renascer da ordem patriarcal (se o Presidente começa um discurso com “minhas senhoras e meus senhores”, é uma miserável cedência ao “politicamente correto”), a mobilização do fanatismo religioso (a exclusão dos infiéis), o maccartismo (o “fundo de verdade” de que “os comunistas comem crianças”), os mais variados discursos de ódio e, sobretudo, a cereja das cerejas, o mercado como definição natural das coisas. Todos esses fantasmas se vão passear no “oxigénio e alcatifas” da bendita convenção. O problema é que isso não serve para nada, por mais que se aplaudam uns aos outros.

Nada pode evitar ao compromissador Jorge Marrão, ou aos dois chefes partidários que ficarão de pé no salão depois das salvas das urnas, Rio e Ventura, uma escolha entre dois caminhos. Para ter votos suficientes para negociar poder, Ventura tem de prometer um regime terrorista de violação constitucional (castração, prisão perpétua, pena de morte, apartheid para ciganos); então, quanto mais ganhar mais perde. Para ter votos suficientes para disputar alguma coisa do centro, Rio não pode propor-se ao país para reduzir o RSI ou os subsídios de desemprego, tem de dizer alguma coisa de aceitável. Pensar que destes caminhos diversos pode resultar um acordo “para as próximas décadas” é uma fantasia. Muito ficará pelo caminho e só assim se poderão entender, traindo-se um e outro ou um ao outro. Mas, como é bem evidente na agenda do tal convívio, não têm ideia alguma sobre qual será o caminho.


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Estado da direita: a decência é agora a excepção

(Por Valupi, in AspirinaB, 27/04/2021)

discurso do Presidente da República na Sessão Solene Comemorativa do 47.º aniversário do 25 de Abril foi um eficaz exercício de comunicação. No conteúdo, corresponde a uma aula de História ao nível do ensino secundário onde os objectivos didácticos sejam a ilustração dos conceitos de “relativismo moral” e de “comunidade”. O texto leva a sua audiência a contemplar a complexidade, a mistura, dos tempos dentro do tempo.

A cada tempo, a cada espaço no tempo, os seus valores. Dos valores vem o comportamento, conforme ou opositor. Se nos focarmos no último século (estamos quase a chegar a um data axial da contemporaneidade, o centenário do 28 de Maio de 1926), o discurso lido na Assembleia da República para comemorar uma mudança de regime apela a que se aceite a bondade de todas as partes. Eram bons os que fizeram maldades, pois não sabiam fazer melhor ao tempo. São bons os que querem fazer maldades por causa das maldades dos antigos, pois no seu espaço e no seu tempo sentem a pulsão da vingança e da revolta. Mas todos se devem perdoar e tolerar, sendo a esse desfecho que colhe chamar “comunidade”. Prova de que tal é possível? Aqui o discurso salta para o metadiscurso, num clássico golpe retórico, e o autor faz das suas palavras – e do momento da fala, desse καιρός – a evidência que reclama: ele tinha sido um dos maus e tornou-se bom. Portanto, sejam amigos, vá lá.

Este é um conteúdo simples, que não chega a cair no simplismo só porque a direita portuguesa há muitos anos que se barricou no grau zero da inteligência política. Desistiram de pensar a cidade, de ter projectos que sejam competitivos em eleições, e reduziram-se à chicana, ao golpismo e ao ódio. Nesse nível, a transmissão de mensagens apenas utiliza o berreiro como canal. E que se pode dizer a berrar? Tão-só que os adversários são o inimigo, o Diabo. É esse o papel do editorialismo e da indústria da calúnia, que em Portugal é um monopólio da direita.

Ora, perante esta decadência, um discurso repleto de bem-intencionadas vulgaridades, como o que Marcelo engendrou com arte, está a gerar uma comoção ditirâmbica. Como se fosse espantoso ouvir um tipo de direita a reconhecer um terreno comum, a apelar à união na diversidade, a ser decente. E a promover a empatia, inclusive para seu próprio benefício. Empatia que é antinómica, mesmo cognitivamente paradoxal e insuportável, com a exploração da frustração e do rancor a que a direita se entrega desde 2007.

Há dois subtextos, porém, no espectáculo oferecido por este actor tarimbado. O primeiro é o de na sua tese se sobrevalorizar aqueles com quem mais Marcelo se identifica, a rapaziada do seu tempo, apelando a que os outros, vítimas próximas ou distantes dos seus, acolham essa diferença. A esta pretensão se deve contrapor a daqueles que reclamam por não terem a sua diferença reconhecida de forma plena, ou suficiente, ou mínima. O segundo é o de Marcelo também ter na sua equipa a Cofina, o João Miguel Tavares e o Marques Mendes, para dar três exemplos que dispensam explicações. Esse Portugal onde a política é uma praxis da violência, do poder pelo poder através da tentativa de destruição de quem se lhes oponha, não é aquele nascido do 25 de Abril. Ao contrário, é contra ele que o 25 de Abril doa sentido à História.


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Não me insultem: não digam que eu sou exemplar!

(Amadeu Homem, 26/04/2021)

Amadeu Homem

Agora, que toda a gente tanto fala em corrupção, agora que tanta gente declara “eles são corruptos, ou simplesmente venais, ou moderadamente incorretos, MAS EU NÃO, EU SOU EXEMPLAR!”, este Vosso amigo vem dizer que nunca foi exemplar e que, muito provavelmente, nunca o irá ser.

Passo a explicar. Eu considero que não sou mau tipo e que não sou mau cidadão. Mas levaria a mal que me considerassem exemplar! Saibam todos os que frequentam esta página que eu – que não sou má criatura – não me considero e talvez nem me queira exemplar.

Foram inúmeras as situações em que roubei o Estado! Inúmeras! Desde a daquela vez em que arranjei um pintor que me pintasse a casa “mas sem recibo”, até àquela outra em que disse ao mecânico que lhe pagava uma retificação de motor do meu velho “jeep”, pelo preço que ele me adiantou, mas só se as coisas fossem feitas “por fora”!

E as vezes em que eu já vendi livros meus a amigos sem passar recibo? E uns selos em duplicado e umas especialidades filatélicas que eu vendi no OLX sem os declarar ao fisco? Ainda foram umas centenas de euros!

Isto, só que me lembre! É provável que haja um milheiro de situações em que eu estive muito longe de ser exemplar! A chatice toda está em que eu não tenho apetite em me portar bem, em certos domínios. E isto, porquê? Porque o equilíbrio saudável do mundo é aquele que se alcança no reconhecimento da imperfeição ética da espécie.

Aqui para nós: de quem eu tenho mais receio (juro, sob palavra de honra!) é daqueles que declaram que eles foram sempre transparentes, lisos, corretos, incapazes de uma safadeza! Desses, eu tenho um receio que se aproxima do pânico!

Cheiram-me a “Venturas”, que deve ser o mais acabado dos filhos da puta!


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