Azuis por fora, podres por dentro

(Fernanda Câncio, in Diário de Notícias, 22/06/2021)

É capaz de ser estranho que tenda a haver distúrbios, ilegalidades e ameaças de violência nas manifestações associadas às polícias. E que a linguagem de um movimento anónimo que se diz delas representativo prime pela ameaça, pelo insulto e pela mentira. Polícias ali não pode haver.


“Orientações por voz em breve.” A frase surgiu no chat Telegram do movimento zero (M0) às 14.20, seguida de “coloquem os auriculares”. A seguir, a ordem: “Camaradas, reúnam ao centro. Estamos muito dispersados.” À 16.22, lê-se: “Vamos aguardar por mais camaradas.”

Ficamos assim a saber para que serviam os auriculares inclusos no “kit” indicado para esta concentração no Instagram e Facebook do M0: ouvir ordens. Ordens de quem? Um agente da PSP que comenta o caso comigo indigna-se: “Então polícias, que deviam ser pessoas atentas e desconfiadas, confiam numa voz que não conhecem?”

Em vez do megafone que normalmente nas manifestações indica palavras de ordem e dá indicações, empunhado por alguém identificado e identificável, uma manifestação de agentes policiais – que vestem os polos do uniforme, também constantes do “kit”, como prova de serem da PSP ou GNR (um gesto ilegal, já que é vedado a membros de forças armadas e de segurança manifestarem-se fardados) – segue um ditado vindo das sombras.

Ao microfone da SIC, alguém que diz ser agente da PSP desde 1992, “simpatizante do M0” e dar pelo nome de João Almeida, tenta justificar: “Há um medo que impera na polícia porque o 25 de Abril não passou por aqui.” E resolve fazer este paralelismo: “Alguém que é hoje um herói nacional, Salgueiro Maia, é herói porque ganhou, porque se não tivesse ganhado era preso, era um criminoso.”

Infelizmente, não foi perguntado a João Almeida em que medida o militar que comandou desde Santarém uma coluna do exército para participar no derrube de uma ditadura, e no Terreiro do Paço, peito aberto às balas, enfrentou as forças da situação, se pode parecer com anónimos que, numa democracia na qual os polícias conquistaram há 20 anos o direito a sindicalizar-se, se acoitam no escurinho de auriculares.

Seria interessante ouvir a resposta – porque o “paralelismo” escolhido por João Almeida expõe bem a perigosa baralhada que vai nas cabeças de alguns daqueles a quem, como sociedade, entregámos armas, ou seja força mortal, para nos defenderem dos atentados à ordem legal democrática. Para gente como este “simpatizante” do M0, conclui-se, não há diferença entre a ditadura que Salgueiro Maia contribuiu para derrubar e a ordem democrática que permitiu fundar – é tudo igual e portanto o uso de violência, depreende-se do exemplo que deu, igualmente legítimo. Aliás não é por acaso que também nesta concentração, como em algumas anteriores, os manifestantes fizeram menção de “furar” a barreira de polícia que lhes impedia o acesso ao edifício do parlamento: há uma intenção clara de afrontar, até de “invadir”, o poder democrático.

Óbvio que tal encenação, ainda que frouxa e muito aquém da “tempestade” anunciada na convocatória, desde o seu título – “ultimato” – até frases como “vamos lutar com tudo!”; “esta luta em nada se assemelhará aos habituais e moderados protestos que se têm vindo a realizar nas últimas décadas”; “não temos qualquer intenção de somente promover um mero desfile de bandeiras e faixas”, desmente a garantia dada por João Almeida: “Não estamos aqui infiltrados por movimentos extremistas. (…) Estamos cansados de ser associados a movimentos e correntes políticas, o que não corresponde à verdade.”

Tudo nesta concentração, obviamente, é extremista, como tudo no M0, desde que surgiu – lembremos que por “revolta” contra a decisão de tribunal que condenou oito agentes da PSP por terem sequestrado, agredido e insultado de forma racista jovens negros da Cova da Moura -, ressuma a uma corrente política que chama “regime” à democracia e diz querer “substituí-lo”. Convinha que não só o governo e o PR como todas as forças democráticas tornassem claro que, se as legítimas aspirações dos agentes das forças de segurança merecem todo o respeito e atenção, este tipo de manifestação deve ser repudiado e quem nele participa sofrer consequências.

