Leio no Sapo-Informação que o governo, considerando a progressão da pandemia, “decidiu e proibiu a circulação de e para a Área Metropolitana de Lisboa ao fim de semana”.
Isto deve ser uma “fake new” . O dos afectos não quer! O dos afectos, como gosta muito de nós todos, declarou por extenso que “com ele nunca haveria marcha atrás no processo do desconfinamento”. Eu ouvi. O País todo ouviu. E quando o Costa, sensatamente, observou que tudo dependia da expansão dos contágios e que nem um PR os poderia prever, o dos afectos abespinhou-se todo, empertigou o papo, encheu-se de brios e declarou, enfaticamente, que um Primeiro-ministro não poderia desautorizar em nenhuma situação um Presidente da República!
O dos afectos ama-nos tão intensa e desmedidamente que nos quererá ver doentes, internados em meio hospitalar, eventualmente, entubados.
Ora, acontece que eu moro no Bairro da Bica, aqui mesmo pertinho do coração do Bairro Alto, onde os sensatos jovens – umas vezes de sexos diferentes outras vezes de sexos iguais – circulam sem máscara e prestam a sua vassalagem ao dos afectos, beijocando-se como calha.
Garanto desde já ao dos afectos que eu nada tenho contra as beijoquices. O gajo que beije as velhinhas cariadas, que abrace os jovens, que faça festas aos meninos de colo, que faça o que bem lhe apetecer para que o desconfinamento lisbonense nunca volte para trás, uma vez que ele assim o decidiu.
O que a mim me chateia é a possibilidade de ficar doente, de ter de hipoteticamente ser internado no Hospital de Santa Maria (preferiria esse) ou entubado nos cuidados intensivos desse mesmo hospital.
Eu confesso que nada me daria mais prazer do que continuar a ouvir o dos afectos a cacarejar as coisas descerebradas que ele serve aos basbaques. Mas já me chateia quando tenho de lhe pagar os preços das baboseiras expelidas pela boca beijoqueira com o meu rico corpinho e com a minha preciosa saúde.
Por isso, decido escrever este texto, com a esperança improvável de que tal gajo não se lembre de vir ao Bairro da Bica e me infecte a Travessa do Sequeiro.
A minha paixão pelo futebol não é recente, não é de moda, não é fruto do acaso. Vem de sempre, do mais longe da infância, manteve-se sempre constante e alimentou-se sempre de um genuíno prazer pela estética e pela geometria do jogo: até mesmo ver miúdos a jogar na areia de uma praia me cativa, não apenas ver jogar Messi ou Ronaldo. Mas, hoje em dia, dou por mim a ficar cada vez mais farto de futebol. O jogo, em si mesmo, é cada vez mais desinteressante, a partir do momento em que o seu objectivo principal — marcar golos — foi substituído pelo de não deixar o adversário marcar golos. O futebol-arte foi substituído pelo futebol-indústria, no qual desaguaram em força todas as máfias de dinheiro obscuro do mundo — da Rússia, do Médio Oriente, da Ásia — que forçaram o espectáculo futebolístico até aos limites: mais jogos, mais competições, mais horas de transmissões televisivas de jogos e debates sobre jogos, e jogadores pagos pornograficamente, com a contrapartida de jogarem até à exaustão. Todos os envolvidos no negócio — donos e administradores dos clubes, técnicos, jogadores, programadores de televisão, dirigentes das Federações, da UEFA e da FIFA — sabem que a corda está esticada até ao limite, mas apostam na infinitude de um filão que não se esgotará nunca, pois acreditam que não se esgotará nunca, passando de geração em geração a paixão do público por este jogo. E, por isso, não é possível abrandar nem conter a ambição — daí a recente tentativa, por enquanto frustrada, de 12 dos mais ricos clubes europeus quererem ainda enxertar uma outra competição, só para eles, às já existentes. E, quando se paga seis, dez, vinte milhões por ano a um jogador, e mais do que isso a um treinador, perder não é opção. Daí que todos os treinadores, sem excepção, cuidem hoje, primeiro que tudo, de preparar as suas equipas para não perder. Os das mais ricas preparam-nas também e depois, para tentar ganhar; os outros, apenas para defender. O resultado à vista é que todas as equipas acabam a jogar da mesma maneira, um futebol previsível, cauteloso, aborrecido, destinado a matar à nascença o improviso e o génio. Bom exemplo disso é a saída de bola dos guarda-redes, actualmente a jogada mais ensaiada pelos treinadores, a mais repetitiva e a mais desinteressante. Aliás, tenho para mim e desde há muito, que, com honrosas excepções — como um padre-treinador que tive aos 15 anos — os treinadores só servem para complicar o que é simples. E quando vieram acrescentar-lhes o VAR (hoje, o personagem principal e invisível do jogo) e toda uma teia de intrincadas interpretações técnico-jurídicas sobre as 13 leis do futebol — ainda por cima, mudando todos os anos — este jogo, outrora fascinante, vai-se tornando cada vez mais aborrecido.
