Tanatose política

(In Blog O Jumento, 21/06/2017)
crocodilo
A vida política portuguesa é dominada pelo empirismo, alguns dos nossos especialistas nessa nova ciência política fazem constatações, que rapidamente se transformam em regras inquestionáveis do funcionamento do sistema político. Um exemplo disso era a regra segundo a qual, nas eleições, os portugueses não metiam todos os ovos no mesmo cesto: quando um partido ganhava as legislativas o outro ganhava as presidências. A grande vítima desta verdade absoluta foi Fernando Nogueira, Cavaco Silva que ambicionava ser presidente acreditou na tese e fez tudo para o seu sucessor perdesse as legislativas. Afinal, estava errado, Nogueira perdeu as legislativas e ele teve de esperar mais dez anos para ganhar as presidenciais.
Outro principio inquestionável desta ciência política saloia é a de que não são os partidos da oposição que ganham as eleições, são os partidos que estão no governo que as perdam. É por isso que alguns “líderes da oposição” chegam a dizer que um sabem que vão ser primeiro-ministro, só não sabem quando. A oposição acaba por ser um par de anos de jantares de lombo assado; a não ser que o diabo esteja para vir, como sucedeu com a troika, ser líder da oposição é não fazer asneiras e esperar que quem governa as faça ou seja vítima de uma qualquer circunstância imprevisível.
A estas regras inquestionáveis junta-se ainda uma terceira que que terá sido estabelecida pelo Salazar. Conta-se que certo dia Salazar deu um conselho a um jovem político ambicioso, disse-lhe se queria ir longe na carreira política que se fizesse de morto.
É a versão salazarista de um dito popular que nos diz que “quando se abre a boca ou entra mosca, ou sai asneira”. Passos Coelho, que nos tempos de primeiro-ministro chegou a ser fotografado sentado sobre uma biografia de Salazar, parece seguir este princípio e desde o maldito relâmpago de Pedrogão Grande que anda a fazer de morto, ainda por cima tem a vantagem de, no meio da confusão, ninguém dar por ele, até ao momento não se sentiu a sua falta, ninguém lhe pediu para ajudar com a sua experiência e saber..
Passos cumpriu a sua obrigação, apareceu na Proteção Civil de Lisboa, longe da fumarada, só para marcar presença e para dizer que espera que tudo passe para se vir armar em madeireiro e ver se faz negócio com a madeira queimada. Até lá não fala, não telefona, não tuge nem muge, não corre o risco de dizer o que pensa, não vá sair-lhe alguma asneira, resguarda-se fazendo de morto. Até dá jeito suspender alguns compromissos autárquicos em solidariedade com os que sofrem, esta é a pior ocasião para falar, até porque não convém falar em autarquias não vá algum jornalista mais distraído questioná-lo sobre o que se terá passado lá para os lados de Oliveira de Azeméis.
A estratégia é manhosa e aparentemente inteligente, mas uma coisa é fazer de morto perante uma questão de lana caprina, outra é fazê-lo perante uma crise de dimensões nacionais. O mesmo que chamava piegas aos portugueses pode estar a passar a imagem de um político cobardolas e oportunista. Alguns animais têm a capacidade de se fazerem de mortos para escaparem de predadores; os animais que têm esta capacidade costumam virar-se de ventre para cima, alterar a sua coloração e por vezes até exalam o cheiro a cadáver, esta capacidade designa-se por tanatose. O comportamento de Passos Coelho é um caso típico de tanatose política.

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2 pensamentos sobre “Tanatose política

  1. Ó meu querido companheiro de luta, prezado amigo O Jumento,

    Esta é de cabo de esqudra, para me sintonizar com os (muito bem) aludidos adágios salazarentos!!!..

    É que eu não conhecia o termo, ou pelo menos a memória me não ajuda, porventura devido aos mais de setenta que “já cá cantam”, pois até fiz ciências no 3° ciclo do liceu, disciplina/cadeira (modernamente unidade lectiva) essa que englobava Botânica e Zoologia!

    Mas achei muita graça pelas (mais uma vez): brilhante analogia; quanta a adequada e inteligente adaptação; respectivamente com, e ao, pafista pafioso salazarento do pedante e miserável vidente de Massamá, agora, ao que parece, a banhos, ou em rescaldo agonizante, qual moribundo político a quem ainda vão surgindo alguns espasmos, se bem que cada vez mais raros.

    Porém, francamente, ó meu caro Jumento, visto em uma outra perspectiva, por certo mais plebeia, eu já lhe tinha ouvido e lido chamar muita coisa, como canalha, vira casacas, covarde/cobarde, aldrabão, filho de puta (sem ofensas à mãe que é uma SENHORA e até, porventura, coitada, arrependida de o ter gerado e dado ao mundo), vigarista, traficante de influências, parasita e que se furta aos impostos com o descabelado argumento de que “ninguém é perfeito”, e sei lá mais o quê!…

    Agora essa da “tanatose política”, francamente ó amigo Jumento, essa eu não lembrava, não!…

    E a propósito da utilização léxical mais ou menos plebeia ou erudita – com a devida vénia e a cordial permissão do companheiro de luta -, não concordará comigo, o prezado O Jumento, que vai sendo tempo de, também, o amigo começar a misturar um pouco de vinagre na tinta com que escreve estas preciosidades, designadamente quando dirigidas a alvos do calibre deste pulha????…

    Pense nisso. Por favor. E veja que, por exemplo, até já o meu colega (de curso) e ilustre Prof. Catedrático Francisco Louçã, intitulou um artigo que foi publicado no dia 20.06.2017, no jornal onde habitualmente escreve (em Portugal, porque ele escreve noutros sítios) e que a nossa Estatuadesal aqui partilhou, com a expressão “Porra de Sísifo”.

    Porra!… ó amigo Jumento, se até já o Louçã (Francisco, entenda-se, porque há outros, como aquele pedante que foi de ministro do vidente de Massamá para o FMI e até já pública “livros”, se bem que em colaboração com outras sumidades intelectualoides do capitalismo, afinal, o avatar do seu estômago e do estômago da família) escreve PORRA, porque é que a gente, ou nós, os que não temos papas na língua quando defendemos causas nobres quanto justas contra o capitalismo selvagem e a favor dos “de baixo”, não usamos todos (e todas, claro) mais vinagre???…..

    Ainda não há muito tempo, se bem que em contexto diverso, é certo, mas nem por isso menos forte no paradigma, antes pelo contrário, uma escriba (das muitas que por aí andam) da côrte lusa, que gira sob a sigla de Clara, a propósito do ruim que foi o 2016 para a Cultura, com a morte física de génios como o L. Cohen, publicava um artigo (também aqui partilhado pelo meu prezado amigo Estatuadesal, agora já a atravessar uma fase de alguma indignação, o que me deixa triste) onde usou a expressão “Fuck 2016”, até por mais do que uma vez.
    É certo que está em inglês, mas nem por isso deixa de ser avinagrada, até bastante avinagrada (a expressão, claro, porque a Clara, essa, coitadinha…) diria!….

    Bom, com mais ou menos vinagre, ou até sem vinagre algum, vá continuando, ó amigo Jumento, a brindar-nos com mais pérolas como esta porque também são “verdades puras e não defeitos”, na medida em que ainda teremos imenso para escrever/denunciar/desmascarar até que os pafistas pafiosos salazaretos lusos (e lusas) se “callen”, parafraseando o anterior monarca espanhol….

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