É inaceitável que agentes policiais façam gala em violar a lei e em mostrar que não respeitam o símbolo da vontade do povo que é o parlamento; qualquer um que participe nestas ações demonstra que não tem o que é preciso para desempenhar as fulcrais funções que a democracia lhe confia. Pode ter a farda, o polo e o boné de polícia, pode deter as armas e as algemas (que o M0 lhe pediu para levar para a manifestação e que no momento em que escrevo não se percebeu ainda para quê), mas polícia não é de certeza. Será azul por fora, mas está podre por dentro: para polícia não presta.


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A maré baixa da extrema-direita e os festejos precipitados

(Francisco Louçã, in Expresso, 22/06/2021)

A virulência de Bolsonaro contra a Rede Globo, que tinha acompanhado com simpatia a sua eleição em 2018, é um sinal da mudança de maré, mais do que das idiossincrasias do presidente que se faz aclamar pelo seus apoiantes ao grito tribal de “Mito”. Percebe-se a razão do seu medo.


Percebe-se a razão do seu medo. Desgastado pela sua indiferença por meio milhão de vítimas de Covid, Bolsonaro ficou recentemente sem vários dos seus aliados mais poderosos: Trump foi derrotado, Netanyahu caiu, Macri foi varrido na Argentina. Vem ainda pior: no Chile, as eleições para a Constituinte comprovaram o isolamento do governo de Piñera, o Peru foi “perdido” para um sindicalista, como o presidente brasileiro se queixou, Duque está confrontado com uma sublevação popular na Colômbia, a oposição de direita na Venezuela dividiu-se e não se ouviu falar mais dela. O mapa dos poderes da extrema-direita está a empalidecer, o que faz da disputa brasileira o centro da política na América Latina. Assim se compreende que os chefes da direita tradicional, a começar por Fernando Henrique Cardoso, pelos ex-aliados de Bolsonaro no “centrão” do parlamento e até por algumas lideranças neopentecostais, se distanciem deste desastre e procurem alternativas, mesmo que alguns já pareçam resignados à bipolarização que pode levar Lula de novo ao poder.

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Na Europa, Orban está confrontado com uma convergência das oposições húngaras, o apoio ao governo da Eslovénia descambou de 56% para 26%, na Polónia o governo ensaia uma viragem económica em desespero de causa, em França Le Pen estagnou, em Itália Salvini é perseguido tanto pelo ascenso de outro partido de extrema-direita como pela recuperação do centro e da velha direita, que procuram recompor-se com Draghi, em Espanha o Vox perde para o Partido Popular.

O que há de comum entre todos estes casos de desgaste eleitoral é o exercício do poder. Sempre que puseram pé em governos, mesmo quando suportados por vagas xenófobas que garantiram a opacidade da sua autoridade, estas forças atacaram direitos fundamentais, condicionaram tribunais, fecharam jornais e televisões, proibiram atividades sindicais, perseguiram opositores, em alguns casos criaram milícias e, sempre, exponenciaram os discursos de ódio. Virou-se contra eles, como não podia deixar de ser. Nos casos de Trump e Bolsonaro, desprezaram a pandemia, multiplicaram o negacionismo genocida, promoveram curandices irresponsáveis, afastaram cientistas e correram a proteger privilégios económicos. Mas, sem exceção, foram todos atropelados pela realidade, provando que há uma diferença entre as tonitruantes promessas anti-sistema e os efeitos que são capazes de produzir na vida do dia a dia das populações. Vive-se pior com estes governos e essa é a prova dos factos.

Por isso, conhecer a realidade destas governações, a panóplia dos seus ministros e os jogos que movem tornou-se um instrumento essencial das lutas democráticas atuais. A bufonaria é deslumbrante, até ser vista; os bufões são esfuziantes, até serem percebidos; e a elevação de uma companhia de rufias e corruptos deixa danos profundos e duradouros, mas mostra quem eles são e o que fazem. Os heróis da extrema-direita, Bolsonaro, Trump, Salvini, Orban, Modi, mudaram a política mundial ao chegarem ao poder e têm desde então criado a sua própria desautorização.

Essa mudança ainda se prolonga e prolongará, não estamos livres dela. Le Pen beneficia do apodrecimento do poder de Macron, confirmando que o centro nunca é uma barreira contra o autoritarismo social da extrema-direita, e ainda tem pela frente uma campanha presidencial com maiores chances do que no passado. A radicalização da direita histórica espanhola é um efeito da contaminação pelo Vox e ficará, tudo nos nossos vizinhos será disputado ao som da memória e da linguagem da Guerra Civil do século passado. Bolsonaro, no seu desespero, tentará os militares, e Trump anda por aí. A semente está plantada.

