Israel, You have a problem

(Valdemar Cruz, in Expresso Diário, 20/07/2018)

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(O Homem, esse lobo do Homem. Os mais perseguidos, tornam-se agora nos maiores perseguidores. O povo judeu no seu pior. É triste.

Comentário da Estátua, 20/07/2018)


Ainda no mundo ecoavam os festejos do centenário do nascimento de Nelson Mandela, e já Israel concretizava no Parlamento – Knesset – a ameaça esboçada ao longo dos últimos tempos de aprovar a lei do Estado Nação do povo judeu, através da qual legaliza, de facto e de jure, um regime comparável ao “apartheid”, como afirmaram alguns deputados da oposição. Ao reservar em exclusivo para os judeus o direito à autodeterminação e ao estabelecer o hebreu como única língua oficial, Israel institucionaliza a discriminação em relação aos palestinianos, uma situação muito bem documentada, mesmo antes desta lei, pelo Departamento de Estado dos EUA e outras organizações independentes de âmbito internacional, como estruturas da ONU.

Aprovado com 62 votos a favor, 55 contra e três abstenções, o novo texto, que torna legaliza a discriminação de quem não é judeu, reconhece o direito à autodeterminação, mas apenas a uma parte da população constituinte do estado de Israel. Tal como está escrito, “o direito a exercer a autodeterminação nacional no Estado de Israel é um exclusivo do povo judeu”. A importância e o significado da nova lei, na qual tanto apostou o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, resulta da circunstância de passar a formar parte das chamadas leis básicas, que regem o sistema legal como se fossem a Constituição que Israel não tem. Logo, são mais difíceis de revogar e só podem ser alteradas por uma norma do mesmo nível.

Israel sempre se definiu como um Estado judaico. Alguns deputados contrários à aprovação da lei sublinharam o facto de, tal como acontece, de resto, na declaração de independência de Israel, em nenhum momento se mencionar a palavra “democracia”, nem a palavra “igualdade”. Desse ponto de vista, o texto é coerente com a prática quotidiana de uma política de Estado assente na discriminação das minorias não judias, com destaque para os quase 20% de cidadãos que constituem a população de árabes israelitas.

Observadores internacionais têm sublinhado que esta é uma forma de cilindrar a ideia de que Israel possa ser o país de todos os seus cidadãos, como se confirmou no mês passado, quando uma proposta naquele sentido nem sequer foi admitida a discussão na Knesset.

A caminho de se tornar cada vez mais um estado étnico, Israel está a fazer tudo para tornar irreversível a impossibilidade de concretização da ideia de dois estados com uma única capital.

Num dos pontos da nova lei sublinha-se que a capital de Israel “é Jerusalém completa e una”. Esta é uma longa batalha que tem vindo a ser travada por Netanyah, ao ponto de, no jornal inglês The Independent, o colunista Ben White perguntar “Porquê agora?”. Responde dizendo que um dos fatores passa por Netnyahu estar a pensar em prováveis eleições ainda este ano e querer assegurar o pleno dos votos à direita.

As condenações internacionais têm-se sucedido. Em linha com a posição da União Europeia, Augusto Santos Silva, Ministro dos negócios Estrangeiros, reprovou a aprovação da nova lei, que considerou “muito pouco compreensível” à luz da história do povo judeu.

Uma das questões que agora se coloca passa por saber se pode um estado, escudado na circunstância de cumprir algumas formalidades da democracia, persistir na concretização de todo um conjunto de políticas de cariz antidemocrático sem uma condenação firme e eficaz da comunidade internacional. É a diferença que vai entre murmurar-se que há um problema chamado Israel, e dizer frontalmente a Israel que tem um problema: com a democracia, com os direitos humanos, com o respeito pelas minorias. Ora, isto na verdade não é um problema. É um oceano de problemas, do qual é indispensável tirar as devidas ilações e desencadear as inevitáveis consequências.

Desonra, Vergonha e Traição

(Valdemar Cruz, in Expresso Diário, 04/05/2018)

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(O PS entrou na via do harakiri, suicídio por esventramento à japonesa. Costa, por tacticismo e/ou pusilanimidade, entregou Sócrates ao festim báquico que a Direita acolitada na comunicação social e nas magistraturas vai degustando. Parece que só ele é que ainda não percebeu que não é a cabeça de Pinho, nem a de Sócrates, que eles querem: é pura e simplesmente a dele. E com tanta cedência e falta de coragem para denunciar a manobra, acredito que vão tê-la mesmo. Confesso que esperava mais do homem.

