Semanada

(In Blog O Jumento, 25/06/2017)
HERMINIO
Esta foi a semana em que o diabo veio (finalmente), estava combinado aparecer em Setembro ali para os lados do ministério das Finanças, mas acabou por aparecer em Pedrógão Grande, uma localidade que em poucas horas se transformou numa imagem do inferno. O pessoal do PSD que estava instalado a tempo inteiro no terreiro do Paço, esperando pela queda de Centeno percebeu rapidamente a nova oportunidade, mudou-se de armas e bagagem para a Administração Interna.
Passos Coelho bem começou a encenação do político que não se aproveita da desgraça alheia, algo que já tinha feito com a crise financeira e com o Caso marquês. Mas a ansiedade dos seus deputados é tanta que desta vez o próprio Passos foi ultrapassado, propôs uma comissão técnica para avaliar os acontecimentos, mas o seu grupo parlamentar forçou um debate parlamentar sem quaisquer relatórios técnicos, só para aproveitar os acontecimentos.
Ninguém reparou, mas há uma figura grada do mundo autárquico do PSD que está a viver o seu próprio inferno, acompanhado de mais alguns companheiros. Hermínio Loureiro, homem forte de Oliveira de Azeméis e uma ponte entre o PSD e o mundo da bola está passando o fim de semana nas instalações hoteleiras da PJ.

O eucalipto da Quinta da Coelha

(In Blog O Jumento, 22/06/2017)
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O país tinha acabado de entrar na CEE, iria receber milhões de ajudas para o setor agrícola que durante mais de meia década beneficiaria de um regime de transição. Estava em causa uma profunda revolução na política agrícola. Portugal tinha uma economia atrasada, com grandes problemas na qualificação de uma população ativa excessiva, sem uso de tecnologias, com grandes problemas na estrutura da propriedade fundiária.
Cavaco Silva era primeiro-ministro e escolheu um engenheiro civil da Soporcel, a grande empresa do setor da celulose, para o cargo de ministro da Agricultura do IX Governo Constitucional, que tomou posse em 1983, tendo sido renovado na pasta nos X e XI Governos Constitucionais, isto é,  foi o ministro da Agricultura do Cavaquismo, tendo assumido o cargo ainda antes da entrada de Portugal na CEE, condicionando, desde logo, todo o processo de transição.
Com a entrada na EU deu-se início a um processo de transformação forçada e acelerada no setor agrícola. Nada se fez na estrutura fundiária, quase nada se fez na promoção do setor agroindustrial, nada se fez na promoção do regadio (Cavaco boicotou de forma militante o projeto de Alqueva), nada se fez na qualificação dos trabalhadores e empresários agrícolas, nada se fez no domínio das universidades e investigação no setor.
Assistiu-se muito simplesmente a uma redução acelerada da população ativa que envelheceu ou foi absorvida pelo próspero setor da construção e obras públicas, os agricultores ou emigravam ou iam para serventes de pedreiro. Se nas cidades Cavaco elogiava o crescimento do setor dos serviços e, em especial, a banca, na agricultura apontava-se a redução brutal da população ativa como símbolo da sua modernização.
Só que esta redução da população agrícola, que levou á desertificação do interior, não resultou do aumento da produtividade no setor, mas sim a uma aposta no setor dos cereais em prejuízo de quase todos os outros, designadamente, das carnes. Contado com o apoio da poderosa CAP os cereais foram os grandes ganhadores. Por outro lado, compensava-se o abandono das terras com a plantação de eucaliptos. A busca de ajudas para alimentar a máquina de propaganda cavaquista levou os governos de Cavaco a aproveitarem as compensações que a CEE dava a tudo o que era abandono de produções agrícolas e da pesca.
Para ter dinheiro para estradas feitas à pressa, como a IP5, que eram inauguradas antes das eleições, de que hoje Cavaco se gaba de ter sido um campeão, destruíam-se os setores da agricultura e da pesca. Matavam-se dois coelhos com uma cajadada, Cavaco ganhava as eleições e a SOPORCEl transformou-se num império, transformando um pequeno país do Sul num grande exportador de papel.
Hoje Cavaco está tranquilamente a assistir aos incêndios na sua luxuosa e fresquinha vivenda na Quinta da Coelha, certamente orgulhoso da sua obra e a culpar os seus sucessores pelos incêndios que por aí vão queimando os seus queridos eucaliptos. Só é pena que o eucalipto mais resistente ao fogo seja aquele que em tempo ganhou a alcunha de eucalipto da classe política.

