“É patético acreditar no conto de fadas do derrube do regime iraniano para instaurar uma democracia”.

(Viriato Soromenho Marques, entrevista à CNN Portugal, 02/03/2026)


ENTREVISTA || O que está a acontecer no Irão não anuncia uma abertura política trazida de fora, diz Viriato Para Soromenho-Marques, mas antes o risco de um país empurrado para o caos, para a fragmentação e para uma guerra de consequências incalculáveis. “A mudança pretendida por Israel e pelos EUA consiste na destruição do Irão como Estado funcional.” Nesta entrevista, o filósofo argumenta que é Israel que domina os EUA e não o inverso, mas independentemente de quem lidera quem: “O terrorismo de Estado israelita e norte-americano é de uma sinistra eficácia”.


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No Irão, o presente chega sempre carregado de passado. Ali Khamenei, líder supremo desde 1989, morreu este sábado num ataque conjunto dos Estados Unidos e de Israel ao complexo onde se encontrava em Teerão, depois do colapso de novas negociações sobre o programa nuclear iraniano. A morte abre um período de transição incerto, num sistema em que o líder supremo concentra a última palavra sobre o Estado, as Forças Armadas e o aparelho judicial, e em que um conselho interino deverá segurar o poder até ser escolhido um sucessor.

Mas o Irão raramente cabe apenas na urgência do dia. A memória do derrube de Mohammed Mossadegh, em 1953, num golpe apoiado por Londres e Washington, e a revolução de 1979 que instituiu a República Islâmica continuam a atravessar tudo: o modo como o país se pensa, o modo como olha para o Ocidente, o modo como reage quando a pressão externa regressa com linguagem de salvação. É nesse fio longo que Viriato Soromenho-Marques lê a ofensiva atual: não como atalho para uma democratização, mas como mais um capítulo de uma história de violência, tutela e disputa pela soberania.

Filósofo e professor catedrático da Universidade de Lisboa, Viriato Soromenho-Marques descreve uma sociedade “muito complexa e sofisticada”, com elevada capacidade tecnocientífica, que coabita com o regime sem lhe entregar “nem particular simpatia, nem um apoio incondicional”. Em entrevista à CNN Portugal, rejeita a ideia de uma transformação imposta a partir do exterior, acusa o “paternalismo democrático de Washington” de prolongar uma velha gramática imperial e deixa um aviso: destruir um Estado funcional não é libertar um povo. É abrir espaço a mais ruína, mais medo e mais arbitrariedade.

Quando Washington e Telavive falam em “mudança de regime”, de que falam exatamente no caso iraniano: da queda de um homem, o aiatola Khamenei; da queda do seu círculo dirigente; da desmontagem de uma arquitetura de poder religioso, militar, económico e simbólico que levou décadas a consolidar-se? Pode mesmo haver uma mudança de regime?

Para começar o nosso diálogo, gostaria de assinalar a gravidade do momento que estamos a viver. Este ataque conjunto de Israel e dos Estados Unidos, com o que me parece ser a liderança de Telavive sobre Washington, tem todos os ingredientes para, no menor dos casos, atirar o nosso mundo para um turbilhão económico — imaginemos uma longa privação do mercado mundial relativamente ao fluxo de petróleo que sai pelo estreito de Ormuz, ou pior ainda — ou para uma guerra generalizada, se não existir um recuo dos agressores. Neste terceiro dia de guerra já é possível ver o impacto do conflito sobre as bolsas e a subida vertiginosa do preço dos combustíveis fósseis no mercado mundial, em particular o petróleo e o gás natural.

A mudança pretendida por Israel e pelos Estados Unidos consiste na destruição do Irão como Estado funcional. É patético acreditar no conto de fadas do derrube do regime nascido da Revolução de 1979 para instaurar uma democracia. Como muito bem escreveu o jornalista norte-americano Stephen Kinzer — veja-se o seu livro de 2006 “Derrube: o século dos Estados Unidos a mudar regimes, do Havai ao Iraque” —, veterano premiado em estudos sobre relações internacionais, o Irão já teve uma democracia representativa constitucional, com um primeiro-ministro culto, honesto e amado pelo povo, que teve a coragem de devolver os recursos petrolíferos persas à sua nação através da nacionalização da Anglo-Persian Oil Company [APOC, hoje BP], que desde o início do século XX sugava essa riqueza para o império britânico. 

Esse primeiro-ministro foi Mohammed Mossadegh.

Que governou entre 1951 e 1953. Foi derrubado por um golpe organizado pelo MI6 britânico — preparado pelo governo trabalhista de Clement Attlee, mas realizado no tempo do último governo de Winston Churchill – e pela CIA, no tempo do presidente norte-americano Dwight D. Eisenhower. Como? Usando os instrumentos do costume: sanções económicas; suborno de altos funcionários e militares; organização de grupos de civis armados, muitos deles delinquentes comuns, e, sobretudo, oferecendo ao Xá Reza Pahlavi poderes absolutos, em violação clara da Constituição então vigente.

E a democracia no Irão “desapareceria” — defendem muitos politólogos. Porque a seguir ao regime autoritário dos Pahlavi emergiu, em 1979, na Revolução de 1979, a República Islâmica — liderada pelos aiatolas.

Os Estados Unidos destruíram a única democracia liberal iraniana.

Voltando ao princípio — ou ao presente. A morte de Ali Khamenei abre automaticamente uma sucessão ou abre, antes de mais, uma luta pelo controlo da sucessão — entre o clero, a Guarda Revolucionária, o aparelho de segurança e as elites que vivem à sombra do regime?

Teerão já revelou o caminho da sucessão. O que importa é perceber como os pormenores do assassínio de Khamenei são horríveis. Parece que terá saído sexta-feira do seu abrigo para falar com os negociadores sobre as promessas das conversações com os Estados Unidos. Apesar da armadilha montada por Washington e Telaviv aos negociadores iranianos antes da Guerra dos 12 Dias, em junho passado, Khamenei continuou a acreditar na bondade de um acordo com os Estados Unidos que trocasse a renúncia ao nuclear pelo fim das sanções e relações pacíficas com Washington. Terá sido isto que o fez perder a vida. . Importa salientar, também, que este ataque mortífero foi premeditado com antecedência, e a acreditar na sombría alegria manifestada por Trump na sua mais recente mensagem, terá ceifado a vida a mais de quarenta líderes religiosos e militares iranianos. Nessa mesma intervenção de Trump, ele falava em retomar as negociações. É inqualificável pedir diálogo depois de ter trucidado a coluna vertebral da confiança que lhe serve de base

O terrorismo de Estado israelita e norte-americano é de uma sinistra eficácia. Contudo, só quem não conhece o valor do martírio na cultura xiita é que não percebe que este abominável assassínio de um chefe religioso não irá unir apenas o xiismo. 

