E se saíssemos da NATO?

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 11/04/2025)

Nem Portugal nem a Europa têm vantagem em manter-se numa NATO ao serviço dos humores e interesses dos Estados Unidos.


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NATO foi a resposta ocidental ao desastre da Conferência de Ialta (na Crimeia russa…), estavam os Aliados encaminhados para derrotar o III Reich. Perante um Roosevelt em estado de saúde terminal e um Churchill mal preparado, Estaline viu reconhecido o direito de abocanhar todos os territórios que, na sua contra-ofensiva até Berlim, a URSS conquistasse à Alemanha nazi. Assim nasceu aquilo a que depois um despeitado Churchill chamaria a “Cortina de Ferro” — consumada com o bloqueio de Berlim pelos russos em 1948 e a tomada de poder comunista na Checoslováquia no ano seguinte. Para responder a essa ameaça soviética na Europa, a NATO nasceria, assim, em 4 de Abril de 1949, através do Tratado de Washington, uma aliança militar mútua de autodefesa tendo como princípio fundamental o do artigo 5º do Tratado, segundo o qual o ataque a um dos seus membros era um ataque a todos, obrigando à mobilização de todos. O seu raio de abrangência ficou definido a norte do Trópico de Câncer — Europa e América do Norte. Nas palavras do seu primeiro secretário-geral, lord Ismay, o grande objectivo da NATO era “manter a Rússia fora, os Estados Unidos dentro e a Alemanha sob controle”, mas quando a URSS viu recusada a sua entrada e viu a Alemanha Federal ser admitida, respondeu criando o Pacto de Varsóvia, em 1955, reunindo militarmente todos os países sob o seu domínio.

Os dois blocos viveriam desde então 36 anos sem se confrontarem directamente, cumprindo o objectivo estratégico da NATO: dissuasão e distensão (détente). Até que, em 1991, Gorbatchov, vencido e convencido, poria fim à URSS e ao Pacto de Varsóvia. Com o fim de ambas as amea­ças ao Ocidente, discutiu-se na altura se faria sentido a manutenção da NATO ou, em alternativa, se não se deveria convidar a Rússia para a integrar. Ambas as hipóteses foram rejeitadas, mas, em contrapartida, o secretário de Estado americano James Baker prometeu aos russos que a NATO não cresceria “nem uma polegada para oriente”, visto que em Moscovo já não havia um inimigo, mas um parceiro estratégico. Sabe-se o que se seguiu: a NATO nunca mais parou de crescer para oriente, em direcção às fronteiras russas, arrolando no seu seio 14 ex-países membros do Pacto de Varsóvia, mais os historicamente neutrais Suécia e Finlândia, e louvando-se, neste caso, por ter acrescentado mais 1200 km de fronteira com a Rússia. Mas faltava-lhe a Ucrânia, no Sul da Rússia, e a Geórgia, nas suas costas.

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Conhecem a minha tese: Putin não quer restaurar o controle sobre o espaço da antiga URSS ou do Pacto de Varsóvia, ao contrário do que nos dizem e do que o PCP imagina e aspira, mas sim o da antiga Rússia Imperial, no que ele considera ser a “mãe Rússia” — a Rússia dos czares e não a dos sovietes. E a NATO quer cercar a Rússia por todos os lados, isolando-a e desgastando-a militar e economicamente. A guerra da Ucrânia resultou do confronto entre estas duas aventuras, quando o Ocidente incentivou a Geórgia e a Ucrânia a aderirem à NATO. A invasão da Ucrânia pela Rússia foi um acto ilegal e intolerável na sua violência, que trouxe a destruição e morte a um país soberano. Mas, podendo evitá-la, o Ocidente preferiu antes provocá-la, tirando vantagens estratégicas da invasão russa com objectivos bem definidos e também à custa dos ucrania­nos. Mas isto são histórias passadas e opiniões pessoais. O que agora me interessa é o papel de Portugal na NATO à luz dos últimos desenvolvimentos. Portugal foi um dos 12 países fundadores da NATO, que actualmente conta já com 32. E, voltando a lord Ismay, a Rússia (já não a URSS) continua de fora, os Estados Unidos dentro ou fora, conforme o seu interesse, e a Alemanha vai rearmar-se a sério com o apoio de todos os parceiros. É outra NATO e é a esta luz que eu levanto as minhas dúvidas sobre o interesse de Portugal em continuar a fazer parte dela. Pelas seguintes razões:

— Não é do interesse da Europa. Marco Rubio veio dizer aos parceiros europeus que há uma “histeria” sobre as intenções de Trump acerca da NATO: afinal ele não quererá abandonar a Europa. Mas um documento do Pentágono conhecido na semana passada diz que os EUA devem concentrar-se no plano único de acorrer a Taiwan em caso de invasão chinesa e, para tal, a defesa da Europa face à Rússia deve ser tarefa essencial dos europeus, para deixarem que os EUA se foquem na região do Indo-Pacífico. Se assim é, a Europa deve avançar para uma estrutura de defesa própria, que poderá ou não contar com os americanos, mas que deverá deixar de ter o comando militar americano e de estar politicamente sob a alçada da NATO. Os EUA só querem o rearmamento da Europa e a manutenção da NATO para que, integrada nesta, a Europa esteja pronta para os seguir na Ásia-Pacífico.

— A Europa não tem dinheiro. A presidente da Comissão Europeia, Von der Leyen, do nada propôs um plano de “rear­mamento” europeu no valor de €800 mil milhões para fazer face à invocada ameaça russa de invasão da Europa. Mas, com excepção do número de ogivas nuclea­res, a Europa, no seu conjunto e com o Reino Unido, já dispõe de superioridade sobre a Rússia em tudo: homens, aviões, tanques, artilharia. Por outro lado, a súbita febre bélica europeia fez esquecer à srª Von der Leyen que tem pendente o Plano Draghi, por si encomendado, e que prevê os mesmos €800 mil milhões para restabelecer a competitividade europeia naquilo que é essencial: reindustria­lização, descarbonização e digitalização da economia, desenvolvimento da investigação e ciência, combate ao empobrecimento demográfico e envelhecimento populacional e defesa do sistema social europeu. A duas despesas juntas não são sustentáveis, assim como os 5% do PIB em despesas com a defesa que os Estados Unidos exigem que os outros membros da NATO passem a gastar para os dispensarem da sua tarefa histórica de defenderem a Europa contra a Rússia. Investir na NATO nas condições determinadas pelos americanos é investir nos seus interesses, em prejuízo da construção de uma defesa europeia não dependente dos Estados Unidos.

— Será que a ameaça existe? Alguém lançou a ideia, outro e outros foram atrás, e tornou-se doutrina não contestável e, essa sim, uma histeria imparável nos areópagos europeus: a Rússia vai invadir-nos. Mas, por mais que nos assustem, até com o “kit de sobrevivência”, ainda não vi ninguém fornecer uma explicação com sentido sobre a vontade, as vantagens e a capacidade militar e económica da Rússia para invadir a Europa — ela que, segundo a inteligentsia ocidental, ao fim de três anos de guerra estará arruinada economicamente e terá já perdido 900 mil soldados em combate, sem conseguir tomar mais do que um quinto da Ucrânia. Os únicos que eu vi propor o upgrade da guerra da Ucrânia para uma guerra europeia foram Emmanuel Macron, ao defender o envio de soldados europeus para enfrentarem a Rússia na Ucrânia, depois secundado pelo cata-vento Keir Starmer.

— Portugal não tem interesse. Uma coisa era fazer parte da NATO quando existia uma ameaça real da URSS na fronteira alemã e em todos os mares, outra é integrá-la face a uma ameaça imaginada por parte da Rússia. Não nos cabe defender especificamente os vizinhos da Rússia, mas a Europa, como um todo, e na proporção da eventual ameaça que enfrentamos: se a Rússia viesse por aí adentro, quando cá chegasse ou a guerra já teria terminado ou já não existiria Europa. Não é, pois, exigível que todos os países europeus gastem a mesma percentagem do PIB em defesa, independentemente da suposta ou real ameaça a que estão expostos: se a ameaça viesse de Marrocos, nós estaríamos na linha da frente; vinda da Rússia, a linha da frente é a Finlândia, os países bálticos, a Polónia — se se sentem directamente ameaçados, cabe-lhes gastar mais. Além de que a posição portuguesa dentro de uma organização colectiva de defesa — europeia ou atlântica — tem de ser conciliável com o específico interesse nacio­nal. E este é pôr à disposição colectiva, como fizemos sempre, o porta-aviões natural dos Açores e defender a nossa parte do Atlântico e as nossas águas territoriais. Para isso precisamos de corvetas, lanchas rápidas, porta-drones, navios-patrulha ou aviões de reconhecimento, e não de mais submarinos, tanques ou os já cobiçados F35 — além do mais, armadilhados pela Lockeed Martin a mando do Pentágono.