Comentário da Estátua de Sal, 04/05/2018)


 

Gloriosos dias estes vividos com Shakespeare a inspirar o vocabulário político português. José Sócrates bate com a porta, escreve um artigo de opinião no JN, e entrega o cartão de militante do PS, António Costa fala no Canadá de “desonra para a democracia”, Carlos César ou João Galamba lançam palavras tão agudas como punhais e quem fala é MacbethCoriolano, ou Hamlet.

Ou, se não eles, o espetro do seu imaginário traduzido em vocábulos ou sentimentos tão pesados como traição, desonra, vergonha ou até vingança. Ontem, na SIC Notícias, Adolfo Mesquita Nunes, do CDS, perguntava o que se terá passado para de repente o PS ter mudado o discurso em relação a Sócrates. A resposta está aí e ainda não seria conhecida de Manuel Alegre quando dizia, citado pelo Público, que o PS “abriu a caixa de Pandora” ao trazer agora, de “uma forma avulsa”, o nome de José Sócrates para o debate político.

Os próximos tempos não serão exatamente os dos Glory Days cantados por Bruce Springsteen, com o PS a ter de agarrar pelos cornos uma discussão que tentou olhar apenas de esguelha. Serão mais de ajuste de contas e não deixarão de evocar “A Tempestade”, a última peça do bardo inglês, com as suas maquinações, conspirações, juras de amor e atos de oportunismo. Sócrates não suportou a viragem de agulha e esta “espécie de condenação sem julgamento”. Por isso, escreve, “é chegado o momento de pôr fim a este embaraço mútuo”. Logo se verá de quem é maior o embaraço.

E Manuel Pinho? Vai agora passar por entre os pingos da chuva, face ao estrondo do bater de porta de Sócrates? Não se ouve Manuel Pinho, mas escutam-se os clamores pelo seu silêncio face às acusações de se manter como assalariado do BES enquanto Ministro de Sócrates. E, então, tudo se cruza. Lê-se a carta de despedida do antigo Primeiro-ministro, acompanha-se a sua defesa da honra de Pinho e, salvaguardadas as distâncias, o discurso de Marco António na defesa de César.

Neste emaranhado de máscaras não podia faltar Macbeth com o seu imponderável cruzamento entre aparência e substância. Sendo que a aparência é resumir a indignação ao choque face às alegadas avenças e promessas de reformas milionárias de Ricardo Salgado a Pinho a partir dos 55 anos. Apesar de ser Ministro? Ou para ser Ministro, já que por ser Ministro – na verdadeira aceção da palavra – não seria?

A substância será perceber e tentar descodificar o contexto político em que sucedem estes casos. Então, Pinho poderá ser apenas uma peça de algo muito mais vasto, num ambiente de promiscuidade entre poder político e poder económico, com a utilização do Estado em benefício de interesses privados. E aí pode ser crucial o âmbito da Comissão de Inquérito já proposta pelo Bloco de Esquerda, para se perceber, ao longo dos anos, a dimensão do despautério e conhecer as múltiplas responsabilidades em toda a sua dimensão.

Se Macbeth, condicionado pela fraqueza da sua condição humana, navegava num destino cujo desfecho só poderia ser materializado em tragédia, os Pinhos desta vida não passam, afinal de personagens tolhidas pela fraqueza de quem naufraga num arrivismo de perniciosas ambições.

E aí está Shakespeare de novo, agora com o seu Soneto 129, na tradução da poeta Ana Luísa Amaral para a “Relógio d’Água”:

“Desperdiçar o espírito ao esbanjar a vergonha

É luxúria em ação; até lá, a luxúria

É perjura, culpada, assassina, cruel,

Excessiva, selvagem, desleal, traiçoeira…”

Um nómada para quem o mundo era a sua aldeia

(Valdemar Cruz, in Expresso Diário, 28/0572017)

Miguel_urbano

Há mortes (Ver noticia aqui) que só quando acontecem nos apercebemos como acabam por levar um pedaço indelével do que somos. Para o bem ou para o mal, muito do que sou como jornalista devo-o a Miguel Urbano Rodrigues.

Uma outra parte não desprezível fica a cargo de outro grande jornalista também já desaparecido, Araújo Moreira.

O Miguel foi o meu primeiro diretor, em “o diário”, iniciava eu a minha caminhada no jornalismo. Assustava-me, às vezes, aquela voz, frágil no tom, mas poderosa no modo como expressava uma mundividência (foi na boca do Miguel que pela primeira vez ouvi esta palavra carregada de significados) geradora de espantos vários no jovem jornalista em formação que eu era nos meus 19/20 anos.