No nosso caso, ainda só está a começar a festa. Moedas, em Lisboa, copia Ayuso, de Madrid; Rio compete com Ventura; Figueiredo organiza uma festa Covid; uma convenção junta os aristocratas da direita e o que resulta é uma polémica infindável sobre o saudosismo salazarista, e estão por verificar os efeitos duradouros de uma direita que deixou de disputar o centro e se limita a estralhaçar-se.

Em todo o caso, a lei é implacável: se os partidos de direita se imitam, têm que se agredir para que alguma coisa os diferencie. O efeito é pesado, um espaço político com um partido de 20% e dois outros de 5% ou algo mais torna-se radicalmente inviável. Alguns concluirão que, assim sendo, Ventura é o melhor aliado de Costa e que Rio será somente uma ponte para Passos Coelho. Ora, muita água ainda passará debaixo das pontes até conhecermos o desenlace desta tragédia à direita, mas fica um aviso para as esquerdas: se há quem pense que basta esperar sentado para assistir ao espetáculo, é melhor perceber como o mundo tem mudado. Não tem sido para tornar a vida mais feliz.


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Noites de verão

(José Gameiro, in Expresso, 18/06/2021)

José Gameiro

Há uma anedota clássica que se conta a propósito dos portugueses. Estavam quatro maduros, de diferentes nacionalidades, à beira de um precipício. Se se atirassem para uma rede de proteção, teriam um prémio chorudo. Todos o fizeram menos o português. Apesar de todas as garantias, não saía do mesmo sítio. Até que alguém lhe disse que era proibido e ele atirou-se…

Não sei fruto de quê, mas gostamos muito da pequena transgressão. Somos pouco frontais, grandes adeptos do ‘nin’, se alguém é mais direto é porque tem mau feitio. Temos fama de passivos, pouco interventivos civilmente, adoramos dizer mal dos políticos, é verdade que alguns se põem a jeito e são confrangedoramente fracos. Mas a maior parte tem todo o interesse em fazer o melhor que pode e sabe. A pandemia mostrou-nos quem era capaz de ser humilde e verdadeiro e quem falava do alto das suas certezas, muito incertas.

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Vem tudo isto a propósito do novo aumento de casos positivos de covid, na geração entre os vinte e os quarenta anos. Há uns dias alguém preocupado dizia-me: “Pergunta aí em casa se há ideias em como inverter isto, mas não vale oferecer uma bejeca a cada jovem que aceite fazer um teste… Seria bem pensado, mas politicamente incorreto…” Cá em casa, consigo ter muita informação direta do terreno, sobre o que se passa nos fins de tarde e nas noites longas da malta nova.

Alguém acredita, ou acreditava, que quando os bares fechassem cedo a malta dispersava? Ou que seria possível manter a distância social ou usar máscara num bar? Ou já não se lembram que um, não o único, dos objetivos de ir para a noite é o engate? Não se dão beijos na boca de máscara, não há toques com luvas… O que tem acontecido desde há semanas são encontros, festas, sunsets — não conheço um único jovem que diga pôr do sol — com dezenas de rapazes e raparigas que não podem ir para as discotecas e que têm de abandonar os bares quase ao início da noite. Se há fase da vida em que a imaginação é florescente é esta. Não têm faltado ideias para ultrapassar as proibições. Uma das mais originais de que tive conhecimento, foi alugar um barco e fazer a festa no mar, pela noite fora. Noite calma, sem serem incomodados pela polícia.

Com as discotecas fechadas, a necessidade premente de “abanar o capacete” e, ao fim da noite, tentar a sorte, tornava óbvio que a clandestinidade surgiria. E o resultado está à vista. Felizmente não muito grave em termos de internamentos e óbitos, ainda que estejam a aumentar, mas potencialmente severo em termos turísticos. No futebol foi possível fazer testes rápidos a todos os que quiseram e puderam assistir à final da Champions. Não me pareceu que fosse operacionalmente muito complicado. Claro que este tipo de testes vale o que vale, na sua incompleta fiabilidade. Mas a alternativa é pior.

Qual é a dificuldade em exigir às discotecas e aos bares, tal como acontece numa série de eventos, a testagem à entrada? Seguramente que se iriam encontrar alguns positivos, que seriam confirmados, ou não, com um PCR. O verão está a chegar, o cansaço dos jovens é evidente, o acatar as regras está já para lá dos limites. Para eles, viver sem música é impensável. Até estarem todos vacinados o verão acaba… Não entendo como é que no Natal alguns sugeriam o teste rápido para uma festa que dura dois a três dias, com os resultados que se conhecem, e agora não exigem o mesmo para umas horas… Nem pensem que os jovens vão desistir de se encontrarem nas noites quentes do verão. E cada vez que o fizerem vão-se lembrar do Natal e do futebol…


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