— Portugal não tem dinheiro. E depois não temos, nem de longe, o dinheiro que nos exigem, seja para a NATO, seja para o rearmamento europeu, seja para ambos os destinos. Para chegarmos aos 3% do PIB em defesa, vamos precisar de gastar mais €8600 milhões todos os anos; para atingir os 3,5% que exigem já, seriam mais €10 mil milhões, e para chegar aos 5% exigidos por Washington, seriam mais €14,2 mil milhões — um PRR e quase o orçamento anual do SNS. Mas, mesmo que entrássemos nesta loucura despesista, haveria que a seguir resolver um problema: ou se transformava a carreira militar numa carreira de ricos ou não teríamos voluntários para tantas armas. E creio que, neste caso, não seria possível importá-los dos PALOP ou do Bangladexe.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

O telefone vermelho

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 23/03/2025)

Zelensky e os seus amigos europeus desdenharam sempre obter um acordo de paz quando a Ucrânia estava numa posição bem mais favorável e agora estão dependentes das condições ditadas por Putin e da vontade de Trump.


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e uma guerra nuclear entre as duas grandes potências mun­diais terminaria com a destruição mútua de ambas e o extermínio de dois terços da Humanidade, parece evidente que não há outra solução que não o entendimento entre elas visando a renúncia recíproca à utilização de armas nucleares. A isto chamámos durante décadas o “equilíbrio do terror”, que garantiu que por mais ogivas nucleares que Estados Unidos ou União Soviética acrescentassem aos seus arsenais elas não eram para ser usadas, mas apenas para servirem como factor de dissua­são. Foi assim possível, mesmo nos mais tensos momentos da chamada Guerra Fria, chegar a acordos que limitavam o número de ogivas ou de mísseis intercontinentais de cada lado — os tratados SALT I e II e START — e de manter, em última instância, uma via aberta de diálogo directo entre os Presidentes dos dois países: o “telefone vermelho”. E assim vivemos quase 50 anos, no fio da navalha mas em paz, até que Margaret Thatcher pressentiu em Mikhail Gorbatchov a intenção de pôr fim à União Sovié­tica. Seguiu-se aquilo que eu considero o maior erro estratégico do Ocidente: sobre as ruínas da URSS e a liberdade reconquistada pelos seus países satélites, pegar nestes e utilizá-los para expandir a NATO cada vez mais para leste em direcção à Rússia. Hoje, uns garantem-nos que Putin quer voltar a 1991 e reconquistar todos os países aos quais a Rússia então restituiu a independência, ressuscitando sob a sua alçada o antigo Pacto de Varsóvia, enquanto outros vão mais longe e asseguram que ele quer conquistar a Europa inteira: não é invenção, é a doutrina dominante entre os actuais líderes europeus e da União Europeia (UE). Eu acredito antes que ele é, sim, um nostálgico do Império Russo tal como Catarina, a Grande, o delimitou, incluindo nele a Crimeia, a Ucrânia e os demais países vizinhos que têm uma história ou uma população ainda ligada à Rússia. A sua célebre frase, tantas vezes citada, de que “o fim da ­União Soviética foi a maior catástrofe do século XX” é sempre truncada, omitindo a continuação da frase, em que ele justificou a afirmação com o facto de a extinta União Soviética ter abandonado russos à sua sorte nos países de onde se retirou. Talvez seja um bocado isso que ele agora tenta resgatar. Mas isso agora não vem ao caso.