Como qualquer pessoa de convicções fortes, alicerçadas, neste caso, numa invulgar cultura, o Miguel suscitava ódios vários, que se mantiveram para a vida, mas também admirações continuadas. Há um número significativo de ex-jornalistas de “o diário”, por exemplo, que com ele trabalharam diretamente durante anos, para quem a simples evocação do nome do Miguel Urbano desencadeia um profundo sentimento de aversão. E, no entanto, há uma imensidão de gente para quem o Miguel era pouco menos que um herói. Ouviam-no em conferências e debates e sentiam estar ali a voz que lhes confortava as suas certezas, tão afastadas do espaço mediático. Mesmo na sua relação com o PCP, de que era militante desde a clandestinidade, não raras vezes o Miguel se mostrava irascível. Era um agastamento com justificações ideológicas, ancoradas na ortodoxia a que o associavam, e o levava não raras vezes a considerar que a orientação seguida pelo seu partido estava a ser feita de cedências para ele inaceitáveis. E dizia-o frontalmente. E debatia com quem fosse necessário.

Foi da sua boca e da leitura de alguns dos seus livros que melhor e mais intensamente percebi como o mundo está sempre muito para lá das fronteiras da nossa conveniência. O Miguel era um nómada. Todos os lugares eram a sua terra. O mundo era a sua aldeia. Mas o Miguel era um nómada, até das ideias, dos sentimentos, dos afetos.

Viajante obsessivo, conheceu, conviveu e participou nas lutas em que se envolveram inúmeros revolucionários do século XX. Em particular na América Latina.

Foi por decisão sua que pela primeira vez fiz um serviço no estrangeiro. Eu, que nunca viajara de avião, lá fui, jovem imberbe, para a então Checoslováquia. Saí de Lisboa com 19 graus positivos e chego a Praga com 20 graus negativos. Jamais esqueci as palavras do Miguel antes da minha partida para o aeroporto: “Vais encontrar uma cidade única. Viena é bonita, mas Praga é bela”. Depois disso já estive mais de uma vez em qualquer uma das cidades. Tendo a concordar com o Miguel. Há uma indizível beleza a pontuar as ruas de Praga.

Ao longo dos anos tivemos distanciamentos e aproximações. Com frequência discordávamos na análise de diferentes acontecimentos nacionais ou internacionais. Ainda assim, nunca deixava de me fascinar com o conhecimento que tinha de tudo, e dos protagonistas da História. Nunca, nem mesmo com o avançar da idade, abandonou, entre outras, duas características: o fascínio pelo belo consubstanciado no corpo de uma mulher, e uma infinita sede de conhecimento.

Ultimamente comunicávamo-nos muito por mail. Sempre que me acontecia ter de escrever o Expresso Curto, era seguro que a primeira reação a chegar à minha caixa de correio eletrónico seria a do Miguel Urbano Rodrigues. Poucos minutos após as 9 horas da manhã lá estava a cair uma mensagem do Miguel. Ele, que tanto gostava de falar, era ali muito sintético. “Hoje não gostei”. “Hoje foi muito bom”. Uma vez ou outra decidia-se por notas mais longas de apreciação.

De há uns tempos para cá deixei de receber os comentários do Miguel. Deixei de receber os artigos que escrevia e me enviava antes de os publicar. Comigo foi sempre de uma generosidade sem limites. Mesmo quando era duro, ou até injusto, no modo como comentava o meu trabalho ou as minhas opções. Essa maneira de ser era algo que lhe estava colada à pele. Comprazia-se com o modo como poderia ser absolutamente demolidor. Por isso suscitava ódios. Por isso cultivou inimizades.

Vou ter saudades. Vou sentir a falta do inesperado. Como aconteceu há uns anos numa rua de Havana, onde nos encontrámos por absoluto acaso. Esse acaso, porém, acabou por ser decisivo para o desfecho da reportagem do Expresso em que estava então envolvido, graças aos para mim inimagináveis contactos proporcionados pelo Miguel.

Nessa mesma viagem acabou por me intermediar uma entrevista, na mais absoluta clandestinidade, com um grupo de guerrilheiros latino-americanos de passagem por Havana. Por questões de segurança, o resultado dessa conversa só pôde ser publicado longas semanas depois e sem qualquer referência ao local onde decorrera a entrevista.

Nem ele, nem eu, acreditamos no além. Porém, depois deste desconcerto que constitui o despropósito de falar de mim para tentar, assim, de alguma forma explicar parte do que foi o Miguel, com as suas grandezas e fragilidades, quem sabe se não estará ele a sorrir com este desvio, e, mais surpreendente ainda, se os acasos da vida não farão com que um dia nos cruzemos por aí. Até logo, Miguel.