Mas se o futebol é cada vez mais aborrecido, o espaço que ele ocupa nas nossas vidas — ou naquilo que nos propõem que sejam as nossas vidas — é cada vez maior. Isso não acontece por acaso, mas porque os biliões investidos neste negócio precisam de retorno: precisam de público, de atenção mediática, de espaço publicitário, e tudo isso está interligado. Convencer cada vez mais pessoas de que o futebol é parte essencial da vida delas é a chave do negócio. Atrair a atenção de novos públicos, sem distinção de género, de condição social, de origem geográfica. O futebol, repetem-nos, é a única coisa que une todos os povos do mundo, que estabelece tréguas entre as guerras, que esbate as diferenças, que combate o racismo e mais uma série de causas bonitas. Era bom que assim fosse e não a alienação de massas, sabiamente promovida pelo futebol — em cuja sombra um exército de privilegiados, das Federações nacionais, dos clubes, da UEFA e da FIFA, acumulam fortunas e chantageiam governos.
Isso é conseguido, obviamente, graças ao empenho e conivência do jornalismo e, em particular, das televisões. Sem a comunicação social e sem as televisões, a alienação — ou as audiências, se assim lhes preferirem chamar — não atingiriam o patamar que hoje atingiram e o negócio afundar-se-ia. É um pouco assim em todos os países, mas evidentemente que é tanto pior quanto mais subdesenvolvido culturalmente é um país. E Portugal é disso um exemplo eloquente.
Em Portugal e até ao 25 de Abril, o futebol ocupou um papel tão importante quanto tudo o resto ou não tinha importância ou não era consentido — essa foi a missão que lhe atribuiu o Estado Novo. Com a democracia, outras coisas, mais importantes, mais urgentes e novas, passaram a ocupar-nos e o futebol passou para segundo plano. Até que (a sondagem do Expresso da semana passada confirma-o) os portugueses, que confundem democracia com bem-estar, começaram a suspirar por outro ditador ou autocrata, que restaurasse o “espírito pátrio” e nos devolvesse o orgulho nacional perdido. Encontraram-no no Euro de 2004 e na figura importada de Luis Filipe Scolari, um homem de extrema-direita, que chegou, mediu a cena e soube tirar todo o partido dela. Convenceu os portugueses que o Euro — no qual investimos milhões a perder de vista — era uma oportunidade única de restaurar a grandeza da pátria por via do futebol, afinal de contas a nossa melhor, se não única, valência. O resto é história: dez milhões menos um português (eu) passaram um mês a cantar o hino e vestidos com as horrendas cores da bandeira, a vitoriar os novos heróis do mar que acabaram derrotados por uma selecção medíocre, nas nossas barbas.
Com alguém, não charlatão e mais competente que Scolari, lá acabámos por ser campeões europeus em 2016 em Paris, para justa desforra dos nossos emigrantes e porque, por algum estranho mistério genético, temos, de facto, sucessivas gerações de gente com especial talento para o futebol. Mas o resto, o lado mau da coisa, manteve-se inalterável: o futebol continuou a passar à frente de tudo na agenda editorial das televisões, a Selecção continuou a confundir-se com a pátria e os jogadores com os navegadores de Quinhentos, e gritar por eles a plenos pulmões é sinal infalível de patriotismo. Mesmo que saibamos que aqueles heróis tatuados e de aberrantes penteados fazem o que podem para não pagar impostos à pátria, passam férias no Dubai e nem desconfiam quem foi Fernando Pessoa ou Eça de Queirós. Mas ai de quem se atreva a não saber todos os nomes deles, a não tremer de emoção quando os veem cantar o hino, quando veem as televisões seguir em directo o autocarro que os transporta para o estádio ou o avião que levanta voo rumo à Hungria, ou a não acompanhar ao minuto os relatos dos enviados especiais a Budapeste, plantados à porta do hotel da Selecção, a dar conta, em tom dramático, quais Peros Vaz de Caminha usando as novas tecnologias para informar D. Manuel do achamento de Vera Cruz, de que Fernando Santos foi avistado a ausentar-se, talvez para ir à missa!
E, porém, somos um pequeno país, mas temos alguns notáveis escritores, pintores, arquitectos, cientistas, médicos, investigadores, gente que se bate para defender o nosso património cultural, a nossa paisagem, a nossa língua. Mas nunca o hino toca por eles, nunca a bandeira sobe por eles, nunca as televisões e o povo aguardam por eles no aeroporto. Mas o que havia de esperar de diferente quando o próprio Presidente da República (que, por mais que finja, pouco percebe de futebol), interrogado sobre a situação cada vez mais preocupante da pandemia em Lisboa, declara isto: “Agora, temos de estar focados, e estamos todos focados — o senhor primeiro-ministro, o senhor presidente da Assembleia da República, eu próprio, todos os portugueses — no Europeu de Futebol”? Depois de ouvir isto, só me ocorre um desejo: oxalá não sejamos campeões, nem próximo disso! Porque, com Marcelo a comandar os festejos, nova onda de infecções, como a que foi causada pelos festejos do Sporting, vai tornar Lisboa inabitável. Graças ao futebol.
Eu, adepto de toda a vida do futebol, estou farto da ditadura do futebol! Queria que o futebol fosse apenas aquilo que devia ser: uma parte de descompressão e alegria nas nossas vidas e na vida do nosso país. E não a parte mais importante das nossas vidas e da existência de Portugal. Futebol, patriotismo e saloísmo são três coisas diversas entre si. Era bom que fizéssemos um esforço para não as confundirmos todas numa só.
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia
O pingue-pongue entre Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa segue o guião de muitas polémicas mediáticas: jornalistas vão pressionando para respostas e contrarrespostas para alimentar uma novela, queixando-se, no fim, do triste espetáculo. Terá a única vantagem de ficarmos a saber que estão em desacordo, o que não tem nada de lamentável. Mas é insistir na política chiclet: mastiga durante uns dias e deita fora.
Dar relevo ao facto de Marcelo ter dito que, “por definição, o Presidente nunca é desautorizado pelo primeiro-ministro, porque quem nomeia o primeiro-ministro é o Presidente, não é o primeiro-ministro que nomeia o Presidente” é alimentar a novela. Se o Presidente respondia a uma pergunta assim formulada pela jornalista (se tinha sido “desautorizado pelo primeiro-ministro”), faz uma correção factual de um erro da jornalista, não do primeiro-ministro. Mesmo que tenha segundas intenções, e com Marcelo tem quase sempre, não me parece que tenham grande profundidade política.
Aquilo a que dou mais relevância no que foi dito pelo Presidente são duas coisas que precisavam de ser ditas.
A primeira é a garantia de que, do que dele depender, as coisas não voltam atrás. O primeiro-ministro quis corrigir-lhe a pontaria, dizendo que ninguém pode garantir que o desconfinamento não recua. Só que, do Presidente da República só depende a declaração do Estado de Emergência. É uma bomba atómica que, perante as sucessivas renovações com debates burocráticos no Parlamento, se banalizou. É um favor que Marcelo faz à democracia tentar recuperar a sua excecionalidade. E isso passa por cumprir o que, no fundo, nos foi prometido: a vacinação serve para regressamos à normalidade. Mesmo continuando a exigir cautelas até chegarmos à imunidade de grupo – com a preocupante subida dos números em Lisboa e Vale do Tejo, por exemplo. A não ser, claro, que a vacina completa se revele ineficaz perante uma nova variante. Por agora, não está em cima da mesa.
É evidente que, para o Governo e para todas as autoridades, não contar com bomba atómica obriga a voltar a usar armamento convencional. Isso exige mais organização e é bom que o Governo e restantes serviços do Estado o saibam. Haverá sempre quem não se incomode com a eternização da excecionalidade constitucional. Só que ela também tem riscos, de outra natureza, que o olhar mais geral de um político não deve ignorar.
Este olhar geral leva-me à segunda afirmação do Presidente: que compreende a posição dos especialistas, que eles têm de ter um papel fundamental de alerta à população e às autoridades para o risco, mas que não governam o país. E seria melhor que os seus avisos fossem menos cacofónicos e que não se voltasse a instalar a ideia que a melhor forma de aconselhar um governo é fazer pressão na comunicação social, criando altos e baixos de ansiedade coletiva e banalizado o discurso do medo que, deviam saber, pode ter efeitos nas populações exatamente opostos aos pretendidos.
Os “especialistas”, diz um jornal, ficaram incomodados, porque, sendo isto verdade, também não é o Presidente que acompanha os doentes nos cuidados intensivos. Primeiro, os “especialistas” não são uma entidade uniforme, como costumam ser tratados pela comunicação social. Há-os para todos os gostos. Depois, sendo verdade que Presidente e Governo não têm contacto direto com o combate à doença, os especialistas nesta pandemia também não têm contacto direto com os problemas de saúde mental que se agravam, com os efeitos sociais do confinamento, com as falências e o drama do desemprego e com milhares de outras componentes desta crise. Nem direto nem, em muitos casos, aproximado. É natural, são especialistas. É por isso que devem ser ouvidos pelo poder político: dão-lhes parte da informação necessária para se tomarem decisões.
É por isto que não governam: não têm informação com a abrangência necessária para fazerem sínteses e tomarem decisões olhando para o problema no seu conjunto. Nem a autoridade, já agora. No fim, não serão avaliados pelos cidadãos por todas as consequências de decisões tomadas. Serão os políticos, como se vê na polémica dos e-mails na CML.
O Presidente fez bem em preparar o regresso à normalidade institucional. As bombas atómicas acabaram e quem tem a legitimidade, os instrumentos e olhar geral sobre a crise é que decide. A melhor síntese do desconfinamento da democracia.