O que interessa agora é perceber qual é a situação actual e como é que, a partir dela, será possível ou não restabelecer com a Rússia relações que afastem o clima de guerra iminente ou prometida em que estamos e, de caminho, conseguir o melhor acordo de paz possível para a Ucrânia — se é que é isso que se pretende. A invasão da Geórgia e da Ucrânia e a anexação da Crimeia contribuíram decisivamente para afastar as partes e fazer renascer o clima de guerra fria, tal como o havia feito a contínua expansão da NATO para as fronteiras da Rússia. Aos poucos, esse clima foi-se agravando, o telefone vermelho deixou de tocar e não só ninguém deu um passo para desanuviar a tensão como até ouvimos Joe Biden chamar “assassino” a Putin, o que certamente não contribuiu para melhorar as coisas. Sem surpresa, assistimos à denúncia ou não renovação dos tratados SALT e START e, para todos os efeitos, foram cortadas todas as pontes e canais de diálogo entre as partes. E assim a guerra da Ucrânia estava aí para durar indefinidamente, não tivesse aparecido entretanto Donald Trump e a sua promessa de fazer acabar com a guerra em 48 horas. De repente, todos os que do lado de cá tinham como única proposta continuar a financiar e armar a Ucrânia “por tanto tempo quanto necessário”, aqueles para quem a simples sugestão de tentar negociações para pôr fim à guerra era uma demonstração de vassalagem a Putin, ensaiaram uma cambalhota total e passaram a reclamar e a exigir ser parte activa nas negocia­ções abertas por Trump. É bom que não nos esqueçamos disto para compreen­são futura do que se vai passar a seguir.

E então, depois de ter obrigado Zelensky a aceitar, a bem ou a mal, o seu projecto de acordo de paz, Trump pegou no telefone vermelho, que já não devia funcionar há anos, e ligou a Putin. Essa tão esperada chamada telefónica deixou bons auspícios quanto à normalização das relações Estados Unidos-Rússia e à retoma dos acordos de limitação de armas nucleares, mas, em relação à guerra da Ucrânia, resultou em quase nada. Putin reduziu o esperado acordo de cessar-fogo a mínimos e, para ir mais além, exigiu o fim do fornecimento de armas a Kiev e um acordo de paz que contemple os pontos que Moscovo quer ver discutidos e a que ele chama “as raízes da guerra”. Trump — que é forte com os fracos e fraco com os fortes — aparentemente bateu em gloriosa retirada, pouco habituado a não ser obedecido e sem que se possa adivinhar que planos tem ele agora para fazer avançar qualquer acordo, se é que tem algum. Um bom acordo faz-se quando se está em boa posição e não quando se está por baixo, em estado de necessidade. Zelensky e os seus amigos europeus desdenharam sempre obter um acordo de paz quando a Ucrânia estava numa posição bem mais favorável e agora estão dependentes das condições ditadas por Putin e da vontade que Trump tenha de as aceitar ou não, da pressa que tiver em pôr fim à guerra de qualquer maneira para depois passar à fase seguinte: cobrar a sua comissão de mediador em riquezas minerais da Ucrânia. Putin pode agora, diferentemente do que sucedia até há uns meses, ditar as suas condições para pôr fim à guerra: está por cima no campo de batalha, sente a Ucrânia exaurida e tira partido da espantosa vaidade de Donald Trump. Enquanto isso, a Europa, ao mesmo tempo que reivindica um lugar à mesa das negociações de paz, continua a querer investir na guerra, como se nada de novo tivesse acontecido. Kaja Kallas, a comissária para a Defesa da UE, numa semana anuncia mais €20 mil milhões em armas para a Ucrânia e na semana seguinte diz que afinal são €40 mil milhões que os países da UE terão de desembolsar, sem explicar como e porquê refez as contas. E, sobretudo, sem querer saber que agora é a Ucrânia que não quer mais continuar em guerra. Pode até dar-se o caso de Zelensky, acossado pela necessidade e por Trump, aceitar a exigência russa de deixar de receber armas ocidentais e teríamos a UE com umas toneladas de armas para oferecer a quem não as quer. Mas também não me admira nada tanto amadorismo bem intencionado: estes são os mesmos dirigentes europeus que andam a arregimentar tropas para mandar para a Ucrânia com a missão de garantir o acordo de paz — sem que haja ainda acordo e sem saber se a Rússia aceitará tropas europeias de países da NATO na Ucrânia. São os mesmos dirigentes que aceitaram sem pestanejar, e igualmente sem quererem ver as contas, o plano de rearmamento europeu no valor de €800 mil milhões, apresentado por Ursula von der ­Leyen. Os mesmos que, para financiar o seu rearmamento, se preparam para aprovar a renúncia aos limites de endividamento dos Estados e o desvio de verbas da coe­são europeia a favor das indústrias de armamento. Os mesmos que ficaram entusiasmados com o programa de rearmamento da Alemanha, que exigiu até uma alteração constitucio­nal sem parar para pensar se será boa ideia o rearmamento da Alemanha, sobretudo quando um partido neonazi, a AfD, tem 20% dos votos dos alemães. Os mesmos, enfim, que só falam de guerra enquanto se tenta alcançar a paz na Europa.