Então?

O mundo sunita pensará mais do que duas vezes no modo desprezível como o Ocidente trata o mundo islâmico. Estou à espera de uma declaração condenatória deste ato terrorista por parte do Papa Leão XIV, líder de mais de mil e quatrocentos milhões de católicos. Espero que o ecumenismo não tenha morrido com o Papa Francisco.

Mesmo entre iranianos que “odeiam” a República Islâmica, pode haver aceitação de uma mudança trazida por bombardeiros americanos e israelitas? Ou a origem externa da violência contamina à partida qualquer futuro político que saia daqui?

Importa recordar que esta guerra está a ser preparada há muito tempo, em particular depois do fracasso da Guerra dos 12 Dias, em junho de 2025. Os meios de comunicação social aqui no Ocidente tendem a apresentar a morte violenta de milhares de manifestantes nas ruas de Teerão e outras cidades — mais de 3000 vidas perdidas, cujos nomes foram divulgados pelo governo de Teerão  — nos confrontos de 6 a 10 de janeiro, que aparentavam ser manifestações pacíficas iniciadas em 28 de dezembro de 2025, num surto revolucionário popular contra o regime.

E não o foi? Uma tentativa de revolução? 

Tudo indica que, à semelhança do ocorrido em agosto de 1953 em Teerão [quando Mossadegh foi derrubado num golpe apoiado pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido], e noutros países, como em fevereiro de 2014, na morte de quase 100 pessoas na praça Maidan, em Kiev, houve a presença de agentes armados externos, neste caso ligados à Mossad e a agências dos Estados Unidos, incluindo o apoio da Starlink, de Elon Musk, o que foi fundamental para transformar um protesto pacífico contra a perda do poder de compra, devido sobretudo às sanções norte-americanas, num massacre. 

O que é incrível é a existência de uma narrativa condenatória do regime já estar pronta antes mesmo de os acontecimentos sangrentos estarem consumados. A repetição de 1953 é tão grosseira que até foram buscar Reza Pahlavi, o filho já idoso do antigo Xá, como se daí viesse alguma melhoria para o povo iraniano.

A operação militar, incompetente e mal-organizada dos Estados Unidos, pode matar muitos milhares de pessoas, sobretudo se os israelitas usarem o método de Gaza, como já o fizeram no primeiro dia matando cerca de 150 estudantes numa escola primária feminina em Minab, que é o extermínio sem contemplações de civis. Mas, internamente, acabará por unir a resistência em torno do regime.

Quando Donald Trump justifica a ofensiva com a ameaça nuclear e com a defesa da segurança americana, estamos perante um perigo iminente e demonstrável ou perante uma formulação política que mistura factos, perceções e oportunidade estratégica? A Agência Internacional de Energia Atómica vinha reportando enriquecimento de urânio até 60%: isso, para si, aponta para uma arma em preparação, para uma lógica de dissuasão ou para uma moeda de negociação levada ao limite?

Horas antes do início do ataque ao Irão, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Sultanato de Omã, Badr al-Busaudi, explicou, com visível satisfação, perante as câmaras da Al Jazeera, os pormenores, considerados positivos por iranianos e americanos, atingidos nas negociações nesse dia e que deviam prosseguir esta  segunda-feira. 

No essencial, Teerão iria renunciar à produção de armas nucleares, neutralizando o urânio enriquecido que já tinha em seu poder, recusando-se também a manter reservas futuras. Ficaria apenas com as instalações nucleares para fins civis, nomeadamente para usos médicos. 

O que é que isso significava? 

Isso significava que o Irão respondia positivamente à única exigência de Trump no seu recente discurso sobre o Estado da Nação, onde pedia ao Irão que nunca produzisse armas nucleares. Trump não falou nos mísseis convencionais, apenas nos nucleares. 

Imagino que este avanço nas negociações precipitou a agressão de Trump e Netanyahu. Na verdade, as negociações foram um pretexto para dar tempo à mobilização de forças e, pelos vistos, um isco para fazer Khameni sair do seu abrigo, para ser imolado na sua própria credulidade. 

Uma palavra, ainda, sobre o diretor da AIEA [Agência Internacional de Energia Atómica], Rafael Grossi: o seu comportamento tanto no dossiê do Irão como no caso da central de Zaporizhzhia, na Ucrânia, mostram-no mais interessado em ser o sucessor de António Guterres nas Nações Unidas, com apoio de Washington, do que na busca da verdade objetiva, como é seu dever na liderança da AIEA.

Mas quero voltar a Teerão. Fala-se muito do regime como se fosse um bloco único. Mas o que é hoje, na prática, o coração do poder iraniano: o princípio religioso da República Islâmica, a máquina coerciva da Guarda Revolucionária ou a fusão entre ideologia, negócios, repressão e sobrevivência?

A sociedade iraniana é muito complexa e sofisticada. O grau de instrução da população, incluindo a feminina, é muito elevado. A relação com o Ocidente, apesar de todos os motivos de queixa, está longe de ser hostil, como qualquer turista europeu disso tem experiência como turista. Estudos de opinão revelam que até os Estados Unidos são mais populares no Irão do que, por exemplo, em França. Os autores ocidentais, modernos e clássicos, são apreciados. A cinematografia iraniana é uma das melhores do mundo. Ao contrário do mundo árabe, que se ressentiu asperamente contra as brutalidades do imperialismo europeu e ocidental — da Espanha, França, Reino Unido e Estados Unidos —, os persas e os xiitas em geral têm uma aproximação crítica, mas mais moderada. Isso traduz-se no facto de as maiores organizações islâmicas que praticam ações terroristas serem sunitas, como é o caso da Al Qaeda ou do ISIS, e não xiitas.