Fonte aqui


Tanatose política

(In Blog O Jumento, 21/06/2017)
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A vida política portuguesa é dominada pelo empirismo, alguns dos nossos especialistas nessa nova ciência política fazem constatações, que rapidamente se transformam em regras inquestionáveis do funcionamento do sistema político. Um exemplo disso era a regra segundo a qual, nas eleições, os portugueses não metiam todos os ovos no mesmo cesto: quando um partido ganhava as legislativas o outro ganhava as presidências. A grande vítima desta verdade absoluta foi Fernando Nogueira, Cavaco Silva que ambicionava ser presidente acreditou na tese e fez tudo para o seu sucessor perdesse as legislativas. Afinal, estava errado, Nogueira perdeu as legislativas e ele teve de esperar mais dez anos para ganhar as presidenciais.
Outro principio inquestionável desta ciência política saloia é a de que não são os partidos da oposição que ganham as eleições, são os partidos que estão no governo que as perdam. É por isso que alguns “líderes da oposição” chegam a dizer que um sabem que vão ser primeiro-ministro, só não sabem quando. A oposição acaba por ser um par de anos de jantares de lombo assado; a não ser que o diabo esteja para vir, como sucedeu com a troika, ser líder da oposição é não fazer asneiras e esperar que quem governa as faça ou seja vítima de uma qualquer circunstância imprevisível.
A estas regras inquestionáveis junta-se ainda uma terceira que que terá sido estabelecida pelo Salazar. Conta-se que certo dia Salazar deu um conselho a um jovem político ambicioso, disse-lhe se queria ir longe na carreira política que se fizesse de morto.
É a versão salazarista de um dito popular que nos diz que “quando se abre a boca ou entra mosca, ou sai asneira”. Passos Coelho, que nos tempos de primeiro-ministro chegou a ser fotografado sentado sobre uma biografia de Salazar, parece seguir este princípio e desde o maldito relâmpago de Pedrogão Grande que anda a fazer de morto, ainda por cima tem a vantagem de, no meio da confusão, ninguém dar por ele, até ao momento não se sentiu a sua falta, ninguém lhe pediu para ajudar com a sua experiência e saber..
Passos cumpriu a sua obrigação, apareceu na Proteção Civil de Lisboa, longe da fumarada, só para marcar presença e para dizer que espera que tudo passe para se vir armar em madeireiro e ver se faz negócio com a madeira queimada. Até lá não fala, não telefona, não tuge nem muge, não corre o risco de dizer o que pensa, não vá sair-lhe alguma asneira, resguarda-se fazendo de morto. Até dá jeito suspender alguns compromissos autárquicos em solidariedade com os que sofrem, esta é a pior ocasião para falar, até porque não convém falar em autarquias não vá algum jornalista mais distraído questioná-lo sobre o que se terá passado lá para os lados de Oliveira de Azeméis.
A estratégia é manhosa e aparentemente inteligente, mas uma coisa é fazer de morto perante uma questão de lana caprina, outra é fazê-lo perante uma crise de dimensões nacionais. O mesmo que chamava piegas aos portugueses pode estar a passar a imagem de um político cobardolas e oportunista. Alguns animais têm a capacidade de se fazerem de mortos para escaparem de predadores; os animais que têm esta capacidade costumam virar-se de ventre para cima, alterar a sua coloração e por vezes até exalam o cheiro a cadáver, esta capacidade designa-se por tanatose. O comportamento de Passos Coelho é um caso típico de tanatose política.