2 Entretanto, o homem que sonha vir a ganhar o Nobel da Paz, Donald Trump, incentiva e apoia o seu amigo Netanyahu, um criminoso com mandado de captura do Tribunal Internacional da Haia, para retomar o plano da solução final na Palestina: matar o maior número possível de palestinianos e empurrar os restantes para fora da sua própria terra.

É extraor­dinário comparar a unanimidade nas sanções ditadas à Rússia pela invasão da Ucrânia com a unanimidade na impunidade para com o genocídio que Israel leva a cabo há mais de um ano.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Agora, abanem a cauda

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 21/02/2025)

Agora, a nós, os europeus, resta-nos continuar a viver, seja como for, e a eles, os nossos líderes, resta-lhes abanar a cauda, como anteviu Putin.


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Assim como a enxurrada de decretos espalhafatosamente assinados por Trump está a transformar a democracia americana numa espécie de Coreia do Norte vergada ao culto da personalidade de Kim Il-Donald, também a sua ânsia de tornar tudo irreconhecível e irreversível está a acelerar o mundo. Deixemos agora de lado os seus sinistros projectos para a Palestina, onde o seu plano de ‘paz’ se resume a uma limpeza étnica, com a expulsão dos palestinianos da sua terra — um plano saudado por 76% dos israelitas. Fiquemos pela análise daquilo que aparentemente se pode concluir da expedição punitiva que ele enviou à Europa, do seu longo e frutuoso telefonema com Vladimir Putin e do início das conversações sobre a Ucrânia em Riade, reunindo os chefes da diplomacia russa e americana e deixando de fora ucranianos e europeus.

A primeira coisa a constatar é que em todas as questões de política externa em que já tocou — as tarifas ao mundo inteiro, o Canadá, a Gronelândia, a faixa de Gaza ou a Ucrânia — ele avança como um bulldozer, apresentando soluções e pretensões que, apesar de absolutamente insólitas e agressivas, são prudentemente levadas em conta e suavemente contestadas pelas potenciais vítimas de tais ideias. Até o Hamas pia baixinho quando ele se propõe “tomar conta” de Gaza e redesenhar o mapa da Palestina sem palestinianos! É a estratégia da ameaça e da intimidação, de quem nada se importa em ofender amigos ou perder aliados. Na tal expedição punitiva que enviou à Europa no final da semana passada, o exemplo acabado desta política externa, chamemos-lhe assim, foi o discurso insultuoso que o fedelho presumido J. D. Vance dirigiu aos líderes europeus sentados à sua frente e, por extensão, a todos os europeus, tendo suscitado apenas uma tímida reacção do chanceler Scholz, que, por acaso, está de saída. De resto, passando também por Pete Hegseth, secretário da Defesa, e Keith Kellogg, enviado especial para a Ucrânia, a Casa Branca fez questão de deixar bem claro o desprezo a que vota a Europa e os seus líderes. Do ponto de vista americano, nas conversações de paz para a guerra da Ucrânia, não só os ucranianos não fazem falta à partida, como os europeus não têm nada a ver com o assunto: como explicou Kellogg, podem dar sugestões desde que não venham com queixinhas por não terem lugar à mesa. Já sabemos que Trump pode mudar de ideias de um dia para o outro, mas na quarta-feira, quando este texto é escrito, a posição americana parece simples: Trump e Putin decidem os termos do acordo de paz, depois comunicam-no à Ucrânia e a seguir, sim, os americanos convocam a Europa para enviar tropas para a fronteira entre a Rússia e a Ucrânia para velarem pela sua manutenção, mas sem que os Estados Unidos fiquem vinculados pelo artigo 5º da NATO, indo em auxílio das tropas europeias caso as coisas se compliquem. É pegar ou largar, a “pax donalda”.