Num país onde 17% da população com 25 anos ou mais já tem pelo menos uma licenciatura — ou equivalente — e onde há mais de 3,2 milhões de estudantes universitários, reduzir o Irão a um retrato de atraso é, no mínimo, “preguiçoso”?

Sim. A sua capacidade tecnocientífica faz inveja à maioria dos países europeus. Em 2024, um estudo do Australian Strategic Policy Institute indicava que o Irão estava entre os primeiros cinco países mais avançados em oito tecnologias, de entre as 64 mais críticas na atualidade. É uma sociedade que coabita com o regime, sem lhe dar nem particular simpatia, nem um apoio incondicional. Contudo, julgo que Washington e Telavive nunca podem ser “padrinhos democráticos” de um povo que querem lançar no caos e na miséria, como têm feito por todo o Médio Oriente.

O paternalismo democrático de Washington é hoje a versão mais hipócrita do argumentário neocolonial e imperialista. A “anomalia” iraniana de um regime teocrático apenas se explica pela ditadura sangrenta do Xá e pela continuada perseguição dos Estados Unidos a um país e um povo que querem preservar a sua soberania. Nos anos da ditadura do Xá, os clérigos foram os setores de resistência mais poupados à violência da repressão policial, e com uma capacidade de ecoar, transversalmente a toda a sociedade, uma memória de identidade cultural profunda. Lembremo-nos, também, como os Estados Unidos lançaram o Iraque de Saddam Hussein contra o Irão numa sangrenta guerra entre 1980 e 1988. Sem a pressão externa dos Estados Unidos, com o acesso aos seus recursos naturais, sem a ameaça do outro regime teocrático, que capturou a democracia israelita, o povo iraniano encontraria — encontrará? — o caminho interno e livre para reformar o seu sistema constitucional e político.

No fundo, quem quer o quê no Irão de amanhã? Os Estados Unidos querem neutralizar uma ameaça e redesenhar o equilíbrio regional. Isso é algo muito claro. Israel quer remover um inimigo estratégico. O que é também algo óbvio. Parte da oposição quer aproveitar a brecha — quando falamos de Reza Pahlavi, filho mais velho do último xá do Irão. Mas o que querem os iranianos comuns, depois de anos de sanções, medo, repressão e morte: reforma, rutura, vingança, ordem ou simplesmente voltar a ter um país habitável?

Vou responder isto. Os Estados Unidos querem continuar a manter o mais possível a sua hegemonia, usando o único argumento que lhes resta: a força bélica e a influência no sistema financeiro internacional. Ao lançar o Irão no caos, os Estados Unidos atingem, também, a China, que é um importantíssimo cliente do petróleo iraniano.

Por seu turno, Israel quer realizar a última etapa que falta de um projeto com 30 anos, uma nova estratégia desenhada a pedido de Netanyahu, na primeira vez que assumiu a liderança do governo de Telavive, em 1996. Esse documento, coordenado pelo neoconservador norte-americano Robert Perle, intitula-se “Uma rutura limpa: uma nova estratégia para proteger o reino”. 

Ao contrário da estratégia de pacificação com os palestinianos e de troca de “terra pela paz”, impedindo mais colonatos – que foi o caminho que levou ao assassínio de Isaac Rabin por um terrorista sionista em 1995 —, a nova estratégia propôs replicar com Israel no Médio Oriente aquilo que os Estados Unidos pretendiam à escala mundial: hegemonia unipolar exclusiva e sem rivais que a pudessem desafiar. 

O que é surpreendente é o modo como os Estados Unidos se identificaram com a causa de Israel, como é o caso agora, mesmo quando ela é contrária aos próprios interesses de Washington. Em 1996 foram identificados uma série de países a abater: Iraque, Líbano, Líbia, Síria, Irão. Só falta mesmo o Irão.

Recomendo, para quem queira aprofundar a bizarra subordinação das elites políticas e mesmo económicas dos Estados Unidos aos interesses dos sionistas mais extremos em Israel, a leitura de um livro extremamente revelador da autoria de duas personalidades maiores do universo académico dos Estados Unidos, pela inteligência e independência: “O Lobby de Israel e a Política Externa dos EUA”, de 2007, da autoria de John J. Mearsheimer e Stephen M. Walt.

Mas regresso ao início da nossa conversa. O Irão está motivado para resistir, e tem os meios para isso. Neste terceiro dia da guerra, já foram atingidas 14 bases e instalações dos Estados Unidos e afetados 12 países e territórios, onde Teerão tem visado interesses americanos, diretos e indiretos. Os Estados Unidos podem decidir fazer uma guerra total ao Irão. Trump pode tentar usar a guerra, qual César embriagado, para enterrar o que sobra da democracia americana, cada vez mais infetada pelo cancro da plutocracia. Mas, nesse caso, o preço a pagar poderá ser a destruição da infraestrutura energética de todo o Médio Oriente. Não se trata apenas de fechar o Estreito de Ormuz — o que já foi feito. Trata-se de destruir materialmente todos os sistemas de exploração, produção, transporte e exportação de petróleo e gás natural, deixando o mundo privado durante meses ou até anos de mais de 20% da energia fóssil que continua a ser a alavanca maior que faz mover a economia mundial.

Muito bem.

E, já agora, deixo uma palavra final para expressar a minha profunda tristeza pelo colapso político, para não dizer ético, da União Europeia. Tenho desgosto em dizê-lo, mas parece que somos governados por vultos e sombras, quase indistintos entre si, tal a ausência de pensamento, para já não falar de carácter, que campeia. Esses vultos, em vez de condenarem o ataque, juntam-se aos lobos.

Contudo, essas sombras não produzem os poderosos uivos de predador, mas sim latidos suaves de obediência e submissão ao chefe da alcateia.

Fonte aqui

A revolta dos “escravos infelizes”

(Viriato Soromenho Marques, in Blog Azorean Torpor, 25/01/2026)


Num debate sobre as relações da UE com os EUA, nomeadamente sobre a ameaça de conquista norte-americana da Gronelândia por meios militares, De Wever proferiu uma frase que desnudou toda a hipocrisia e cinismo reinantes no discurso político dominante na Europa: “Ser um vassalo feliz é uma coisa. Ser um escravo infeliz é outra bem diferente”.


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Nos dias 20 e 21 de janeiro de 2026, durante a Conferência de Davos – onde se reúne o verdadeiro governo mundial (esse monstro híbrido que combina a voracidade da política e do capital) -, o efeito daquilo que tenho vindo a designar como o “brutalismo” de Trump, produziu duas intervenções dignas de nota entre governantes ocidentais.

A primeira foi protagonizada pelo primeiro-ministro da Bélgica, Bart De Wever. Este líder já tinha surpreendido pela sua firme recusa da intenção, maioritária nas instituições em Bruxelas, de confiscar os ativos financeiros russos “congelados” na UE, e em especial depositados no Euroclear Bank, na Bélgica. O PM belga explicou que esse gesto constituía um roubo, que tornaria a zona euro numa terra inóspita para os depósitos e o investimento estrangeiro, ameaçando aumentar os juros da dívida dos Estados europeus. Num debate sobre as relações da UE com os EUA, nomeadamente sobre a ameaça de conquista norte-americana da Gronelândia por meios militares, De Wever proferiu uma frase que desnudou toda a hipocrisia e cinismo reinantes no discurso político dominante na Europa: “Ser um vassalo feliz é uma coisa. Ser um escravo infeliz é outra bem diferente”. Num só golpe, ficava exposta a servidão voluntária da Europa, dita dos “valores”, sempre pronta a submeter-se às incursões imperiais dos EUA, desde que alguma coisa sobrasse das suas pilhagens. O tão aclamado projeto de integração europeia resumia-se, no fundo, a partilhar algumas das vitualhas resultantes da Pax Americana, nomeadamente, aquelas resultantes dos despojos trazidos pelos EUA das suas incursões para “mudanças de regime”, do Iraque à Líbia, da Síria à Venezuela. Agora, com a intenção expressa por Trump de ocupar a Gronelândia, seria um país europeu, a Dinamarca, a tornar-se o alvo da pilhagem. Os vassalos já não comeriam as migalhas que tombavam da mesa para o chão. Eles passariam a estar na mesa, como parte do menu, para serem trinchados pelo senhor feudal de Washington…

Primeiro-ministro da Bélgica Bart De Wever

A segunda intervenção, mais longa e sistemática, pertenceu ao PM canadiano, Mark Carney. Tratou-se de uma autocrítica ao comportamento dos aliados dos EUA, a começar pelo seu próprio país, por terem aceitado “viver dentro da mentira”. Essa era uma expressão retirada de uma estória de Vaclav Havel, na qual um comerciante, no tempo do regime comunista na Checoslováquia, todos os dias colocava na porta da sua loja um cartaz afirmando o credo marxista: “Proletários de todo o mundo, uni-vos”…apesar de nem ele nem ninguém acreditarem nisso. Mark Carney, por analogia, recordou que, no Ocidente, os aliados dos EUA colocaram, durante décadas a fio, o seu próprio cartaz, que exaltava a “ordem internacional baseada em regras”. E acrescenta Carney: “Sabíamos que a história desta ordem internacional era parcialmente falsa. Que os mais fortes se eximiriam quando lhes fosse conveniente. Que as regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica. E que o direito internacional se aplicava com rigor variado, dependendo da identidade do acusado ou da vítima.” Durante décadas a “ficção” funcionou para os aliados mais próximos dos EUA. Por isso calaram-se, como “vassalos satisfeitos”. Contudo, agora, tudo mudou: “Não se pode viver dentro da mentira de benefício mútuo através da integração quando a integração se torna a fonte da vossa subordinação”. A hegemonia dos EUA, como sistema, entrou em rutura. Esse sistema não pode regressar à casa de partida, nem ser reformado. Por isso, afirma, imperativamente, o PM do Canadá: “Parem de invocar a ordem internacional baseada em regras como se ainda funcionasse conforme anunciado”.

Primeiro-ministro do Canadá Mark Carney

São duas intervenções que revelam coragem e, sobretudo, recusam-se a confundir as fantasias úteis com a realidade. Contudo, não creio que o exemplo destas intervenções, com algum grau de dissidência, faça escola entre os dirigentes europeus dos últimos trinta anos. Eles teriam muito para contar pela sua colaboração ativa com as aventuras do império norte-americano, desde o bombardeamento de Belgrado (1999) até ao apoio ao genocídio do povo palestiniano, ainda em curso. Por enquanto, ainda são os Costas, os Macron e os Merz, ou as von der Leyen e as Kallas a assobiar o pífaro partido da “ordem internacional baseada em regras”. E em Portugal, os atores políticos estão viciados numa mistura tóxica entre subserviência com Bruxelas e pequenez perante Washington. As provações de Portugal e dos portugueses ainda mal começaram. O país mergulhou há quase quatro anos num pesado caldo de russofobia, importado de Washington, Londres e Berlim.

Por todo o lado na UE tocam os tambores que nos incitam a fazer guerra ao urso russo… Foi preciso o brutalismo de Trump para vislumbramos, lá no alto, o voo incisivo da águia norte-americana… Afinal é ela que parece pronta a cobiçar-nos os olhos e o fígado…

Fonte aqui

A Europa está à beira de uma “guerra irracional”

(Maria João Caetano sobre Conferência de Viriato Soromenho Marques, in CNN, 15/12/2025)


O filósofo Viriato Soromenho Marques aponta o dedo aos EUA e à Europa pela forma como trataram a Rússia e subestimaram Vladimir Putin. E espera que no meio da escalada a que temos vindo a assistir, os líderes políticos de hoje tenham a inteligência que outros tiveram no passado e saibam dar um passo atrás. Até porque, os desafios que a nossa civilização enfrenta vão muito além da possibilidade de uma guerra: “A guerra nuclear será um ataque cardíaco. Por outro lado, a esclerose generalizada, que é um processo de morte, mas mais lento, é a crise ambiental”.


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A Europa está à beira de uma guerra nuclear? Viriato Soromenho Marques, que se diz um otimista, quer acreditar que não, que haverá, ainda, líderes políticos suficientemente inteligentes para porem um travão na escalada que vivemos nas relações entre a Europa e a Rússia. Mas o filósofo confessa que há momentos em que é difícil ter esperança. 

“Eu fiz as contas. No dia 12 de janeiro do próximo ano, a guerra na Ucrânia, a tal operação especial, como dizem os russos, terá mesma duração da guerra da Alemanha com a Rússia na Segunda Guerra Mundial. São 1.418 dias. De 22 de junho de 1941, quando Hitler invade a União Soviética, até 8 de maio de 1945.” No dia 12 de janeiro de 2026, completam-se 1.418 dias de guerra da Ucrânia. “E não me parece que neste momento a Rússia esteja esgotada”, diz. “Tudo indica que este esforço de guerra está a acontecer com economia de meios e com economia de baixas”, diz Soromenho Marques. Podemos estar numa escalada que obrigue a Rússia ou a desistir ou então a passar para a fase seguinte, com as armas nucleares, antecipa. “A verdade é que não temos nenhum exemplo de uma guerra anterior entre potências nucleares. O meu receio é que ninguém saiba controlar esta escalada”.

Foi na passada sexta-feira, numa noite de inverno, fria e chuvosa, que um grupo de “corajosos”, como lhe chamou Viriato Soromenho Marques, se juntou no auditório da Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva para o debate “Guerra e paz: respostas, causas e soluções de hoje”, o último dos três debates do ciclo “Uma ideia de harmonia”, comissariado pela jornalista Alexandra Carita. Na mesa estava também Tatiana Moura, diretora da plataforma masculinidades.pt e investigadora do CES – Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Mas foi o filósofo e professor da Universidade Nova de Lisboa que, inegavelmente, dominou a conversa.

Em 1983, em plena Guerra Fria, Viriato Soromenho Marques era um jovem a fazer inter-rail e passou algum tempo em casa de um amigo em Witten, na Alemanha. A estadia coincidiu com muitas manifestações pela paz devido à crise dos “euromísseis”. “Nessa altura, a tensão entre o Pacto de Varsóvia e a NATO tinha crescido de forma exponencial. Novos mísseis estavam a ser colocados, quer do lado soviético, quer do lado norte-americano e europeu”, recorda o filósofo que tem atualmente tem 68 anos. “Só que nessa altura existia uma literacia sobre a guerra nuclear que hoje está completamente ausente”, diz, lembrando, por exemplo, que a mãe do amigo, que era dona-de-casa, “saía da sua casa e ia para a rua protestar”; ou ainda que havia uma canção “muito medíocre” que nesse verão foi um sucesso na Alemanha, intitulada “Besuchen Sie Europa (solange es noch steht)” – “Visita a Europa enquanto ela ainda lá está”, que falava precisamente dessa ideia de que “isto vai acabar tudo em breve”.

Terá sido esta vivência que o despertou para o problema da guerra na Europa. Depois dessa viagem, Viriato começou a pesquisar e a fazer entrevistas e, em 1985, publicou o livro “Europa, o risco do futuro: a incerteza estratégica dos anos 80”. O livro foi publicado duas semanas antes de Gorbachev tomar posse, iniciando o caminho para o fim da Guerra Fria.

“Isto que está a acontecer agora [na Europa], para mim, tem 42 anos. Isto não começou no dia 24 de fevereiro de 2022”, diz, concluindo: “Para mim, isto é um pesadelo, porque eu, nessa altura, já era ambientalista e olhava para estas duas grandes ameaças. Por um lado, o ataque cardíaco. A guerra nuclear será um ataque cardíaco. Por outro, a esclerose generalizada, que é um processo de morte, mas mais lento, que é a crise ambiental”, diz, introduzindo aqui um tema que é essencial no seu pensamento. Mas já lá vamos. Para entender o que se passa hoje na Europa o professor recua, precisamente, até à Guerra Fria e ao modo como esta terminou. E talvez, até, seja preciso recuar um pouco mais, para percebermos porque é que existem guerras.

As guerras são evitáveis?

“Em toda guerra existe violência, mas nem toda violência é guerra. Isto é importante porque a violência pode ser exercida pelo indivíduo, está relacionada, individualmente, com a agressividade. Mas a condição fundamental para a guerra é a existência de uma entidade artificial, que é o Estado – uma estrutura que é uma pessoa coletiva, uma estrutura sem paixão, que decide do uso da violência bélica”, explica Viriato Soromenho Marques. 

É por isso que para perceber as guerras é preciso entender o conceito de Estado soberano. “A guerra e a paz entre nações está também associada à teoria do contrato social, que se parece um pouco com a física atómica”, diz. “Temos os indivíduos que são pequenos átomos e que depois se organizam em moléculas que são sociedades.” Na ordem política e na ordem legal, existe um poder de sanção. Mas, neste aspeto, “a analogia com a sociedade das nações é imperfeita. Porque na sociedade das nações não existe esse poder de sanção, é um direito imperfeito. Isto é, podem existir tribunais internacionais. Há tratados. Há uma Organização das Nações Unidas. Mas não existe um poder comum capaz de aplicar a sanção. As grandes potências não são sancionáveis.”

Thomas Hobbes, pensador dos séculos XVI e XVII, dizia que “os príncipes e os Estados estão permanentemente em estado de natureza, ou seja, preparados para a guerra. E não há nenhum tratado, não há nenhuma lei internacional que leve os príncipes a dormir descansados. É por isso que têm exércitos permanentes. Porque há uma desconfiança permanente”.

O professor cita ainda o general prussiano Carl von Clausewitz (“uma espécie de Newton da guerra”), que no século XIX escreveu a obra “Vom Krieg – Da Guerra”, que é, nas suas palavras, “o grande livro contemporâneo sobre a guerra”: “A guerra é uma ação em que a violência é usada como instrumento de objetivos políticos”. Clausewitz diz mais: “A guerra é a continuação da política por outros meios” – uma frase que já todos ouviram. O que é que isto significa? “A guerra tem apenas uma gramática, a política tem a lógica. E deve ser a política que comanda a guerra. Evidentemente que para fazer a guerra é preciso tecnologia, é preciso treino, etc. Mas isso é a gramática. E no limite, se fosse possível, atingir esses objetivos sem a violência, não haveria guerra. Mas sem a violência não há coação. Agora, o que pode acontecer é que, perante a ameaça do uso da força militar, um Estado pode recuar e conceder. Clausewitz considera que quando a diplomacia falha é muito improvável que se consiga retomá-la sem o sucesso das armas.”

“Na guerra existe uma lógica essencialmente de custo-benefício. O pensamento estratégico militar é um pensamento de custo-benefício. É um pensamento instrumental. A ideia de uma guerra de luvas brancas não existe”, afirma o filósofo. Não existe guerra sem danos colaterais e sem crimes de guerra. O que os políticos que tomam a decisão de iniciar ou entrar numa guerra fazem é tentar avaliar se vale ou não a pena. Isto, dito assim, pode parecer cruel, mas não é novo. “Os aliados, que venceram a Alemanha nazi, também cometeram imensos crimes. Hamburgo foi destruída em julho de 1943 e 40 mil pessoas foram mortas com bombas de fósforo. Antes das bombas atómicas, que foram crimes de guerra também, porque visaram populações civis, tivemos 700 mil japoneses que foram vítimas de bombardeamentos convencionais pela aviação americana. Isso são crimes de guerra”, sublinha.

Uma guerra irracional – onde todos saem derrotados

“Hoje em dia, a guerra que podemos ter será uma guerra absolutamente irracional”, diz Viriato Soromenho Marques. Porquê? Segundo os critérios de Clausewitz, a guerra, até 1945, tinha violência, mas tinha racionalidade. “Ou seja, havia sofrimento, mas havia a possibilidade da vitória. Os povos perdiam milhões de vidas, mas atingiam o objetivo e havia vitória. Hoje, uma das características da guerra contemporânea é a possibilidade de haver uma guerra em que todos saem derrotados”.

Durante os 40 anos da Guerra Fria, houve um consenso entre os dois lados, explica o professor. A crise dos misseis de Cuba em outubro de 1962, em que o mundo esteve à beira de uma guerra nuclear, “fez com que tanto Krushov como o Kennedy percebessem o que seria a irracionalidade da guerra”, diz Soromenho Marques. “O que Kennedy fez a seguir a outubro de 62 foi fundamentalmente um processo de construção da paz, em colaboração com a União Soviética: a criação do telefone vermelho, a proibição de testes nucleares e outras ideias que ele tinha para a frente, de cooperação alargada com a União Soviética e com os países que estavam no Pacto de Varsóvia e que o assassinato impediu. No discurso que fez em Washington em 10 de junho de 63, Kennedy dizia o seguinte: ‘Enquanto defendem os seus próprios interesses vitais, as potências nucleares devem evitar os confrontos que levam o adversário a optar entre uma retirada humilhante ou uma guerra nuclear. Adotar esse tipo de atitude, ou seja, querer insistir numa escalada em potências nucleares, na era nuclear, seria apenas uma prova da falência da nossa política ou de um desejo coletivo de morte’.”

Ronald Reagan, que foi presidente dos EUA durante a Guerra Fria, “acolheu positivamente, com entusiasmo, Gorbachev”, diz o professor, contando algo que percebeu ao ler as memórias do presidente: “Em novembro de 1983, Reagan foi um dos primeiros americanos a ver o filme ‘The Day After’ [filme de ficção científica que imagina o que aconteceria após uma guerra nuclear]. E ele ficou aterrorizado com o que viu. É interessante que em janeiro de 84 ele faz um discurso que causou surpresa. Enquanto o discurso do ano anterior tinha sido o discurso do “Guerra da Estrelas”, vamos criar um sistema no espaço, o discurso de janeiro de 84 dizia que temos de evitar a autodestruição”.

O fim da União Soviética: uma oportunidade desperdiçada

A Guerra Fria prolongou-se, com esse jogo de contenção de forças, até à Perestroika. Viriato Soromenho Marques considera que a transição democrática da União Soviética, com a “dissolução pacifica do Pacto de Varsóvia”, “é o único caso que temos na História em que um sistema bipolar acaba porque o outro lado desiste”. 

Inicialmente, recorda o filósofo, “houve imensa vontade de estabelecer relações, de apoiar economicamente a transição da Rússia porque o que eles fizeram foi uma coisa brutal”. Mas logo se percebeu que os interesses económicos se iriam sobrepor ao bem político. Passou-se “de uma economia planificada, que não funcionava, para uma economia de mercado que foi pilhada. O que aconteceu no tempo do Yeltsin foi uma catástrofe para a Rússia. A Rússia perdeu cinco anos de esperança de vida. O desemprego galopou. A mortalidade infantil aumentou imenso. O alcoolismo explodiu. A criminalidade, as mortes violentas. Depois, a formação dos oligarcas, a privatização com as grandes companhias americanas por trás. No fundo, a Rússia era um cadáver gigantesco, 17 milhões de quilómetros quadrados, que estava ali para ser devorado”, diz Soromenho Marques.

“Foi uma tragédia. Não só económica, mas também política.” A Europa poderia ter-se tornado um aliado, um parceiro. “Para isso seria necessário criar uma relação de confiança mútua, e isso não aconteceu. Até porque era preciso ter um inimigo; como é que nós vendíamos a expansão da NATO se não tivéssemos um papão do lado lá?”

“O analfabetismo e a russofobia é também uma coisa que nos está a envenenar. Envenena-nos a alma e corrói o pensamento”, afirma Soromenho Marques. 

Quando Putin deixou de ser um amigo – as origens da guerra da Ucrânia

Soromenho Marques diz que é preciso “admitir o fracasso de todas as políticas que começaram em 1991, quando os Estados Unidos recusaram integrar a Rússia no sistema internacional” e decidiram deixar a Rússia de fora da NATO. “Esta guerra [na Ucrânia] começou porque a Rússia não tinha garantias de segurança. Pediu primeiramente que a NATO não se alargasse, mas a NATO alargou-se. Depois pediu para não se alargar para zonas que são estratégicas, porque as grandes potências têm zonas de segurança, a que se chama zonas de influência”, e, mais uma vez, isso não aconteceu. Em 2008, em Bucareste, a NATO ofereceu um convite à Ucrânia. “E Putin, que nessa altura era convidado a ir às reuniões da NATO, fez um grande discurso a explicar porque é que isso era uma coisa que não podia ser aceite pela Rússia. Então, Sarkozy e Merkel falam com Bush e decidem arrastar isso para não arranjar problemas.”

“O ponto em que as coisas realmente se transformaram foi com a Praça Maidan. Foi aí que as coisas se tornaram mesmo azedas”, diz o filósofo. “Esta guerra começou aí. A Operação Especial começou na Praça Maidan. O Viktor Yanukovych foi eleito em eleições reconhecidas por todos os observadores, incluindo os nossos, da União Europeia, que estiveram lá. A Victoria Nuland, que era a vice-secretária de estado [dos EUA], esteve pessoalmente a comandar as operações de montagem da Praça Maidan. Inclusive ela, no inverno, em dezembro de 2013, faz uma pequena intervenção, em que chega a dizer que até agora o nosso investimento na Ucrânia foi de cinco mil milhões de dólares. Em 2024, o historiador ucraniano Ivan Katchanovski publicou um livro notável a explicar a Praça Maidan.”

“A Alemanha foi seduzida pela possibilidade de também tirar algum partido da Ucrânia. E, além disso, ninguém acreditava que a Rússia tivesse capacidade para fazer esta guerra. O Biden dizia, em 2017: os russos engolem tudo o que lhe pusermos pela garganta abaixo”, lembra Soromenho Marques. Em 2019, ainda Angela Merkel estava no poder, e a RAND Corporation, que é o principal think tank da política externa americana, publicou um livro que se chamava “Extending Russia”. Esses analistas diziam que se deviam “criar dificuldades em muitos pontos à Rússia para que ela se parta. E um dos objetivos do Extending Russia é impedir a ligação entre a Alemanha e a Rússia. Não só energética. Avisadamente, eles percebiam que uma boa relação entre a Alemanha e a Rússia ia causar problemas a quem queria continuar a ser o dono do mundo”.

O fim do domínio americano e as novas relações de poder

“Os Estados Unidos estão, nesta fase, a passar de interveniente principal, para algo diferente”, afirma Soromenho Marques. “Reconhecem que já não têm capacidade para aquele pesadelo que foi o unipolarismo. Biden foi o último representante da ideia tonta de que era possível os Estados Unidos dominarem o mundo e imporem com recompensas, com violência e com sanções, o domínio. Hoje estamos num mundo completamente diferente.”

E explica: “Do ponto de vista económico, os Estados Unidos são uma sombra do que foram. No auge do poderio americano, no tempo do Truman, 50% do produto interno bruto do mundo era americano. Hoje, os Estados Unidos têm uma percentagem muito menor, estamos a falar de 20%, 21%, para ser otimista. Por outro lado, do ponto de vista científico, a situação é absolutamente avassaladora. No ano passado, um instituto australiano publicou um estudo que era uma análise de 20 anos de inovação científica no mundo, em 64 tecnologias de ponta. E o contraste é absolutamente esmagador. Em 2003, os Estados Unidos dominavam 61 das 64 e a China dominava 3. Em 2023, a China domina 57 das 64 e os Estados Unidos dominam as outras 7.”

“Ou seja, o que temos hoje é um novo sistema internacional. Estamos numa fase horrível que é a transição. As transições são sempre terríveis, mesmo na vida dos indivíduos”, diz o professor. Mas há algo positivo nesta situação, que é o facto de os Estados Unidos “já não considerarem a China como um inimigo com o qual poderiam entrar em guerra em 15 anos, mas como um competidor. Há uma diferença entre competidor e inimigo”.

Já em relação à Rússia, na Estratégia de Segurança Nacional (ESN) os EUA assumem o objetivo de “estabilizar as relações com a Europa, nomeadamente com a Rússia. O que não parece uma coisa idiota, parece uma coisa até bastante sensata. Não sei como é que é possível alguém que conheça um pouco da situação atual e da situação histórica pensar que é possível excluir a Rússia do sistema internacional e do sistema europeu, para mim é uma ideia completamente absurda”, afirma.

E a Europa no meio disto tudo?

“Estamos a viver o desastre do projeto europeu”, diz Viriato Soromenho Marques, lembrando que em 2014 publicou um livro sobre a crise do euro que se chamava “Portugal na queda da Europa”. “A tese era que a crise de 2008 não foi uma crise das dívidas soberanas, como se dizia, foi uma crise do euro. O euro foi construído sem qualquer mecanismo que o tornasse uma moeda funcional, não era uma moeda federal. O euro foi criado sem sequer um sistema de prevenção das crises bancárias, por exemplo. Nada. E os países endividaram-se nessa altura para socorrer o sistema financeiro, os bancos, que estavam lá soltos. Os bancos nessa fase inicial faziam o que queriam. Falhámos. O euro podia ter sido a primeira etapa do federalismo europeu, e nós falhámos. Em 2014, a minha perspetiva era que estávamos a entrar num processo de decadência europeia, de queda”.

“Só que agora já estamos dentro da queda”, admite, dando como exemplo máximo a forma como a Europa está a conduzir esta guerra na Ucrânia. “Primeiro: não temos nenhuma providência, nenhum artigo que conceda os poderes que a senhora Von der Leyen se arrogou para funcionar como se fosse a comandante suprema de uma coisa que não existe, que são as Forças Armadas Europeias. Segundo: existe uma confusão total entre a União Europeia e a NATO. Chegámos a este ponto. Confundimos totalmente. Terceiro: o uso de procedimentos, e dia 18 de dezembro vamos ver se isto vai acontecer ou não, procedimentos que vão conduzir a uma situação dramática”.

Depois de na passada sexta-feira a União ter aprovado, por maioria e com os votos contra da Hungria e Eslováquia, uma decisão para manter os ativos russos imobilizados indefinidamente no espaço comunitário, o tema volta a ser debatido esta semana pelos ministros europeus dos Negócios Estrangeiros que vão decidir se esse dinheiro pode ser usado para o empréstimo de reparações à Ucrânia. “Se isso for roubado à Rússia e entregue à Ucrânia, eu acho que não somos só nós, os europeus, que não depositamos mais o nosso dinheiro aqui, são também os estrangeiros que cá têm dinheiro que vão para outro sítio”, antecipa o filósofo. “A gente do mundo árabe, a gente da África, a gente da América Latina, os magnatas, etc., vão para outro sítio. E também os portugueses. Vão transformar esses euros em ienes e vão pô-los na China, ou transformam-nos dólares e põem nos Estados Unidos.”

A escalada atual: “Não podemos, como cidadãos, aceitar este discurso da inevitabilidade da guerra”

Chegamos, assim, aos dias de incerteza em que vivemos. Viriato Soromenho Marques “colecionou” uma série de frases proferidas nos últimos dias por “altos responsáveis políticos e militares da nossa Europa” e que mostram bem o estado do mundo:

  • 3 de novembro: Boris Pistorius, ministro da defesa da Alemanha, falando sobre o plano de reconstrução armamentista da Alemanha, que está outra vez na corrida dos armamentos, está a preparar um sistema que permita a rápida passagem para leste, ou seja, em direção à Rússia de 800 mil soldados da NATO, disse: “Há quem fale que a guerra vai ser em 2029. Há outros que dizem que vai ser em 2028. Mas há alguns que dizem mesmo que gozámos em 2025 o último verão em paz”.
     
  • 16 de novembro: o general Fabien Mandon, que era conselheiro do presidente Macron, da França, diz que “temos de aceitar perder os nossos filhos, sofrer economicamente”.
     
  • 3 de dezembro: o almirante Giuseppe Cavo Dragone, chefe do Comité Militar da NATO, disse ao Financial Times que a NATO deveria considerar a possibilidade de uma ação preventiva contra a Rússia.
     
  • 11 de dezembro: Mark Rutte, secretário-general da NATO, diz  que “depois da Ucrânia nós somos o próximo alvo da revolução. E nós precisamos estar prontos. Devemos estar preparados para uma guerra da escala dos nossos avós e dos nossos bisavós. Preparados para a possibilidade de milhões de mortos” e dizendo que, por isso, nós precisamos gastar 5% do PIB na corrida ao armamento.
     
  • Entretanto, Vladimir Putin, interrogado numa conferência de imprensa, a seguir às declarações de Dragone, diz: “Se a Europa começar subitamente, o tal ataque preventivo, uma guerra contra nós, eu penso que essa guerra acabará rapidamente. Isso não será a Ucrânia. Com a Ucrânia nós estamos a atuar com precisão cirúrgica, cuidadosamente, isto não é uma guerra no sentido direto, moderno da palavra. Se a Europa começar uma guerra contra a Rússia, em breve, Moscovo não terá ninguém com quem negociar.”

Perante isto, Soromenho Marques questiona-se até que ponto é que aquela ideia de Kennedy, que é fruto do conceito da “destruição mútua assegurada”, ainda estará atualizada. “Na altura de Kennedy existiam 70 mil armas nuclerares. Hoje existem à volta de 13 mil. Mas 13 mil são suficientes para dar cabo de tudo. E eu pergunto-vos, será que estas pessoas partilham desta preocupação?”, questiona.

E ainda, mais incisivo: “A questão que me parece prioritária é não aceitarmos, como cidadãos, este discurso da inevitabilidade da guerra”, diz.

Na sua perspetiva, “uma guerra em que fossem usadas armas nucleares representaria o fim da história”. “Mas vamos pensar que haverá ainda alguma sombra de cuidado com o futuro, e alguma inteligência também, e que não vamos entrar por aí”, diz, recorrendo ao que resta do seu otimismo. 

“Qual a possibilidade que temos de sobreviver a isto?” (e “isto” não é só a guerra na Ucrânia)

“Este conflito [na Ucrânia] é o centro do vulcão. Claro que temos conflitos noutros lugares no mundo, mas a Europa é, mais uma vez, o centro do vulcão e é onde, de facto, a situação pode ficar completamente fora de controlo. Mas eu pergunto: será apenas na guerra que estamos fora do controlo? Não me parece.”

Viriato Soromenho Marques tem um olhar mais abrangente. “Nós, europeus, temos muito orgulho na maturidade, com todo o contributo para a ciência e para a tecnologia moderna, mas realmente os grandes desígnios da modernidade, que eram a emancipação humana, que era, como no tempo do gregos, vencer um destino, uma moira, a que estávamos condenados pelos deuses, ou, como dizia depois Descartes, vencer a vida curta, prolongar a vida humana, impedir as tragédias, o sofrimento – será que conseguimos isso? A verdade é que nós construímos um aparato gigantesco para combater esse destino natural, mas temos uma crise existencial na área do ambiente. Portanto, eu colocaria o nosso debate sobre a guerra e a paz no quadro de uma interrogação ainda mais penetrante: qual é a possibilidade que temos de sobreviver a isto? Onde é que erramos? E teremos a coragem para primeiro identificar as causas fundamentais e depois agir em consequência? Ou seja, sermos capazes de fazer a renúncia a tanta coisa que nos acostumamos a considerar fundamental?”

A verdade, diz, “é que estamos numa situação em que, perante os desafios existenciais que temos, nomeadamente o facto de estarmos a viver num planeta que estamos a destruir, que estamos a devorar”, deveríamos estar preocupados com outros problemas. “Quando começou a guerra na Ucrânia, surgiu um artigo chamado ‘Uma guerra no convés do Titanic’. Nós temos que fazer o possível para que ele não afunde. E neste momento não vemos muita gente que esteja preocupada com isto”, lamenta.

Na sua opinião, seria necessária “uma visão integrada”. Em primeiro lugar, deveríamos “tomar consciência da gravidade da situação. Já não é evitar, não, é fazer uma adaptação que permita a continuação da história humana e que permita uma reconstrução do modo como as nossas instituições funcionam, nomeadamente a nossa economia, que é uma economia primitiva. Nós precisamos de uma economia ecológica, ou seja, de uma economia que considere que é um subsistema da ecologia e não o contrário”.

Cícero dizia: “Que a salvação do povo seja a suprema lei”. O filósofo explicita: “Quando a gente fala em salvação do povo, está a falar fundamentalmente da vida das pessoas e da fazenda das pessoas, do que as pessoas têm. A minha preocupação é com a nossa vida. Porque acho que a fazenda já está perdida.”

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