Confesso que se isto não fosse trágico, envolvendo o destino de um país e dos seus nacionais, só me dava vontade de rir ao observar o estupor dos líderes europeus e as suas enxovalhantes tentativas de serem levados em conta nas negociações de paz para a Ucrânia. Durante três anos, estes mesmos senhores não só recusaram sugerir, integrar ou promover qualquer negociação de paz, como afirmaram mesmo — eles e a sua imprensa dedicada — que a simples ideia de o fazer era uma traição à Ucrânia e um serviço prestado a Putin. Mesmo quando se tornou evidente que Trump ia ganhar as eleições e que se propunha “acabar com a guerra em 48 horas”, custasse isso o que custasse à Ucrânia, os chamados “líderes” europeus não deram um passo para se anteciparem e posicionarem como actores e interessados no desfecho. Antes pelo contrário, estes “líderes” que agora suplicam um lugar à mesa como criancinhas enxotadas para a cozinha, mantiveram sempre inalterável o seu mantra: apoiar a Ucrânia por tanto tempo quanto necessário. E eles, que agora se atropelam nas promessas de aumentarem as despesas com a defesa, na tentativa de acalmarem o ogre, foram-se autodesarmando, fornecendo a Zelensky tudo o que ele foi sucessivamente pedindo: sistemas antiaéreos, mísseis, carros de combate, aviões — só faltou a bomba nuclear. Se tentarmos encontrar algum pensamento estratégico nesta conduta só pode ser a crença irracional de que a guerra teria de durar até que a Rússia fosse vencida, custasse isso o que custasse à Ucrânia e à Europa.

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Mas fizeram ainda pior do que isso: não só não quiseram promover qualquer acordo de cessar-fogo ou de paz, como o impediram. Podiam tê-lo feito antes de a guerra se desencadear com base nos Acordos Minsk II, ou podiam ter apoiado, logo um mês depois, o cessar-fogo acordado em Ancara, por iniciativa da Turquia e de Israel e com a presença de russos e ucranianos. Porém, sucedeu o contrário: perante a inércia dos restantes, o então primeiro-ministro inglês, Boris Johnson, pressionou Zelensky a não assinar o acordo, elevando-o à altura de um novo Churchill e prometendo-lhe todo o apoio ocidental para derrotar os russos. A Europa, a NATO e os Estados Unidos de Joe Biden quiseram a Ucrânia a lutar por eles contra a Rússia, apenas com o seu apoio em armas e discursos. E se é inquestionável que o início da tragédia ucraniana se inicia com a invasão de um país soberano por parte de Putin, também o é que os aliados ocidentais procuraram a guerra e não a paz e, enquanto os ucranianos combatiam e morriam, eles faziam discursos empolgantes e mesmo milionários — como as tournées em defesa da Ucrânia a que Boris Johnson se dedicou profissionalmente depois de ter sido forçado a sair de Downing Street. Faziam discursos, deixavam a Europa arruinar-se com a guerra e alimentavam o complexo militar-industrial americano em que Joe Biden se apoiava e as empresas americanas de combustíveis e gás liquefeito de quem se tornaram generosos clientes depois de Biden ter imposto e sabotado o fornecimento de energia russa mais barata à Europa. Imaginar que isto, mais o incitamento à entrada da Ucrânia na NATO — que sabiam que era a linha vermelha que despoletaria a guerra — foi tudo inocente e apenas a vontade de apoiar o herói Zelensky e o seu povo, ou de parar na Ucrânia aquilo que juravam seria uma subsequente invasão russa da Europa, não tem sustentação. Mas foi isto que eles nos venderam durante três anos, com o inquebrantável apoio de uma imprensa que se esqueceu de pensar e questionar e dos líderes de opinião a que ela recorria. E agora, que têm eles para dar à Ucrânia, quando Trump se prepara para lhe impor uma paz que recompensa o invasor e ainda lhes quer surripiar as riquezas minerais? O que têm eles para dar? O esforço para conseguirem um lugar à mesa, ao mesmo tempo que, já em tardio pânico, acabam de perceber que não têm solução para novos tempos em que terão de viver sem a protecção militar dos Estados Unidos. Se Putin quisesse mesmo invadir a Europa, como dizem, agora era o momento certo para o fazer.

Durante três anos, eu andei aqui a escrever que esta era uma miserável geração de líderes europeus, incapazes de pensamento estratégico, incapazes de lerem os sinais do tempo e exibindo uma bravura de quem manda outros combater e morrer pelas nossas crenças.

Hoje, assistindo à humilhação a que a Casa Branca de Trump nos sujeita, vendo as reuniões de emergência desta fraca gente, e, sobretudo, antevendo o preço que os ucranianos ainda terão de pagar pelos nossos erros de falta de visão, só não me rio, de facto, porque tudo isto é trágico. Agora, a nós, os europeus, resta-nos continuar a viver, seja como for, e a eles, os nossos líderes, resta-lhes abanar a cauda, como anteviu Putin.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia.